Conversão ecológica

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O “Dia da Amazônia” que celebramos há poucos dias atrás foi uma ocasião muito favorável para refletirmos sobre a relação que possuímos nós, os seres humanos, com toda a criação que Deus nos estregou para que cuidássemos. Não é nenhum segredo que essa relação que deveria ser de cuidado, reverência e gratidão, é muitas vezes substituída por uma simples relação interesseira, egoísta ou simplesmente indiferente e apática. Em sua última encíclica, Louvado Seja, o Papa Francisco nos convida a uma conversão ecológica. O que significa isso? Qual é a sua importância? Como realizar essa conversão específica?

Olhando para o mundo, qualquer pessoa com um mínimo de consciência e honestidade reconhece que existem muitas coisas erradas. E não apenas relacionadas a ecologia. A Mentira, a guerra, a ambição, a miséria, a fome e muitas outras realidades são tão evidentes que não podemos fechar os olhos para elas. Entre essas crises, a crise ecológica, que tem ganhado mais espaço nas consciências de hoje, é um chamado a conversão interior.

O Papa alerta, no entanto, que muitos cristãos não dão o valor real a esse problema ecológico. A conversão ecológica que lhes falta é justamente isso: Levar realmente em consideração a dimensão ecológica da crise que atravessamos em geral. Se é verdade que existem outros âmbitos em crise (e é verdade), o encontro real com Jesus implica uma conversão integral, que possui uma inegável consequência ecológica. Deixar essa dimensão de lado é, no fundo, uma incoerência em nossa vida cristã.  O Papa comenta, para fazer isso mais claro e iluminar a consciência dos cristãos, aquela passagem em que Jesus diz a respeito dos pássaros: «nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc12, 6). Se Deus se importa tanto assim com os pássaros (e por extensão, com toda a criação), como não vamos nós também nos preocupar?

O primeiro passo para essa (e qualquer outra) conversão é o reconhecimento dos pecados. Perceber que muitas vezes somos negligentes com relação ao cuidado que devemos com a criação. Depois precisamos arrepender-nos, pedir perdão e procurar mudar. Em outras palavras, precisamos fazer com que a Reconciliação que o Senhor Jesus nos trouxe seja efetiva também na dimensão ecológica, também chamada de quarta ruptura (As outras três rupturas são as seguintes: Com Deus, consigo mesmo e com o próximo). Fruto dessa reconciliação será uma mudança de atitude frente a realidade criada. O Papa coloca algumas atitudes: Gratidão e gratuidade, renúncias e generosidade, consciência de que formamos com a criação uma “estupenda comunhão universal”.

A partir dessa conversão ecológica, o cristão começa a pensar no mundo de maneira diferente e isso lhe possibilita inclusive esforçar-se por mudar os problemas que encontra. Essa conversão o faz mais comprometido com a realidade que o rodeia e que é sua responsabilidade cuidar. O Papa, entretanto, lembra que não basta apenas que cada um seja melhor, porque essa soma de “melhores pessoas individuais” não mudará o mundo. O que se necessita é uma conversão também comunitária, para fazer, segundo o Papa, que nesse momento cita Romano Guardini, uma “união de forças e uma unidade de contribuições”.

Com tudo isso, percebemos um chamado muito claro para fazer que o dom da vida cristã que recebemos no batismo se desdobre em todas as suas consequências, com particular ênfase na dimensão ecológica desse dom, que é inegável e importante de ser considerada. E que a partir dessa “conversão ecológica”, possam os cristãos lutar por cuidar da criação de Deus de maneira mais responsável e consciente.

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