Caminho para Deus 127 – “Permaneçam em meu amor para dar fruto”

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«Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós, que pela Igreja permanecemos nEle e sem o Qual nada podemos fazer»[1].

 «O Senhor —querendo nos ensinar a necessidade que temos de estar unidos a ele pelo amor, e o grande proveito que nos provém desta união— se dá a si mesmo o nome de videira, e chama ramos aos que estão enxertados e como que introduzidos nele, e foram feitos já partícipes de sua própria natureza pela comunicação do Espírito Santo»[2].  O próprio Senhor nos ensina naquela comparação que quem permanece nele como o ramo permanece na videira, dará cada vez «mais fruto» e «muito fruto»[3], um fruto que permanecerá por toda a eternidade[4]. Com efeito, se permanecermos unidos ao Senhor, nutrindo-nos de seu amor assim como o ramo se nutre da seiva vital da videira, poderemos dar muito fruto para fazer realidade também hoje aquilo que são Lucas escreveu da Igreja nascente: «Ela se edificava e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo»[5].

 1.  Permanecer…

Quando o ramo dá fruto? Quando permanece unido à videira.  Do mesmo modo cada um de nós só pode dar fruto se permanecer no Senhor, e o Senhor em cada um.  Esta é uma chave que não podemos esquecer jamais, especialmente quando nos vem a tentação de abandonar a oração ou descuidar de nossa vida sacramental.

Para compreender melhor o sentido desta palavra “permanência” é importante conhecer seu conceito bíblico.  Como sabemos, os textos mais antigos que temos do novo Testamento estão em grego, e a palavra grega que foi traduzida em nossa língua por permanecer é “ménein”.  O verbo ménein é usado 118 vezes no novo Testamento: 67 vezes por São João, 17 por São Paulo e 12 vezes nos evangelhos sinóticos.

Por um lado se usa a expressão para dar uma localização espacial, por exemplo quando Jesus em sua missão pública se detém e fica em um determinado lugar[6].  Usa-se também para expressar a presença física prolongada ou companhia de uma pessoa com a outra[7].

Pois bem, São João usa muito este verbo em uma expressão composta: “permanecer em” (meno en)[8].

No caso da parábola da videira e dos ramos, esta permanência é mútua, do discípulo no Senhor e do Senhor no discípulo[9], e define uma relação de profunda comunhão entre ambos, similar à comunhão que, no amor do Espírito Santo, existe entre o Filho e o Pai[10].

2.  …no amor…

Uma vez “enxertados” pelo Batismo em seu Corpo místico que é a Igreja, nossa permanência no Senhor exige em primeiro lugar permanecer em sua Palavra[11], quer dizer, permanecer na escuta atenta da Palavra, com a atitude daquele que procura acolhê-la, guardá-la na memória e no coração para pô-la em prática[12].  Esta permanência, na linguagem de São João e São Paulo, implica manter-se sempre fiel aos ensinamentos recebidos do Senhor e transmitidos legitimamente por seus apóstolos na Igreja[13].

É esta permanência em sua Palavra que leva também à permanência em seu Amor, conforme o próprio ensinamento do Senhor: «se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor»[14].  Se assim agirmos, se fizermos o que Ele nos diz como modelarmente nos ensina Santa Maria[15], participaremos de uma íntima e muito profunda comunhão com o Senhor, e por Ele com o Pai no Espírito de Amor: «Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada»[16].

Como é importante, para permanecer no Senhor, nos encontrarmos com Ele todos os dias, escutar sua voz e procurar pôr em prática seus ensinamentos! Quão importante é nos aderirmos a Ele e nos abrirmos à força de sua graça, para que possamos dar fruto! Quantas vezes tivemos a experiência de que sozinhos não podemos! Instruídos pela experiência, como não fazer caso do que Ele ensina? Ele é a Videira e eu um ramo.  assim, se não me encontrar com Ele todos os dias na oração, se não me nutrir de sua graça nos sacramentos, se não me deixar “tocar” profundamente por sua palavra e acender pelo fogo divino de seu Amor, que frutos produzirei?

3.  …para dar fruto

Estamos chamados a dar fruto abundante, para o bem de nossa família espiritual, da Igreja toda e de toda a humanidade: «A glória de meu Pai se manifesta quando vocês dão muitos frutos»[17].

Acima de tudo trata-se de dar um fruto de conversão e santidade em nossa própria vida: «O fruto evocado nesta palavra (Jo 15,5) é a santidade de uma vida fecunda pela união a Cristo»[18].  Pela permanência no Senhor, em seu amor, o Espírito Santo vai realizando lentamente no discípulo uma transformação interior, uma progressiva configuração com os pensamentos, sentimentos e atitudes do Senhor Jesus, até o ponto de poder chegar a dizer também com São Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo quem vive em mim»[19].  É o Espírito do Senhor que, derramando o amor divino em meu coração como uma seiva vital, permite-me agir com a força do Senhor Jesus e amar com seu mesmo Amor.  Daí a importância de perseverar na vida espiritual, procurando que, pela caridade, cresça cada dia mais em intensidade.

Por outro lado, ao permanecer nele e Ele em mim, ao inundar-me com sua Presença, com sua graça, com sua vida e amor, o Senhor me faz fecundo para o apostolado, pois só com minha presença, seja por meus gestos, palavras ou ações, minha vida se converterá em uma intensa irradiação de Cristo.  Assim o Pai será glorificado também pelos frutos de meu apostolado.  Neste sentido não esqueçamos que o Pai, convidando-nos a viver intensamente esta comunhão com seu Filho mediante a mútua permanência no amor, «nos pede uma real colaboração com a sua graça, convidando-nos por conseguinte a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e de ação»[20].

Citações para a oração

  • O Senhor nos convida a permanecer nele: Jo 15,4; em seu amor: Jo 15,9.
  • Permanecemos no Senhor se guardamos seus mandamentos: Jo 15,10.14; Quem ama o Senhor, guarda seus mandamentos: Jo 14,15.21; seu mandamento é que amemos como Ele: Jo 15,11.
  • De modo particular permanecemos em Cristo pela Eucaristia: Jo 6,56.
  • O Senhor nos chamou e destinou a dar muito fruto: Jo 15,16; separados do Senhor não podemos dar fruto; dá fruto quem permanece nele: Jo 15,4-5; a glória do Pai está em darmos muito fruto: Jo 15,8.

INTERIORIZANDO

“Permaneçam em meu amor para dar fruto” (Ver Jo 15,4-5)

O Senhor Jesus é a videira e nós somos os ramos. «Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós, que pela Igreja permanecemos nEle e sem o Qual nada podemos fazer » (Lumen gentium, 6)

  • O que significa que o Senhor seja a videira?
  • O que significa para minha vida concreta que eu sou como um ramo?

O ramo só pode dar fruto se está unido à videira. E Deus, em seu Plano de Amor, chama a cada um de nós a frutificar.

  • O que estou fazendo para permanecer unido à videira que é o Senhor Jesus?
  • E se é que estou unido ao Senhor, que frutos concretos estou dando?

O Senhor Jesus nos convida a viver o imenso horizonte do amor. Isto nos recorda o apóstolo São João em seu Evangelho: “Assim como o Pai me amou, eu também vos amei. Permanecei em meu amor” (Jo 15,9).

  • O que significa para mim vida estar chamado a permanecer no amor do Senhor?
  • O que posso fazer concretamente para crescer ainda mais nesta permanência?

Leia e medite a passagem da videira e os ramos (Jo 15,1-10) e expresse com suas próprias palavras o que lhe diz o Senhor neste Evangelho.

Permanecer no Senhor e deixar que Ele também permaneça em nossa vida deve trazer conseqüências concretas no apostolado que realizamos.

  • Sou consciente de que para dar fruto no apostolado preciso permanecer no Senhor?
  • O que vou fazer?

No Horizonte

Doce e amorosa Senhora,
Maria, nossa Mãe,
vela sempre pelo nosso bem,
intercede todo o tempo por nossa saúde
e obtém-nos a força necessária
para percorrer o caminho da vida,
respondendo ao Plano divino,
até chegar a seu final feliz.
Amém.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. O que faço para permanecer no Senhor? E que mais poderia fazer?
  2. O que significa que eu devo permanecer na Palavra do Senhor? Que implicâncias tem para minha vida?
  3. Quais são os frutos de conversão e santidade em minha própria vida?
  4. Estou realmente me esforçando por transformar meu interior? Que mais posso fazer?
  5. Sou consciente de que só posso dar frutos apostólicos se permanecer no Senhor? O que vou fazer então?

[1] Lumen Gentium, 6.

[2] Cf. São Cirilo de Alexandria, Comentários sobre o Evangelho de São João; Livro 10,2.

[3] Jo 15, 2.5.8.

[4] Jo 15,16; cf. 4,36.

[5] At 9,31.

[6] Lc 19,5-7.

[7] Lc 24,29; Mt 26,38; 1 Jo 4,40-42.

[8] 43 vezes.

[9] Jo 15,5.

[10] Cf. Jo 15,10.

[11] Cf. Jo 14,23.

[12] Cf. Jo 14,15-23; 1Jo 3,24.

[13] Cf. 2 Jo 9; 2Tm 3,14.

[14] Jo 15,10.

[15] Cf. Jo 2,5;

[16] Jo 14,23.

[17] Jo 15,8.

[18] Catecismo da Igreja Católica, 2074; Cf. também 736.

[19] Gl 2,20.

[20] S.S.João Paulo II, Novo millenio ineunte, 38.

 


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