Caminho para Deus 230: Em quem acreditam os católicos?

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A profissão de fé: o Credo

Todos os Domingos, quando vamos à Missa, logo depois da homilia do celebrante, rezamos juntos o Credo. Fazemos uma profissão de nossa fé, quer dizer, proclamamos as verdades essenciais nas quais cremos como católicos. Às vezes pode acontecer que nos acostumemos a rezar o Credo e o rezemos mecanicamente, sem prestar atenção à riqueza que contém cada palavra. Poder-nos-ia parecer, inclusive, que o Credo não tem nenhuma relação com nossa vida cotidiana. Entretanto, nada mais longe da verdade.

O Credo é um texto que desde a antiguidade faz parte da Igreja. Originalmente estava vinculado ao Batismo, onde por meio de perguntas e respostas, o novo cristão professava as verdades que o identificavam como cristão. Desde o princípio foi articulado com base nas três partes que agora conhecemos: Creio em Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Com o tempo foram acrescentadas outras verdades de fé, explicitando-se melhor alguns de seus conteúdos. A Igreja conserva muitas destas profissões de fé, dentre as quais destacam-se duas muito antigas: o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno-Constantinopolitano[1]. Apesar de suas variações, ambos expressam com fidelidade os aspectos centrais da fé, e por isso a Igreja os entesourou com grande cuidado ao longo dos séculos e os reza na Santa Missa dominical e festiva.

Creio

Para começar, é importante compreender que para o cristão o Credo não é uma mera formulação de ensinamentos. Quando dizemos “creio” não estamos apenas repetindo uma fórmula, estamos fazendo uma “profissão”. Isto quer dizer que estamos dando um testemunho, e esse testemunho tem que expressar uma convicção e ir acompanhado de um modo de vida coerente com o que dizemos. A fé que professamos no Credo não é só uma teoria, mas deve ser o fundamento de nossa vida e manifestar-se através dela.

Sobre isto dizia Bento XVI: «Quando afirmamos: «Creio em Deus», dizemos como Abraão: Confio em Ti; entrego-me a Ti, Senhor, mas não como a Alguém a quem recorrer só nos momentos de dificuldade ou a quem dedicar algum momento do dia ou da semana. Dizer «creio em Deus» significa fundamentar minha vida nEle, deixar que sua Palavra a oriente cada dia nas opções concretas, sem medo de perder algo de mim mesmo.»[2]

Quando no Rito do Batismo se pergunta três vezes: “Crês?” em Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, na Santa Igreja católica e nas demais verdades de fé, a tripla resposta se dá no singular: “Creio”. Diz-se no singular, porque se trata de uma resposta pessoal que cada um professa a partir do íntimo de sua consciência. Uma resposta que compromete meu modo de pensar e julgar a realidade, meus valores e opções cotidianas, meus sentimentos e, sobretudo, meu modo de atuar e me comportar.

Por outro lado, usualmente rezamos o Credo durante a celebração Eucarística dominical. Quando assim o fazemos, expressamos também uma dimensão muito importante do ser cristão. É verdade que quem professa a fé é cada uma das pessoas a título pessoal. Quer dizer, quando rezo o Credo, é cada um de nós que diz “creio”. Entretanto, na Missa dizemo-lo em uníssono com todas as pessoas que participam da celebração. “Creio” se converte então em um “cremos”. Não se trata de um simples jogo de palavras, mas sim da expressão de uma experiência muito importante. Rezar o “credo” é um ato eclesial, e o fazemos como parte da Igreja. Expressa, de modo muito particular, nosso ser parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja.

A oração do Credo na Missa expressa também outra dimensão da fé da qual às vezes não nos damos conta. Significa aceitação de uma série de verdades recebidas. Quando rezamos o Credo estamos dizendo que nós não inventamos a fé, mas a recebemos. As verdades nas quais cremos não são produto da imaginação dos primeiros discípulos, e sim fruto da escuta da Palavra (Rm 10,17), em última instância, da Revelação do Senhor Jesus. Nós escutamos a proclamação da fé, e a aceitamos fazendo-a fundamento de nossa vida, mas em nenhum momento somos donos dela. Isto significa que devemos entesourar o recebido, como a Igreja tem feito desde os inícios de seu peregrinar, para a seguir transmiti-lo com fidelidade no anúncio da fé.

Deus é Comunhão de Amor

A estrutura do Credo nos revela um aspecto fundamental de nossa fé: é uma fé trinitária. Quer dizer, nossa fé proclama um Deus Uno e Trino. Professar «a fé na Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — equivale a acreditar em um só Deus que é Amor»[3].

Deus é comunhão de Amor, quer dizer, entre as Pessoas da Trindade há relações, e essas relações são relações de amor e comunicação. Quer dizer, o Pai e o Filho se amam no Espírito Santo. Embora as palavras e os exemplos sejam sempre insuficientes para expressar um mistério que nos ultrapassa, podemos dizer que a Santíssima Trindade é como uma família em que cada pessoa é distinta, mas vivem unidas em um mistério eterno e infinito de amor e comunicação.

Isto tem uma grande importância para nós que fomos criados à “imagem e semelhança” de Deus Amor. Somos fruto do amor de Deus e fomos criados para amar, para refletir o Amor de Deus em nossas relações fundamentais. Deus Uno e Trino nos convida a «entrar em íntima relação com Ele e à comunhão interpessoal, ou seja, à fraternidade universal. Esta é a mais alta vocação do homem: entrar em comunhão com Deus e com os outros homens, seus irmãos»[4].

Este ensinamento, como nos recorda o Concílio Vaticano II, mostra-nos «que o homem, única criatura terrestre que Deus amou por si mesmo, não pode encontrar sua própria plenitude senão na entrega sincera de si mesmo aos outros»[5]. Quer dizer, nossa felicidade necessita que, de uma ou outra maneira, nos entreguemos aos demais, vivendo o serviço e a caridade com quem nos rodeia.

O Papa Francisco nos dizia muito recentemente: «Não esqueçamos esta palavra: Deus nunca se cansa de perdoar. Nunca. Ele é Pai amoroso que sempre perdoa, que tem esse coração misericordioso com todos nós. E aprendamos também nós a sermos misericordiosos com todos»[6].

Rezar o Credo, então, recorda-nos um aspecto muito importante de nossa vida: precisamos nos relacionar com os outros, e essas relações devem apontar para que cresçamos em amor aos outros. Esse amor deve ter um sólido fundamento em Deus, e manifestar-se para os outros em caridade, como um reflexo vivo do amor de Deus.

Viver o que cremos

Sabemos bem que o cristianismo não é uma repetição vazia de fórmulas. A fé deve fazer-se vida cotidiana. Neste sentido, com nossas ações, devemos dar um testemunho cotidiano das verdades nas quais cremos.  «Afirmar “creio em Deus” – assinalava Bento XVI – nos impulsiona, então, a nos pormos a caminho, a sair continuamente de nós mesmos (…) para levar à realidade cotidiana em que vivemos a certeza que nos vem da fé: quer dizer, a certeza da presença de Deus na história, também hoje; uma presença que traz vida e salvação, e abre a um futuro com Ele para uma plenitude de vida que jamais conhecerá o ocaso»[7]. Precisamente, quando acabamos de celebrar a vitória do Senhor Jesus sobre o pecado e a morte, devemos nos comprometer cada vez mais em uma vivencia e anúncio coerente do precioso dom que recebemos.

Passagens bíblicas para a oração

Ser coerentes com nossa fé: Tg 2,14-24.

Recebemos a fé: Rom 10, 14-17; Lc 17,5; Ef 4,21.

Dimensão comunitária da fé: At 2,42-47, Heb 10,24-25.

A Igreja é Corpo de Cristo: 1Cor 12,12-30; Rom 12,4-5.

Confessar o que cremos: Rom 10,10.

Perguntas para o diálogo

  1. Quanta atenção prestas ao rezar o Credo?
  2. Como entendes a “dimensão eclesial” da fé?
  3. Por que é importante compreender que recebemos a fé?
  4. Como o Credo ilumina sua vida cotidiana?

Compromisso prático

Aprender de cor o Credo Niceno – Constantinopolitano (Credo longo)

Trabalho de meditação

  1. Leia com atenção o seguinte texto:

«Quando afirmamos: «Creio em Deus», dizemos como Abraão: Confio em Ti; entrego-me a Ti, Senhor, mas não como a Alguém a quem recorrer só nos momentos de dificuldade ou a quem dedicar algum momento do dia ou da semana. Dizer «creio em Deus» significa fundamentar minha vida nEle, deixar que sua Palavra a oriente cada dia nas opções concretas, sem medo de perder algo de mim mesmo. Quando no Rito do Batismo se pergunta três vezes: “Crês?” em Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, na Santa Igreja católica e nas demais verdades de fé, a tripla resposta se dá no singular: “Creio”, porque é minha existência pessoal que deve dar uma guinada com o dom da fé, é minha existência a que deve mudar, converter-se. Cada vez que participamos de um Batismo deveríamos nos perguntar como vivemos cada dia o grande dom da fé» (Bento XVI).

  • À luz deste texto: O que significa dizer “creio em Deus”?
  • Explique brevemente por que o Credo não é somente uma fórmula que repetimos.
  1. Medite na seguinte passagem bíblica:

«Acorriam assiduamente ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão, à fração do pão e às orações. O temor se apoderava de todos, pois os apóstolos realizavam muitos prodígios e sinais. Todos os crentes viviam unidos e tinham tudo em comum; vendiam suas posses e seus bens e repartiam o preço entre todos, segundo a necessidade de cada um. Iam ao Templo todos os dias com perseverança e com um mesmo espírito, partiam o pão pelas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo» (At 2,42-47).

  • Como esta passagem ilumina a dimensão eclesial da fé?
  • Como você vive esta dimensão da fé?
  1. Leia com atenção:

«Afirmar “creio em Deus” nos impulsiona, então, a nos pormos a caminho, A sair continuamente de nós mesmos, tal como Abraão, para levar à realidade cotidiana em que vivemos a certeza que nos vem da fé: quer dizer, a certeza da presença de Deus na história, também hoje; uma presença que traz vida e salvação, e nos abre a um futuro com Ele para uma plenitude de vida que jamais conhecerá o ocaso» (Bento XVI).

  • O que você pode fazer para que ao rezar o Credo você faça uma verdadeira “profissão de fé”?
  1. Leitura sugerida: Catecismo da Igreja Católica nn. 185-197.

[1] Ver Catecismo da Igreja Católica, nn. 185-197.

[2] Bento XVI, Audiência geral, 23 de janeiro de 2013.

[3]Bento XVI, Porta Fidei, 1.

[4] Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, A vida fraterna em comunidade, 9.

[5] Gaudium et spes, 24.

[6] S.S. Francisco, Angelus, 17 de março de 2013.

[7] Bento XVI, Audiência geral, 23 de janeiro de 2013.

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