XVIII Domingo do Tempo Comum: “Eu sou o Pão da Vida”

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I. A PALAVRA DE DEUS

Ex 16, 2-4.12-15: “Eu farei chover pão do céu”

Naqueles dias a comunidade dos israelitas protestou contra Moisés e Aarão no deserto, dizendo:

– “Oxalá tivéssemos sido mortos pela mão do Senhor no Egito, quando nos assentávamos diante das panelas de carne e tínhamos pão em abundância! Vós nos conduzistes a este deserto, para matardes de fome toda esta multidão.”

O Senhor disse a Moisés: «Vou fazer chover pão do alto do céu. Sairá o povo e colherá diariamente a porção de cada dia. Pô-lo-ei desse modo à prova, para ver se andará ou não segundo minhas ordens. Ouvi as murmurações dos israelitas. Dize-lhes: esta tarde, antes que escureça, comereis carne e, amanhã de manhã, vos fartareis de pão; e sabereis que sou o Senhor, vosso Deus».

À tarde, com efeito, subiram codornizes (do horizonte) e cobriram o acampamento; e, no dia seguinte pela manhã, havia uma camada de orvalho em torno de todo o acampamento.  E, tendo evaporado esse orvalho, eis que sobre a superfície do deserto estava uma coisa miúda, granulosa, miúda como a geada sobre a terra!

Vendo isso, disseram os filhos de Israel uns aos outros:

– “Maná”, que quer dizer “Que é isso?”

Pois não sabiam o que era. Moisés disse-lhes:

– “Este é o pão que o Senhor vos manda para comer”.

Sal 77, 3-4.23-25.54: “O Senhor lhes deu um trigo do céu”

O que ouvimos e aprendemos,
o que nossos pais nos contaram,
contaremos à futura geração:
os louvores do Senhor, seu poder.

Deu ordem às altas nuvens,
abriu as comportas do céu:
fez chover sobre eles o maná,
deu-lhes um trigo do céu.

E o homem comeu pão dos anjos,
mandou-lhes provisões em fartura.
Introduziu-os pelas santas fronteiras,
até o monte que sua mão direita tinha adquirido.

Ef 4, 17.20-24: “Isto vos digo: não persistais em viver como os pagãos”

Irmãos:

Eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas.

Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que o ouvistes e dele aprendestes, como convém à verdadeem Jesus. Renunciaià vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.

Jo 6, 24-35: “Aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede”

Naquele tempo, quando a multidão reparou que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, entrou nas barcas e foi até Cafarnaum à sua procura. Encontrando-o na outra margem do lago, perguntaram-lhe:

– Mestre, quando chegaste aqui?

Respondeu-lhes Jesus:

– Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu o seu sinal.

Perguntaram-lhe:

– Que faremos para praticar as obras de Deus?

Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou.

Eles replicaram:

– Que milagre fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Qual é a tua obra? Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: «Deu-lhes de comer o pão vindo do céu» (Sl 77,24).

Jesus respondeu-lhes:

– Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo.

Disseram-lhe:

– Senhor, dá-nos sempre deste pão!

Jesus replicou:

– Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede…

II. COMENTÁRIOS

Vozes de protesto se elevam no deserto. É Israel que clama por não ter nada para comer, enfrentando uma situação terrivelmente angustiante (1ª. leitura). Em meio a esta experiência limite, acaso não é muito compreensível a queixa? “Que tipo de Deus é este, que com mão poderosa resgata seu povo da opressão do Egito para depois fazê-lo morrer de fome no deserto? Não é um Deus cruel, que leva seus filhos para um lugar inóspito para abandoná-los depois a sua sorte? É verdade que nem só de pão vive o homem (ver Dt 8,3), mas pode viver sem pão? Estávamos melhor no Egito!” No meio do desespero, como não elevar uma voz de protesto a Deus por aquela situação desesperadora e dramática? No meio de sua angústia Israel se rebela contra Deus e seus planos, desconfia, duvida do amor de Deus e de suas promessas. Ainda que o Senhor assegure a seu povo: «Amei-os», eles respondem: «De que modo nos amaste?» (Mal 1,2).

Diante da rebeldia e da desconfiança de seu povo, Deus responde: «Eis que farei chover para vós o pão do céu ». Cumprindo sua promessa, Deus fez aparecer «na superfície do deserto uma coisa miúda, em forma de grãos, fina como a geada sobre a terra». Perante o desconcerto dos israelitas que se perguntavam o que era aquilo, Moisés lhes disse: «Isto é o pão que o Senhor vos deu como alimento».

Fazendo chover sobre eles este pão do céu Deus não só respondia a suas necessidades alimentícias; aquele maná queria prefigurar, dentro dos sábios desígnios divinos, outro Pão do Céu que Deus daria no futuro a seu povo. Os contemporâneos de Jesus estavam convencidos de que nos tempos messiânicos desceria dos céus um novo maná. Pensava-se que assim como por intercessão de Moisés Deus tinha feito descer aquele maná do céu, o Messias também faria, em seu tempo, um sinal semelhante. Dali que em um primeiro momento, arrebatados ao ver o espetacular sinal que Jesus tinha realizado ao multiplicar os poucos pães e peixes para alimentar tão imensa multidão, concluíram rapidamente: «Este sim que é o Profeta que tinha que vir ao mundo» (Jo 6,15). Era para eles o sinal esperado para identificar o Rei-Messias prometido.

Quando depois de Jesus pegar o barco a multidão volta a encontrá-lO no outro lado, o Senhor lhes diz com firmeza: «estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos». Quer dizer, só lhes interessa o pão, só lhes interessa o benefício, mas não souberam interpretar realmente aquele milagre, não O buscam por ser Ele quem é, o sinal não lhes levou a acreditar e confiar nEle. Por isso convida seus ouvintes a transcender a materialidade do milagre para esforçar-se «Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará» (Jo 6,26-27). O pão de cada dia, embora importante, não é finalmente o essencial. Mais importante que aquele pão material é o misterioso pão que “permanece para a vida eterna”, pão que Ele dará. De que pão se tratava? Que pão seria esse?

O diálogo prossegue e lhe perguntam: «Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?», de tal modo que mereçam alcançar esse pão. A resposta do Senhor é desconcertante. Não proclama um elenco de obras de justiça, de piedade ou caridade que devem realizar, mas sim “a obra” que devem realizar é «que acrediteis naquele que ele enviou». Esta “obra” antecede a todas as demais, é seu fundamento e sustento. Não se trata evidentemente tão somente de dizer “creio em Jesus”, mas sim de uma fé que porque crê e confia nele faz tudo o que Ele diz ou ensina, tanto com palavras como com seu exemplo (ver Jo 2,5).

O Senhor Jesus pedia uma entrega e adesão total a sua pessoa. Nem Moisés, nem profeta algum jamais tinham exigido semelhante coisa. Com que autoridade podia requerer tal adesão, acrescentando, além disso, que era Deus mesmo quem lhes pedia esta “obra”? Para que não fosse tão somente uma soberba pretensão, não devia sustentar seu pedido com algum sinal contundente que o creditasse como um enviado divino? Já não bastava a anterior multiplicação de pães, dado que Jesus pretendia ser mais que Moisés. Não era prudente pedir um sinal que o creditasse? Como acreditar nEle tão somente porque Ele pedia? Assim, julgaram que era necessário que mostrasse um sinal proporcional a suas demandas: «Que sinal realizas,  para que possamos ver e crer em ti?» Em seguida fazem referência ao pão do céu que seus antepassados comeram ao longo de quarenta anos no deserto. Podia Ele superar aquele milagre, de modo que pudessem aceitar que Ele era mais que Moisés, mais que qualquer outro profeta, para “acreditar nEle”?

Como resposta o Senhor Jesus lhes oferece um sinal muito superior a uma repetição do milagre do maná, oferece-lhes um alimento de outro tipo, oferece-lhes o «verdadeiro pão do Céu» que Deus dá «para a vida do mundo».

Perante o pedido explícito dos ouvintes de que lhes desse sempre desse pão, o Senhor não faz senão revelar-se a si mesmo como esse misterioso Pão afirmando solenemente: «Eu sou o pão da vida». E com a mesma solenidade acrescenta: «Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede».

A seguir o Senhor Jesus explica aos pressente que se o maná era o sinal que Deus tinha dado ao povo faminto de Israel no meio do deserto, sinal de seu amor e providência constante, este era apenas a antecipação e figura de outro “Pão” que superaria amplamente o primeiro, pão que será força para o povo que caminha em meio às provações e dificuldades da vida, pão que nutrirá e sustentará o crente, pão que já o fará participante da vida eterna: «o maná do deserto prefigurava a Eucaristia, “o verdadeiro Pão do Céu”» (Catecismo da Igreja Católica, 1094). Este Pão é Cristo mesmo, Deus que diante do sofrimento do povo, diante das provações, diante das dificuldades da vida cotidiana, não deixa de lhes recordar: «eu estou com vocês todos os dias até o fim do mundo» (Mt 28,20).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Quanto protestamos contra o Céu quando não podemos compreender, especialmente quando a dor, a angústia ou a desesperança invadem nossos corações! Por que, se somos filhos de um Deus amoroso, onipotente e todo-poderoso, Ele permite situações tão terríveis e sofridas! Pois quando o sofrimento, seja físico, moral, psicológico ou espiritual, torna-se insuportável, quando “não há nada que comer” e a vida se converte em uma luta diária simplesmente para sobreviver, quando a difícil situação econômica ou graves problemas não fazem senão induzir à extrema desesperança, ou quando no meio de alguma incurável enfermidade e sem poder fugir da agonia já se espera somente a morte, quem não se sente com o “direito” a protestar contra Deus clamando: “por que me abandonaste”? “Se és um Pai amoroso, por que nos trata assim? Por que permite que o mal e a injustiça me golpeiem, golpeiem minha família, meus seres queridos, o menino inocente? Por que te calas? Por que não atuas?” E se é certo que Ele nos deu a existência, que para muitos torna-se não só um deserto baldio mas até um inferno, por que não pedir um sinal para poder aferrar-se a Ele e ter em Deus uma esperança certa? «Que sinal realizas,  para que possamos ver e crer em ti»? (Jo 6, 30) “Por que não atuas, para eu poder confiar em ti e ter a segurança de que nos amas?”

Frente à atitude rebelde do homem, seja a do povo de Israel, seja a de cada um de nós, frente a essa constante teimosia de querer responsabilizar Deus por toda miséria que oprime o homem, Deus definitivamente se debruçou «sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem – especialmente nos momentos difíceis e dolorosos – considera seu infeliz destino. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem (…).O fato de Cristo «ter ressuscitado ao terceiro dia»  constitui o sinal… que coroa toda a revelação do amor misericordioso no mundo, submetido ao mal » (São João Paulo II, Dives in misericórdia, 8).

Assim, em seu Filho Unigênito, Deus nos deu um eloquente “sinal” que nos convida a confiar em seu amor e misericórdia. Sim, o máximo “sinal” do amor eterno de Deus para com o homem, o máximo sinal de que não nos esquece nem abandona na prova, na dor ou sofrimento, é Jesus Cristo. Ele se apresentou perante toda criatura humana como o sinal que Deus faz. Ele é o maior sinal realizado por Deus em sua inefável misericórdia para com o homem, Ele é o debruçar-se mais profundo da divindade sobre a humanidade caída, é Ele quem «introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o «porquê » do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino», sendo este Amor « a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo» (São João Paulo II, Salvifici doloris, 13).

O Senhor Jesus nos convida também a confiar nEle, a confiar em Seu Pai que O enviou, e O enviou como o verdadeiro Pão do Céu que veio trazer a vida ao mundo, que veio reconciliar a humanidade inteira, que veio convidar-nos a superar o olhar míope daquele que só se preocupa com o “pão material”, que só procura Cristo “pelos milagres que faz”, para compreender que nossa vida não termina aqui, que nossa vida tão passageira neste mundo se projeta à eternidade com Deus, que a vida presente é apenas como um peregrinar pelo deserto até que alcancemos — se cremos nEle e fazemos o que Ele nos pede — a Terra Prometida, pois nesse caminhar pelo deserto, contamos com este Pão que é Cristo mesmo, com este Pão que é garantia de eternidade, com este Pão que nos nutre e fortalece com a graça divina para poder aguentar os momentos mais duros e difíceis da existência, com a esperança de que quem permanece fiel ao Senhor e se sustenta nele poderá entrar no final de seus dias na terra prometida, poderá participar da eterna Comunhão com Deus, poderá estar com Deus e com quem é de Deus naquele lugar no qual já não haverá nunca mais nem pranto, nem dor, nem luto, nem morte.

Nós que acreditamos em Deus e acreditamos no Senhor Jesus, temos que estar convencidos de que o maná do deserto prefigurava “o verdadeiro Pão do Céu”, que é Cristo, que é Cristo na Eucaristia (ver Catecismo da Igreja  Católica, 1094). Na Eucaristia se realiza aquilo que o Senhor revelou e prometeu solenemente: « Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que Eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida» (Jo 6, 51).

Poderá haver um maior sinal do amor de Deus para conosco que este “Pão descido do céu” que Ele nos dá como comida enquanto avançamos ao encontro pleno com Ele? Este é o verdadeiro Pão do Céu que ao ser partido no Altar da Cruz se multiplica com tanta abundância que dia a dia alimenta em seu peregrinar à imensa multidão dos membros do Povo de Deus. Diante um amor tão insólito, como não exclamar também nós com profunda admiração e sobressalto: “O que é isto?” (em hebreu “man-hu”, de onde procede a palavra “maná”) Pode haver um amor maior que o de Deus nosso Pai, que depois de nos entregar seu Filho amado no Altar da Cruz, no-lO continua entregando no Banquete da Eucaristia como alimento de vida eterna?

Firmemente convencida da verdade das palavras de seu Senhor, a Igreja nos chama e convida a nos nutrir continuamente deste admirável Sacramento, Cristo mesmo que nos acompanha, Cristo mesmo que em seu Corpo e Sangue nos dá a Si mesmo como alimento para que com a força que Ele nos dá possamos caminhar, lutar cada dia com paciência, com esperança, perseverando em nossa fé e tornando-a vida de modo que já não vivamos como «os pagãos, cuja mente é vazia» (Ef 4, 17), mas vivamos uma vida nova de acordo com a verdade que Jesus nos ensinou.

IV. PADRES DA IGREJA

Santo Ambrósio: «É admirável que Deus tenha feito chover o maná para nossos pais e que se tenham saciado cada dia com pão do céu. É porque se disse: “O homem comeu o pão dos anjos” (Sal 77, 25). Entretanto todos os que comeram deste pão no deserto morreram. E pelo contrário, este alimento que recebe, este pão vivo descido do céu, dá o alimento da vida eterna, e quem quer que o coma não morrerá jamais. É o Corpo de Cristo…

»Aquele maná era do céu, este de mais acima dos céus; aquele era um dom do céu, este é do Senhor dos céus; aquele estava sujeito à corrupção se era guardado até o dia seguinte, este não conhece a corrupção. Para os hebreus a água brotou da rocha, para ti o sangue brota de Cristo. A água lhes acalmou a sede por um momento, a ti o sangue lava para sempre. Os hebreus beberam e continuaram tendo sede. Tu, uma vez que tenha bebido, nunca mais terá sede (Jo 4, 14). Aquilo era a prefiguração, esta é a verdade plena…

»Era “sombra do que viria” (Col 2, 17). Escuta isso que foi manifestado a nossos pais: “No deserto beberam da rocha espiritual que os seguia; e a rocha era Cristo” (1 Cor 10, 4)… Tu conheceste a realização, viste a plena luz, a verdade prefigurada, o Corpo do Criador melhor que o maná do céu.»

São Pedro Crisólogo: «Cristo mesmo é o pão que, semeado na Virgem, florescido na Carne, amassado na Paixão, cozido no Forno do sepulcro, reservado na igreja, levado aos altares, oferece cada dia aos fiéis um alimento celestial».

Santo Agostinho: «A Eucaristia é nosso pão cotidiano. A virtude própria deste divino alimento é uma força de união: une-nos ao Corpo do Salvador e faz de nós seus membros para que devamos ser o que recebemos (…). Este pão cotidiano se encontra, além disso, nas leituras que ouvimos cada dia na igreja, nos hinos que se cantam e que vós cantais. Tudo isso é necessário em nossa peregrinação».

São Justino: «Porque este pão e este vinho foram, segundo a expressão antiga “eucaristizados”, “chamamos a este alimento Eucaristia e ninguém pode tomar parte nele se não acreditar na verdade do que se ensina entre nós, se não tiver recebido o banho para o perdão dos pecados e o novo nascimento, e se não viver segundo os preceitos de Cristo”».

V. CATECISMO DA IGREJA

O discurso do Pão de Vida anuncia a Eucaristia

  1. Os três evangelhos sinóticos e São Paulo transmitiram-nos a narração da instituição da Eucaristia. Por seu lado, São João relata as palavras de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, palavras que preparam a instituição da Eucaristia: Cristo designa-se a si próprio como o pão da vida, descido do céu.
  2. Jesus escolheu a altura da Páscoa para cumprir o que tinha anunciado em Cafarnaum: dar aos seus discípulos o seu corpo e o seu sangue:

Na Comunhão recebemos a Cristo, Pão da Vida

  1. Nacomunhão, precedida da Oração do Senhor e da fração do pão, os fiéis recebem «o pão do céu» e «o cálice da salvação», o corpo e o sangue de Cristo, que Se entregou «para a vida do mundo» (Jo 6, 51):
  2. O que o alimento material produz na nossa vida corporal, a Comunhão realiza, de modo admirável, na nossa vida espiritual. A comunhão da carne de Cristo Ressuscitado, «vivificada pelo Espírito Santo e vivificante», conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo. Este crescimento da vida cristã precisa de ser alimentado pela Comunhão eucarística, pão da nossa peregrinação, até a hora da morte, em que nos será dado como viático[1].

«Dai-nos nosso pão de cada dia»

  1. Esta prece e a responsabilidade que comporta valem também para outra fome de que os homens morrem: «O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Deus»(Mt 4, 4) (Dt 8,3), quer dizer, da sua Palavra e do seu Sopro. Os cristãos devem mobilizar todos os esforços para «anunciar o Evangelho aos pobres». Há uma fome na terra que «não é fome de pão nem sede de água, mas de ouvir a Palavra do Senhor» (Am 8, 11). É por isso que o sentido especificamente cristão desta quarta petição tem a ver com o Pão da Vida: a Palavra de Deus, que deve ser acolhida na fé, e o corpo de Cristo, recebido na Eucaristia (ver Jo 6, 26-58).
  2. «De cada dia».Esta palavra «epioúsios» não é usada em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Tomada num sentido temporal, é uma repetição pedagógica do «hoje» (ver Ex 16, 19-21) para nos confirmar numa confiança «sem reservas». Tomada no sentido qualitativo, significa o necessário para a vida e, de um modo mais abrangente, todo o bem suficiente para a subsistência (ver 1 Tim 6, 8). Tomada ao pé da letra (epioúsios, «sobre-substancial»), designa diretamente o Pão da Vida, o corpo de Cristo, «remédio de imortalidade» (Sanbto Inácio de Antioquia, Eph. 20, 2), sem o qual não temos a vida em nós (ver Jo 6,53-56). Enfim, ligado ao antecedente, é evidente o sentido celestial: «este dia» é o do Senhor, o do banquete do Reino, antecipado na Eucaristia que é já o antegozo do Reino que vem. É por isso conveniente que a liturgia Eucarística seja celebrada em «cada dia».

VI. OUTRAS REFLEXÕES DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE[2]

«O povo procura-o, o povo escuta-o, porque ficou entusiasmado com o milagre — queria torná-lo rei! — mas quando Jesus afirma que o verdadeiro pão, doado por Deus, é Ele mesmo, muitos se escandalizam, não compreendem e começam a murmurar entre si: «Porventura — diziam — não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: “Desci do céu?”» (Jo 6, 42). E começam a murmurar. Então Jesus responde: «Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair» e acrescenta: «quem crê em mim tem a vida eterna» (vv44.47).

Esta palavra do Senhor surpreende-nos e faz-nos refletir. Ela introduz na dinâmica da fé, que é uma relação: a relação entre a pessoa humana — todos nós — e a Pessoa de Jesus, onde um papel decisivo é desempenhado pelo Pai, e naturalmente também pelo Espírito Santo — que aqui está subentendido. Não basta encontrar Jesus para acreditar n’Ele, não basta ler a Bíblia, o Evangelho — isto é importante, mas não basta — nem é suficiente assistir a um milagre, como a multiplicação dos pães. Muitas pessoas estiveram em estreito contato com Jesus e não acreditaram n’Ele, pelo contrário, desprezaram-no e condenaram-no. E eu pergunto-me: por que isso? Não foram atraídas pelo Pai? Não, isso aconteceu porque os seus corações estavam fechados à ação do Espírito de Deus. E se tiveres o coração fechado, a fé não entrará. Deus Pai sempre nos atrai a Jesus: somos nós que abrimos ou fechamos o nosso coração. Ao contrário, a fé, que é como uma semente lançada no fundo do coração, desabrocha quando nos deixamos «atrair» pelo Pai rumo a Jesus, e «vamos ter com Ele» de coração aberto, sem preconceitos; então reconhecemos no seu rosto a Face de Deus e nas suas palavras a Palavra de Deus, porque o Espírito Santo nos fez entrar na relação de amor e de vida que existe entre Jesus e Deus Pai. E ali nós recebemos o dom, o presente da fé.

Então, com esta atitude de fé, podemos compreender também o sentido do «Pão da vida» que Jesus nos doa, e que Ele exprime assim: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo» (Jo 6, 51). Em Jesus, na sua «carne» — ou seja, na sua humanidade concreta — está presente todo o amor de Deus, que é o Espírito Santo. Quem se deixa atrair por este amor caminha rumo a Jesus, vai com fé e d’Ele recebe a vida, a vida eterna.

Quem viveu essa experiência de forma exemplar foi a Virgem de Nazaré, Maria: a primeira pessoa humana que acreditou em Deus acolhendo a carne de Jesus. Aprendamos d’Ela, nossa Mãe, a alegria e a gratidão pelo dom da fé. Um dom que não é «privado», um dom que não é propriedade particular, mas é um dom a ser partilhado: um dom «para a vida do mundo»!

Papa Francisco. Angelus, domingo 9 de agosto de 2015.

[1] Viático – Sacramento da comunhão ministrado em casa aos enfermos e moribundos.

[2] Vide estudo completo em: http://razonesparacreer.com/yo-soy-el-pan-de-la-vida-2/

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