O Bom Pastor e as Ovelhas

18982

Jo 10, 1-18 / Sal 23 (22)

Na Sagrada Escritura encontramos várias analogias que o Senhor Jesus utilizou sobre Si mesmo e sobre nós. Uma delas e uma das mais bonitas é a do Bom Pastor e as Ovelhas. Esta simples reflexão começou a ser feita por mim junto com alguns irmãos sodálites no tempo da nossa Formação Inicial, e depois de uns anos, eu quis continuá-la.

Como ovelhas

O Senhor Jesus é o nosso Bom Pastor, esta denominação nos convida a ser como ovelhas, a ser suas ovelhas; e a não querer viver como ovelhas sem pastor.

Primeiramente, tentemos conhecer mais sobre este animal. Quando pensamos na ovelha, o primeiro que pode vir a nossa cabeça é que um animal indefeso.

Caraterísticas da Ovelha:

  • Não tem uma grande inteligência que faça dela um animal astuto
  • Não tem garras nem presas para defender-se como felino
  • Não possui veneno como as serpentes
  • Não é rápida e não é ágil como para subir-se numa arvore (como o macaco), ou nas rochas (como um bezerro)
  • Não é pequena como para esconder-se
  • Não é grande como para causar respeito
  • Não possui couraça como a tartaruga
  • Não pode cavar a terra, como o coelho ou a toupeira
  • Não pode voar
  • Não pode se camuflar no meio da floresta

Então, a ovelha é um animal muito indefeso.

Por isso vive em rebanhos, já que assim diminui o risco de ser atacada, e, se for, diminui-se o risco de morrer. Isto não é devido a que o rebanho ataque o caçador, senão pelo fato de serem várias.

As ovelhas ouvem a voz de seu pastor

As ovelhas estão necessitadas de ser guiadas, de alguém que as chame para que possam andar por sendas seguras. Elas têm que fugir do lobo, por isso precisam, sempre, escutar e reconhecer a voz de seu pastor e não a do lobo; e for escutar e reconhecer a voz do lobo, não deverá segui-la.  No lobo vemos uma analogia com o Demônio, como é mencionado pelos Padres da Igreja como Santo Agostinho.

Imaginemos, nós sem um Pastor:

– Não teríamos como defender-nos das garras do demônio, já que o demônio possui uma inteligência superior da nossa. E seriamos pressas muito fáceis dele.

– Andaríamos confusos, sem saber para onde ir, sem saber onde estão as autênticas verdes pastagens onde repousaremos.

– Morreríamos de fome por não estar alimentados ou estaríamos envenenados pelas diversas palavras.

– Não teríamos forças para vencer. Ovelhas que ficam presas entre as pedras. Da mesma maneira nós, sem um Pastor, ficaríamos enredados nas concupiscências e atascados em nossos pecados.

– Não teríamos como superar as dificuldades e sofrimentos da vida.

– Uma ovelha que não pode atravessar um rio por si só, tem que atravessá-lo com a ajuda do Pastor.

– Não veríamos o horizonte da nossa existência. Um Pastor nos indica para onde caminhar.

– Sem um Pastor que nos conheça, nos sentiríamos sozinhos e vazios.

– Não basta ser conhecido entre as ovelhas, o Pastor é quem conhece as ovelhas como nenhuma ovelha poderia conhecer. Este conhecimento leva a um encontro ao qual nenhuma ovelha pode chegar por si mesma.

Então, sem Cristo, estamos como ovelhas sem pastor. Por isso, o nosso coração clama por conhecer o Bom Pastor, conhecê-lo, segui-lo, e viver junto com Ele a missão.

Eu sou o Bom Pastor: o Bom Pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas.

Jesus se revela como o Bom Pastor e coloca como elemento central “dar a vida por nós”.

No Antigo Testamento não se sabia ainda que a maneira como Deus conduziria às ovelhas para o rebanho, seria dando sua própria vida. “Certamente eu mesmo cuidarei do meu rebanho e dele me ocuparei. Eu mesmo apascentarei o meu rebanho, eu mesmo lhe darei repouso”. (Ez 34, 11.15)

Ele é o Bom Pastor pelo fato de dar sua vida ao Pai. Assim o Senhor Jesus nos mostra quanto nós lhe importamos e quanto nos ama; até o ponto de entregar sua vida por nós, para que tenhamos vida e vida em abundância. Justamente para que tenhamos vida e vida em abundância, Ele aceitou morrer, e como Ele é Deus, a vida que nos dá não se acaba, nem é vida só para alguns, nem tampouco é opcional. É vida para todo aquele que queira viver, porque não há vida separada de Cristo. E é vida em abundância pois sobrepassa todas as nossas expetativas e nos insere na plenitude da vida de Deus.

Ele, como Bom Pastor, conhece as nossas necessidades e os nossos sofrimentos, até mais do que nós mesmos: “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça foram todos contados” (Mt 10, 30); e está disposto a curar nossas feridas e nos dar consolo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28).

Ele como Bom Pastor, também conhece nossos anseios, e assim entrega sua própria vida porque sabe que a necessitamos. Nele e graças a Ele podemos viver plenamente na terra e eternamente no Céu.

Como estamos acolhendo essa abundância de vida que me dá o Senhor?

– Com um coração mesquinho. Assim não recebo abundancia por mais que Cristo a dê, já que o mesquinho tem seu coração fechado. Ou recebo essa graça com um coração generoso e abnegado.

– Com um coração distraído pelo mundo, um coração que busca prazeres. Assim não recebo a abundância por prestar atenção a outras coisas. Ou estou atento e reverente diante do que o Senhor me dá.

– Com um coração que se preocupa pela glória, pelos agrados, pela imagem perante os outros, pelo sucesso. Assim não recebo abundância pois prefiro-me mais a mim mesmo enchendo meu coração de ar, de vazio.

– Com um coração endurecido pela mágoa, ira, inveja, rancores. Um coração endurecido não recebe a graça do Senhor. Ou temos um coração dócil para acolher essa abundância.

– Com um coração fraco, desalentado e triste. Assim não recebo abundância, pois meu coração está murcho. Ou recebo essa abundância com um coração magnânimo e alegre.

– Com um coração frio e adormecido, um coração que não se entusiasma com o ideal e não vive ardendo pela missão da Igreja. Assim não recebo abundância porque no fundo meu coração tem medo da abundância. Ou acolho a graça que me dá o Senhor com um coração ardendo por Ele e entusiasmado por cumprir Sua Missão.

– Com um coração soberbo, autossuficiente e pedante. Assim não recebo abundância pois acho que já me basto a mim mesmo. Ou recebo essa graça com um coração humilde e confiante pois sabemos que dependemos de sua misericórdia.

Vale a pena se perguntar, como está meu coração? Estou trabalhando para ter qual coração? Lembrando que a chave está em olhar para Cristo, quem da sua vida para que nós a tenhamos em abundância. Só vivendo Sua vida poderemos viver a nossa vida plenamente.

Quando olhemos para Cristo, o Bom Pastor, não esqueçamos que Ele é a Vida e que a dá em abundância.

Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem.

O Bom Pastor é uma imagem preciosa porque vemos:

– Cristo próximo: é o que nosso espírito anseia.

– Cristo misericordioso e bom: é o que nossa pequenez precisa.

– Cristo carinhoso: é o que nossa afetividade busca conhecer.

Além disso, Cristo nos conhece pessoalmente e Ele se preocupa por cada um de nós, como um Pastor que conhece suas ovelhas e as chama por seu nome.

Como é este conhecimento?

– Não é um conhecimento abstrato ou um conhecimento somente intelectual.

– Cristo quando diz: “conheço as minhas ovelhas”, refere-se a um conhecimento mais profundo, que chega a ser liberador, um conhecimento que nos suscita confiança.

O ser humano tem fome e sede de alguém que possa abrir-se, manifestar-se e revelar-se. E, mais ainda, o homem tem fome de alguém que o ajude a entrar em seu próprio mistério, pois é Ele servo do mistério do homem.

Então, vemos que trata-se de um conhecimento profundo, íntimo, baseado na confiança, e que responde ao nosso anseio de abertura, de entrar em nós mesmos e de abertura com os demais.

O Senhor nos conhece e ele da Sua vida por nós que somos suas ovelhas. Acreditemos que este conhecimento Ele mesmo nos revelou é como o conhecimento que o Pai tem dEle: “como o Pai me conhece e eu conheço meu Pai. Eu dou minha vida pelas minhas ovelhas”. (Jo 10, 15).

O conhecimento que o Pai tem do Filho é um modelo do conhecimento que Cristo tem por nós.
Este conhecimento envolve a totalidade da pessoa, e está fundamentado no Amor que gera uma Comunhão.

O Bom Pastor conduz as ovelhas, elas escutam sua voz e o seguem.

São Cirilo de Alexandria dizia: “o distintivo da ovelha de Cristo é sua capacidade de escutar e de obedecer”, enquanto as ovelhas estranhas se distinguem pela sua falta de docilidade.

As ovelhas que escutam a voz de seu pastor o seguem porque o reconhecem como seu pastor; e sabem que seu pastor as conhece, por isso devem estar sempre unidas a ele.

Cristo como Bom Pastor caminha na frente das ovelhas, para guiá-las e mostrar-lhes o caminho:

– Caminho da nossa realização como cristãos que é a santidade.

– Caminho da nossa própria vocação particular.

– Caminho da missão que Deus tem para nós (futuro que não se vê).

 

Cristo como Bom Pastor caminha na frente das ovelhas, para prever os perigos.

Cristo nos cuida das armadilhas do mundo, e de cair nas seduções de nosso homem velho.

Cristo como Bom Pastor caminha na frente das ovelhas, para defendê-las do lobo (demônio).

Temos que deixar que Ele nos defenda.

Mas não só à frente, senão também, no meio e atrás.

“Caminhar com o nosso povo, por vezes à frente, por vezes no meio e outras atrás: à frente para guiar a comunidade; no meio, para animar e sustentar; atrás, para a manter unida, a fim de que ninguém se atrase demais”. (Papa Francisco, 2013). Nestas palavras que foram dirigidas aos brasileiros em uma das suas mensagens, o Papa está se referindo principalmente aos Bispos e aos Sacerdotes; embora saibamos que têm como fundamento a vida do Senhor Jesus, nosso Bom Pastor, e a Sua atitude para conosco que somos Suas ovelhas e que constituímos Seu rebanho.

Então, quando olhemos a imagem do Bom Pastor, pensemos que as ovelhas o seguem, com docilidade, prontidão, confiança, desprendimento e radicalidade.

Ver como Cristo caminha com as ovelhas, nos leva a pensar na comunhão à qual todo cristão está chamado.

E nós que somos as ovelhas, olhemos para o nosso Bom Pastor, como a ovelha o faz no seu colo, escutando os latidos de seu pastor.

Assim como as ovelhas, nós temos que permanecer com Ele, unidos a Ele; com coerência, fortaleza, amor, e desdobramento na vida ativa.

Para concluir, que a imagem do Bom Pastor nos ajude a crescer: No conhecimento de Cristo ao reconhecê-lo como o Bom Pastor, a entendermo-nos como ovelhas de seu rebanho, e na conversão das nossas vidas para que cada dia possamos segui-lo melhor e acolher Sua vida que é trazida em abundância para nós.

Nasceu em Lima, Peru, em 1983. Membro do Sodalício de Vida Cristã e mora no Brasil desde 2008. Mestre em Psicologia e Bacharel em Administração. Realizou por alguns anos estudos de Filosofia. Atualmente estuda um Diplomado de Antropologia Cristã da Universidad San Pablo. É membro fundador da Associação Reconciliatio – Psicologia Integral.

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