Caminho para Deus 231 – Como Maria me ajuda a viver a minha fé?

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O Ano da fé nos oferece uma excelente oportunidade para nos deixarmos iluminar pelo exemplo de Santa Maria, Mãe da fé. «Feliz a acreditou que se cumpririam as coisas que o Senhor lhe disse.»[i] exclama Isabel ao receber a visita da Mãe de Deus. Esta bem aventurança ressoou no seio da Igreja ao longo dos séculos como um reconhecimento da grandeza da fé de Maria.

Quando voltamos nosso olhar interior para a Virgem, surgem reflexões que têm a ver diretamente com nossa própria vida de fé. Por um lado podemos nos perguntar: qual é a origem da veneração que damos a Santa Maria na Igreja? Como é que ela se constituiu em guia e auxílio para nossa vida cristã? Por outro lado, a Virgem Maria é modelo de fé e, neste sentido, aprofundar em seu exemplo e testemunho nos ajuda a crescer em nossa vida cristã.

Por que veneramos Maria?

Em alguma ocasião podemos ter escutado dizer que nós, católicos, somos idólatras porque pomos a Virgem Maria no mesmo nível que Deus. Uma afirmação como esta desconhece o ensinamento da Igreja sobre Santa Maria assim como as atitudes que nos convida a ter para com a Mãe de Jesus.

Em primeiro lugar é fundamental compreender que o lugar que Maria tem na vida cristã dos discípulos do Senhor Jesus brota da própria fé. «O papel de Maria com relação à Igreja é inseparável de sua união com Cristo, deriva diretamente dela»[ii] − ensina-nos o Catecismo −. É o próprio Cristo que nos indica sua Mãe. Ele nos convidou a amá-la como seus filhos e a ver nela um exemplo a seguir. A passagem da crucificação relatada no Evangelho de São João é eloquente: «Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa»[iii].

Desde os primeiros séculos de seu peregrinar, a Igreja recebeu esta passagem evangélica como uma clara indicação do Senhor Jesus à qual nós, cristãos, devemos nos aderir com fé. Porque cremos no Senhor Jesus, cremos também no que ele nos disse. Assim entenderam os apóstolos e os primeiros discípulos, como se pode ver nos Atos dos Apóstolos. Essa mesma fé foi a que receberam e aprofundaram os Padres da Igreja e que desde então foi transmitida de geração em geração na Tradição Eclesial. Essa é a fé da Igreja que o Magistério custodiou e ensinou ininterruptamente.[iv]

Sobre esta base sólida, então, cremos com firme fé que Deus escolheu uma Mulher desde todos os tempos para que fosse a Mãe Virginal de seu Filho; que Ela cooperou com fé e obediência exemplares com a obra da reconciliação; que por desígnio do próprio Jesus, assim como é Mãe do Cristo Cabeça, Ela é Mãe de todos os homens que formam o Corpo de Cristo; que desde sua Assunção ao Céu Ela continua intercedendo por nós perante seu Filho e é modelo perfeito de virtude e exemplo para nossa vida cristã. Por isso, nos diz o Concílio Vaticano II, «a Igreja não duvida em confessar esta função subordinada de Maria, experimenta-a continuamente e a recomenda à piedade dos fiéis para que, apoiados nesta proteção maternal, unam-se com maior intimidade ao Mediador e Salvador»[v].

No cântico do Magnificat, a Virgem Mãe diz de si mesma: «todas as gerações me chamarão bem aventurada porque o Poderoso fez em mim grandes obras»[vi]. Com humildade, Ela mesma reconhece as maravilhas que o Senhor fez através de si e que serão causa de alegria e devoção para todas as gerações. Assim, pois, «a piedade da Igreja para a Santíssima Virgem é um elemento intrínseco do culto cristão»[vii]. O Catecismo nos ensina uma distinção muito importante[viii]: «A Santíssima Virgem “é honrada com razão pela Igreja com um culto especial. E, com efeito deste os tempos mais antigos, venera-se a Santíssima Virgem com o título de ‘Mãe de Deus’, sob cuja proteção se acolhem os fiéis suplicantes em todos os seus perigos e necessidades

[…] Este culto […] embora totalmente singular, é essencialmente diferente do culto de adoração que se dá ao Verbo encarnado, o mesmo que ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece muito poderosamente” (Lumen gentium, 66)».

Portanto, nós, católicos, não adoramos Maria[ix]. Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – é o único a quem rendemos adoração, pois é o único Deus. Professamos veneração a ela, um profundo amor de filhos seguindo a indicação do próprio Jesus e buscamos acolher em nossa vida a função dinâmica que Ela, por desígnio de Deus, tem na vida de todo cristão.

O Ano da fé é um tempo de graça para aprofundar no que nos ensina a fé da Igreja sobre Santa Maria e seu lugar na obra da reconciliação, assim como para renovarmos em nossa adesão ao Caminho da piedade filial que o Senhor Jesus nos convida a percorrer como um caminho de amor e de encontro pleno com Ele.

Maria nos precede na fé

O segundo aspecto no qual podemos nos deter é em considerar o exemplo de Maria, particularmente como modelo de fé. O Papa Bento XVI faz uma magnífica síntese que nos mostra como toda a vida da Virgem está construída sobre o sólido alicerce da fé: «Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e trepidação, deu à luz o seu Filho unigênito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egito a fim de O salvar da perseguição de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma fé, seguiu o Senhor na sua pregação e permaneceu a seu lado mesmo no Gólgota (cf. Jo 19, 25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. At 1, 14; 2, 1-4).[x]

A resposta de fé de Santa Maria é, pois, para todos nós, modelo de adesão dócil e obediente ao Plano de Deus. Ela «realiza da maneira mais perfeita a obediência da fé»[xi], e por isso «a Igreja venera em Maria a realização mais pura da fé»[xii].

Tudo isso nos leva a perguntar-nos: que posso fazer para aprofundar a fé que recebi? Sendo a fé um dom – recebido em nosso Batismo – requer, todavia, uma adesão pessoal e de assentimento livre a toda a verdade que Deus nos manifestou. Este caminho de crescimento e aprofundamento na fé se alimenta constantemente da oração na qual, como aquele homem do Evangelho, pedimos: creio, Senhor, mas aumenta nossa fé![xiii] Neste caminho o exemplo e modelo de nossa Mãe Maria é um auxílio permanente. Por um lado, Ela continua intercedendo por nós, buscando que o Senhor Jesus cresça no coração de cada um de seus filhos. Por isso peçamos sua intercessão, não duvidemos em colocar sob seu manto maternal nossas intenções e preocupações. Por outro lado, sua própria vida de fé, conforme nos dá conta a Sagrada Escritura, é uma fonte de meditação na qual encontraremos alento e guia para nosso próprio caminho. Santa Maria nos precede na fé e nos dá o exemplo de ter construído sua existência sobre a rocha firme da fé. Ela acreditou no que o Senhor lhe revelou, guardou e meditou em seu coração imaculado a Palavra de Deus e buscou sempre pô-la em prática[xiv]. Não encontramos separação alguma entre o que Maria crê e o que vive. Pelo contrário, Ela é modelo de uma vida unificada na fé que anuncia com todo o seu ser que Jesus é o Salvador do mundo.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Você conhece e aprofunda o que a fé da Igreja nos ensina sobre Santa Maria e sobre seu lugar na história de nossa reconciliação?
  2. Em tua vida espiritual, que lugar tem o amor filial de Santa Maria? Você é obediente às palavras do Senhor Jesus que nos indica Maria?
  3. Você pede a Maria que interceda por ti e te ajude a crescer em tua vida de fé? Você medita e aprofunda em teu coração o testemunho de fé de nossa Mãe?
  4. Você vive uma fé integral como Maria? Tua fé se faz vida cotidiana? A fé ilumina e se expressa em tudo o que você faz?

 

CITAÇÕES PARA A ORAÇÃO

O Senhor Jesus nos indica sua Mãe: Jo 19, 25-27; Lc 11, 27-28.

A fé de Santa Maria: Lc 1,38; 1, 45.46-55.

Maria guarda e aprofunda a fé em seu Coração: Lc 2, 19.51.

Edificar a própria vida sobre a rocha da fé: Mt 7, 24-27; Lc 6, 47-49.

 

GUIA PARA A ORAÇÃO

  1. Invocação Inicial:
    Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
  2. Preparação:
    a) Ato de na presença de Deus.
    b) Ato de esperança na misericórdia de Deus.
    c) Ato de amor ao Senhor Jesus e a Santa Maria
  3. Corpo:
    a) Mente:
    – Medito no que o texto diz em si mesmo;
    – Medito no que o texto diz para mim (em si-em mim);
    b) Coração:
    – Elevo uma prece buscando aderir-me cordialmente àquilo que descubro com a mente
    e abrindo meu coração ao Senhor.
    c) Ação:
    – Resoluções concretas.
  4. Conclusão:
    – Breve ato de agradecimento e súplica: ao Senhor Jesus e a Santa Maria.
    – Rezo a Salve Rainha ou outras orações marianas.
  5. Invocação final:
    – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

TRABALHO DE INTERIORIZAÇÃO

Leia o seguinte texto do Concílio Vaticano II:

«Enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça» (cfr. Lc. 1,28); e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc. 1,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus onipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz Santo Ireneu, «obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano». Eis porque não poucos Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que «o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, foi desatado pela virgem Maria com a sua fé» ( Lumen gentium, 56)

 

  • O que o texto diz sobre a fé de Maria?

  • Que elementos o texto assinala que te podem ajudar a viver melhor a tua fé?

Medita a passagem da Anunciação-Encarnação (Lc 1, 36-38) e à luz deste texto responda:

  • Que atitudes vês em Maria?

  • Por que Maria pôde responder ao pedido de Deus?

  • À luz da meditação, formule algumas resoluções concretas que te ajudem a crescer em tua resposta de fé.

 

 

 

 



[i] Lc 1,45

[ii] Catecismo da Igreja Católica, 964

[iii] Jo 19, 25-27

[iv]Ver At 1, 14; ver também Lumen gentiun, 59

[v] Lumen gentiun, 62

[vi] Lc 1, 48-49

[vii] Paulo VI, Marialis cultus, 56

[viii] Catecismo da Igreja Católica, 971

[ix] Para aprofundar nisso pode-se ler: Lumen gentiun, cap VIII (nn. 52-59); Catecismo da Igreja Católica, nn. 484-511; 963-975; João Paulo II, El Credo, Tomo V (A Mãe do Redentor), Vida e Espiritualidade, Lima 1999, PP 79ss

[x] Bento XVI, Porta fidei, 13

[xi] Catecismo da Igreja Católica, 148-149

[xii] Ver Catecismo da Igreja Católica, 150

[xiii] Ver Mc 9, 24

[xiv] Ver Lc 6,47-49

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