Lectio – Aos que estão de fora é tudo em enigmas (Mc 4, 11-12)

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8“Disse-lhes: “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que vendo, vejam e não percebam; e ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e não sejam perdoados”” (Mc 4,11-12).

Em si

Os versículos são a resposta de Jesus aos discípulos, que lhe perguntam, depois de ter o Mestre proferido a parábola do semeador, por que fala em parábolas.

Jesus responde citando Isaias (6,9-10), conforme ao Targum, texto que se comentava nas sinagogas o que, segundo os comentaristas jesuítas, “diz muito em favor da historicidade da cita nos lábios de Jesus” (p. 379).

Segundo esses mesmos comentaristas, “Jesus viu no texto de Isaias e na pregação do profeta um tipo da sua própria pregação” (p. 380). Os versículos do profeta são parte do relato da vocação do profeta, posta em retrospectiva, “quando sua missão aparecia de fato já como um fracasso” (p. 378) levando à interpretação da mesma como uma missão de cegueira: “Deus o enviava a pregar para iluminar o povo para sua conversão; mas como Deus, por seus juízos segredos, ia permitir que o povo continuasse na sua cegueira, de fato o enviava para cegar o povo” (Lug. Cit.).

O Papa Emérito Bento XVI, comentando a passagem, aponta para dois sentidos principais da mesma, um mais teológico e outro relacionado com a pedagogia humana presente nas parábolas. O sentido teológico consiste no colocar-se de Jesus na mesma linha dos profetas, que fracassam, porque “a sua mensagem contradiz demasiado a opinião geral, os hábitos de vida adquiridos. Só por meio do seu fracasso é que a sua palavra há de tornar-se eficaz (…) Este é também, antes de mais nada, o destino de Jesus de Nazaré: Ele termina na cruz. Mas precisamente a partir da cruz vem a grande fecundidade” (Jesus de Nazaré, Primeira parte, p. 170). O Papa Bento relaciona este elemento com a parábola da semente (Cf. Jo 12,24), já que o fracasso de Jesus na cruz “é precisamente o caminho para chegar a todos, dos poucos aos muitos: “E Eu, quando for elevado da terra, hei de atrair todos a Mim” (Jo 12,32) ” (Lug. Cit.). Sobre este primeiro sentido teológico, conclui então que “camufladamente, as parábolas falam do mistério da cruz; elas não falam apenas disso –elas lhe pertencem” (Ob. Cit., p. 171).

Quanto ao aspecto especificamente humano presente na citação, o Papa Emérito explica que “trata-se aqui de um duplo movimento: por um lado, a parábola traz o que está longe para a proximidade dos ouvintes. Por outro lado, o ouvinte é ele mesmo, deste modo, posto a caminho” (Ob. Cit., p. 171-172). Quanto a este segundo aspecto, explica Bento XVI que o Senhor Jesus “nos mostra Deus, não um Deus abstrato, mas o Deus que age, que entra em nossa vida e que nos quer tomar pela mão” (Ob. Cit., p. 172), mostrando-nos, por meio do nosso cotidiano, o que temos de fazer. Este conhecimento é, ao mesmo tempo, exigente: “crê e deixa-te conduzir pela fé” (Lug. Cit.).

Diante de uma proposta deste tipo “a possibilidade da recusa é muito atual: falta à parábola a necessária evidência” (Lug. Cit.) e “são possíveis milhares de objeções razoáveis” (Lug. Cit.): “as parábolas conduzem então na realidade a não saber e ao não compreender, à “dureza de coração”” (Ob. Cit., p. 173).

 

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Membro do Sodalício de Vida Cristã. Doutorando em Filosofia.

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