Caminho para Deus 234: Como viver a fé na família?

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«O primeiro âmbito que a fé ilumina na cidade dos homens é a família»[1].  Neste Ano da Fé devemos refletir sobre a responsabilidade que os pais têm no cultivo da fé da própria família, posto que o lar é um lugar privilegiado para o crescimento em uma fé sólida e integral: na mente, no coração e na ação.

O Papa Bento XVI dizia, no Encontro Mundial das Famílias em Valência, que «transmitir a fé aos filhos, com a ajuda de outras pessoas e instituições como a paróquia, a escola ou as associações católicas, é uma responsabilidade que os pais não podem esquecer, descuidar ou delegar totalmente»[2].  Quer dizer, os pais têm o protagonismo insubstituível na educação da fé de seus filhos.  Mas estes, conforme crescem, devem assumir sua própria vida de fé e, certamente, podem ajudar e motivar os pais a serem perseverantes na fé, e a seus irmãos a levar adiante seus compromissos batismais.

Vejamos, pois, de que forma a família pode ir crescendo na fé.

Orar e celebrar a fé em família

Em primeiro lugar, a fé na família cresce na oração, que é como o ar que o cristão respira.  A família cristã nasce na promessa matrimonial.  Cheia da graça da fé, a família se sustenta e se realiza como caminho de santidade, principalmente, pela oração.  É conhecido aquele ditado: “Família que reza unida, permanece unida”.

Crescer na vida de oração é tarefa de todos: dos pais, que vão amadurecendo interiormente; dos filhos, que vão entrando pouco a pouco no mundo dos adultos.  A participação da criança na oração já começa no ventre materno, visto que a mãe é capaz de transmitir a seu filho os mais ternos sentimentos de piedade.  É muito recomendável que as crianças se familiarizem com a vida de oração desde muito pequenas (sobretudo a partir dos 3 anos), pois embora muitos adultos não percebam, nessa etapa as crianças são especialmente sensíveis para as coisas de Deus.  Têm que aprender a rezar não só com o Sinal da Cruz ou com as orações já formuladas (Pai Nosso, Ave Maria, etc.), mas sobretudo com a oração livre e espontânea de ação de graças, prece, louvor e intercessão.

O que podem fazer os pais?  Podem, por exemplo, levantar seus filhos com uma jaculatória, orar por um breve momento antes de sair para a escola ou para o trabalho, elevar preces espontâneas.  Com o passar do dia, agradecer a Deus pelas coisas boas e singelas que ocorrem (o nascimento de um irmão ou primo, a superação de uma enfermidade, a aprovação em um exame, o emprego obtido, etc.).  Um momento privilegiado para orar em família é quando estão juntos na mesa e se agradece a Deus pelo alimento recebido.  Também de noite, antes de deitar-se, é um excelente momento para abençoar os filhos, pedir perdão pelas possíveis faltas, suplicar a Deus sua ajuda para os mais necessitados e renovar os bons propósitos.  Assim, a família vai descobrindo que toda a jornada definitivamente adquire sentido e é iluminada pela presença de Deus.

Também na celebração de todos os Sacramentos a família experimenta um especial crescimento da fé.  De modo especial, na participação da família na Missa dominical: a família descobre a beleza do Dia do Senhor, a importância da escuta da Palavra, e participa ativamente nos ritos sagrados, com a comunidade e o sacerdote. Não é só uma tradição que se deve conservar, mas um momento privilegiado para que os adultos se deixem educar na disciplina do culto, e para educar seus filhos na abertura aos sagrados mistérios da fé.

Não podemos mencionar aqui cada um dos sacramentos e a grande marca de fé que eles podem deixar em cada família.  Mas convém mencionar a importância do Sacramento da Reconciliação (confissão).  As crianças descobrem a riqueza desse sacramento de modo especial quando veem seus próprios pais ajoelhados no confessionário, pedindo perdão a Deus por suas faltas.  Assim, vão descobrindo a importância da humildade, do perdão e da graça de Deus que purifica e fortalece o cristão penitente.

Também é importante cultivar as devoções nas famílias.  Como é importante ter no lar símbolos claros da presença de Deus, como as imagens dos Santos, um oratório, a água benta, o crucifixo ou uma Bíblia aberta, em um lugar privilegiado!  Esse ambiente orante convida à fé, suscitando a confiança em Deus em todos os membros da família.

Finalmente, a oração da família pode acompanhar o tempo litúrgico, quando juntos se preparam para o Natal por meio da celebração da Novena.  Em oração, podem ir acendendo pouco a pouco a Coroa do Advento, e armar o Presépio nos dias prévios à grande festa.  Também cresce a fé na Quaresma, quando a família vive os meios propostos pela Igreja para a celebração adequada do Tríduo Pascal, momento central da celebração cristã da fé, que deve ser vivida intensamente por toda a família.  Dessa forma é como ela se vai fazendo «Igreja doméstica»[3].

Conhecer e professar a fé em família

A família é um âmbito especialmente propício para crescer em nossa compreensão da fé e para aprender a vivê-la.  Tanto os pais como os filhos devem conhecer a fundo o que Deus nos manifestou em Jesus Cristo.  Um meio importante é começar por conhecer a Bíblia, especialmente os Evangelhos.  Nesse sentido, os pais podem receber uma boa introdução através dos cursos oferecidos “online”, em diversas páginas católicas da Internet, ou nas paróquias e movimentos eclesiais.  A leitura da Bíblia não deve ser só informativa (procurando saber o que Deus diz), mas deve incluir a pergunta, em forma de oração: o que O Senhor quer me dizer com esse texto?  Como ilumina minha vida?[4]  Instruídos pela Sagrada Escritura, os pais estarão preparados para iluminar suas vidas segundo a Palavra de Deus, e bem dispostos para orientar seus filhos nos caminhos do Plano Divino.

Em família todos podem ajudar-se mutuamente a informar-se, inclusive utilizando os meios de comunicação (televisão, rádio, internet, redes sociais, etc.) para aprender sobre sua fé e para transmiti-la aos outros.  Hoje em dia existem muitas ferramentas que podem ser utilizadas para formar-se na fé.  Mas é importante ir às fontes mais seguras de informação, e saber “filtrar” o mau que possa haver nos programas ou textos que apresentam valores deturpados, ou que caluniam pessoas ou instituições da Igreja, promovendo atitudes claramente contra o Evangelho.

A leitura e o estudo do Catecismo da Igreja Católica é um excelente meio para crescer na fé. Às vezes os pais pensam que a etapa de “catequese” é só na infância. Na realidade, a “catequese” é o esforço contínuo da Mãe Igreja para ensinar a todos os seus filhos a conhecer, celebrar e viver os ensinamentos de Cristo[5].  Portanto, temos que nos entender sempre nesse caminho de formação na fé, sem importar a idade.  Além disso, o fato de conhecer os ensinamentos do Catecismo (disponível nas livrarias ou na internet) permite aos adultos entender como conciliar a fé e a cultura, seu trabalho e a família, a oração e a ação, e também corrigir os enganos ou esclarecer dúvidas de seus filhos nas questões que eles, sobretudo na adolescência e na juventude, costumam formular.

Testemunhar e anunciar a fé em família

Uma fé sem obras é uma fé estéril, “morta”, como nos recorda o apóstolo Tiago[6].  É sobretudo pela fé vivida, com gestos de caridade na verdade, como a família vai descobrindo e amadurecendo no Amor de Deus.  Na família, o amor natural e humano — que em si mesmo é frágil — tem a oportunidade, quando se vive da fé, de transformar-se em amor cristão, duradouro, capaz de suportar toda prova.  Não cabe dúvida de que a fé vivida do seio da família é um canteiro de bons cristãos, de vocações consagradas e sacerdotais, e de futuros Santos.

Como viver a fé?  Para encontrar uma resposta, uma boa sugestão pode ser recorrer ao que nos ensina a Palavra de Deus, com a vivência dos Mandamentos, subentendidos no duplo mandamento do Amor[7] e no que a Igreja nos convida a viver por meio das 14 Obras de Misericórdia (corporais e espirituais)[8], levando o cumprimento da lei de Deus à sua plenitude por meio da caridade.

Um cristão autêntico vive a caridade de forma concreta.  Começa a praticá-la a partir de casa, pela forma como se tratam mutuamente os esposos, os pais e filhos, os irmãos, assim como todos os parentes e até entre os vizinhos.  Vive-se através do serviço — especialmente para com as pessoas mais necessitadas —, o perdão (inclusive aos inimigos), a escuta, a acolhida, a companhia, a renúncia ao egoísmo, a abnegação, a moderação, a humildade, o pudor, a paciência… quer dizer, de muitas formas. Quando as crianças veem os adultos vivendo a caridade, são capazes de ver o Evangelho transformado em vida neles, e descobrir que o Amor de Cristo não é uma utopia, é real, salvador e reconciliador.

Finalmente, é importante viver em família o caminho da conversão. Quando os pais tomam a valente decisão de não educar “segundo a corrente” (“porque todos o fazem”), os filhos também se nutrem de valor para viver e dar testemunho do Evangelho em qualquer circunstância.  Unida no Senhor, a família é capaz de fazer presentes os valores do Evangelho em seu meio social, trabalhista, em seus centros de estudo ou de trabalho.  Também é capaz de fazer frente às tentações e lutar contra o pecado, vivendo a prudência e o discernimento dos caminhos de Deus.

Os membros da família, por conviver uns com outros de uma forma intensa, podem ajudar-se na vigilância pessoal, na ascética dos momentos difíceis e de renuncia ao excessivo conforto e bem-estar.  Podem apoiar-se mutuamente na resolução dos bons propósitos, para uma conversão cada vez mais profunda.  Dessa forma, em oração e em amizade, a família pode ser um sinal patente da força do Espírito Santo no mundo, que renova todas as coisas, e se torna “missionária”, comunicando com alegria sua fé viva no Senhor Jesus.

Passagens Bíblicas para a oração e meditação

A fé como fundamento da família: Sal 126,1-5.

O amor mútuo na família: Ef 5,21-33; 6,1-4.

Orar e celebrar a fé em família: Lc 2,41-42.

Formar-se e professar a fé em família: Dt 11,19; Is 38,19.

Viver e testemunhar a fé em família: Mt 18,6; 2Tim 1,5.

Perguntas para o diálogo

  1. Como assumo minha responsabilidade em viver e transmitir a fé em minha família?
  2. Promovo momentos de oração em minha família? Participo da Liturgia da Igreja com minha família?
  3. De que forma posso promover a formação na fé em minha família? Conhecemos o Catecismo da Igreja Católica em minha família?
  4. Que obras de caridade realizamos em minha família? Minha família dá testemunho do Evangelho com seus atos e formas de agir? O que posso fazer para ajudar para que minha família viva ainda mais a fé?

Trabalho de interiorização

  1. Leia e medite em Mt 7,24-27.

A “rocha” da parábola é a fé em Jesus Cristo. Pergunte-se: Minha casa está “construída sobre a rocha” da fé no Senhor Jesus? Ou acaso está “construída sobre a areia” das falsas promessas, das ilusões, da fragilidade e limitação das coisas do mundo? Como fazer para que minha família esteja fundada sobre a fé?

  1. Leia este texto da Carta Encíclica Lumen fidei do Papa Francisco, N. 53:

«Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé».

Você tem consciência de que a fé pode estar presente em todas as etapas de sua vida, e da vida de seus familiares?  Pense em cada membro de sua família, e em como você pode ajudá-los para que vivam mais intensamente sua fé.

  1. Creu ele, e toda sua família” (Jo 4,53) Você pode dizer o mesmo a respeito de si mesmo e de sua família?

Notas

[1] Papa Francisco, Lumen fidei, n. 52

[2] Papa Bento XVI, Discurso no V Encontro Mundial das Famílias, 8 de julho de 2006.

[3] João Paulo II, Familiaris consortio, n. 21.

[4] Ver Bento XVI, Verbum Domini, n. 87.

[5] Ver Catecismo da Igreja Católica, nn. 4-5.

[6] Tg 2,20.

[7] Ver Mt 22,37-39

[8] Ver Catecismo da Igreja Católica, n. 2447.

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