Caminho para Deus 132 – Eucaristia, mistério de fé

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«A Igreja vive da Eucaristia, vive da plenitude deste Sacramento»[1], e por isso maternalmente procura «que este Sacramento de amor esteja no centro da vida do Povo de Deus »[2].

Isto que se diz da Igreja, se diz de mim também, pois eu sou membro da Igreja, pedra viva deste templo santo[3]. Portanto, como batizado e filho da Igreja, eu sou chamado a viver da Eucaristia, ela tem que ser a fonte e o ápice da minha vida. Enquanto é fonte, hei de nutrir-me continuamente da Eucaristia. Enquanto é ápice, tudo em minha vida diária há de conduzir para ela, a Eucaristia há de coroar todo o meu ser e o que faço. Com esta intenção e por desejo explícito do Santo Padre, no presente ano a Igreja «estará dedicada especialmente a viver o mistério da Santíssima Eucaristia»[4]. Assim sendo, ponhamos todo o nosso empenho em meditar atentamente e acolher no coração o que significa[5], realiza[6] e representa[7] este admirável Dom da Eucaristia, para que façamos deste Sacramento a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força.[8].

A Eucaristia, um mistério…

Quando tomamos consciência do que a Igreja nos ensina a respeito do pão e do vinho consagrados e confrontamos com o que nos dizem nossos sentidos, compreendemos que nos encontramos diante de uma realidade que ultrapassa totalmente nossa limitada compreensão: o milagre invisível da Eucaristia é um mistério diante o qual a racionalidade humana e o sentido comum se estatelam, um mistério que só pode ser compreendido como um meio de se exercitar a fé.

Ante a magnitude deste mistério não cabe senão uma humilde e constante súplica: «Senhor, aumenta minha fé… porque descubro que é tão pequena e fraca, porque quero acreditar mais, porque preciso acreditar mais, para me converter cada vez mais a Ti, para viver cada vez mais como Tu me ensinas, para achar em Ti as forças necessárias que me sustentem e fortaleçam na luta por ser santo». A fé, primeiro preceito necessário e adequado diante do mistério que nos ultrapassa, é uma graça de Deus que é outorgada ao homem. «Somente a fé permite entrar dentro do mistério, proporcionando uma sua compreensão coerente.»[9], por tudo isso, é necessário pedi-la incessantemente.

…que requer de um ato de confiança…

Mas, o que entendemos por mistério? Esta expressão procede do grego mysterium, que deriva por sua vez do verbo myo. Myo quer dizer: fechar a boca, não falar, manter algo em segredo. Mistério expressa, pois, uma verdade que permanece oculta e escondida do conhecimento humano, como que escondida atrás de um véu. Esta verdade oculta e inacessível ao entendimento humano pode chegar a ser conhecida quando lhe é manifestada ou revelada por outro. O termo revelar descreve a ação de “descortinar o véu” que mantém oculto um objeto.

Bem, já que é outro quem mostra a verdade a quem por si mesmo não pode conhecê-la, é necessário um ato de confiança naquele que revela. Com efeito, para que eu creia no que me é revelado a pessoa deve ser crível, digna de confiança. Creio quando confio na pessoa que me revela algo. Duvido ou não acredito quando a pessoa em si carece de credibilidade ou autoridade, ou quando não confio nela. Posso, com efeito, não acreditar no que alguém me diz quando o que está dizendo é verdade, simplesmente porque por alguma razão eu não confio nela.

A fé é, então, aceitar como verdadeiro aquilo que alguém me revela para que eu creia, fundamentando-se, a minha aceitação, na autoridade que a pessoa tem sobre si mesma e sobre mim. A fé é, por ela mesma, crer primeiro em alguém para crer, a seguir, em algo que ele me diz ou revela.

…no Senhor Jesus

Na Hóstia consagrada a aparência do pão assume a função de um véu que oculta aos nossos olhos e sentidos uma realidade muito diferente da que eles percebem. Mas, ao mesmo tempo, este véu foi descortinado para os olhos da fé, deixando à vista do crente a realidade oculta aos nossos sentidos: «Cristo na Eucaristia está verdadeiramente presente e vivo, atuando com seu Espírito, mas, como acertadamente dizia São Tomé, “nada vês nem compreendes, mas t’o afirma a fé mais viva, para além das leis da Terra. Sob espécies diferentes, que não passam de sinais, é que está o dom de Deus”»[10].

E quem é que nos revelou este mistério, para que possamos acreditar em seu testemunho? O próprio Cristo descortinou este véu e nos deu a conhecer esta verdade sublime quando disse: «Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente. O pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo»[11]. É isto o que realizou na noite memorável em que instituiu a Eucaristia ao pronunciar sobre o pão estas palavras: «Tomai, comei, este é meu corpo…»[12]; e posteriormente sobre o cálice cheio de vinho estas outras: «Bebei… pois isto é o meu sangue, o sangue da Aliança…».[13]

Sim, desde então Ele mesmo tem convidado gerações e gerações de crentes a acreditarem em suas palavras para que se ponham reverentes perante um mistério inaudito que é impossível ver com os olhos da carne ou compreender somente com a razão. Ele o fez visível para nós, por isso os cristãos, desde o começo, eram muito conscientes de que «o pão e a bebida que tomamos não os recebemos como pão e bebida correntes, mas sim… ensinou-nos que aquele alimento sobre o qual se pronunciou a ação de graças, usando da prece que contém suas próprias palavras, e do qual, depois de transformado, nutre-se nosso sangue e nossa carne, é a carne e o sangue de Jesus, o Filho de Deus encarnado»[14].

Mas também nós, confiando plenamente no Senhor e pelo dom da fé, temos que dar nosso assentimento às suas palavras, reconhece plena e integralmente a verdade de tudo o que foi revelado, porque é o próprio Deus que o garante[15].

Conclusão

Em sua pedagogia divina, que é tão respeitosa do dom de nossa liberdade, Deus nos convida uma vez mais a ter uma atitude de profunda confiança nEle e na palavra de seu Filho muito amado[16]. Essa confiança filial deve-nos levar a transcender a mera percepção sensível do “fenômeno”, para ir mais além até chegar à realidade profunda que permanece invisível perante nossos olhos. Hoje Deus nos convida a penetrar humildemente no mistério admirável da Eucaristia apoiados na fé e na razão, que são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade[17], para que o compreendendo, cada vez mais, em toda sua realidade e profundidade, possamos viver de acordo com o que este mistério é: presença real do Senhor, superabundância de seu Amor.

E assim, conscientes do dom imenso que o Senhor nos deixou na Eucaristia, valorizemos e reverenciemos cada dia mais este presente maravilhoso, procurando deste modo ir ao encontro, renovadamente maravilhados, do doce Jesus que sempre nos espera no Santíssimo.

Citações para a oração

  • O Senhor nos convida a acreditar nEle: Jo 6,28-29. Ele se revela a si mesmo como o Pão da vida: Jo 6,32-35.48-50. Ele revela que o pão que nos dará é sua própria carne: Jo 6,51; perante o escândalo produzido, o Senhor reafirma seu ensinamento: Ele dará de comer sua própria carne e de beber seu sangue: Jo 6,52-53. Só quem come sua carne e bebe seu sangue tem vida em si: Jo 6,53-54. Quem come sua carne e bebe seu sangue, permanece em comunhão com Ele: Jo 6,56. Jesus uma vez mais reafirma a verdade de suas palavras: Jo 6,60-63. Muitos não acreditam e voltam atrás: Jo 6,64-66; embora confusos, os apóstolos confiam no Senhor: Jo 6,67-69.
  • A instituição da Eucaristia: Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20.
  • São Paulo recebeu do Senhor o que nos transmitiu sobre a instituição da Eucaristia: 1Cor 11,21-26; exorta-nos a receber dignamente o Corpo e o Sangue do Senhor: 1Cor 11,27-29.

Perguntas para o diálogo

1.    Que lugar ocupa a Eucaristia em minha vida diária? O que posso fazer para que Ela seja, cada vez mais, fonte e ápice da minha vida?

2.    Descubro a necessidade de crescer em minha fé na Eucaristia? Que meios concretos posso utilizar para isso?

3.     O que estou acostumado a fazer no domingo? No domingo minha vida está centrada, realmente, no Senhor Jesus?

4.     Como Santa Maria pode me ajudar a crescer em meu amor à Eucaristia?

5.     Que meios concretos vou utilizar para viver o Ano da Eucaristia?

INTERIORIZANDO

A Eucaristia, presença real do Senhor Jesus entre nós, deve ser a fonte e o ápice de nossa vida. Por isso é fundamental que nos nutramos continuamente na Eucaristia.

  • Sou consciente da importância da Eucaristia para minha vida?
  • Que ações concretas estou fazendo para me nutrir, continuamente, na Eucaristia? Que mais posso fazer?

Diante do grande mistério da Eucaristia, que vai além de nossa racionalidade e sentido comum, devemos nos aproximar do Senhor e pedir-lhe que aumente a nossa fé. Embora requeira nossa generosa cooperação, a fé é uma graça que Deus Amor outorga ao homem. Por isso, faça uma oração pedindo ao Senhor que aumente sua fé no mistério da Eucaristia.

Em sua Carta Apostólica Dies Domini o Papa João Paulo II exortou que o domingo seja, para todos os cristãos, um dia especialmente centrado no Senhor Jesus. Também na Carta Apostólica Mane nobiscum Domine nos lembra a importância que o domingo deve ter para nós. Diz o Santo Padre: “Desejo em particular que, neste ano, se ponha um empenho especial em descobrir e viver plenamente o Domingo como dia do Senhor e dia da Igreja” (João Paulo II, Mane nobiscum Domine).

  • O Domingo é para mim, realmente, “o dia do Senhor”?
  • Que coisas concretas posso fazer para que, durante o ano da Eucaristia, o domingo seja para mim um dia centrado no Senhor?

“Eu sou o pão vivo, descido do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu darei, é minha carne para a vida do mundo”. O Senhor instituiu a Eucaristia e no-la dá como pão vivo, alimento de vida eterna.

  • O que significa a Eucaristia para minha vida?
  • Compreendo realmente que o Senhor Jesus, por amor, Se oferece a mim, na Eucaristia,comoverdadeiro alimento?

O Ano da Eucaristia abrange de outubro de 2004 a outubro de 2005. E é o próprio Santo Padre, o Vigário de Cristo, quem nos exorta: “Vós, fiéis todos, descobri novamente o dom da Eucaristia como luz e força para a vossa vida quotidiana no mundo, no exercício das respectivas profissões e em contacto com as mais diversas situações. Descobri-o sobretudo para viverdes plenamente a beleza e a missão da família.” (João Paulo II, Mane nobiscum Domine).

  • Que meios concretos vou me propor para viver, de maneira mais intensa, o Ano da Eucaristia?

Por Maria somos conduzidos mais plenamente ao Senhor Jesus. Que nossa Mãe nos guie ao encontro de seu Filho durante todo o Ano da Eucaristia!

Pedindo um favor

Peço-te perdão
pois me aproximo,
Oh Maria!
interessado em pedir-te.

Sei que teu Filho amado
nada te nega,
e, com essa confiança,
sabendo de tua imensa bondade,
é que me atrevo a pedir-te
que intercedas
para obter-me a graça
que agora  te  peço:
crescer na fé na Santa Eucaristia.
Amém.


[1] Redemptor hominis, 20d. Ver Catecismo da Igreja Católica, nn. 1324, 1325, 1343, 1407

[2] Ali mesmo.

[3] Ver 1Pe 2,5.

[4] S.S. João Paulo II, Mane nobiscum Domine, 2. O Ano da Eucaristia vai desde outubro de 2004 até outubro de 2005.

[5] Ver Catecismo da Igreja Católica, 960;1325.

[6] Ver ali mesmo, 1358-1361

[7] Ver ali mesmo, 1366.

[8] Ver Sacrosanctum Concilium, 10.

[9] Fides et ratio, 13.

[10] Ali mesmo.

[11] Jo 6, 51

[12] Mt 26, 26

[13] Mt 26, 27-28

[14] São Justino, Apologia em favor dos cristãos; Ver Catecismo da Igreja Católica 1345

[15] Ver Fides et ratio, 13.

[16] Ver Mt 17,5.

[17] Fides et ratio, bênção.

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