Caminho para Deus 205: Quaresma, tempo de conversão

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Quem somos nós, os cristãos, no meio do mundo? A que somos chamados? A Sagrada Escritura nos oferece respostas esclarecedoras a estas perguntas. Convém meditar nelas para não cair no erro de viver sem identidade, sem raízes e sem rumo. O tempo da quaresma é precisamente uma ocasião privilegiada para nos renovarmos na vivência de um cristianismo mais autêntico.

Batizados, libertados por Cristo

Quem somos? Somos pessoas batizadas, e ao sermos batizados entramos na Igreja. A Escritura, bem como o Catecismo, nos ensina que a Igreja é o novo Povo de Deus[1], a “verdadeira descendência” dos antigos Patriarcas, segundos as promessas do Pai. Talvez nossa identidade de batizados possa ser melhor compreendida se pudermos ler na Bíblia e meditar a respeito deste grande acontecimento da história do Povo de Israel: o Êxodo. Após ter passado séculos escravizado no Egito, o povo hebreu recebeu o chamado de Deus através da pregação de Moisés. Após muitos prodígios divinos, puderam sair do Egito e cruzar o mar Vermelho, atravessando as águas em direção ao deserto, conquistando assim a libertação desejada.

Na plenitude dos tempos[2], o Batismo cristão é a realização espiritual e plena desta libertação histórica. Se no passado, o Povo de Israel cruzou as águas, guiado por Moisés, através da água do Batismo nós fomos sepultados com Cristo[3], cruzando com Ele o limiar da morte e ressuscitando assim para uma vida nova. Recebemos Dele a graça que nos liberta da escravidão do pecado. Portanto, para nós batizados, todo o antigo passou. Agora somos chamados a viver livres em Cristo, utilizando retamente nossa liberdade para caminhar na verdade, para servir a Deus e aos demais, e assim encontrar Nele a felicidade plena[4].

A caminho da vida eterna

Durante quarenta anos, o povo caminhou pelo deserto buscando um objetivo claro: chegar à “Terra Prometida”, um lugar aonde encontraria fartura e paz. Isto nos remete à resposta àquela pergunta inicial: a que somos chamados como cristãos? Nós, também, temos um objetivo, que já não é mais encontrar um local geográfico: nossa meta é a vida eterna, a comunhão plena com Deus. No entanto, encontramos muitos obstáculos pelo caminho. Também nossa vida cotidiana, muitas vezes se assemelha a um deserto, no qual sofremos fome, sede, cansaço e muitas tentações. Surge então outra pergunta decisiva: vale a pena ser cristão no mundo, já que continuamos encontrando obstáculos, tentações, dores e angústias?

A “Quaresma”, estes quarenta dias que a Igreja dedica, ano após ano, como preparação para as celebrações da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, é um tempo especial para se aprofundar, com a força do Espírito, na nossa conversão pessoal e meditar no sentido dos obstáculos e das tentações, dos sofrimentos, e das dificuldades da vida. Se por um lado a vida cristã é uma aventura bonita e cheia de alegrias, nunca faltam as dificuldades. Que sentido tem, portanto a fome e a sede, o cansaço e as provas no peregrinar? Somente a cruz do Senhor pode nos dar uma resposta definitiva. As práticas do jejum, da abstinência e até mesmo os problemas da vida, são oportunidades propícias para nos exercitarmos na mortificação, para nos unirmos à cruz de Cristo e para encontrar Nele o sentido do sofrimento.

Pelo serviço e pela entrega

Uma das recomendações para a Quaresma é vivermos mais intensamente a prática da esmola. Porém o sentido desta recomendação não se reduz à ajuda material ao mais necessitado. Diz respeito a algo muito mais amplo: significa também desprender-se de si mesmo, daquilo que possuímos e de nossos próprios interesses, para nos entregarmos aos demais. Implica em desenvolver a nossa ”capacidade de compartilhar”. Talvez o serviço fraterno nos permita entender melhor o que significa a esmola. E o que significa ser cristãos. “O amor se faz concreto no serviço” reza um de nossos lemas. Servir significa dizer “sim” ao amor, segundo o exemplo de “Servo de Deus” que se entregou por nós. É também um forte antídoto contra o pecado, já que a soberba, mãe de todos os vícios, se expressa no demoníaco “non serviam” (“não servirei” em latim).

A vivência do amor exige de cada um dar o melhor de si mesmo. Sabemos que esta autodoação nem sempre é algo fácil, e que em geral nos custa um grande esforço de desprendimento, de entrega e de renúncia. Porém, também sabemos que, assim como na vida, muitas vezes, as coisas mais valiosas custam mais, no âmbito espiritual ocorre algo parecido e, portanto, vale a pena viver o autêntico amor a Deus e aos demais, pois o amor permanece para sempre, vencendo inclusive a morte. Esta é também a lição que aprendemos na Quaresma, já que nos preparamos para celebrar a vitória do Amor de Cristo, que venceu na Cruz, e brilhou vitorioso na Ressurreição.

Uma mudança de rumo a partir do encontro com o Senhor

A Igreja nos convida, na Quaresma, a “redescobrir nosso Batismo” e a “experimentar a graça que nos salva”, que nos faz ser verdadeiros filhos de Deus, participantes da herança prometida pelo Pai. Viver segundo esta dignidade implica numa renúncia radical ao Maligno e ao pecado. Implica numa opção por nos despojar diariamente da nossa antiga condição para nos revestir da graça que Cristo[5], o “homem novo” nos dá.

Conversão significa, portanto, uma mudança integral do rumo de toda nossa vida, até uma vida plena e reconciliada à qual o Senhor nos convocou. Significa optar por Ele sem medos nem, covardias. Implica numa mudança de mentalidade, de critérios e de atitudes, que tem como primeiro passo a humildade. Ou seja, caminhar na verdade, reconhecendo-nos como pecadores constantemente necessitados da graça e do perdão de Deus.

Uma excelente maneira de se conhecer a verdade e caminhar nela é a oração. Através da oração, nós nos encontramos com o Senhor e escutamos sua voz. A partir dele brota a luz que ilumina nosso interior e que nos permite descobrir quem somos, o que devemos fazer, e por quais caminhos seguir. No encontro com Cristo na oração, descobrimo-nos, como Moisés, na “terra santa”. Santo Agostinho fez uma analogia entre esta “terra santa” e a Igreja: “sendo ela , portanto, a terra onde nos encontramos, devemos tirar as sandálias, ou seja, renunciar às obras mortas”. Com efeito, não é digno da condição de cristãos batizados viver no pecado. O encontro com Jesus, “Luz do mundo”, deve-nos impulsionar a refletir esta luz com nossas boas obras, para assim dar glória a nosso Pai celestial no Espírito Santo. “Conversão” significa permitir que o Senhor Jesus entre em nossas vidas, para nos conformarmos com Ele.  Devemos trabalhar a fim de nos livrar daquilo que sobra em nós, e para acrescentar aquilo que nos falta segundo a medida de Cristo. O que sobra em nós são o pecado e nossos vícios, e o que nos falta, são a virtude e as boas obras.

Vivamos na Quaresma esta busca para nos configurarmos com o Senhor Jesus. Não tenhamos medo de renunciar ao pecado de forma radical, aproveitando as mortificações do caminho para nos unirmos a sua Cruz e trabalhando para crescer na virtude, especialmente na caridade através do serviço fraterno. Recordemos aquelas belas palavras de S.S. Bento XVI: “Não tenham medo de Cristo. Ele não tira nada e dá tudo. Quem se dá a Ele, recebe Dele cem por um. Sim , abram, abram de para em par as portas à Cristo, e encontrarão a verdadeira vida”.

PASSAGENS BÍBLICAS PARA ORAÇÃO E MEDITAÇÃO

Chamado à conversão: Mc 1,15; Mt 3,2; Lc 3,3-14; Rom 12,1-2; Ef 4,20-24

Vida nova do batizado: Rom 6,1-11; Col 2,12-13

Viver a liberdade em Cristo: Gal 5,1-13

Serviço fraterno: Lc 1,36-41; Jo 13,1-5; 1Pe 4,10; Jo 12,26

A mortificação: 2Tim 1,12-13; Col 3,5-10

Encontro com a verdade na oração: Lc 15,17-24; 1Jo 2,4-5; Lc 17,11-19

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

O quanto tenho consciência da minha condição de batizado? O quanto estou disposto a renovar meu compromisso com o Senhor nesta Quaresma e a me dispor dos meios para crescer na minha conversão?

Que coisas me prendem e me impedem de avançar melhor pelo caminho da santidade? Quanto empenho pessoal eu coloco para viver a liberdade conquistada por Cristo na Cruz?

Eu enfrento os desafios que eu encontro na vida, assumindo o sofrimento e unindo-me ao Cristo crucificado? Opto por fugir da dor, compensando-a com coisas vãs, ou a assumo com uma visão de eternidade?

Exercito a minha capacidade de ser generoso através do serviço fraterno ou da esmola? Procuro os meios para viver uma vida de oração intensa e para me encontrar diariamente com o Senhor Jesus? O que devo fazer para ter o Senhor Jesus como modelo de humanidade e centro da minha vida?

NOTAS

[1] 1Pd 2, 10

[2] Gal 4,4

[3] Rom 6,4

[4] 2Cor 20, 17

[5] Rom 13, 14

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