Caminho para Deus 110 – O Combate espiritual

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«O Batismo, ao conferir a vida da graça de Cristo, apaga o pecado original e torna a voltar o homem a Deus, porém as conseqüências de tal pecado sobre a natureza, enfraquecida e inclinada ao mal, permanecem no homem e o incitam ao combate espiritual»[1].

Estamos convencidos de que para alcançar a perfeição da caridade, à que todo cristão está chamado em virtude de sua vocação e Batismo, é necessária não só a graça de Deus, sem a qual nada poderíamos, mas também um correspondente empenho de nossa parte[2]. Este empenho, pelo qual buscamos que em nós se desenvolva a vida do espírito, se assemelha a uma luta, a um combate, pelas dificuldades e intensidade que comporta. Neste sentido entendemos que «a vida é permanente milícia»[3], uma milícia que, bem levada, conduz ao nosso máximo desdobramento, «ao estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo»[4].

1. Contra quem é este combate?

Quando falamos de combate, entendemos que temos certos inimigos contra os quais temos de lutar. Contra quem é esta nossa luta, e quais são suas armas e estratégias?

1.1. O demônio

O Papa Paulo VI nos ensinou com clareza que o mal que existe no mundo é o resultado da intervenção em nós e em nossa sociedade de um agente obscuro e inimigo, o Demônio. O mal não é somente uma deficiência, mas um ser vivo, espiritual, pervertido e pervertedor[5]. Em nossas lutas diárias jamais devemos esquecer ou menosprezar a ingerência do demônio! E mais, é necessário ser sóbrios e vigilantes, porque o diabo «vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar»[6].

Para conseguir seu objetivo, que é apartar-nos de Deus e destruir-nos, o demônio se vale da tentação. Pela tentação o demônio busca fazer com que desconfiemos de Deus, de sua bondade, de que Ele realmente quer nosso bem, incita à desobediência, à rebeldia, a rechaçar a Deus e seus desígnios. O Senhor Jesus, tentado no deserto e vitorioso, nos ensina como enfrentar as tentações: com critérios objetivos, que são os que encontramos na Sagrada Escritura. Ele nos ensina que a tentação se rechaça prontamente, que com a tentação não se dialoga, pois quem como Eva entra no diálogo com a tentação pouco a pouco é envolvido na ilusão e fantasia, e enganado termina pensando que o que é um mal objetivo na realidade é “bom para mim”. Uma vez que a tentação consegue essa substituição, a vontade se dirige para o mal que agora, do ponto de vista da pessoa, tem aparência de bem.

1.2. O mundo

Nossa luta é também contra o “mundo”[7] antagônico a Deus, o âmbito pessoal ou social do homem submetido à influência e domínio do Maligno. Este mundo engloba um conjunto de antivalores, normas e critérios opostos ao Evangelho, ou que pretendem ser indiferentes a Ele, e nos apresenta o poder, o ter e o prazer como critérios de ação e fonte de realização para o ser humano.

O mundo exerce uma sutil influência nos filhos de cada época da história. Também nós temos assimilado com os anos muitos de seus critérios e atuamos na vida cotidiana de acordo com eles. A conversão começa justamente por uma “mudança de mentalidade”, por uma metanóia, quer dizer, pelo decidido empenho de despojar-se dos “critérios do mundo” e assimilar os “critérios do Evangelho” para viver de acordo com eles. Esta luta diária implica educar-nos em uma constante atitude crítica: devemos aprender a julgar tudo a partir do Evangelho!

Cabe dizer que este “mundo” assim entendido é algo diferente do “mundo” quando com essa palavra se designa na Sagrada Escritura a criação, ou mais especificamente a humanidade. Neste caso o termo tem um sentido positivo.

1.3. O homem velho

Não experimentamos muitas vezes em nós uma forte divisão? Digo que creio no Senhor, que quero fazer o que Ele me diz, me entusiasma o ideal da santidade, mas com quantos de meus atos nego meus anseios, nego o Senhor! Também São Paulo, um grande santo e apóstolo, experimentava em si esta divisão e conflito interior: «Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto»[8].

As paixões desordenadas que me levam a fazer o mal que não queria, as tendências pecaminosas que descubro em mim, os maus hábitos e vícios, meus caprichos e a lei do gosto-desgosto que prevalece tantas vezes em mim como critério de escolha, são elementos que fazem parte desta complexa realidade pessoal que chamamos “homem velho”. Trata-se do pecado «que habita em mim»[9] e que em mim deixou suas seqüelas. É este um inimigo que levo dentro de mim, que continuamente oferece batalha e resistência. Nesta luta tratamos de alcançar, por meio de um trabalho ascético e em abertura à graça divina, um autodomínio que nos permita reordenar nosso interior e orientar todas as nossas energias e potências ao próprio desdobramento no cumprimento do Plano divino. O exercício dos silêncios é um meio excelente para crescer dia a dia neste autodomínio ou maestria de minha pessoa.

Vale a pena anotar que a presença do “homem velho” em nós não nos faz maus. Pela reconciliação no Senhor Jesus superamos a ruptura que o pecado original introduziu em nossas vidas, reconciliação que a Igreja nos oferece a partir do nosso Batismo e que nos faz “homens novos”. Ocorre, porém, que são as conseqüências do pecado que nos afetam e se traduzem nessa inclinação ao egoísmo e ao mal que está atrás do “homem velho”. Trata-se de uma distorção em nós, que somos bons.

2. A necessidade de custodiar nossa vida espiritual

Nesta luta não é possível triunfar se não se atende devidamente a própria vida espiritual. Nosso combate é um combate espiritual, por isso nossas armas são espirituais: são as «armas da luz»[10] das quais temos que revestir-nos! Os momentos fortes de oração, o exercício contínuo da presença de Deus, o nutrir-nos do Senhor e de sua força na Eucaristia, o contínuo recurso ao perdão de Deus e à graça na confissão sacramental, as leituras edificantes, o conhecer o testemunho dos santos e de pessoas de vida cristã destacada, e outros meios são indispensáveis para fortalecer-nos e para contar com as armas necessárias para o combate.

Quem nisto não persevera, será como um soldado que vai à batalha sem armas, sem escudo nem proteção alguma. Quem não permanece vigilante e em oração[11], torna-se frágil e vulnerável perante a tentação. Em troca, tudo pode quem encontra sua força no Senhor[12]. Assim, pois, se queremos vencer nesta luta, procuremos crescer e amadurecer dia a dia em nossa vida espiritual, pondo os meios adequados e perseverando neles!

3. Um combate que dura toda a vida

Lançar-nos com um entusiasmo imaturo ao combate leva talvez a algumas vitórias e crescimentos iniciais, mas isso não basta. A vida cristã não é uma corrida de velocidade, mas de longo alcance. O empenho por ser santos[13] não é questão de um momento, mas de toda a vida.

Assim, pois, temos de aspirar a adquirir a necessária tenacidade para oferecer um combate duradouro, pois a vida eterna se conquista pela perseverança. Por isso devemos rezar e pedir ao Senhor, pois não perde nesta batalha quem é mil e uma vezes ferido, mas o inconstante, o que, deixando-se vencer pelo desalento, a desesperança ou o desânimo, deixa de lutar. Como dizia Frei Luis de Granada, «não se chama vencido o que foi muitas vezes ferido, mas o que, sendo ferido, perdeu as armas e o coração». Triunfará quem, embora mil vezes ferido, sempre se levanta, como aqueles bonequinhos que chamamos “João-teimoso”: por mais que os tombemos, teimosos e tenazes tornam a pôr-se novamente de pé. Recordemos também neste sentido aquela máxima que nos convida à humildade e paciência na luta: Santo não é aquele que nunca cai, mas o que sempre se levanta.

Passagens bíblicas para oração

  • Estamos chamados a combater o bom combate da fé: 1Tm 6,12.
  • Nossa luta é contra o demônio e os espíritos  malignos: Ef 6,12. Temos que estar atentos, pois o demônio ronda buscando a quem devorar: 1Pe 5,8; temos que estar vigilantes e em oração, para não cair em suas seduções: Mt 26,41; o Senhor nos ensina como vencer a tentação: Mt 4,1-11; o demônio foge de quem lhe resiste: Tg 4,7; não devemos temer o demônio, pois Deus é mais forte: Rm 16,20.
  • Nossa luta é contra o mundo e seus critérios: Rm 12,2. O Senhor convida a  “mudar de mentalidade” fazendo próprios os critérios evangélicos: Mc 1,15.
  • Nossa luta é contra o homem velho e suas obras: Ef 4,20-24; Cl 3,9-10. De que temos que nos despojar? Cl 3,5.8-9; De que temos que nos revestir? Cl 3,12-14.
  • Em Cristo, a vitória já é nossa: Jo 16,33; 1Cor 15,57. Quem persevera triunfa: Mt 24,13.

Perguntas para o diálogo

  • O combate espiritual consiste em cooperar com a graça a partir de nossa liberdade. Quanto você está se esforçando por lutar contra seu pecado pessoal?
  • Você elaborou um plano de vida que lhe permita trabalhar sistemática e metodicamente em tudo aquilo que seja obstáculo para que cumpra o Plano de Deus?
  • Normalmente consegue cumprir com o plano de vida e os meios concretos que se propôs em seu combate espiritual? O que você pode fazer para cumpri-los melhor?
  • Você avalia constantemente seus avanços em sua luta pessoal? Reformula os meios que lhe permitam lutar mais eficazmente contra seu homem velho?
  • «O que ascende não cessa nunca de ir de começo em começo mediante começos que não têm fim. Jamais o que ascende deixa de desejar o que já conhece (S. Gregório de Nisa, hom. in Cant. 8.)».  Quão “João-teimoso” você é?

Interiorizando

«Estais hoje prestes a guerrear contra os vossos inimigos. Não vos acovardeis, nem fiqueis com medo, nem tremais ou vos aterrorizeis diante deles, porque Iahweh vosso Deus marcha convosco, lutando a vosso favor contra os vossos inimigos, para salvar-vos!» (Dt 20, 3-4)

O combate espiritual é,  para quem recebeu o dom da fé, uma exigência do amor. Mediante a decidida cooperação com a graça, vamo-nos tornando cada vez mais como o Senhor, conquistando a verdadeira liberdade dos filhos de Deus, conquistando a vida eterna.

  • Que importância você dá ao seu combate espiritual? Você se esforça por conhecer-se cada vez mais, por conhecer suas debilidades e pôr os meios necessários para combatê-las?

«Os atletas se abstêm de tudo; eles para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível.» (1Cor 9,25).

  • Os desportistas procuram gerar hábitos de comida, bebida e de conduta apropriados ao fim que se propõem alcançar: a vitória. Para poder consegui-lo, sacrificam e se abstêm de tudo aquilo que possa ser um obstáculo para sua meta. Através do exercício contínuo e árduo vão adquirindo  as habilidades necessárias para a competição. Do mesmo modo, nós devemos esforçar-nos continuamente para alcançar a meta: a santidade. De que você necessita “despojar-se” e “revestir-se” para alcançar a coroa da vida eterna?
  • Quem aspira à santidade deve resguardar-se muito da mediocridade. Sua luta pela santidade é um esforço diário, prolongado, constante, inteligente, enérgico, e tenaz? Que meios concretos podem ajudar você para que seja assim?

«Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço, pois que também já fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo que eu mesmo o tenha alcançado, mas uma coisa eu faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus» (Fl 3,12-14).

  • São Paulo nos dá testemunho de que a vida consiste em avançar sempre para a meta: o anseio por alcançar Cristo. A clara consciência de que ainda não chegou à meta o leva a não mirar o que  deixou ou o que já andou, mas a lançar-se sempre com renovado ímpeto para adiante para obter o prêmio para si. Conquistar o prêmio prometido, alcançar Cristo definitivamente, implica na própria resposta ao dom recebido, a tensão de santidade que leva a olhar para adiante, a não se deter, descansar ou olhar atrás em sua corrida. Que reflexões esta passagem suscita em você?

Terminemos nossa reflexão dirigindo-nos a nossa Mãe:

Auxílio dos pecadores, sempre disposta ao perdão e à intercessão,
obtém-me as graças que me sejam necessárias para encaminhar retamente a minha vida,
rejeitar energicamente o pecado, fugir de suas ocasiões
e colocar os melhores meios para purificar-me segundo o desígnio divino
e assim encaminhar-me àquele que é a própria Vida.
Amém.



[1] Catecismo da Igreja Católica, 405.

[2] Ver 2Pe 1,5.10.

[3] 7,11.

[4] Ef 4,13.

[5] Ver Paulo VI, Catequesis, 15/11/1972.

[6] 1Pe 5,8.

[7] Ver CPD # 84.

[8] Rm 7,15.

[9] Rm 7,17.

[10] Rm 13,12.

[11] Ver Mt 26,41.

[12] Fl 4,13.

[13] Ver 2Pe 1,5-7.

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