SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA – O Todo Poderoso fez grandes coisas em meu favor: elevou os humildes.

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I. A PALAVRA DE DEUS
1ª Leitura: Ap 11, 19ª; 12, 1.3-6ª.10ab: Apareceu no céu um grande sinal.
19aAbriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a arca da Aliança. 12,1Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 2Estava grávida e gritava em dores de parto, atormentada para dar à luz.
3Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. 4Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. 5E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as naçðes com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. 6aA mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar.
10abOuvi então uma voz forte no céu, proclamando:
─ “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”.
Salmo: Sl 44(45), 10 bc.11.12 a.b 16: À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir.
10b As filhas de reis vêm ao vosso encontro,
ce à vossa direita se encontra a rainha
com veste esplendente de ouro de Ofir.

11.Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto:
“Esquecei vosso povo e a casa paterna!
12aQue o Rei se encante com vossa beleza!
b Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!

16Entre cantos de festa e com grande alegria,
ingressam, então, no palácio real”.

2ª Leitura: 1Cor 15, 20-27ª: Entregará a realeza a Deus-Pai, para que Deus seja tudo em todos.
Irmãos:
20Na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. 21Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. 22Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. 23Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. 24A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. 25Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. 26O último inimigo a ser destruído é a morte.
28E, quando todas as coisas estiverem submetidas a ele, então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos.
Evangelho: Lc 1, 39-56: Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha visitar-me?
39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito, exclamou:
─ “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu”.
46Maria disse:
“A minha alma engrandece o Senhor,
47e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
48pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
49O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
50Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.
51Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
52Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.
53De bens saciou os famintos
despediu, sem nada, os ricos.
54Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
55como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre”.
56Maria ficou três meses com Isabel;depois voltou para casa.
II. COMENTÁRIOS

Quando uma festa litúrgica cai no domingo tem que tocar muito de perto o mistério de Cristo para que sua liturgia própria prevaleça sobre o dia do Senhor. No dia 15 de agosto celebra-se a festa da Assunção da Virgem Maria ao Céu, mas a Igreja no Brasil transfere essa solenidade para o domingo mais próximo. Trata-se do triunfo da Mãe do Senhor. Sua celebração realça a grandeza de seu Filho que reconciliou todas as realidades que se encontravam separadas de Deus vencendo, com sua Ressurreição, o último inimigo que oprimia o homem: a morte (Segunda Leitura).

A festa da Assunção nos recorda a grandiosidade de nossa vocação: todos fomos criados para participar da glória eterna como já participa, de maneira plena e antecipada, nossa Mãe Maria (Primeira Leitura). Maria é a mulher que foi escolhida por Deus para a sublime missão de ser Mãe de Jesus e nossa e não titubeia em aceitar seu chamado para levar adiante a obra amorosa do Criador. Por isso é exaltada por sua prima Isabel e por isso seu coração transborda de alegria (Evangelho).

«Uma mulher vestida de sol e com a lua sob seus pés»

O livro do Apocalipse ou livro das «revelações», foi escrito pelo apóstolo São João para os cristãos que estavam sendo perseguidos por sua fé, pelo imperador Diocleciano, ao redor dos anos 90 a 95.  João escreve, na ilha de Patmos, uma série de visões em uma linguagem extremamente viva e cheia de imagens que nos recorda um pouco o estilo que encontramos no livro do profeta Daniel. A grande mensagem do livro é que Deus é o soberano que domina tudo e que Jesus é o Senhor da história. No fim dos tempos, Deus, por meio de Cristo, derrotará todos os inimigos e o povo fiel será recompensado em «um novo céu e uma nova terra».

O livro começa com uma visão de Cristo e uma série de cartas que contêm mensagens particulares para as sete Igrejas da Ásia menor. A partir do quarto capítulo, muda o cenário que se translada aos céus. Começa a grande visão. João começa a ver as coisas que «têm que suceder depois disto» (ver Ap 4,1). Vê um cilindro com sete selos; uma visão dos sete anjos com sete trompetistas; uma mulher, o dragão e as duas bestas; as sete taças da ira de Deus; a destruição de «Babilônia»; a festa das bodas do cordeiro; e a derrota final do maligno, seguido pelo juízo. O livro termina com a grandiosa imagem dos novos céus e da nova terra, da nova Jerusalém onde Deus mora com seu povo para sempre.

Na primeira leitura vemos como o céu é uma espécie de gigantesca tela onde se projeta uma cena que será o resumo do que vai acontecer na terra. Nele se encontra o «protótipo» do templo de Jerusalém. Abre-se o Santuário celeste (sancta) e, sem véu, vê-se a arca da aliança no sancta sanctorum celeste. A antiga aliança deu lugar à nova, em que Deus habitará com seu Novo Povo, que é a Igreja. Em seguida João nos diz que «Um sinal grandioso apareceu», o que indica que o que vem a seguir é algo realmente extraordinário. Quando Isaías pede ao rei Acab que escolha um sinal que certifique a fidelidade de Deus, Acab se nega a dá-lo e é o próprio Isaías, da parte de Deus, quem lhe dá um sinal: a Virgem-Mãe do Emanuel Deus conosco (ver Is 7,10-16) que protegerá e abençoará Judá.

O «sinal» que o apóstolo João vê consiste na aparição de uma Mulher em trabalho de parto que tem domínio sobre os astros maiores e que leva uma coroa de doze estrelas simbolizando assim as doze tribos de Israel. Esta Mulher que dá à luz um varão e triunfa sobre o Dragão (personificação do mal) simboliza Maria, a Mãe do Senhor; que dá à luz o Messias pelo qual chegou a vitória, o poder e o reinado de nosso Deus.

É interessante ver como o formoso retrato que a própria Mãe de Deus, Nossa Senhora de Guadalupe, deixou-nos no manto de São Juan Diego na aparição de Tepeyac (1531) corresponde à descrição que lemos no livro do Apocalipse.

Em oposição à Mulher, aparece a figura do grande dragão cor de fogo, que no Antigo Testamento simboliza o império agressor (ver Jr 51,34; Is 51,9-10; Ez 29). Aparece exercendo seu poder nefasto contra os escolhidos, «os astros do céu» (ver Dn 8,10). É curioso notar como as sete cabeças não combinam com os dez chifres, representando assim sua imperfeição e limitação. O vencedor da luta é o Filho varão que, de um golpe, passa do nascimento ao trono de Deus (ascensão) (Ap 12,5). O dragão tentou devorá-lo na paixão-morte, mas Deus o «arrebatou», como a Henoc ou a Elias (ver Gn 5,24; 2Re 2). A Mãe vai ao lugar preparado por Deus no deserto, tal como Ele guiou Elias ou o próprio Jesus.

A Antecipada

Tal como na Primeira Leitura, na carta aos Coríntios se acentua o tom de esperança e de vitória frente à morte, graças a Cristo Ressuscitado. São Paulo vai explicar a conexão íntima que existe entre a ressurreição de Cristo e a nossa. Trata-se de reconhecer a misteriosa solidariedade que existe entre nós e Jesus Cristo: princípio e chave da obra da reconciliação. São Paulo apresentará Cristo como o novo e verdadeiro Adão, apresentando Cristo como a cabeça da humanidade reconciliada[1]. Nesse sentido podemos afirmar que Maria é uma antecipada já que «depois de Cristo, Verbo encarnado, Maria é a primeira criatura humana que realiza o ideal escatológico, antecipando a plenitude da felicidade, prometida aos eleitos mediante a ressurreição dos corpos»[2].

A alegria no Senhor

O Evangelho deste domingo nos relata a Visitação de Santa Maria a sua prima Isabel. A Virgem acabava de receber o anúncio do arcanjo Gabriel e tinha concebido no seio por obra do Espírito Santo. Apenas estas duas mulheres se encontram, começa a estreita relação entre seus filhos. João, o Batista, salta de alegria e Isabel exclama: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!».

Um ser humano concebido no ventre de sua mãe há não mais de seis meses é o mensageiro escolhido por Deus para anunciar a bênção mais grandiosa que recebeu a humanidade, reconhecendo Jesus que é apenas um pequeno embrião. O texto nos diz que Isabel fica cheia do Espírito Santo antes de proferir esta saudação em voz alta, portanto, trata-se de uma proclamação profética. Bendita entre quais mulheres?

O Antigo Testamento está balizado pela presença de muitas mulheres das quais dependeu a salvação do povo. Há uma verdadeira cadeia começando por Eva e seguida por Sara, Rebeca, Raquel, Débora, Rute, Judite, Ester… Mas a maior de todas elas, a que coroa a cadeia não somente delas, mas sim de todas as mulheres da história da humanidade de todos os tempos, é Maria já que ela é a Mãe do próprio Deus.

Quem é este «fruto de teu ventre»? Isabel o esclarece imediatamente quando diz: «Donde me vem a honra que a mãe do meu Senhor venha a mim?». Quer dizer a Mãe do Cristo, do «Ungido», do esperado pelos homens. Cristo não é o filho de Davi, mas sim é maior que Davi (ver Mc 12,36). A Virgem Maria é Mãe do Senhor Jesus: Deus e Homem verdadeiro.

A festa da Assunção

O dogma da Assunção da Virgem Maria foi definido pelo Papa Pio XII em 1 de novembro de 1950 mediante a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. Convém conhecer as palavras do Santo Padre: «Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial ».

O Catecismo da Igreja Católica (N. 966) diz-nos que a Assunção de Nossa Mãe constitui uma singular participação na ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição de outros cristãos.

Sobre a morte de Maria o Papa Pio XII não se pronuncia, simplesmente não julga oportuno declará-la solenemente. São João Paulo II nos esclarece o ponto dizendo que: «dado que Cristo morreu, seria difícil afirmar o contrário no que concerne à Mãe.[3]». A Mãe não é superior ao Filho que aceita docilmente a morte e lhe dá um novo significado, transformando-a em instrumento de salvação. Mas, de que morreu Maria? Nada sabemos com certeza. Agora, sem dúvida, sua morte foi, desde todo ponto de vista, exemplar.

«Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, sob o aspecto físico, causou a cessação da vida do corpo, pode-se dizer que a passagem desta vida à outra constituiu para Maria uma maturação da graça na glória, de tal forma que jamais como nesse caso a morte pôde ser concebida como uma «dormição»»[4]

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ[5]

No final da Constituição sobre a Igreja, o Concílio Vaticano II deixou-nos uma meditação belíssima sobre Maria Santíssima. Destaco apenas as expressões que se referem ao mistério que celebramos hoje. A primeira é esta: «A Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha de culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao Céu em corpo e alma e exaltada por Deus como Rainha»[6]. Em seguida, perto do final do documento, encontramos esta expressão: «A Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que há de se consumar no século futuro, assim também na terra brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor»[7]. À luz deste belíssimo ícone de Nossa Mãe, podemos considerar a mensagem contida nas Leituras bíblicas que acabamos de ouvir.

Podemos nos concentrar em três palavras-chave: luta, ressurreição e esperança.

A passagem do livro do Apocalipse apresenta a visão da luta entre a mulher e o dragão. A figura da mulher, que representa a Igreja, é por um lado gloriosa, triunfante, e por outro ainda se encontra em dificuldade. De fato, assim é a Igreja: se no Céu já está associada com a glória de seu Senhor, na história enfrenta constantemente as provações e desafios que supõe o conflito entre Deus e o maligno, o inimigo de todos os tempos. E, nesta luta que os discípulos de devem enfrentar – todos nós, todos os discípulos de Jesus devemos enfrentar esta luta ─, Maria não os deixa sozinhos; a Mãe de Cristo e da Igreja está sempre conosco. Sempre caminha conosco, está conosco.

Maria também, em certo sentido, compartilha esta dupla condição. Ela, é claro, entrou definitivamente na glória do Céu. Mas isso não significa que Ela esteja longe, que esteja separada de nós; na verdade, Maria nos acompanha, luta conosco, sustenta os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, especialmente o Terço – atenção: o Terço! Rezais o Terço todos os dias?… Bem, a oração com Maria, especialmente o Terço, também tem essa dimensão “agonística”, ou seja, de luta, uma oração que dá apoio na luta contra o maligno e seus aliados. O Terço também nos sustenta nesta batalha.

A segunda leitura fala da ressurreição. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, insiste no fato de que ser cristão significa acreditar que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos. Toda a nossa fé se baseia nesta verdade fundamental, que não é uma ideia, mas um evento. E o mistério da Assunção de Maria em corpo e alma também está inteiramente inscrito na Ressurreição de Cristo. A humanidade da Mãe foi “atraída” pelo Filho na sua passagem através da morte. Jesus entrou de uma vez por todas na vida eterna com toda a sua humanidade, a qual ele recebera de Maria. Assim, Ela, a Mãe, que o seguira fielmente durante toda a sua vida, tinha-O seguido com o coração, entrou com Ele na vida eterna, que também chamamos de Céu, Paraiso, Casa do Pai.

Maria também conheceu o martírio da Cruz: o martírio do seu coração, o martírio da alma. Ela sofreu tanto, no seu coração, enquanto que Jesus sofria na Cruz. Ela viveu a Paixão do Filho até o fundo de sua alma. Ela estava totalmente unida com Ele na morte, e por isso foi-Lhe dado o dom da ressurreição. Cristo como primícias dos Ressuscitados, e Maria como primícias dos redimidos, a primeira daqueles “que pertencem a Cristo”. Ela é nossa Mãe, mas também podemos dizer que é nossa representante, nossa irmã, nossa primeira irmã; Ela é a primeira entre os redimidos que chegou ao Céu.

O Evangelho nos sugere uma terceira palavra: esperança. A esperança é a virtude daqueles que, experimentando o conflito, a luta diária entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, creem na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor. Escutamos o canto de Maria, o Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus no seu caminhar através da história. É o cântico de muitos santos e santas, alguns conhecidos, outros – muitíssimos – desconhecidos, mas bem conhecidos por Deus: mães, pais, catequistas, missionários, padres, freiras, jovens, e também crianças, avôs e avós; eles enfrentaram a luta da vida, levando no coração esperança dos pequenos e dos humildes.

Maria diz: «A minha alma engrandece ao Senhor» – hoje a Igreja também canta a mesma coisa, e o canta em todas as partes do mundo. Este cântico é particularmente intenso, onde o Corpo de Cristo hoje está sofrendo a Paixão. Onde está a Cruz, para nós cristãos, há esperança, sempre. Se não há esperança, nós não somos cristãos. Por isso gosto de dizer: não deixeis que vos roubem a esperança. Que não vos roubeis a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva para frente, olhando para o Céu. E Maria está sempre lá, próxima dessas comunidades, desses nossos irmãos, caminhando com eles, sofrendo com eles, e cantando com eles o Magnificat da esperança.

Queridos irmãos e irmãs, unamo-nos com todo o coração a este cântico de paciência e de vitória, de luta e de alegria, que une a Igreja triunfante com a Igreja que peregrina, ou seja, nós; que une a terra com o Céu, que une a nossa história com a eternidade, para a qual caminhamos. Assim seja.

IV. PADRES DA IGREJA

“Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda criatura como mãe e serva de Deus”. São João Damasceno

Tu, está escrito, surges com beleza (cf. Sl 44,14); e teu corpo virginal é todo santo, todo casto, todo morada de Deus; de tal forma que ele está para sempre bem longe de desfazer-se em pó; imutado, sim, por ser humano, para a excelsa vida da incorruptibilidade. Está vivo e cheio de glória, incólume e participante da vida perfeita”. São Germano de Constantinopla

“É esta a mais antiga das festas de Nossa Senhora. Não temos uma base histórica para o assunto da festa. Isso em nada a prejudica, porque a tradição em seu favor é antiquíssima. Já antes do ano 430 encontramos a festa. Até os Nestorianos[8], separando-se da Igreja, continuaram celebrando-a”. Santo Afonso Maria de Ligório

“Ordenara outrora que a arca do Testamento fosse com grande pompa introduzida na cidade de Davi. «Davi e toda a casa de Israel conduziram a arca com júbilo ao som das trombetas.» (2Rs 6, 14) Porém com pompa muito mais nobre e gloriosa ordenou que sua Mãe entrasse no céu. O profeta Elias foi transportado ao céu num carro de fogo, que, como dizem os intérpretes, não foi senão um grupo de anjos. Mas para vos conduzir ao céu, ó Mãe de Deus, não bastou um grupo de anjos, observa Roberto Abade. O próprio Rei da Glória veio acompanhar-Vos com toda a sua corte celeste”. Santo Afonso Maria de Ligório

V. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

… Também na sua assunção…

  1. «Finalmente, a Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada pelo Senhor como rainha, para assim se conformar mais plenamente com o seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte». A Assunção da santíssima Virgem é uma singular participação na ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:

«No teu parto guardaste a virgindade e na tua dormição não abandonaste a mundo, ó Mãe de Deus: alcançaste a fonte da vida. Tu que concebeste o Deus vivo e que, pelas tuas orações, hás de livrar as nossas almas da morte».

  1. Pela sua plena adesão à vontade do Pai, à obra redentora do Filho e a todas as moções do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Por isso, ela é «membro eminente e inteiramente singular da Igreja» e constitui mesmo «a realização exemplar», o typus, da Igreja.
  2. Mas o seu papel em relação à Igreja e a toda a humanidade vai ainda mais longe. Ela «cooperou de modo inteiramente singular, com a sua fé, a sua esperança e a sua ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por essa razão, nossa Mãe, na ordem da graça».
  3. «Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto da Cruz, até à consumação perpétua de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna […]. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira».
  4. «Mas a função maternal de Maria para com os homens, de modo algum ofusca ou diminui a mediação única de Cristo, mas antes manifesta a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salutar da Virgem santíssima […] deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia». «Efetivamente, nenhuma criatura pode ser equiparada ao Verbo Encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas, uma cooperação variada, que participa dessa fonte única».

 

O culto à Santíssima Virgem

  1. «Todas as gerações me chamarão bem-aventurada» (Lc 1, 48): «a piedade da Igreja para com a santíssima Virgem pertence à própria natureza do culto cristão». A santíssima Virgem «é com razão venerada pela Igreja com um culto especial. E, na verdade, a santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de “Mãe de Deus”, e sob a sua proteção se acolhem os fiéis implorando-a em todos os perigos e necessidades […]. Este culto […], embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta por igual ao Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente». Encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, como o santo rosário, «resumo de todo o Evangelho».

 Maria  ícone escatológico da Igreja

  1. Depois de termos falado da Igreja, da sua origem, missão e destino, não poderíamos terminar melhor do que voltando a olhar para Maria, a fim de contemplar nela o que a Igreja é no seu mistério, na sua «peregrinação da fé», e o que será na pátria ao terminar a sua caminhada, onde a espera, na «glória da santíssima e indivisa Trindade» e «na comunhão de todos os santos», Aquela que a mesma Igreja venera como Mãe do seu Senhor e como sua própria Mãe:

«Assim como no céu, onde já está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a igreja na sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal de esperança segura e consolação para o povo de Deus ainda peregrino».

Resumindo:

  1. Ao pronunciar o «Fiat» (Faça-se) da Anunciação e dando o seu consentimento ao mistério da Encarnação, Maria já colabora com toda a obra que o seu Filho deverá realizar. Ela é Mãe, onde quer que Ele seja Salvador e Cabeça do Corpo Místico.
  2. Terminado o curso da sua vida terrena, a santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma para a glória do céu, onde participa já na glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros do Seu Corpo.
  3.  «Nós cremos que a santíssima Mãe de Deus, a nova Eva, a Mãe da Igreja, continua a desempenhar no céu o seu papel maternal para com os membros de Cristo».

 

VI. OUTRAS REFLEXÕES DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE[9]

No coração de todo ser humano palpita Deus. Não somos da terra, mas do céu, somos de Deus. Para entrar no céu é preciso cumprir a vontade de Deus.

Maria, escolhida entre todas as mulheres, cumpriu sua missão e foi levada para junto de seu Filho, na glória.

Como testemunham os santos, olhemos para Maria e aprendamos com ela a acolher o Salvador.

São Germano de Constantinopla exalta que é o afeto de Jesus pela sua Mãe que exige a presença de Maria no céu com o filho divino.

“É preciso que onde estou Eu, também tu estejas, Mãe inseparável de teu Filho…”.

O Concílio Vaticano II, recordando na Constituição dogmática sobre a Igreja o mistério da Assunção, chama a atenção para o privilégio da Imaculada Conceição: precisamente porque fora ‘preservada de toda mancha de culpa original’ (LG, 59), Maria não pode permanecer como os outros homens no estado de morte até o fim do mundo. A ausência do pecado original e a santidade, perfeita desde o primeiro momento da existência, exigiam para a Mãe de Deus a plena glorificação da sua alma e do seu corpo.

Em sua homilia, por ocasião da Solenidade da Assunção de Maria ao céu no dia 15 de agosto de 1995, o agora santo João Paulo II ressaltou que na primeira Carta aos Coríntios, São Paulo fala da elevação de Maria ao céu.

“Cristo ressuscitou mortos como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também a ressurreição dos mortos veio por um homem que, assim como todos morrem em Adão, assim também em Cristo, todos serão vivificados. Cada qual porém, na sua ordem: Cristo, como primícias, os que são de Cristo, por ocasião da sua vinda”. (1 Cor. 15, 20-23).

Maria é a primeira dentre as que são de Cristo.

A festividade da Assunção foi instituída pelo Papa Pio XII com a Bula “Munificentissimus Deus”, em 1º de novembro de 1950. Com aquele documento, Eugenio Pacelli proclamou o último dogma (até hoje) da Doutrina Católica.

Nesta festividade se recorda a presença admirável da Virgem Maria na vida dos fiéis católicos, que em Nossa Senhora veem a glória da Santa Igreja e a prefiguração de sua própria glorificação.

Todos são chamados a participar desta glória, que na Assunção de Maria apresenta-nos o reinar de Deus e o poder de Cristo sobre a criação.

Louvemos a Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, unidos a quantos a venerarem em todas as partes da terra.

VII. Um pouco da tradição: O CINTO DE NOSSA SENHORA[10]

Em Prato, na Itália, está uma das relíquias mais tocantes de Mãe de Deus: o cinto de Nossa Senhora dado a São Tomé no dia de sua assunção.

É bem conhecida a história de São Tomé, um dos doze Apóstolos, que por estar ausente quando Nosso Senhor apareceu a eles, após a Ressurreição, não quis nela acreditar, apesar do testemunho de seus companheiros.

Só oito dias mais tarde, quando Jesus lhes apareceu novamente, Tomé pôde constatar a verdade, colocando seus dedos nas Santas Chagas do Salvador. Aí, sim, acreditou.

Passaram-se os anos e Tomé tornou-se um dos Apóstolos mais intrépidos, levando o Evangelho até os confins da Pérsia e Índia.

Segundo a bela tradição que chegou até nós, encontrava-se ele numa dessas longínquas regiões quando recebeu um recado de São Pedro, de que retornasse sem demora a Jerusalém, pois Maria, a Mãe do Senhor, iria deixá-los e desejava antes se despedir de todos.

Empreendeu Tomé a sua volta e mais uma vez chegou atrasado. A Mãe de Deus já havia subido aos céus.

São Tomé, mais uma vez levado pelo ceticismo, relutou em acreditar na Assunção da Santíssima Virgem e pediu a São Pedro que abrisse o sepulcro, para poder comprovar com os seus próprios olhos o ocorrido.

Atendido o seu pedido, constatou que no túmulo vazio encontravam-se apenas muitos lírios e rosas.

Nesse mesmo momento, ao levantar suas vistas aos céus,Tomé viu Nossa Senhora na Glória, que, sorridente, desatou o cinto e lançou-o em suas mãos, como símbolo de maternal bênção e proteção.

Este cinto é a relíquia que se venera na Catedral de Prato.

Em 1411, um habitante da cidade de Prato, que esteve em Jerusalém, na Terra Santa, levou para lá o cinto.

No começo ninguém deu muita importância àquela relíquia de autenticidade não comprovada. Mas em 1173 a Providência valeu-se de um fato extraordinário para que todos a reconhecessem como verdadeira:

CATEDRAL DE PRATO

No dia de Santo Estevão, o padroeiro da cidade, era costume colocarem-se todas as relíquias em cima do altar para com elas abençoar os doentes e endemoniados.

Na ocasião, foi exposta também a caixa contendo o cinto de Nossa Senhora.

Aproximaram então uma possessa que, no momento em que tocou a caixa começou a afirmar com insistência que esse cinto era da Santíssima Virgem, e no mesmo instante viu-se liberada de seu mal.

Iniciou-se então o culto publico à sagrada relíquia.

O próprio São Francisco de Assis, em 1212, esteve com seus primeiros frades em Prato para venerá-la.

A relíquia é exposta à veneração pública cinco vezes ao ano. Nessas ocasiões, ela é colocada no púlpito externo, à direita da Catedral, defronte à bonita praça medieval da cidade.

Essa devoção faz com que Prato seja até hoje um dos lugares de peregrinação mariana mais frequentados da Itália.

Peregrinemos em espírito até à “Capella del Sacro Cingolo” e peçamos especiais graças a Maria Santíssima.

Ela, mãe de misericórdia quis mostrar a São Tome e a todos nós que, mesmo sendo teimosos em acreditar, e ainda que estejamos imersos em nossas misérias, Ela sempre estará disposta a fazer milagres portentosos para nos confirmar na Fé e atar-nos a Ela com seu Cinto, protegendo-nos com sua maternal ternura.


[1] Este paralelo também será desenvolvido por São Paulo na carta aos romanos 5, 12-21

[2] São João Paulo II, 9 de julho de 1997

[3] São João Paulo II, 25 de junho de 1997.

[4] São João Paulo II, 25 de junho de 1997.

[5] Homilia do Papa Francisco na Praça da Liberdade, Castel Gandolfo, 15 de Agosto de 2013

[6]  (Const. dogm. Lumen gentium, 59)

[7]  (ibid., 68)

[8] Nestorianismo – doutrina herética proposta por Nestório, Patriarca de Constantinopla (428–431)

[9] Gilberto Cunha – http://vidacrista.org.br/o-misterio-da-assuncao-de-maria/

[10] Fonte: http://rezairezairezai.blogspot.com.br/2011/08/reliquia-o-cinto-da-virgem-maria-dado.html

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