Caminho para Deus 178: «Glória a Deus no céu, e paz na terra aos homens de boa vontade»

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I. «O VERBO DE DEUS SE FEZ HOMEM E HABITOU ENTRE NÓS»[1]

Em 26/10/2008 concluiu-se o XII Sínodo dos Bispos e o tema tratado foi: «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja». É justamente o que celebramos no Natal: a chegada da «Palavra de Deus» à nossa terra, à vida do homem: «E o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós». Jesus Cristo nosso Salvador, em sua infinita misericórdia, se «abaixa» e se faz um de nós para que nos façamos como Ele. Deus assume nossa humanidade para que nós sejamos acolhidos em sua divindade. Por sua graça fomos feitos filhos no Filho, «mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, posto sob a Lei, para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos»[2].

Muitas vezes, quando alguém se refere à “Palavra de Deus” pensamos unicamente na Sagrada Escritura, mas nos esquecemos que a Palavra de Deus é Cristo mesmo, o Filho Unigênito de Deus e Filho deMaria. Precisamente por isso este Sínodo ao tratar sobre a Palavra de Deus não tratou unicamente da Sagrada Escritura, mas do Verbo (Palavra) de Deus feito “carne”, Jesus Cristo nosso Senhor.

O Natal é um tempo no qual se “reatualiza” o nascimento do Senhor, um tempo para escutar atentamente a Palavra de Deus que se fez menino e acolhê-lo em nossos corações. O Verbo de Deus deve “fazer-se carne” novamente em nós. É necessário então preparar nossos corações para receber o Salvador e assim permitir que Ele se faça vida em nós. Em palavras do Santo Padre: “Invocar o dom do nascimento do Salvador prometido significa, contudo, comprometer-se a aplainar-Lhe o caminho, a preparar-Lhe uma habitação digna não só no ambiente à nossa volta, mas sobretudo no nosso coração. Deixando-nos guiar pelo evangelista João, procuremos, portanto, dirigir nestes dias a mente e o coração para o Verbo eterno, o Logos, para a Palavra que se fez carne e de cuja plenitude recebemos graça sobre graça”(cf. Jo 1, 14.16).[3]

Ao fazer-se homem, Deus se faz “palavra” humana e nos ensina a ser plenamente humanos nos evidenciando nossa verdadeira identidade e missão. O Senhor Jesus é o modelo perfeito de homem. Acudamos neste Natal ao presépio com os ouvidos e o coração bem-dispostos para poder escutar sua Palavra, para poder compreender a mensagem de verdade e de amor que se faz evidente nesse menino “indefeso” que é Deus onipotente.

II. “O POVO QUE CAMINHAVA NAS TREVAS VIU UMA GRANDE LUZ”[4]

São João, no prólogo de seu Evangelho, nos diz que a Palavra de Deus existia sempre. “No princípio existia a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus…”[5] e tudo foi feito por ela. Além disso, “nela estava a vida e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas e as trevas não a venceram.”[6] Por isso neste Natal como todos os anos comemoramos o dia em que a Luz veio ao mundo.

Por outro lado, o Evangelho de São Lucas relata queno dia em que Jesus nasceu uns pastores encontravam-se no campo cuidando de suas ovelhas e era noite[7]. Este último detalhe é importante, pois nada é “coincidência” na Sagrada Escritura. A Revelação é sempre um mistério que nos transcende e que deve ser “lida” com o mesmo Espírito com que foi escrita. Ao mencionar a escuridão da noite o evangelista procura expressar a realidade em que se encontrava o mundo antes da chegada do Salvador. O mundo se encontrava na escuridão e nas “trevas” pelo pecado. Entretanto, naquele momento “apareceu-lhes o Anjo do Senhor, e a glória do Senhor envolveu-os em sua luz”[8], quer dizer, foi desvelado o mistério da Luz ao anunciar-lhes o nascimento do Salvador, a “Luz do mundo”[9]. Mas, o que implicava exatamente para o Povo de Israel este nascimento? O que implica para nós, os cristãos de hoje?

Com a chegada do Salvadortorna-se realidade a esperança do Povo eleito, o que tinham esperado por séculos: a Reconciliação. Um povo que se encontrava nas trevas durante tantos séculos finalmente recebe a Luz verdadeira. É aquela Luz que conduz os homens para Deus e lhes dá a vida verdadeira e a felicidade autêntica. Esta luz vence TODAS as trevas, toda desesperança e todo pecado.

É por isso que os anjos cantaram “Glória a Deus no Céu…”[10], pois o nascimento do Salvador é a manifestação mais clara da glória de Deus. Com o nascimento do Messias, Deus é glorificado no céu, pois Deus mesmo com este ato de amor supremo “glorifica seu nome” e deixa entrever seu poder, sua infinita misericórdia e sua fidelidade.

Mas como isto nos afeta?O Santo Padre nos diz: “Em Belém manifestou-se ao mundo a Luz que ilumina a nossa vida; foi-nos revelada a Vida que nos leva à plenitude da nossa humanidade. Se não reconhecermos que Deus se fez homem, que sentido tem festejar o Natal? A celebração torna-se vazia. Antes de tudo, nós cristãos devemos reafirmar com profunda esentida convicção a verdade do Natal de Cristo, para testemunhar diante de todos a consciência de um dom inaudito que é riqueza não só para nós, mas para todos. Disto brota o dever da evangelização que é precisamente a comunicação deste “eu-angelion”, desta “boa nova”..”[11] Nós, como Cristãos e “filhos da luz”[12] devemos anunciar essa boa “notícia” ao mundo, devemos nos deixar iluminar com sua Luz vencendo a trevas do pecado em nossa vida e assim podermos ser, nós também, luz do mundo.

Então o Natal não é simplesmente um tempo “bonito” para dar e receber presentes. É verdade que é um tempo no qual a solidariedade se faz mais evidente, mas essa solidariedade fica totalmente vazia se lhe tirarmos seu fundamento: o Senhor Jesus. Por isso, hoje mais que nunca, quando vivemos em um mundo cada vez mais secularizado no qual se esquece o verdadeiro sentido do Natal, nós, os cristãos, devemos lutar para que se compreenda cada vez melhor que o Natal é Jesus. Devemos anunciar com alegria que é no Natal que se recebe o maior presente de Deus para a humanidade: seu Filho Unigênito.

III. “… E NA TERRA PAZ AOS HOMENS DE BOA VONTADE”[13]

Este é o canto de louvor que o coro dos anjos proclama ao anunciar aos pastores a “grande alegria” do nascimento do Messias. Mas o que significa exatamente essa “paz” anunciada pelos anjos? Por que dizem: “aos homens de Boa Vontade”?

Poderíamos dizer que os “homens boa vontade” são aqueles homens e mulheres que vivem em sintonia com o Plano de Deus, aqueles “homens que põem sua vontade na sua, transformando-se em homens de Deus, homens novos em um mundo novo.”[14] Eles serão finalmente quem receberá a paz trazida pelo Salvador.

O que é exatamente a paz? Essa paz pode ser entendida como a RECONCILIAÇÃO. A partir do encontro pessoal com Deus, as demais relações fundamentais nas quais nos movemos adquirem um sentido reto e pleno; a relação comigo mesmo se faz harmoniosa encontrando minha verdadeira identidade e missão; minha relação com outros se desdobra no serviço e doação de mim; e, finalmente, minha relação com a criação se vê coberta pelo manto da reverência.

Entretanto, poderíamos nos perguntar por que ainda hoje, se a Luz já chegou no mundo, persiste nele a “escuridão” do pecado e por que às vezes parece que reinam ainda as “trevas” do mal. A resposta está em nossa própria liberdade. A Luz habitará somente naqueles corações que decidam acolhê-la.

Mas apesar da escuridão que parecemos ver no mundo, o Senhor já venceu, e sua vitória é definitiva e irrevogável. Entretanto essa vitória deve fazer-se vida em cada um de nós, devemos deixar que Ele “vença” e “reine” em cada um de nossos corações. Precisamente por isso o Natal é um tempo privilegiado e especial para nos renovar no propósito de deixar que o Menino Jesus nasça e cresça em nosso coração. Nessa mesma linha o Santo Padre nos exorta: “Pois bem, invocar o dom do nascimento do Salvador prometido significa também comprometer-se a preparar o caminho, a predispor uma digna morada não só no ambiente em torno de nós, mas também sobretudo em nossa alma.”[15]

Se quisermos que “a luz verdadeira que ilumina todo homem” continue vindo a este mundo, deixemo-la entrar em nosso coração. Calemos ao menos uns instantes, contemplemos o Menino que nasce em um presépio e prostremo-nos diante de sua Luz. Comoé importante recuperar a capacidade de silêncio e de adoração, perante um mundo poluído pelo “ruído” e pela mudança acelerada, um mundo que está sendo despojado do conteúdo sagrado desta solenidade!

Iluminados por essa Luz que amanheceu sobre o mundo a partir do Presépio de Belém, enchamo-nos de esperança e de alegria. Tal como os pastores, escutemos novamente a mensagem do anjo para transmiti-la a outros: “Não temais porque vos trago uma boa notícia, uma grande alegria para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor”[16]. Pois “O Menino, a quem há uns dois mil anos adoraram os pastores em uma gruta na noite de Belém, não se cansa de nos visitar na vida cotidiana, enquanto como peregrinos nos encaminhamos para o Reino”[17]. Renovemo-nos em nosso esforço para viver cotidianamente como filhos de Deus e filhos da Luz levando essa “Luz” ao mundo. Detenhamo-nos por uns instantes diante das representações do presépio, seja em nossa igreja ou em nossas casas. Imitemos o silêncio contemplativo deMaria: “Enquanto isso, Maria conservava estas coisas e as meditava em seu coração”[18] para nos nutrir do amor de Deus que se faz homem e poder assim transmiti-lo ao mundo inteiro.

Que neste Natal o Menino Jesus encontre uma “morada” digna em nossos corações. Esforcemo-nos por transmitir a alegria desse encontro com todos os que nos rodeiam.

Feliz Natal!

PASSAGENS BÍBLICAS PARA MEDITAÇÃO E ORAÇÃO

Guia para a Oração

  • Mt 1, 23
  • Lc 2, 1 -20
  • Jo 1, 1 – 5
  • Jo 1, 14
  • Is 9, 1 – 6
  • Ga 4, 4 – 6
  • Is 7, 14

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. O que é o Natal?
  2. O que você entende por “Palavra de Deus”?
  3. O que significa a expressão dos anjos: “Glória a Deus no céu e paz na terra aos homens que ama o Senhor”?
  4. O que você crê que pode fazer para preparar seu coração para este Natal? Que meios concretos você pode se comprometer a pôr?
  5. Como você crê que pode levar a luz de Cristo a outros neste Natal?

[1]Jo 1, 14

[2] Gal 4,4

[3]SS Bento XVI, Audiência Geral de 19/12/2007

[4]Mt 4, 16

[5]Jo 1, 1

[6]Jo 1, 5

[7]Lc 2, 8

[8]Lc 2, 9

[9]Lc 2, 32

[10]Lc 2, 14

[11] SS Bento XVI – Audiência Geral de 19/12/2007

[12]Jo 12, 36

[13]Lc 2 14

[14] SS Bento XVI – Homilia na Missa de Natal de 25/12/2007

[15]SS Bento XVI – Audiência Geral de 19/12/2007

[16]Lc 2, 10-11

[17]SS Bento XVI – Audiência Geral de 19/12/2007

[18]Lc 2, 19

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