Posturas

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Sabe-se de São Bento, Pai dos monges do Ocidente e Padroeiro da Europa, que, à hora da morte, pediu que o levassem ao Oratório para pela última vez comungar, e ali, sustentado nos braços dos seus discípulos, murmurando uma oração e de mãos levantadas para o céu, morreu, de pé. Convido o leitor a conferir esta passagem no extraordinário “Um Estudo sobre o Monaquismo”, de Gustavo Corção (Editora La Cava, 1987, 43 p.), onde o autor expõe com extraordinário brilho e beleza o significado profundo da postura vertical – da alma – diante de Deus. Aqui, limitadamente, fica assinalada deste estudo apenas a elevação que o Homem deve buscar, acompanhando o porte de Cristo Nosso Senhor; de Cristo Nosso Senhor erguido soberanamente na Cruz.

A ideia abordada por Corção ressalta a dignidade que, como filhos de Deus, irmãos de Jesus, nos permitirá, se permanecermos colunas firmes da Fé, entrarmos na Eternidade com a mesma figura Daquele de Quem devemos ser imagem e semelhança. Para isso fomos criados; para isso somos chamados. Não é pretensão orgulhosa querermos estar de pé diante de Deus, vê-lo face a face: é esta, justamente, a promessa que Ele nos fez. A verdadeira humildade não inferioriza o ser humano, antes o eleva, porque o torna capaz de compreender o necessário abandono e confiança total no Pai, a exemplo do Cristo, que, “humilhando-Se, fez-Se obediente até a morte, e morte de Cruz. Por isso deus O exaltou, e Lhe deu um nome que está acima de todo nome” (Fil 2,8-9).

Abraçando a Irmã Morte, São Francisco de Assis nos dá o exemplo desta mesma humildade: pediu para ser colocado no chão e coberto de cinzas, aguardando em agonia dolorosa a quem chamava de sua “porta da vida” (cf. Pe. José Leite, S.J. (Org.). 1985. Santos de Cada Dia Vol. III. Braga, A. O., 547 p.). E é certo que esta sua porta era trabalhada de um madeiro.

A atitude destes dois gigantescos santos na culminância das suas vidas nos interpela, num aparente paradoxo, da nossa própria postura frente à vida e à morte – isto é, à vida a que fomos chamados. À dignidade das alturas, de fato, não se contradiz o abandono chão na linha do duro solo. A Cruz, para ser alçada, foi fincada na realidade rude de uma terra empobrecida, e só a alma que se esvazia muito concretamente de si mesma – do seu nada – pode ser preenchida até transbordar pela santidade de Cristo. O reconhecimento da total dependência de Deus implica em deixar-se ser elevado à dignidade de Seus filhos, e aceitar esta dignidade de filho implica em reconhecer a total dependência Dele. A verdadeira humildade une estas duas posturas.

A perfeição deste modelo, nos dá a filha predileta de Deus, que por isto mesmo é Sua Mãe: Maria, a “escrava do Senhor” (cf. Lc 1,38), é a bendita por todas as gerações (cf. Lc 1,48), por causa da “humildade da Sua serva” (Lc 1,48). Em tudo prostrou-Se em obediência a Deus, para que “faça-se em mim segundo a Tua palavra” (cf. Lc 1,38); e por isto permaneceu de pé, com Cristo, no Calvário. Ela mesma nos adverte, com carinhos maternais, “Fazei tudo o que ele vos mandar” (cf. Jo 2,5) – e o diz, justamente, aos serventes da festa (cf. Jo 2,5), para que a água batismal que preenche os cavos do nosso coração se revele como o melhor vinho consagrado na Cruz, e possamos assim comemorar eternamente as bodas da Redenção da nossa alma com o Espírito da Trindade.

Nossa Senhora nada fez de extraordinário aos olhos humanos, nada de radicalmente espalhafatoso, ao mesmo tempo, tudo fez radicalmente para Deus. Simplesmente serviu-O, em perfeita consonância com a Sua vontade, assim como a sã Teologia nos ensina que a natureza humana de Cristo em tudo está de acordo e em obediência à Sua natureza divina (cf. Catecismo da Igreja Católica): nada poderia exemplificar melhor a perfeita união do plano terreno com os elevados planos divinos, feitos para nós no amoroso Mistério dos aconchegos da Eternidade.

Maria “deu mais glória a Deus, pela menor de suas ações, por exemplo, fiando na sua roca, dando um ponto de agulha, do que um São Lourenço estendido na grelha, por seu cruel martírio, e mesmo que todos os santos por suas mais heróicas ações” (São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, nº 222). Seguindo o exemplo e o conselho da Mãe de Deus e nossa, Santa Teresinha do Menino Jesus nos propôs a “pequena via” de santidade, pela qual demonstra que as pequenas ações da vida diária, feitas por amor a Deus, valem mais do que grandes atos destinados à glória pessoal (Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, História de uma Alma, Manuscrito B). E de novo voltamos a São Bento: a sua Regra para a vida monástica, farol também para os leigos, direciona cada momento e ação do dia para a unitiva normalidade e intensidade no serviço a Deus; para que as ações diárias, planas, sem relevo, sejam relevantes, à altura de monte, Cassino, Sion, Calvário.

Mas ambos os traços das personalidades e posturas de São Bento e São Francisco, formando juntos a letra “G” grega (ou do alfabeto russo, criado por São Cirilo) – “Γ”, precisam de uma correspondência pessoal de cada filho de Deus. A este “G” de Gólgota – Graça – Glória, com uma haste vertical e uma linha horizontal, é necessário acrescentar um gesto individual, pessoal, uma ação efetiva, sem o que estes exemplos se perdem. É preciso escrever nesta linha de humildade, que é o cume de uma elevação ao Pai, algo que traduza em cada vida a Palavra, o Verbo de Deus; falta adicionar aí a nossa própria postura diante do Senhor e da Sua proposta para nós. Para espelhar este “Γ”, é preciso o nosso gesto, ação e postura genuflexória, diante de Deus, dos irmãos e da vida: e o “┘” que acrescentamos ao “Γ”, unido a ele pela centralidade Daquele no Qual todos se encontram, forma a necessária cruz que nos identifica, em humildade e grandeza, ao Cristo Jesus.

De joelhos diante do Sacrário encontramos a nossa postura mais apropriada nesta vida. Se não temos a caridade da altura de um São Bento, ou da extensão de um São Francisco, busquemos o equilíbrio: ainda não totalmente erguidos, ainda não repousados no pleno abandono celeste; nem indevidamente altivos, nem preguiçosamente deitados; mas constantes na fé e na oração, reconhecendo, como convém, a majestade do Senhor a Quem devemos sempre adorar, a um tempo rebaixados e de cabeça erguida para Ele. E assim evitaremos a impostura de uma falsa atitude de vida diante do Senhor.

José Duarte de Barros Filho   9-10/10/2014

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