O Legado das Olimpíadas Rio 2016

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(AFP / Leon NEAL)

Começa a semana e já não vemos mais competições, finais, semifinais; não temos para quem torcer; será que só vamos ficar com a lembrança de que o Brasil termina com a melhor campanha da história, e de que foi uma festa bonita?

Eu gosto muito de esporte e gostei de participar de perto destas Olimpíadas. Confesso que pratiquei e treinei desde criança vários esportes, e depois me dediquei a um em especial até os 17 anos; ainda pratico alguns esportes, mas já não sou mais um atleta. O esporte é vida, o esporte pode transformar vidas, e nestes 16 dias de competição o mundo olhou para o Rio de Janeiro. Neste texto quero propor um legado de valores que este evento – o maior de todos – deixa para nós.

Quem são os Atletas?

Atletas são pessoas que praticam um esporte ou mais de um dedicando-se muito para obter bons resultados. Nestes dias de Olimpíadas no Rio de Janeiro pudemos ver milhares de atletas competindo num total de 42 modalidades olímpicas.

Assim como os atletas da antiguidade greco-romana tinham que se abster de várias coisas, como de comidas inapropriadas, do vinho e dos prazeres carnais para obter uma coroa nos jogos atléticos, hoje em dia os atletas também têm que desenvolver hábitos e uma conduta apropriada para atingir a finalidade a que se propõem: obter a vitória. Aqui vemos já alguns valores gerais da vida dos atletas, como: renúncias, exigências máximas na preparação, perseverança, etc. Eu quero falar sobre alguns valores que me tocaram ao olhar as Olimpíadas, principalmente torcendo pelo Brasil.

Atletas brasileiros

serginho– Superação e Esforço. Como não lembrar da emoção que nos tomou ao ver ganhar medalhas atletas quase anônimos como Rafaela Silva (Judô), Robson Conceição (Boxe) e Isaquias Queiroz (Canoagem). Não só isto nos deve levar a querer a superação diante das dificuldades como também a querer ajudar, a ser solidários com os que menos chance têm na vida, para que possam se realizar como pessoas e atletas, com seus talentos.

– Perseverança. A história da conquista de Diego Hypólito (Ginástica artística), depois de duas quedas nas últimas duas Olimpíadas, fato que gerou uma depressão; mas aqui, foi prata no solo e fez pódio duplo com Arthur Nory, que ganhou o bronze, conseguindo assim seu objetivo de conquistar uma medalha.

thiago-braz– Tomada de Decisões e Determinação. Muito impressionante foi a conquista de Thiago Braz (Salto com vara), que conquistou o ouro no salto com vara e bateu o recorde olímpico na modalidade. Foi impressionante a maneira como enfrentou o desafio e os rivais com muita determinação e tomando as decisões no momento certo. O gesto de sair ao encontro do francês derrotado para buscar uma reconciliação e o fato de conhecer sua história familiar, completaram a grandeza desta conquista.

– Trabalho em equipe. Poderia mencionar a muitos, mas queria deixar uma homenagem ao Ouro da grande equipe de vôlei masculino. Num nível altíssimo no torneio foram capazes de vencer, mesmo passando por um momento crítico. O grande e modesto Serginho foi um baluarte para a equipe com a sua experiência, declarando finalmente que ele não se acha merecedor e que é um cara normal. Por outro lado, o Bruninho foi o mestre da orquestra, fazendo com que, a partir da função de levantador, cada um desse o melhor de si. E não posso deixar de mencionar o grande treinador e lenda Bernardinho, com sua capacidade de liderança e sua lucidez para interpretar os acontecimentos.

– Alegria. O clima das Olimpíadas em geral é de muita alegria, ver as delegações na inauguração e no encerramento foi muito bacana, mas o que mais me

tocava era quando algum atleta conseguia a vitória, ver como choravam de alegria; e para os que perdiam, havia uma grande tristeza, que depois se transformava em verdadeira alegria quando subiam ao pódio. Lembro-me da imagem das três duplas de vôlei de praia subindo ao pódio esbanjando alegria, entre elas, a prata de Ágatha e Bárbara.

– Resiliência. Palavra muito escutada nestes últimos tempos, e não é para menos, pois a reflexão sobre a mesma tem ajudado muito às pessoas. A consciência de que as quedas e frustrações – a maioria dos atletas não ganhou medalhas – podiam torná-los pessoas mais fortes, uma vez que, durante ou no final das competições, mesmo perdendo, via-se como eles aprendiam com os fracassos e se preparavam para as futuras vitórias.

– Olhos fixos na meta. Não posso deixar de fazer menção ao futebol masculino. Eles se colocaram uma meta e conseguiram uma conquista muito desejada e esperada. E o Brasil mostrou novamente porque é chamado o país do futebol.

Maturidade. Quando fiquei sabendo da prata do Artur Zanetti fiquei um pouco triste, mas depois de escutá-lo falar e de ver sua felicidade, pensei que realmente ele foi maduro e ciente de que deu tudo de si.

– Gratidão com a família. Comoveu-me demais quando o atleta ia abraçar a família depois da conquista; para alguns este foi o primeiro gesto, como no caso do ouro de Alison e Bruno Schmidt (Vôlei de praia).

– Fraternidade e Respeito. Foi muito edificante ver atletas torcendo e apoiando atletas de outras modalidades, como também o público brasileiro, que aplaudia os rivais. Como por exemplo, quando muitos torcedores aplaudiram a seleção alemã na final do Futebol masculino. Isso é o verdadeiro espírito olímpico.

Luzes para a vida cristã

O esporte realmente pode gerar valores, e as pessoas precisam cada vez mais viver segundo valores básicos e humanos. Não posso deixar de falar que esta experiência de contemplar o Esporte me leva a compreender melhor a própria vida cristã. A figura de um atleta é utilizada também na Sagrada Escritura, pois realmente pode-se fazer uma boa analogia com a vida cristã.

RIOEC8C15HLN1_768x432A vida do cristão é uma corrida na qual temos que combater para chegar à meta final: a única meta é a salvação, o encontro pleno com Deus, como nos diz São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”. (2Tm 4,7). Para chegar à meta competindo com nobreza, eu devo deixar o passado e olhar para o objetivo: “esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio” (Fl 3,13b-14). Para chegar à meta à qual o Senhor me chama, eu devo viver segundo os Desígnios do Senhor “Do mesmo modo o atleta não recebe a coroa se não lutou segundo as regras” (2Tm 2,5). Para chegar à meta, também devemos saber que a força não vem de nós unicamente, mas principalmente da graça, pois “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10c).

Com certeza, são admiráveis as conquistas dos atletas, assim como quando eles quebram os recordes. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que nós também estamos numa corrida – de longa distância – e que nosso prêmio será uma coroa imperecível: “Os atletas se abstêm de tudo; eles para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível” (1Cor 9,25). Devemos correr para alcançar a coroa imperecível, mas com a consciência de que o Senhor já ganhou a corrida por nós. Então, o que temos que fazer é correr com a consciência do grande tesouro que já está em nós, e com muita humildade, pois “temos, porém, este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).

Este legado que nos deixa as Olimpíadas, cheio de valores humanos que nos renovam como pessoas, tem que questionar a distribuição e o apoio que se dá aos atletas, para que seja mais justo. Termino fazendo um apelo para que no Esporte e na Vida em Sociedade possamos viver mais a unidade e a justiça; e se vemos que estamos muito longe disso, comecemos por fazer uma autocritica objetiva, pois se queremos um mundo mais unido e mais justo, isso tem que começar nos nossos corações. Reconheçamos, também, com admiração, os nossos amigos e familiares, pois muitos deles merecem, de fato, medalha de ouro: não deixem de dizer isso para eles.

Dante Aragón, SCV

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Dante Carrasco Aragón
Nasceu em Lima, Peru, em 1983. Membro do Sodalício de Vida Cristã e mora no Brasil desde 2008. Mestre em Psicologia e Bacharel em Administração. Realizou por alguns anos estudos de Filosofia. Atualmente estuda um Diplomado de Antropologia Cristã da Universidad San Pablo. É membro fundador da Associação Reconciliatio – Psicologia Integral.

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