XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – E vocês, quem dizem que eu sou?

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I – A PALAVRA DE DEUS

Is 22, 19-23: “Eu o farei portar aos ombros a chave da casa de Davi”

Assim diz o Senhor a Sobna, o administrador do palácio:

«Eu vou te destituir do posto que ocupas e demitir-te do teu cargo. Acontecerá que nesse dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias, e o vestirei com a tua túnica e colocarei nele a tua faixa, porei em suas mãos a tua autoridade; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Eu o farei portar aos ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir. Hei de fixá-lo como estaca em lugar seguro e aí ele terá o trono de glória na casa de seu pai.»

 

Sal 137, 1-3.6.8: “Sua misericórdia é eterna, Senhor”

Ao Senhor, de coração eu vos dou graças,
porque ouvistes as palavras dos meus lábios!
Perante os vossos anjos vou cantar-vos
e ante o vosso templo vou prostrar-me.

Eu agradeço vosso amor, vossa verdade,
porque fizestes muito mais que prometestes;
naquele dia em que gritei, vós me escutastes
e aumentastes o vigor da minha alma.

Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres,
e de longe reconhece os orgulhosos.
Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Eu vos peço: não deixeis inacabada,
esta obra que fizeram vossas mãos!

 

Rom 11, 33-36: “Ele é origem, guia e meta do universo”

Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? Na verdade, tudo é dele, por ele, e para ele. A ele, a glória para sempre. Amém!

 

Mt 16, 13-20: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”

Naquele tempo: Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos:

– ‘Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?’

Eles responderam:

– ‘Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas.’

Então Jesus lhes perguntou:

– ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’

Simão Pedro respondeu:

– ‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.’

Respondendo, Jesus lhe disse:

– ‘Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.

Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la.

Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus.’

Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

II. COMENTÁRIOS

O Evangelista nos localiza espacialmente na cena que está a ponto de narrar: “Jesus foi à região de Cesareia de Filipe”. Refere-se à cidade que era a capital da tetrarquia governada naquela época por Filipe, filho de Herodes o Grande. A cidade estava situada a uns quarenta quilômetros ao norte de Cafarnaum, fora da Galileia. Originalmente a cidade se chamava Paneas, por ser um centro de culto do deus grego Pan. O imperador romano Augusto concedeu o governo da região a Herodes o Grande, rei da Judeia, que nessa cidade mandou construir um templo dedicado a César Augusto. O assim chamado “Templo de Augusto” foi construído com mármore branco sobre um penhasco de rocha basáltica, quer dizer, rocha muito sólida e escura. No alto da rocha aquele templo dominava sobre a cidade e sobre o campo, de modo que a vista deste impressionante templo bem pode ter servido ao Senhor Jesus como figura para falar com seus Apóstolos da “Sua Igreja” que Ele ia construir sobre outra rocha: Simão, “Kefas”, “Pedra”, pois o Senhor se valia dessas imagens ou figuras da vida cotidiana para fazer suas comparações.

Herodes Filipe, filho de Herodes o Grande, decidiu rebatizar esta cidade depois de embelezá-la e engrandecê-la com novos edifícios. De Paneas passou a chamar-se Cesareia, em honra a César, o imperador romano. Na época de Jesus era conhecia como Cesareia de Filipe para distinguir-se da Cesareia marítima, porto localizado na costa da Palestina.

Assim, ao chegar à região da Cesareia de Filipe o Senhor inicia o diálogo que vai dar base ao ato institucional de Sua Igreja, perguntando aos Apóstolos o que o povo dizia Dele. Os discípulos tinham recolhido muitas opiniões: “’Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas.”

É evidente que Jesus não era João Batista, pelos próprios relatos evangélicos: ambos nasceram com poucos meses de diferença, Jesus foi batizado por João no Jordão, etc. Jesus não era João que tinha “ressuscitado” (ver Lc 9,7).

Seria Jesus a reencarnação de Elias? Segundo a Escritura e a crença dos judeus, Elias não tinha morrido, tinha sido levado ao Céu em um carro de fogo (Eclo 48,9), e dali voltaria para preparar a imediata aparição do Messias. (ver Mal 3,23; Mt 17,10-12) Quem pensava que Elias nunca tinha morrido, não podia acreditar que Jesus fosse uma reencarnação.

Jesus seria Jeremias, que tinha voltado para a vida, ou outro grande profeta de Israel? Tampouco. Evidentemente os grandes milagres que o Senhor realizava faziam pensar que se tratava de um grande profeta. Entretanto, embora todos concordem em pensar que Jesus era «um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo» (Lc 24,19), há confusão quanto a sua identidade: não sabem quem é verdadeiramente. Por isso, todos se equivocam, ninguém acerta. Jesus não é João que ressuscitou, não é Elias que retornou do Céu, não é Jeremias ou outro profeta que voltou para a vida. A resposta acertada deve ser procurada naqueles que o conhecem de perto, seus Apóstolos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

Perante a pergunta Pedro tomou a palavra e respondeu: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Pedro afirma que Jesus é mais que qualquer um dos grandes profetas, é maior que João Batista, que Elias, que Jeremias ou qualquer profeta. Pedro afirma que Jesus Cristo é o Messias prometido por Deus para instaurar Seu Reino. Mas a resposta vai ainda mais além: Tu és “o Filho de Deus vivo.

Tal resposta é de um alcance inusitado. Dizer que Jesus era “o Filho de Deus vivo”, implicava afirmar que participava da mesma natureza divina de seu Pai. A de Pedro é portanto a primeira profissão de fé na divindade de Jesus Cristo.

Como Pedro chega ao conhecimento da identidade íntima de Jesus Cristo? “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Esta intuição e conhecimento íntimo da identidade divina de Jesus Cristo não lhe vem de “nenhum ser humano”, foi-lhe revelada Por Deus. “Ser humano” é a tradução litúrgica do que literalmente se traduz como “carne e sangue”, um hebraísmo para expressar a totalidade da pessoao ser humano. Nenhuma pessoa humana pode ter revelado a Pedro o que só podia conhecer mediante a participação do conhecimento que o Pai celestial tem de seu Filho. Pois «ninguém conhece o Filho, senão o Pai» (Mt 11,27) e só pode conhecer aquele Filho quem o Pai o queira revelar (ver Mt 11,25). O Senhor Jesus, com tal afirmação, deixa bem claro que a razão humana não pode alcançar por si mesma esse conhecimento. Só mediante a Revelação é possível reconhecer em Jesus Cristo o Filho de Deus, sua natureza divina.

Depois que Pedro reconheceu e proclamou a verdadeira identidade de Jesus, o Senhor revela a Simão quem é ele deste modo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Com efeito, a Simão, filho de João, o Senhor impõe um novo nome que reflete sua profunda identidade e futura missão: «Tu te chamarás Cefas» (Jo 1, 42), que traduzido significa pedra, de onde deriva o nome Pedro. Sobre uma pessoa Ele quis assentar e construir sua Igreja. Pedro é fundamento sólido, a rocha sobre a qual ele vai construir seu “templo”.

Este “templo” é chamado pelo Senhor de “minha Igreja”. Igreja vem do grego ecclesia, que traduzido significa assembleia, reunião daqueles que foram convocados por Ele, daqueles que se congregam em torno Dele. A esta Igreja, fundada sobre Pedro, Jesus chama de sua. É a Igreja que pertence a Ele, a Igreja que Ele ama e custodia, Igreja a quem Ele faz esta promessa: “o poder do inferno nunca poderá vencê-la.” Em outras palavras, nenhuma força humana nem tampouco as forças demoníacas poderão jamais destruí-la. Em virtude desta promessa a Igreja do Senhor, fundada sobre Pedro, é a coisa mais forte que existe, embora fundada sobre a coisa mais fraca, quer dizer, sobre a tremenda fragilidade de um ser humano.

É neste solene momento que Cristo anuncia a Pedro a entrega das chaves do «Reino dos Céus». As chaves indicam potestade, indicam a faculdade de dispor, de abrir e de fechar as portas de uma casa. A entrega das chaves simboliza o poder com que o dono da casa reveste seu servo para administrar todos os assuntos de sua casa. O Senhor entrega a Pedro as chaves do Reino dos Céus e lhe confia o poder de “atar e desatar”. “Atar” e “desatar” eram termos próprios da linguagem rabínica inicialmente referidos à expulsão ou excomunhão de um judeu da assembleia. Atar significava “condenar” e desatar  “absolver” alguém. Posteriormente seu uso foi ampliado para referir-se às decisões doutrinais ou jurídicas, significando “atar” o proibir e “desatar” o permitir. Portanto, o Senhor Jesus confia a Pedro a missão de exercer a disciplina em sua Igreja, tem o poder de admitir ou excluir dela quem assim o julgue, tem a responsabilidade de ordenar a vida de fé e a moral da comunidade por meio de decisões oportunas. Suas decisões serão ratificadas por Deus.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Também hoje o Senhor faz a ti a mesma pergunta que então fez a seus Apóstolos: E tu, quem dizes que eu sou? O que você responderia?

Talvez sua resposta seja como a da multidão, fazendo eco ao que se escuta dizer por aqui e por lá, às opiniões que tantos vertem sobre este personagem histórico: que foi um grande mestre ou “guru” tal como Maomé, Confúcio, Gandhi e outros semelhantes; ou que foi um grande líder revolucionário de sua época; ou que foi um homem excepcional “mitificado” e “revestido” de uma identidade divina por uma comunidade de crentes que não podia aceitar sua morte; ou que foi a reencarnação de Buda ou de alguma divindade, etc. Quantas opiniões são formadas também hoje em dia “pelo povo” e quantas vezes nós assumimos uma dessas tantas opiniões ignorantes da verdadeira identidade do Senhor Jesus!

Mas provavelmente minha resposta se aproxime mais da mesma resposta que deu Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”, tu és O Salvador do mundo, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, o Verbo eterno que por obra do Espírito Santo se encarnou e nasceu da Virgem Maria para nossa reconciliação. Essa certamente é a fé da Igreja, é a fé que nós, os crentes, professamos, mas… minha resposta é realmente sincera? Ou é mais uma repetição vazia do que algum dia aprendi no catecismo? Possivelmente soe muito duro este questionamento, entretanto, minha vida não deveria ser muito diferente em vários aspectos se verdadeiramente eu acreditasse que Jesus Cristo é o Filho de Deus? Não deveria ser Ele a pessoa mais importante em minha vida, acima de qualquer outra pessoa, inclusive daqueles a quem mais amo? Esta convicção não deveria refletir-se em um desejo de conhecê-lo mais a cada dia, de conhecer seus ensinamentos, de viver de acordo com seus ensinamentos, de crescer na amizade com Ele através da oração perseverante, de procurar dar-lhe graças e renovar minhas forças na Comunhão com Ele na Missa de cada Domingo? Não deveria dar à Missa dominical a centralidade absoluta, sabendo que Ele é o fundamento de minha vida, a rocha sólida sobre a qual eu e minha família encontraremos a consistência, a fonte do amor verdadeiro e fiel?

Entretanto, quantas vezes negamos com nossas atitudes e decisões de cada dia o que afirmamos com nossos lábios! Quantas vezes relegamos o Senhor em nossas vidas agitadas e lhe damos o tempo que nos sobra, se nos sobrar! Pois se sou jovem, tenho que desfrutar da vida. Se sou menino e meus catequistas me ensinaram que Jesus está na Hóstia me esperando cada Domingo, meus pais me ensinam o contrário, pois assim que faço minha primeira Comunhão raramente me levam na Missa ou comungam. Se sou um homem ou mulher que estuda, ou que trabalha o dia todo, já não tenho tempo para rezar. Quando muito, um Pai Nosso antes de me deitar. Pois se tiver muitos projetos para o futuro, nada é para o Senhor ou para ajudar outros em seu nome, mas só para obter êxito na vida, fortuna, um bom status, “ser alguém”. Enfim, se nos pusermos diante do Senhor e nos examinamos com honestidade, dar-nos-emos conta de quão pouco ou mal vivemos aquilo que dizemos acreditar.

Por isso a pergunta do Senhor não pode nos deixar indiferentes, tem que nos questionar profundamente, tem que nos sacudir, tem que nos fazer reagir: Quem você diz que eu sou? Quem sou eu para você? Se você responder como Pedro, se reconhecer que Ele é verdadeiramente o Filho de Deus, seu Salvador e Reconciliador, então tem que manifestar essa fé em sua vida cotidiana, na exigência pessoal por viver de acordo com o que Cristo ensina, no esforço por dá-lo a conhecer através de suas palavras e de suas obras, no empenho por cooperar com a graça para viver uma vida Santa.

Com sua pergunta o Senhor nos convida a descobrir e redescobrir dia a dia sua verdadeira identidade, a nos mantermos firmes na verdade revelada por Deus a Pedro, a não nos deixarmos seduzir pelas opiniões em moda que tão facilmente se difundem pelo mundo inteiro; a não nos deixarmos levar pelo que dizem aqueles que não conhecem Cristo de perto. Só a Igreja de Cristo fundada sobre Pedro possui e custodia a verdade sobre Jesus Cristo, só ela é capaz de dar a resposta acertada sobre a identidade de seu Senhor. Por isso, se andamos confundidos pelos milhares de opiniões que circulam sobre a identidade de Jesus, vamos à Igreja, escutemos sua voz maternal, confiemos no que ela também hoje nos revela sobre Jesus Cristo.

Vamos ao Senhor dia a dia, renovemos nossa adesão e amor a Ele, supliquemos-lhe a força de sua graça e nos esforcemos pacientemente em viver de acordo com o que junto com Pedro e toda a Igreja acreditamos e professamos. Não nos cansemos de pôr o Senhor no centro de nossas vidas, conscientes de que Ele e só Ele é o caminho e a verdade que conduzem à vida plena, à vida em plenitude, à vida eterna (ver Jo 14,6-7). Quem nele confia, não será enganado.

IV. PADRES DA IGREJA

 

Santo Hilário: «Quando o Senhor disse: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?” deu a entender que deviam tê-lo por outra coisa distinta do que viam nele. Ele era, efetivamente, Filho do homem: o que desejava, pois, que opinassem sobre Ele? Não queremos opinar sobre o que Ele mesmo confessou de si, mas sim sobre o que está oculto nele, que é o objeto da pergunta e a matéria de nossa fé. Nossa confissão deve estar apoiada na crença de que Cristo não somente é Filho de Deus, mas também Filho do homem e em que sem as duas coisas não podemos abrigar esperança alguma de salvação. Por isso disse Cristo de uma maneira significativa: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?”».

 

São João Crisóstomo: «depois que os discípulos contam as opiniões do povo, o Senhor volta a lhes perguntar pela segunda vez, a fim de que formem uma opinião mais elevada sobre Ele. Por isso segue: “E Jesus lhes diz: E vós, quem dizeis que eu sou?” Vós, repito, que estais sempre comigo e que presenciastes milagres maiores do que os que o povo viu, sob nenhum conceito devem ter sobre mim a mesma opinião que este. Nestas palavras vemos a razão pela qual o Senhor não lhes fizera essa pergunta no princípio de sua pregação e sim depois de ter feito tantos milagres e de lhes haver falado de sua divindade».

 

Santo Hilário: «A fé verdadeira e inviolável consiste em acreditar que o Filho de Deus foi gerado por Deus e que tem a eternidade do Pai. E a confissão perfeita consiste em dizer que este Filho tomou corpo e foi feito homem. Compreendeu pois em si tudo o que expressa sua natureza e seu nome, no qual está a perfeição das virtudes».

 

São João Crisóstomo: «Certamente se Pedro não tivesse confessado que Cristo foi realmente gerado pelo Pai, esta revelação não teria sido necessária nem ele teria sido chamado bem-aventurado por ter julgado que Cristo era um filho predileto entre tantos filhos adotivos de Deus. Porque antes de Pedro, os que foram no barco com Cristo, disseram-lhe: “Verdadeiramente Tu és Filho de Deus” (Mt 14,33). Também Natanael já havia dito: “Mestre, Tu és Filho de Deus” (Jo1,43), e entretanto, não foram chamados de bem-aventurados, porque não confessaram a mesma filiação que Pedro. Julgavam-no como um de tantos filhos, mas não verdadeiramente como Filho. E embora tivessem-no como o principal de todos, não o olhavam, entretanto, como da mesma substância que o Pai. Vejam, pois, como o Pai revela o Filho e o Filho o Pai e como não podemos conhecer o filho senão pelo Pai, nem o Pai senão pelo Filho, de onde resulta que o Filho é consubstancial ao Pai e deve ser adorado com o Pai. Partindo desta confissão, o Senhor demonstra que muitos acreditarão no mesmo que Pedro confessou. De onde acrescenta: “E eu te digo que tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei minha Igreja”».

V. CATECISMO DA IGREJA

 

“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”

 

  1.  Quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus declara-lhe que esta revelação não lhe veio «da carne nem do sangue, mas do seu Pai que está nos Céus» (Mt 16, 17). A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá “a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade”».
  2.   Movidos pela graça do Espírito Santo e atraídos pelo Pai, nós cremos e confessamos a respeito de Jesus: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). Foi sobre o rochedo desta fé, confessada por Pedro, que Cristo edificou a sua Igreja.
  3.  Filho de Deus, no Antigo Testamento, é um título dado aos anjos (ver Dt 32, 8;  1, 6), ao povo eleito (ver Ex 4, 22; Os 11, 1; Jr 3, 19; Sr 36, 11; Sb 18, 13) aos filhos de Israel (ver Dt 14,1; Os 2,1) e aos seus reis (cf. 2Sm 7,14; Sl 82,6). Nestes casos, significa uma filiação adotiva, que estabelece entre Deus e a sua criatura relações de particular intimidade. Quando o Rei-Messias prometido é chamado «filho de Deus» (Cf 1Cr 17,13; Sl 2,7), isso não implica necessariamente, segundo o sentido literal de tais textos, que Ele seja mais que um simples ser humano. Os que assim designaram Jesus, enquanto Messias de Israel, talvez não tenham querido dizer mais (Ver Lc 23, 47).
  4.  Mas não é este o caso de Pedro, quando confessa Jesus como «Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16), porque Jesus responde-lhe solenemente: «não foram a carne nem o sangue que te revelaram isto, mas sim o meu Pai que está nos céus» (Mt 16, 17). De igual modo, Paulo dirá, a propósito da sua conversão no caminho de Damasco: «Quando aprouve a Deus – que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça – revelar o seu Filho em mim, para que O anuncie como Evangelho aos gentios…» (Gl 1, 15-16). «E logo começou a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus» (At 9, 20). Será este, desde o princípio (ver 1Ts 1, 10), o núcleo da fé apostólica (ver Jo 20,31), primeiramente professada por Pedro como fundamento da Igreja (ver Mt 16, 18).
  5.  Se Pedro pôde reconhecer o caráter transcendente da filiação divina de Jesus-Messias, foi porque Este a deu a perceber nitidamente. Diante do Sinédrio, à pergunta dos seus acusadores: «Então, tu és o Filho de Deus?» Jesus respondeu: «Vós dizeis que eu sou» (Lc 22, 70). Já muito antes, Ele Se designara como «o Filho» que conhece o Pai, diferente dos «servos» que Deus anteriormente enviara ao seu povo, superior aos próprios anjos. Ele distinguiu a sua filiação da dos Seus discípulos, nunca dizendo «Pai nosso», a não ser para lhes ordenar: «vós, quando rezardes, dizei assim: Pai nosso» (Mt 6,9); e sublinhou esta distinção: «o meu Pai e vosso Pai» (Jo 20, 17).
  6.  Os evangelhos narram, em dois momentos solenes, no batismo e na transfiguração de Cristo, a voz do Pai, que O designa como seu «filho muito-amado». Jesus designa-Se a Si próprio como «o Filho único de Deus» (Jo 3, 16), afirmando por este título a sua preexistência eterna. E exige a fé «no nome do Filho único de Deus» (Jo 3, 18). Esta profissão de fé cristã aparece já na exclamação do centurião diante de Jesus crucificado: «Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!» (Mc 15, 39); porque somente no Mistério Pascal o crente pode dar pleno significado ao título de «Filho de Deus».
  7.  É depois da ressurreição que a filiação divina de Jesus aparece no poder da sua humanidade glorificada: «Segundo o Espírito santificante, por sua ressurreição dos mortos, Ele foi estabelecido como Filho de Deus em poder» (Rm 1, 4). E os Apóstolos poderão confessar: «Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como a Filho único, cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14).

VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

O Senhor Jesus na última Ceia tinha prometido aos Apóstolos: «não lhes deixarei órfãos: enviarei para vós o Paráclito. O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-lhes-á isso tudo e lhes recordará tudo o que eu lhes disse». Por esse motivo eles se reuniram no Cenáculo em oração, junto com Maria, esperando esse acontecimento prometido. No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos e os impulsionou a realizar a missão da Igreja no mundo.

A partir daquele momento o Espírito Santo continuou guiando a Igreja em seu peregrinar. Ao longo destes dois milênios de existência suscitou inumeráveis dons e carismas para o enriquecimento de toda a Igreja. De igual modo o Paráclito continua atuando hoje, acompanhando-a e suscitando nela estas respostas.

São Paulo, na Primeira carta aos Coríntios, dá-nos algumas luzes para compreender esta unidade na diversidade: «Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos»[1]. Todas estas coisas são feitas por um mesmo e único Espírito, distribuindo-as a cada um em particular segundo o Plano de amor do Pai: «Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos»[2].

[1] 1 Cor 12, 4-6

[2] 1 Cor 12, 11-14

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