A realidade da filiação – Gl 4, 6

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“E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6)

Na passagem proposta, Paulo quer demonstrar a realidade da filiação, que é declarada pelo fato de se possuir o Espírito, realidade que se deixava sentir nos fiéis (Cf. Gl 3,2-5).

A continuação, uma breve explicação sobre o significado de cada uma das palavras-expressões que aparecem no versículo:

  • “Enviou”: o mesmo verbo com o qual se afirma a vinda do Filho ao mundo (v. 4) e em aoristo, porque se trata de um fato histórico, do momento concreto da justificação.
  • “Deus”: o Pai, que tem sempre a iniciativa na justificação.
  • “Corações”: o coração é o centro de toda a vida racional e espiritual.
  • “O Espírito do seu Filho”: o genitivo indica que o Espírito pertence de algum modo ao Filho.
    • Alguns exegetas destacam o valor trinitário da expressão, pois o Espírito se distingue do Pai, que o envia, e do Filho, com o qual se relaciona. Junto com Jo 15,26 é muito eficaz para provar que o Espírito procede do Pai e do Filho.
    • O Espírito é apresentado como habitando em nós e movendo-nos a clamar “Pai!”. Este mesmo Espírito é o que move Jesus nos seus atos.
  • “Clama”: faz clamar. Todas as religiões antigas conhecem o grito ou a aclamação inspirada. A oração confiada e filial do cristão é um grito inspirado pelo Espírito. “Pai, Abbá!”, pode significar meu pai ou o nosso pai (Mt 11,26; Mc 14,36; Jo 20,28; Rm 8,15). Pode ser uma reminiscência da oração ensinada por Jesus ou da oração mesma de Jesus. É com segurança o eco de uma aclamação dos fiéis no culto primitivo cristão, que ao lado do abba arameu, santificado pelos lábios de Jesus, colocaram o vocativo (“ó pai!”) grego. A duplicidade do termo somente se explica pelo respeito sagrado ao termo arameu de Jesus. Esta segunda parte pode confirmar o caráter explicativo que damos a o#ti (“E porque…”) do princípio.

 

Rupnik relaciona esta passagem dos Gálatas com a parábola do filho pródigo, em concreto com o momento no qual o filho “cai em si mesmo” (Lc 15,17): “o homem não foi criado para estar só. A verdade do homem é que nele habita o Espírito do Criador. Por isso, quando entramos em nós mesmos, ainda que seja por via da tragédia e os fracassos, encontramo-nos diante do Outro, diante do Espírito, que grita com gemidos inefáveis: “Abbá, Pai!” (Cf. Gl 4,6)” (“Lo abrazó y lo besó, p. 51-52).

O Catecismo da Igreja Católica nos diz, no início do capítulo sobre a fé no Espírito Santo que “ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo’ (1Cor 12,3). “Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai! (Gl 4,6). Este conhecimento de fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contato com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É ele que nos precede e suscita em nós a fé. Por nosso Batismo, primeiro sacramento da fé, a Vida, que tem sua fonte no Pai e nos é oferecida no Filho, nos é comunicada intimamente e pessoalmente pelo Espírito Santo na Igreja” (n. 683).

Mais adiante, ao referir-se à oração cristã como comunhão, diz o Catecismo: “Na Nova Aliança, a oração é a relação viva dos filhos de Deus com seu Pai infinitamente bom, com seu Filho, Jesus Cristo, e com o Espírito Santo. A graça do Reino é a “união de toda a Santíssima Trindade com o espírito pleno” (S. Gregório Nazianzeno, Or., 16,9). A vida de oração desta forma consiste em estar habitualmente na presença do Deus três vezes Santo e em comunhão com Ele. Esta comunhão de vida é sempre possível, porque, pelo Batismo, nos tornamos um mesmo ser com Cristo (Cf. Rm 6,5). A oração é cristã enquanto comunhão com Cristo e cresce na Igreja que é seu Corpo. Suas dimensões são as do Amor de Cristo (Cf. Ef 3,18-21)” (n. 2565).

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Martin Ugarteche Fernández
Membro do Sodalício de Vida Cristã desde 1996. Nascido no Peru em 1978, mora no Brasil desde 2001. Atualmente mora em Petrópolis, onde é professor de filosofia na Universidade Católica e trabalha em diversos projetos de evangelização da cultura.

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