Como lidar com as falhas dos outros?

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Em uma passagem conhecida do Evangelho, Pedro se aproxima de Jesus e lhe pergunta quantas vezes deve perdoar o irmão que pecar contra ele. Como quem intui a resposta, antes de Jesus responder, Pedro diz: “Até sete vezes”? Jesus, por sua vez, tomando a palavra, supera Pedro dizendo que não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete (Mt 18, 21). O Senhor nos convida a uma generosidade no perdão e na misericórdia que supera em muito as nossas expectativas, será que estamos dispostos a tanto?

Na medida em que aumentam os pecados, devemos aumentar também o perdão. É isso que Jesus parece querer dizer não apenas nessa passagem, mas também em outras nas quais se delineia o perfil do cristão como uma pessoa que não responde o mal com outro mal, mas com um bem. Passagens como essa de Mateus: “àquele que te fere na face direita, oferece-lhe também a esquerda; e aquele que quer te tomar a túnica, entrega-lhe também o manto (Mt 5, 39) ”.

Isso tudo na teoria é muito bonito, mas viver assim não é tão fácil e qualquer um que já experimentou a real dificuldade de perdoar sabe disso. Não é fácil lidar com a falha dos demais, mas precisamos fazê-lo se queremos seguir o exemplo de Jesus. Dentre as posturas que podemos tomar diante das falhas que percebemos, gostaria de pensar em duas que talvez nos ajudem a viver melhor o perdão.

Uma primeira atitude poderia ser a de uma indiferença, pelo menos exterior. Essa é uma atitude que logo de cara percebemos que não é a melhor, no entanto, se faz realidade muitas vezes. Frente a uma ofensa nos fechamos e tratamos de que não transpareça que ficamos ofendidos. O que gostaríamos é que a realidade pudesse continuar como se nada tivesse acontecido. Isso acontece também quando nós somos os ofensores. Aqui não existe o perdão simplesmente porque nem sequer há diálogo. Talvez a pessoa nem se deu conta da ofensa que fez, mas como tudo fica guardado no interior, existe a possibilidade de que nunca saibam o mal que fazem. Esse é o campo dos ressentimentos, das mágoas. Não parece muito saudável essa atitude.

Também podemos abrir o nosso coração e dizer o que estamos experimentando. Dizer que nos sentimos ofendidos e colocar as razões para tal. Dar a oportunidade de que nos peçam perdão se não se faz espontaneamente. Sempre devemos lembrar que se somos ofendidos, também somos capazes de ofender e talvez o façamos muitas vezes porque somos pecadores também. Colocar-nos ao lado do irmão que ofende e não acima dela é muito importante para poder entender e perdoar, porque se hoje eu sou o ofendido, amanhã posso ser o ofensor. Todos precisamos do perdão e da misericórdia, sobretudo de Deus, mas também dos nossos irmãos.

Essas duas atitudes não são as únicas, pode-se da, por exemplo, o caso de que mesmo dizendo a ofensa, não nos seja pedido perdão. Caberá então que busquemos perdoar da nossa parte, para que não cresça em nós nenhum rancor. Mas o ponto fundamental é que a realidade do perdão é central na vida do Cristão. No Pai Nosso pedimos ao Senhor que perdoe as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido. O perdão de Deus está intimamente relacionado com o perdão que nos damos entre nós.

De fato, na sequência da passagem que abriu esse texto vemos uma parábola contada por Jesus que ilustra muito bem como Deus é rico em perdão conosco e que nós muitas vezes não temos a mesma disponibilidade em perdoar coisas muito menores dos nossos irmãos. No final dessa parábola o senhor chama o servo que não perdoou seu igual e diz algo que vale para cada um de nós: “Não devias, também tu, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? (Mt 18, 33) ”

Por João Antônio Johas Leão

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