II Domingo da Páscoa - Ano C

I. A PALAVRA DE DEUS

At 5, 12-16; Sl 117,2-4. 22-24.25-27; Ap 1, 9-13. 17-19; Jo 20, 19-31

II. APONTAMENTOS

O Evangelho deste Domingo fala de duas aparições do Senhor Ressuscitado, em ambos os casos, estando os seus discípulos reunidos num lugar fechado. A primeira ocorre no entardecer «daquele dia», ou seja, no mesmo dia em que o Senhor ressuscitou.

Segundo a tradição judia, o shabbat é o sétimo dia da semana, em que o povo recordava o dia em que Deus descansou depois de sua obra de criação, o dia que, por mandamento divino, devia ser santificado pelo povo de Israel mediante um descanso absoluto (ver Ex 20,9-11). O dia que seguia ao sábado iniciava uma nova semana, e era considerado, pois, como “o primeiro dia da semana”. Esse foi o dia em que Cristo ressuscitou, o dia que, portanto, remete ao dia em que Deus iniciava a obra da criação (ver Gn 1,1-5), o dia em que Deus criou a luz e separou-a das trevas. O simbolismo e paralelismo permite compreender que «naquele dia», no primeiro dia da semana, Deus iniciava uma nova criação em Cristo, por sua ressurreição. Cristo ressuscitado, vencedor da morte, é a luz do mundo, o Sol de Justiça que dissipa as trevas que o pecado do homem lançou sobre o mundo inteiro. Este é o dia em que Deus torna tudo novo (ver Is 43,19s).

A aparição seguinte do Senhor ressuscitado aos seus discípulos, relatada pelo evangelista São João, ocorreu «oito dias depois» (Jo 20,26) naquele mesmo lugar em que se encontravam reunidos (ver Jo 20,19.26). «Oito dias depois» quer dizer, segundo o costume judeu de incluir o dia presente ao fazer a contagem dos dias, uma semana depois. Portanto, aquele “oitavo dia” coincide novamente com “o primeiro dia da semana”.

Estas aparições do Senhor em meio da “ekklesia” ou “assembleia” de discípulos (ver Catecismo da Igreja Católica, 751) se constituíram na origem da tradição de se reunirem os cristãos “no primeiro dia da semana” para celebrar a Ceia do Senhor, a Eucaristia, na qual o Senhor, morto e ressuscitado, após a consagração do pão e do vinho, se torna realmente presente (Catecismo da Igreja Católica, 1374-77). Por tudo isto, muito apropriadamente se denominou este dia de o Dia do Senhor, em latim “Dies Domini” ou “Dominica dies”, donde provém nossa palavra “Domingo”.

«O Domingo é o dia da fé por excelência, dia em que os crentes, contemplando o rosto do Ressuscitado, são chamados a repetir como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus» (Jo 20,28), e a reviver na Eucaristia a experiência dos Apóstolos, quando o Senhor se apresentou no cenáculo e lhes comunicou seu Espírito» (S.S. João Paulo II).

Na primeira aparição, recorda São João que «estavam os discípulos numa casa, com as portas fechadas por medo dos judeus, quando entrou Jesus, e se pôs no meio deles lhes dizendo: “A Paz esteja convosco”» (Jo 20,19). A paz é um dom divino para o ser humano, a qual brota da obra reconciliadora realizada pelo Senhor Jesus no Altar da Cruz (ver 2Cor 5,19). Por sua Paixão, Morte e Ressurreição, Cristo reconciliou o ser humano com Deus, consigo mesmo, com seus irmãos e com a criação inteira. Esta reconciliação passa pelo perdão dos pecados, que são causas justamente da quádrupla ruptura que Cristo veio reconciliar.

Mediante seu sacrifício reconciliador, o Senhor Jesus obteve para o ser humano o perdão dos pecados, e, soprando sobre seus Apóstolos o Espírito, lhes transmitiu o poder de perdoar os pecados em seu nome, tornando-os ministros do dom da reconciliação: «Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes, ser-lhe-ão retidos» (Jo 20,23). Desse modo, «em virtude de sua autoridade divina, Jesus confere este poder aos homens para que o exerçam em seu nome» (Catecismo da Igreja Católica, 1441; ver tambén n. 1442). Aqui, encontramos o fundamento do Sacramento da Reconciliação, o perdão dos pecados que o penitente obtém mediante a confissão dos pecados feita a um sacerdote, ministro do Senhor. Nenhum católico, salvo que queira ir contra a vontade do próprio Cristo, pode recusar este sacramento argumentando que “eu me confesso diretamente com Deus”.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Quantos não se veem afligidos no dia a dia por experiências de vazio, de solidão, de tristeza e infelicidade, de dor e sofrimento, seja físico, psicológico ou espiritual, de amarguras e ressentimentos, de impaciências, de incompreensões e rivalidades? Quantos não experimentam conflitos interiores que se transformam em tantas ansiedades, medos e temores? Quantos, ao experimentarem a falta de harmonia interior, não anseiam intensamente pela paz?

Muitos, ao não saberem onde encontrar essa paz do coração que traz consigo a alegria e o gozo profundo, o que fazem é somente percorrer erradamente os caminhos da fuga. A diversão superficial, a alegria efêmera, as bebedeiras, o gozo ou o prazer de momento, parecem fazer esquecer por momentos o insuportável peso da angústia e da dor que oprimem o coração. Tais “soluções” ou saídas fáceis somente trazem uma falsa paz, uma efêmera euforia.  Quantos não choram em segredo, enquanto externamente forçam o sorriso e a alegria, desejando esquecer e esconder o seu próprio peso de sofrimento e angústia porque não sabem o que fazer com ele? O remédio que a cultura de morte oferece, termina sendo pior que a doença, e aquilo que parece preencher um vazio e trazer o consolo a um coração quebrado e dividido interiormente, ao passar o efeito paliativo, somente traz um maior peso de frustração, de angústia, uma maior sensação de vazio, de solidão e de sem sentido na vida. Pegos nessa espiral desgastante, sem saber onde ou sem querer buscar a fonte da verdadeira paz, somente fazem consumir “doses” cada vez mais elevadas da mesma “droga”.

Outros tantos se lançam na busca da paz e harmonia interior seguindo chamativas e “inovadoras” doutrinas, terapias, filosofias, práticas, religiões orientais e pseudorreligiões. Cada um é livre de seguir o caminho que queira, porém o triste e paradoxo é que muitos católicos, ao ouvir os mestres e gurus da moda, explicita ou implicitamente deixam de escutar a Cristo –fonte última da paz verdadeira– e os ensinamentos que Ele confiou à Sua Igreja. Como são atuais estas palavras, dirigidas por Deus ao seu povo por meio do profeta: «Duplo mal fez meu povo: deixaram-me, Manancial de águas vivas, para fazerem cisternas, cisternas rachadas, que não retêm a água» (Jr 2,13)!

Para encontrar o remédio adequado é necessário um bom diagnóstico. Donde vem a falta de harmonia e paz interior que experimenta o ser humano? Por que eu próprio me sinto tantas vezes quebrado e dividido interiormente? A revelação sai ao nosso encontro: a falta de harmonia e paz interior tem sua origem no pecado, na rebeldia do homem frente a Deus e a seus amorosos desígnios. Ao romper com Deus, o ser humano se rompe interiormente e cai num processo de desintegração, inclusive psíquica, rompe a comunicação com os seus irmãos e com toda a criação. O pecado, longe de levar o ser humano à plenitude e à glória divina –como havia sugerido a antiga serpente (Gn 3,5)– se voltou contra ele próprio, afundando-o no abismo da morte. Com efeito, ao romper com a Fonte de sua própria vida e amor, a criatura humana se quebrou interiormente nela própria, ingressando, desse modo, num processo de desintegração, inclusive psíquica, rompendo, assim, a comunicação com os seus irmãos e com toda a criação. Frutos amargos desta quádrupla ruptura são a perda da paz e harmonia interior, que se expressam na experiência de vazio, solidão, tristeza, infelicidade, amargura, ansiedades, etc. Desta falta de paz e harmonia no coração humano, surgem todas as contendas, desavenças, divisões e, inclusive, guerras entre os povos.

Qual é o remédio? Onde encontramos a verdadeira e profunda paz que anseiam nossos inquietos corações? Em Cristo, recorda São Paulo, «estava Deus reconciliando o mundo consigo» (2Cor 5,19). Porque Deus nos ama, nos enviou o seu próprio Filho para que Nele encontremos a paz de que tanto necessitamos: «Ele é nossa paz!» (Ef 2,14). Ele, carregando sobre si nossos pecados, reconciliando-nos com o Pai na Cruz, nos abre o caminho para uma profunda reconciliação e harmonia conosco próprios, com todos os irmãos e com toda a criação.

«A Paz esteja convosco!», nos diz o Senhor também a nós, convidando-nos a acolher o dom da paz e reconciliação que Ele nos obteve por sua Paixão, Morte e Ressurreição, convidando-nos a acolher a Ele próprio em nossas vidas e convertendo-nos, também, em agentes de reconciliação em nossa família, em nossos círculos de amigos e ambientes nos quais trabalhamos ou estudamos.

IV. PADRES DA IGREJA

São Cipriano: «O Espírito Santo nos faz esta advertência: “Busque a paz e corra atrás dela” (Sl 33,12). O filho da paz tem que buscar e perseguir a paz, aquele que ama e conhece o vínculo da caridade tem que guardar sua língua do mal da discórdia. Entre suas prescrições divinas e seus mandamentos de salvação, o Senhor, na véspera de sua paixão, acrescentou o seguinte: “Deixo-vos a paz, minha paz vos dou” (Jo 14,27). Esta é a herança que nos deixou: todos os seus dons, todas as suas recompensas que nos prometeu, tendem para a conservação da paz que nos promete. Se somos os herdeiros de Cristo, devemos permanecer na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus, temos que ser pacíficos: “Felizes os pacíficos, serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Os filhos de Deus são pacíficos, humildes de coração, simples em suas palavras, concordes entre si pelo afeto sincero, unidos fielmente pelos laços da unanimidade».

São Gregório Magno: «Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles no momento em que Jesus se apresentou. Somente este discípulo estava ausente e, ao voltar e escutar o que havia ocorrido, não quis crer no que lhe contaram. O Senhor apresenta-se de novo e oferece ao discípulo incrédulo o seu lado para que o toque, mostra-lhe suas mãos e, mostrando-lhe a cicatriz de suas feridas, cura a ferida de sua incredulidade. O que, irmãos muito amados, descobris nestes fatos? Credes acaso que ocorreram porque sim todas estas coisas: que aquele discípulo eleito estivesse, primeiro, ausente; depois, que ao vir, ouvisse, que ao ouvir duvidasse, que ao duvidar tocasse, que ao tocar acreditasse?

»Tudo isto não ocorreu porque sim, mas por disposição divina. A bondade de Deus atuou neste caso de um modo admirável, já que aquele discípulo que havia duvidado, ao tocar as feridas do corpo de seu mestre, curou as feridas de nossa incredulidade. Mais proveitosa foi para a nossa fé a incredulidade de Tomé que a fé dos outros discípulos, já que, ao ser ele levado a acreditar pelo fato de ter tocado, nossa mente, livre de toda dúvida, é confirmada na fé. Deste modo, portanto, aquele discípulo que duvidou e que tocou, se converteu em testemunha da realidade da ressurreição.

»Tocou e exclamou: “Meu Senhor e meu Deus”! Jesus lhe disse: “Não creste, Tomé, senão depois de ter-me visto?”. Conforme disse o Apóstolo Paulo: A fé é a firme segurança dos bens que se esperam, a plena convicção das realidades que não se veem, é evidente que a fé é a plena convicção daquelas realidades que não podemos ver, porque as que vemos já não são objeto de fé, senão de conhecimento. Por conseguinte, se Tomé viu e tocou, isso é conforme o que disse o Senhor: Não crestes senão depois de ter-me visto? O que acreditava, porém, superava o que via. Portanto, um homem mortal não pode ver a divindade. Por isto, o que ele viu foi a humanidade de Jesus, porém confessou sua divindade ao dizer: Meu Senhor e meu Deus!. Ele, pois, acreditou em tudo o que viu, já que, tendo diante de seus olhos um homem verdadeiro, proclamou-o como Deus, algo que superava a sua visão.

»É para nós motivo de alegria o que segue: Felizes os que não viram e creram. Nesta sentença, o Senhor nos designa de modo especial a nós que o guardamos em nossa mente sem tê-lo visto corporalmente. Designa a nós, para que as obras acompanhem nossa fé, porque aquele que crê de verdade é quem age segundo sua fé. Pelo contrário, em relação àqueles que creem somente de palavra, diz Paulo: fazem profissão de conhecer a Deus, e o negam com suas obras. E São Tiago diz: A fé, se não é acompanhada das obras, é morta».

Santo Agostinho: «Aqui vemos duas coisas: por um lado, as obras divinas e, por outro, um homem. Se as obras divinas somente podem ser realizadas por Deus, preste atenção e veja se acaso Deus se oculta neste homem! Sim, está atento ao que vês e crê no que não vês! Aquele que te chamou a crer não te abandonou à sorte; inclusive se pede a ti para crer no que não vês, não te deixou sem ver algo que te ajuda a crer no que não vês. A própria criação não é um sinal pequeno, uma manifestação pequena do criador? Além disso, aqui o tens fazendo milagres. Não podia ver a Deus, porém podia ver o homem, pois Deus se fez homem para que seja uma só coisa o que tu vês e o que crês.»

V. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO (transcritas de textos publicados)

«Com o Senhor Jesus, encontramos restabelecida nossa relação de amizade com nosso Criador, aberta a porta da comunhão no amor –com Deus, consigo próprio e com os irmãos– numa nova dimensão. O Amor, o serviço e a obediência ao Plano de Deus que o Senhor Jesus nos mostra com o testemunho de sua pessoa e de sua obra, nos assinalam o caminho da reconciliação, da superação das rupturas. O amor se converte no dinamismo central da vida humana, e não qualquer amor, mas aquele que se manifesta no Verbo Encarnado. O Senhor Jesus põe-se a si mesmo como Modelo de Amor e nos convida a “amarmos como Ele nos amou” (ver Jo 15,12). E o limite do amor de Cristo é amar sem limite. A única revolução que toca o profundo do ser humano, a única autêntica revolução é a cristã, e ela é: a revolução do amor.

»O que dizer, porém, das duras, dolorosas rupturas que em nosso tempo encontramos em toda parte em nossa vida e na dos irmãos? O Senhor não nos reconciliou? O seu Reino não está entre nós?

»Com estas perguntas, entramos em cheio no mistério da história da salvação; trata-se de uma realidade que não podemos alcançar completamente, que, sem ser escuridão absoluta, não pode ser apreendida totalmente, nem pode ser absorvida pela razão. Não é que seja um absurdo, mas que vai além da razão; está acima da razão. A razão do ser humano se aproxima, a toca, conhece algo, porém não a alcança totalmente e muito menos a domina.

»E com isto na mente, devemos dizer enfaticamente: Claro que o Senhor Jesus nos reconciliou de uma vez por todas! Claro que o Reino de Deus está entre nós! Mas... não pedimos na oração do Pai Nosso: ”venha a nós o vosso reino”? É que o tempo se iniciou, mas não está concluído. A vinda do Senhor iniciou um dinamismo em que as realidades humanas são transformadas. As insuficiências e contradições do ser humano, os conflitos gerados por seu caminho afastado de Deus, têm a virtude de transformar-se pela eficácia da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus. Têm a virtude de transformar-se pela eficácia do Amor. A vitória foi alcançada!

»No âmbito pessoal, a chave é que a reconciliação libertadora não opera se cada um de nós não colabora. Deus respeita tanto o ser humano que não o salvará caso ele não queira. O obstáculo reside, pois, em cada um de nós, no coração. É aqui onde se produz a tensão entre Deus que chama e o homem que se faz de desentendido».