Meditação sobre o tempo da Quaresma

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I – A QUARESMA NO TEMPO

Quando ainda estava no Colégio, me lembro de uma frase de uma amiga durante uma aula de Religião: eu não vou à Missa. Acho muito chato. Sempre as mesmas coisas: leituras, partes da Missa, cantos, gestos, símbolos… enfim, era tudo sempre a mesma coisa. Eu, como católico (bom, na verdade ainda nos começos da minha caminhada na fé. Tinha tão somente 15 anos), me senti na obrigação de defender o “ir à Missa”. Mas, bem no fundo, achava que a minha amiga tinha “algo” de razão. Não era mentira. As leituras, cantos e estrutura da Missa eram as mesmas. Variava uma que outra coisa, mas eram essencialmente os mesmos. Até hoje sinto o eco daquela frase. Eco que às vezes vem com a ajuda de fora (acho que muitos jovens e adultos de hoje também pensam isso), mas também um eco que vem de dentro, da própria experiência.

Sim, a experiência da rotina. Quando começa um novo tempo litúrgico (especialmente Quaresma e Advento) me vem uma sensação de “mais uma vez”. Não me assusto. Acho isso normal. Claro, tudo dependerá de a que me leve essa experiência: se for ao desânimo-desesperança, algo anda errado comigo. Se for a uma disposição de abrir-me à novidade escondida no “de sempre”, bom, acho que é por aí. Explico-me.

A Igreja quando faz a divisão do ano litúrgico em tempos (Advento, Natal, Tempo Comum, Quaresma e Páscoa), ela no fundo tem dois fundamentos: o primeiro é o de seguir a vida de Jesus. No Ano Litúrgico tratamos de acompanhar o Senhor pelos mistérios de sua vida (Nascimento, Batismo, Vida Pública, Paixão, Morte e Ressurreição, Ascensão aos Céus. E, especialmente na Páscoa, a vida da nascente Igreja). Mas o segundo é o dinamismo da encarnação. Talvez aqui seja um pouco mais abstrato, mas vamos lá. Jesus ao assumir a humanidade, assumiu a história, com seus ciclos, ritmos e repetições. Jesus respeitou os limites do tempo. E trouxe um “tempo novo”. Esse “tempo novo” que veio trazer não é um fim ao calendário ou as verões e invernos que marcam o ritmo do terreno. Não. Esse “tempo novo” traz uma nova atitude que nos permite mergulhar no espaço do cotidiano sem afogar-nos nos caixotes[1] da rotina.

Pois é, a minha amiga tinha razão. Na Igreja fazemos sempre as mesmas coisas. Mas também não é certo que todos os anos celebramos mais um ano de vida? Todos os anos não celebramos a chegada de um ano novo? Não esperamos todos os anos o mesmo Carnaval? Ou a chegada do inverno para aliviar o calor? Ou do verão para aquecer o inverno? A nossa vida não está ordenada a modo de ciclos (infância, juventude, adultez e velhice)? Ou até mesmo estudo, aprendizagem, trabalho e aposentadoria? Sim, os ciclos e as repetições dos ciclos são característica básica da experiência humana. Tratamos de “fugir” deles e associamos isso a uma necessária experiência de liberdade.

Fazendo um parêntese, gostaria aqui de alertar ao dinamismo próprio da natureza que, dentro dos ciclos, tem uma rejeição às mudanças bruscas. Na passagem da infância à juventude sempre há uma adolescência. Na mudança do verão ao inverno (expressando as antíteses de calor e frio) sempre há um outono para preparar o frio. E do inverno ao verão, sempre há uma primavera que anuncia a vinda do calor.

Portanto, não há problema que seja “sempre o mesmo”. Não mesmo. E a Quaresma vem dentro do “ritmo de sempre”, marcado –isso sim– pela única existência histórica de Jesus neste mundo. Assim, a Quaresma para mim é uma espécie de outono ou primavera do ano, pois prepara, seja para o verão, seja para o inverno. Explico-me.

Aqui associarei –confesso que por preferência pessoal[2]– o verão ao tempo das dificuldades e o inverno ao tempo onde a vida parece-nos mais suave, mas fácil.

A Quaresma prepara o verão, prepara para a Cruz. É, nesse sentido, primavera. A primavera é marcada por duas características principais: a primeira é o reflorescimento da flora e a segunda o clima ameno. Tratando de associar essas duas características à vida cristã, diria, em primeiro lugar, que a Quaresma é tempo de “reflorescimento cristão”, de voltar aos elementos básicos de nossa fé, de pensar na vida de Jesus e na sua morte, de chorar nossos pecados e, assim, de voltar à semente da fé, de cuidá-la e fazê-la crescer, florescendo, germinando.

Mas também esse “clima ameno” há de ser característico neste tempo. Tempo de silêncio, de introspecção e reflexão. Tempo daquele “cafezinho quente” pra alma, onde tanto os assuntos mais simples como os mais complicados são vistos com parcimônia. Essa parcimônia é fruto do saber-se observados e queridos por Deus com misericórdia. Assim há de ser vivida a penitência. Nesse clima. Penitência não é castigar-se e, sim, tempo de medicar-se espiritualmente. E tem remédio que é ruim pra diacho! Mas cura, sendo, assim, imprescindível.

A Quaresma também prepara para o “inverno”, prepara à Ressurreição. É, nesse sentido, outono. A grande característica do outono é a redução da luz solar diária. Também a Quaresma é um período no qual experimentamos esse “abandono da Luz”. Tal abandono é sentido especialmente na Cruz. O Tempo de Quaresma nos convida a entrar nessa pedagogia de Deus que prepara os grandes acontecimentos, as grandes Revelações, trás períodos de sentida ausência, de sensível ocultamento, onde a falta da clareza de ideias, fruto da iluminação de Deus, parece deixar-nos à mercê dos caminhos da escuridão. Pois bem, na Quaresma podemos chegar a “palpar” esse abandono da Luz. Talvez ao aproximar-nos aos nossos pecados e aos da humanidade –que são essencialmente ausência de Deus– sintamo-nos longe de Deus ou Deus longe de nós. Mas esse “outono da fé”, essa diminuição de luz, há de ser vivido na certeza de que o “inverno da Ressurreição” já veio. Assim, somos capazes de entender os sentidos desertos da vida, com a segurança de que se nos atrevemos a cruzá-los nos daremos inevitavelmente de cara com o oásis da vida.

II – O TEMPO DE QUARESMA

Depois dessa breve introdução sobre “a Quaresma no tempo”, gostaria então de fazer algumas breves recomendações sobre o “como viver” este Tempo de Quaresma. Obviamente contamos com as recomendações maternais da Igreja para isso. Estão a oração, a esmola e o jejum. Se juntadas ao ano da Misericórdia proposto e iniciado pelo Papa Francisco, teremos: oração, jejum, esmola e misericórdia.

A misericórdia seria a “massa da torta”. O ingrediente básico ao qual se unem os outros. Gostaria que neste tempo enfrentássemos nossos pecados com realismo. Com o realismo da misericórdia. Que os chamássemos pelo nome próprio: preguiça, luxúria, avareza, vaidade… enfim. Uma vez tendo enfrentado e assumido o próprio pecado perguntar-se: como Deus olha o meu pecado? Há pouco tempo li um livro do Padre Marko Iván Rupnik, chamado “En el fuego de la zarza ardiente[3]” no qual ele contava a seguinte história (vou transcrevê-la, com liberdade de tradução):

Um dia eu estava falando com um estudante no meu estúdio e no cavalete tinha acabado de pintar um rosto de Cristo de grandes dimensões. Era o período no que me aproximava a uma interpretação bizantina da figura de Cristo e era um rosto luminoso, de sofrimento, mas majestoso, com dois grandes olhos de compaixão. Estávamos sentados cada um de um lado do cavalete. Pergunto ao estudante:

– Para você, Cristo a quem está olhando?

– Olha pra mim.

Digo que ele se levante, que continue olhando a Cristo e vá vindo passo a passo na minha direção. Pergunto-lhe novamente:

– Agora você está sozinho, e tem a cabeça cheia de maus pensamentos, violentos. O que Cristo faz?

– Olha pra mim –responde.

No seguinte passo eu lhe digo:

– Um sábado pela noite você está com seus amigos, bêbado. O que Cristo faz?

– Olha pra mim – responde de novo.

Dá mais um passo e eu pergunto:

– Agora você está com a sua namorada, e vive a sexualidade, tal como você me disse, de forma que isso agita a sua memória. O que Cristo faz?

– Me olha com a mesma benevolência.

Quando já estava a ponto de chegar à parte onde eu me encontrava, digo-lhe:

– E você agora está na Igreja, na Missa, e faz as leituras. O que Cristo faz?

– Olha-me com uma grande compaixão.

– Muito bem –lhe digo– quando você sinta sobre você, em todas as circunstâncias de sua vida, esse olhar compassivo e misericordioso de Cristo, será verdadeiramente uma pessoa espiritual, será novamente completamente íntegro, próximo ao que podemos chamar paz interior, serenidade da alma, felicidade da vida. Quando você se descubra em seu olhar misericordioso e sinta o amor que o envolve como um bálsamo, mudarão todas as situações que acabamos de mencionar. O homem muda à consequência do amor que inunda seu coração. Peca por falta de amor ou, melhor dizendo, pela não aceitação do amor que o espera no coração.[4]

Pois bem, a experiência da misericórdia de Deus, de que Deus nos ama sempre, é o elemento fundamental desta Quaresma. Citando a Rupnik, é o bálsamo que dá bom odor a nossa vida. Nesta realidade é que são gestadas as grandes revoluções pessoais na História da humanidade.

E o amor leva a amar. A experiência de descobrir-se amados há de ter esse poder de entender a vida como possibilidade de amar. Sempre. Só dentro dessa realidade do amor somos capazes de entender (e viver) os meios que a Igreja nos propõe (especialmente) para este tempo.

A oração –diria eu– é o primeiro lugar onde viver o amor. É a “hora marcada” entre esses dois amantes que são Deus e o homem. A oração é, assim, escola de amor, escola de misericórdia, onde Deus atua como professor e nós somos convidados a sermos alunos atentos. Mas é mais do que isso, pois o que Deus transmite é mais do que conhecimentos. Deus dá-se a si mesmo. Na oração Deus novamente se entrega ao homem. Totalmente. Gostaria que na Quaresma voltássemos a essa realidade: Deus se entrega a nós, a mim. Comumente na oração estamos muito focados em nós mesmos: dificuldades, gostos, experiências, tempos etc. Façamos o exercício de dizer: Deus está presente, doando-se, amando-me, olhando-me com compaixão. Talvez não recebamos gratificações sentimentais a isso. Esse não é o objetivo. O objetivo é que nos aproximemos mais ao que realmente acontece.

Da oração gostaria de remeter-me ao jejum. Se na oração podemos ressaltar a nossa relação pessoal com Deus, no jejum refletimos sobre a nossa relação com nós mesmos: “eu comigo”. O jejum estritamente refere-se à abstenção de alimento. Para entender facilmente, é só lembrar-nos da necessária abstenção de alimento antes de um exame de sangue ou de uma cirurgia. Também tem gente que prefere dar aula, dar uma palestra ou até mesmo celebrar a Missa –como no meu caso– devido a uma sensação de “estar mais leve”. Tem gente que faz jejum de certos alimentos porque fazem mal a sua saúde. Que o digam os diabéticos, os intolerantes à lactose ou os alérgicos. Também o jejum faz parte de toda boa dieta. Casos à parte, o jejum tem um papel de preparação para algo, não é um fim em si mesmo. Ao mesmo tempo, tem um caráter pedagógico. Tem um aspecto espiritual. Diria que –dentro deste aspecto– tem duas finalidades principais: a primeira de educar a vontade. De aprender a renunciar a algumas coisas. De controlar-se, de ser dono de si. Há tantas coisas na vida às quais devemos renunciar… mas como falta esse senhorio sobre a vontade para fazê-lo! Pois bem, o jejum ajuda a isso. Mas um segundo objetivo é o da solidariedade. Em Israel se jejuava para lembrar-se da falta de alimentos no deserto. Era um memorial. Também é ocasião de experimentar a fome dos que não tem o que comer. De lembrarmos deles. De rezar por eles. Talvez disso venha a consequência de um maior compromisso com eles. Tomara.

Oração –relação com Deus–, jejum –relação comigo mesmo– e o terceiro meio proposto pela Igreja para a Quaresma incide diretamente na minha relação com os demais: a esmola. A esmola é uma dádiva caridosa feita aos pobres. É um gesto de ajuda, de disponibilidade, de solidariedade. É um gesto que convida a mais. É um começo de algo. Assim como o jejum trata de gerar um maior controle sobre a vontade, a esmola tem o papel de abrir a porta da minha vida a outro. A outro que necessita. Na esmola, mais importante do que o “quanto” é o “como”. A esmola não há de ser um gesto movido simplesmente pela pena. Trata de ser uma mensagem com relação à dignidade do outro. Em cada esmola, deveríamos refletir em que a verdadeira esmola para os demais somos nós mesmos. Eu sou a esmola da qual os demais precisam. Essa consciência leva a abrir ainda mais a porta das nossas vidas aos demais. Dá-se um movimento de entrada e saída do nosso próprio interior. A Quaresma há de levar-nos a essa conclusão: não nasci para viver fechado em mim mesmo. Sou um dom. Um dom de Deus para os demais.

CONCLUSÃO

Situar a Quaresma no tempo é importante para entender o tempo de Quaresma. Que essa breve meditação possa ajudar nesse entender-se como cristãos, filhos de um tempo, sujeitos parte da história. Mas que esse tempo e história adquiram sempre em Cristo seu significado definitivo.

Aproveitemos também para olhar a Maria, Nossa Mãe na ordem da graça.

Que sua oração tão bem expressada no diálogo do Magnificat;que seu jejum, sobretudo o jejum do pecado, que a fez forte para permanecer de pé junto à cruz do seu Filho;e que sua esmola, percebida na Visitação, mas sobretudo no dom de si mesma a Deus e, consequentemente, aos demais, sejam sempre inspiração em nossa peregrinação neste mundo.

Pe. Fernando Genú


Notas

[1] Ondas que arrebentam inesperadamente e arrastam os banhistas.

[2] Isso porque tem gente que prefere o verão ao inverno. Não é o meu caso.

[3] No fogo da sarça ardente.

[4] Rupnik, Marko Iván, En el fuego de la zarza ardiente, PPC, p.113-114.

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