Caminho para Deus 133 – Não há cristianismo sem cruz

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«É preciso que, como no passado, a cruz continue a estar presente na nossa existência como um claro indicador do caminho a seguir e como a luz que esclarece toda nossa vida » (Homilia do Papa na Concelebração eucarística na esplanada “Blonia Siedleckie”, n. 4.[1].

Em nossa cultura ocidental está muito em moda tudo o que é “light”, o que não compromete: elaboram-se e oferecem-se produtos ou serviços que proporcionam cada vez mais comodidade, diversão, prazer. Os admiráveis avanços tecnológicos libertaram o homem, pouco a pouco, de muitos esforços e sacrifícios, tornando tudo mais fácil, mais cômodo e menos doloroso; para quem tem acesso a eles, é claro. Um certo tipo de “vida feliz” é prometida a quem possui estas comodidades, e ao que menos aspira ao ideal da vida burguesa. Muitos homens e mulheres influenciados ou submetidos a esta mentalidade se tornam evasivos ao sacrifício pessoal, à entrega generosa, à renúncia custosa com o olhar posto sobre um bem maior, árduo e difícil de conquistar. A Cruz é rechaçada. Mais ainda: «a corrente anticristã pretende anular seu valor, esvaziar o seu significado, negando que o homem encontre nela as raízes de sua nova vida; pensando que a Cruz não pode abrir nem perspectivas nem esperanças»[2].

Um cristianismo sem cruz?

Nem os milhões de cristãos batizados que estão no mundo[3] estão livres da sutil influência desta mentalidade. Quantos cristãos terminam sendo do mundo ao assumir tais perspectivas! Quantos filhos da Igreja hoje reclamam uma maior “compreensão” e “condescendência” a respeito de certos temas que exigem sacrifícios ou renúncias que se negam a assumir! Quantos exigem que a Igreja – por misericórdia e dom livre de Deus – portadora da voz e ensinamentos do Senhor[4], se adapte à mentalidade dos tempos, para lhes oferecer um “cristianismo light”, à medida de sua comodidade ou própria visão das coisas!

Mas, pode haver, por acaso, um cristianismo sem cruz? Pode alguém ser discípulo de Cristo sem carregar sua própria cruz, quer dizer, sem assumir as exigências da vida cristã; sem querer viver a obediência aos ensinamentos do Senhor e da Igreja; sem querer abraçar, inclusive, a dor e o sofrimento para oferecê-los como uma participação no sofrimento do Senhor? [5] A resposta é um categórico “Não!”. O Senhor disse claramente: «quem não carrega sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo»[6], e disse também: «se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica ele sozinho; mas se morrer, dá muito fruto»[7].

Não podemos esquecer que Cristo morreu crucificado. Desse modo o cristianismo ficou para sempre associado à cruz. E da feita que um discípulo busca assemelhar-se a seu mestre[8], se queremos ser como Cristo, se queremos ser de Cristo, temos que segui-lO em tudo, não só no que nos é fácil, cômodo e agradável, não só enquanto me pede algo que está dentro do limite do que estou disposto a dar, mas também quando me pede para carregar uma cruz que não é a que eu gosto, quando as coisas na vida cristã são do tipo “ladeira acima”, difíceis e exigentes. Quem quer ser discípulo, tem que viver intensamente, em sua vida, o dinamismo da cruz que o Senhor Jesus inaugurou para nós: Morrer a tudo o que é morte[9] para renascer à Vida verdadeira.

A cruz presente na vida de todo homem

Ao tomar a cruz em seu sentido figurado, como sinal de dor, de sofrimento e de morte, podemos nos perguntar: quem de nós, de uma ou de outra forma, não experimenta diariamente a lacerante  realidade da cruz? A cruz não é algo estranho na vida de homens e mulheres, de qualquer idade, povo ou condição social. Toda pessoa, de diferentes modos, encontra a cruz em seu caminho, é tocada, e, até de certo modo, é marcada profundamente por ela. «Sim, a cruz está inscrita na vida do homem. Querer excluí-la da própria existência é como desejar ignorar a realidade da condição humana. É assim! Somos criados para a vida, no entanto não podemos eliminar da nossa história pessoal o sofrimento e a prova»[10].

A experiência do mal e o sofrimento não foi querida por Deus. Entrou no mundo e em nossa vida pelo pecado de nossos primeiros pais. E o Pai respondeu a essa realidade nos redimindo no Senhor Jesus pela cruz e ressurreição, e nos abriu uma vida nova que nos chega cotidianamente pela ação do Espírito Santo.

Experimentamos a cruz quando na família, em vez da harmonia e do amor mútuo, reina a incompreensão ou a mútua agressão, quando recebemos de nossos entes queridos palavras que ferem, quando a infidelidade destrói um lar, quando experimentamos a traição de quem amamos, quando somos vítimas de uma injustiça, quando o mal nos golpeia de uma ou outra forma, quando as dificuldades nos estudos aumentam, quando um projeto fracassa ou um apostolado não dá resultado, quando é quase impossível encontrar um trabalho, quando falta o dinheiro necessário para o sustento da família, quando aparece uma enfermidade longa ou incurável, quando repentinamente a morte arrebata um ser querido, quando nos vemos submersos no vazio e na solidão, quando cometemos um mal que depois nos custa perdoar-nos… quantas e quão variadas são as ocasiões que nos fazem experimentar o peso da cruz em nossa vida!

Ao nos olharmos e ao olharmos à nossa volta, descobrimos que toda existência humana tem a marca do sofrimento. Não há ninguém que não sofra, que não morra. Mas, vemos também, como sem Cristo todo sofrimento carece de sentido, é estéril, absurdo, esmaga, afunda na amargura, endurece o coração.

O Senhor, longe de nos liberar da cruz, carregou-a sobre si, fazendo dela o lugar da redenção da humanidade, unindo e reconciliando nela, por seu Sangue, o que o pecado tinha dividido: Deus e o homem[11]. Ele mesmo, na Cruz, mudou a maldição em bênção, a morte em vida. Ressuscitando, transformou a cruz, de árvore de morte em árvore de vida.

Quem, com o Senhor, sabe abraçar-se à Sua Cruz, experimenta como seu próprio sofrimento ─sem que ele desapareça─ adquire sentido, transforma-se em uma dor salvífica, em fonte de inumeráveis bênçãos para si mesmo e muitos outros. Não há cristianismo sem cruz porque com Cristo a cruz é o caminho para a luz, quer dizer, à plena comunhão e participação da glória do Senhor.

Toma sua cruz e segue o Senhor!

Não poucas vezes nossa primeira reação diante da cruz é querer fugir, é não querer assumi-la, porque nos custa! A fuga se dá de muitos modos: fugir das próprias responsabilidades e das cargas pesadas, ocultar minha identidade cristã para não me expor à zombaria e à rejeição dos outros, não defender ou ajudar quem necessita de mim para “não me meter em problemas” ou para não arcar com um “peso”, não assumir o apostolado que me dá mais trabalho, não perdoar a quem me ofendeu porque me custa vencer meu orgulho, etc.

Outras vezes, não podendo fugir do sofrimento, não queremos apenas nos desfazer da cruz, queremos jogá-la longe, ainda mais quando levamos a cruz por muito tempo ou nos é pedida uma grande dose de sacrifício: “até quando, Senhor! Já basta!” Há quem perdendo a resistência e com rebelde atitude perante Deus opte por afastar-se dEle.

A atitude adequada diante da cruz é assumi-la plenamente, com paciência, confiando plenamente que Deus saberá tirar bens dos males, procurando nEle a força necessária para suportar todo o seu peso e cumprir plenamente em si seu amoroso desígnio. O próprio Senhor nos ensinou a recorrer, incessantemente, à oração para sermos capazes de carregar a cruz. [12]

Temos, também, que pedir a Deus a graça para viver a virtude da mortificação, entendida como um aprender a sofrer pacientemente — sobretudo diante de fatos e eventos que escapam ao próprio controle —  e a ir aderindo, explicitamente, os próprios sofrimentos e contrariedades — tudo aquilo que é penoso ou incômodo para nossa natureza ou mortificante para nosso amor próprio — ao mistério do sofrimento de Cristo.

Também temos que ter presente que “Não há sexta-feira de Paixão sem domingo de Ressurreição”, e vice-versa.

Citações para oração

  • Cristo carregou sua cruz: Jo 19,17; e foi crucificado: Mc 15,25; Lc 23,33.
  • O Senhor nos chama para carregar nossa cruz e segui-lO: Mt 10,38; 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23;  14,27.
  • O discípulo aspira a ser como seu Mestre: Lc 6,40; Mt 10,24-25.
  • No Getsêmani Cristo nos ensina como enfrentar a cruz: Mc 14,32-42.
  • Maria participou da Cruz de um modo inimaginável: Lc 2,35; Ensina-nos como assumir a cruz: Jo 19,25.
  • Assumir o dinamismo da cruz significa morrer ao que é morte: Ver Gl 5,4; para renascer para uma vida nova: Rm 6,4. Só pode dar fruto a semente que cai na terra e morre: Jo 12,24.
  • Nossos sofrimentos completam o que falta às tribulações de Cristo: Cl 1,24.
  • Também somos chamados a ser cireneus de nossos irmãos, ajudando-os a carregar suas cruzes: Mt 27,32.

INTERIORIZANDO

Hoje vemos que no mundo, sob a influência dos muitos avanços tecnológicos, com seus frutos de comodidade, diversão e prazer, o homem se afastou do esforço e do sacrifício, de tudo aquilo que implica em algum esforço.

§  Sou consciente de que esta situação é real na vida das pessoas?

  • Quantas vezes a atitude de fugir do esforço e do sacrifício acontece em minha própria vida?

 

Não são poucas as pessoas que procuram acomodar a vida cristã aos seus próprios gostos e desgostos. E tudo aquilo que não está de acordo com eles, tudo aquilo que implica em renúncia, esforço, termina sendo deixado de lado. Tentam construir uma espécie de “cristianismo light” e que a Igreja que se acomode aos “novos tempos”.

§  Percebo que muitas vezes somos nós, os próprios cristãos, que vivemos de acordo com esta forma de pensar e atuar?

§  Diante desta situação, o que devo fazer como cristão, como filho da Igreja?

 

Não podemos ser autênticos cristãos, discípulos do Senhor Jesus, se não abraçarmos o madeiro da cruz em nossas próprias vidas. Ao meditar nestas palavras do Senhor –”Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” e “se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto –, que experiências suscitam em meu coração?

O Papa João Paulo II que, com seu exemplo de vida, nos dá testemunho de carregar a própria cruz, ensina-nos que «Seguir Cristo não é uma imitação exterior, já que atinge o homem na sua profunda interioridade. Ser discípulo de Jesus significa tornar-se conforme a Ele, que Se fez servo até ao dom de Si sobre a cruz (cf. Fl 2, 5-8». (Veritatis splendor 21a).

§  Estou realmente disposto a assumir minha própria cruz e, ao carregá-la, assemelhar-me cada vez mais ao Senhor Jesus?

§  Que meios concretos vou utilizar para viver isso melhor?

 

A experiência da cruz e do sofrimento não é algo alheio à nossa vida cotidiana. Todos nós, de diferentes modos, encontramos a cruz em nosso caminho e experimentamos o sofrimento. O tema principal é: Como eu assumo e enfrento esta realidade em minha vida?

§  Quais costumam ser meus principais “sofrimentos”?

§ Comoestou acostumado a viver esta experiência? Como atuo?

§  Que coisas concretas posso fazer para que estes sofrimentos tenham um sentido e sejam, para mim, caminho de salvação?

 

Procure uma imagem do Senhor Jesus na cruz e, logo depois de contemplá-la e rezar por alguns momentos, escreva sua meditação.

 

PERANTE O SOFRIMENTO

Mãe Dolorosa

Chamaram-te os séculos.

E com razão,
pois sofreste indizivelmente.

Teu coração
traspassado pela espada
lembra-nos com viva imagem
que também és Mestra
em saber bem sofrer.

Ensina-me a sobrelevar
o sofrimento,
suportando-o
com visão de eternidade,
com essa esperança,
associada à Cruz reconciliadora
de teu Filho,
o doce Senhor Jesus,
da qual vivamente
dás exemplo.

Atrevo-me a pensar
que o mistério da dor
muitas vezes te pareceu pungente,
como hoje sinto o meu.

Auxilia-me, pois.
ó poderosa intercessora!,
obtém-me a graça
que me permita aprender
e viver intensamente
teu exemplo e lição.
Que assim seja.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

1.         Tenho consciência da influência do mundo de hoje em evitar ou fugir das situações que implicam esforço e sacrifício? O quanto isto influencia na minha própria vida?

2.         É possível viver um “cristianismo sem cruz”? Por que?

3.         Quais costumam ser os principais sofrimentos em minha vida? Como costuma ser minha atitude diante deles? O que vou fazer para vivê-los melhor?

4.         Maria, especialmente ao pé da cruz, nos dá testemunho de como devemos viver a experiência da cruz e do sofrimento. Que coisas concretas me ensina Santa Maria que eu também possa aplicar em minha própria vida?

5.         “Toma tua cruz e segue o Senhor!” O que me suscitam estas palavras? O que vou fazer?

 


[1] S.S. João Paulo II, Homilia, 10/6/99, n. 4.

[2] S.S. João Paulo II, Ut unum sint, 1c.

[3] Ver Jo 17, 11

[4] Ver Lc 10, 16

[5] Ver Col 1, 24

[6] Lc 14, 27

[7] Jo 12, 24

[8] Ver Lc 6,40; Mt 10, 24-25

[9] Ver Gl 5, 4

[10] S.S. João Paulo II, “O Evangelho da Cruz como projeto de vida”, discurso aos jovens italianos que preparavam o Dia Mundial da Juventude, 2/4/1998, n. 4

[11] Ver Cor 5, 19

[12] Ver Mc 14, 32-42

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