As sete palavras de Cristo na Cruz

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Introdução

“Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim; mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem.” (Jo 10,25-26) Escutar a voz de Jesus: esse é o objetivo desta meditação. Vejam como Ele fala! Vejam como Ele encontra forças para falar! Ele tem realmente “palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Que estas 7 palavras, tão somente algumas das 70 x 7 palavras que Jesus disse neste mundo, penetrem nossos corações. E nos ensinem a falar. E nos ensinem a viver.

Primeira palavra: “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem.” (Lc 23,34)

As primeiras palavras como que expõem o conjunto da obra que está se realizando: a misericórdia de Deus. Jesus é capaz de defender os homens até o fim. Conhece seus pensamentos, escruta seus corações e apela à misericórdia do Pai por eles. Como não ver aqui a ternura da mãe que quer salvar seu filho custe o que custar? Mas talvez o que mais chame a atenção é que Jesus queira salvar inclusive os que o condenam. Palavras que nos ensinam a nunca pagar o mal com o mal, a encomendar sempre os homens –particularmente os mais feridos pelo pecado– à misericórdia de Deus.

Senhor, quando utilizemos palavras indevidas, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Segunda palavra: “Em verdade eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lc 23,43)

Para muitos, estas são as palavras mais belas do Evangelho. Jesus perdoa o “bom ladrão”, o ladrão sensato, arrependido; o ladrão que soube reconhecer a sua miséria e colocar-se nos braços redentores de Cristo. E, com autoridade, Jesus lhe promete que estará com Ele no Paraíso. O ladrão recebe muito mais do que esperava. Talvez na Cruz tenha aprendido a rezar, a entrar em diálogo com Deus. Talvez aí tenha aprendido a suplicar, a confiar em Deus. E Cristo, continua dando-nos exemplo de que segue exercendo seu papel de Mediador, de levar as pessoas a Deus, quem em Si mesmo personifica o Reino, o Paraíso. Quem foi durante uma vida ladrão, tem agora o seu coração roubado por Cristo.

Senhor, quando não somos humildes com o “bom ladrão”, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Terceira palavra: “Mulher, eis aí o teu Filho. Filho, eis aí a tua mãe.” (Jo 19,27)

Depois de invocar a misericórdia de Deus sobre os que o condenam; depois de oferecer o paraíso a um condenado como Ele, Jesus agora vela pela sua Mãe. Como bom Filho, sem dúvida de boa Mãe, Ele a encomenda aos cuidados do Apóstolo João, o Discípulo Amado, e, nele, a confia a todos nós, seus discípulos. Mas, antes, Ele o encomenda –e, nele, a nós– aos cuidados de Maria, a “Mulher”, a Mãe. Jesus continuará vivo em Maria, na intimidade do seu coração, na vida daquela que foi a melhor discípula e que conhece o Filho como ninguém. Assim, Jesus nos deixa um claro testamento espiritual que pode ser resumido numa frase: “Por Cristo a Maria e por Maria mais plenamente ao Senhor Jesus”. Cristo nos indica que olhemos para Maria e, ao fazê-lo, vemos que todo o seu ser está cheio da lembrança viva, encarnada, do seu Filho.

Senhor, quando não nos abrimos à presença de Maria em nossas vidas, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Quarta palavra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46; Mc 15,34)

O sofrimento faz-se mais intenso. Jesus experimenta a dor dos nossos pecados na sua própria carne. Também experimenta o “vazio de Deus” que o pecado introduz na alma humana. Assim, com um grito desabafa essa terrível experiência humana, de quando a humanidade está ferida pelo pecado: “Meu Deus, por que me abandonastes?” Jesus se sente sozinho. Os pecados que carrega sobre si têm essa característica de quebrar a comunhão, de fechar ao amor, de atrair sobre si essa espantosa solidão. Jesus se queixa, mas ainda não disse tudo. Na dureza destas palavras, prepara as ternas palavras de quem sabe que Deus não abandona nunca o homem, quando encomendar-se-á novamente aos cuidados do Pai.

Senhor, quando pensamos e sentimos que nos abandonastes, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Quinta palavra: “Tenho sede.” (Jo 19,28)

Palavras breves. Palavras de quem está esgotado. Como não lembrar-nos neste momento do encontro de Jesus com a samaritana: “Dá-me de beber”? Jesus pede água, Jesus pede ajuda. Sabe que o homem por si só não é capaz de muito, não é capaz de nada. Jesus quer ser ajudado, precisa da ajuda dos demais. Mas, na sua sede, oferecem-lhe vinagre. Vão matando-o aos poucos. O profeta Jeremias parecia descrever este momento quando transmite-nos a mensagem de Deus ao seu Povo: “…a mim me deixaram, manancial de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas rachadas, que não retêm a água”. (Jer 2,13) Jesus pede de beber, mas, quando lhe negam, vão secando a fonte, aquela única fonte capaz de saciar a nossa sede de vida plena, eterna.

Senhor, quando não vos demos de beber nos mais necessitados, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Sexta palavra: “Tudo está consumado.” (Jo 19,30)

É o fim. Aproxima-se a morte. Podemos realmente dizer com São João, que Jesus “amou-nos até o extremo” (Jo 13,1). Até o fim. Deu-nos tudo, até o último suspiro. Aqui vemos o limite do amor de Cristo: amar sem limites! Mas na morte, consuma-se também o que Cristo veio fazer neste mundo: cumprir a vontade do Pai, que era seu alimento. Jesus certamente aguentou a flagelação, a paixão e morte porque estava “bem alimentado“, porque nunca se desviou dos caminhos dos desígnios do Pai. Jesus viveu toda a sua vida correndo atrás das ovelhas perdidas que somos você e eu. Agora descansa, com o consolo do dever cumprido.

Senhor, quando somos mesquinhos no amor e não amamos até o fim, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Sétima palavra: “Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito.” (Lc 23,46)

Última palavra. Um resumo da relação de Jesus com o Pai. Sempre confiou. Não seria diferente agora. Aquelas mãos de Deus que guiaram Israel pelo deserto, que distribuíram o “maná” para saciar sua fome; as mesmas mãos do bom agricultor que podam em nós aquilo que não dá fruto (ver Jo 15); as mãos que são símbolo da divina providência que acompanha o homem no caminhar deste mundo… são as mãos que agora acolhem o Espírito de Jesus. Não há melhor lugar para se estar. Talvez Jesus tenha terminado com essas palavras, para indicar-nos onde há de estar sempre o nosso coração, particularmente nos momentos de Cruz.

Senhor, quando nos colocamos nas mãos de estranhos e não nas vossas, tende piedade de nós.

Pai Nosso… Glória.

Conclusão

Jesus é um verdadeiro Mestre da arte do falar. Não pronunciou blasfêmias, condenações, anátemas… não proferiu palavras de ódio ou de amargura. Continuou perdoando. Até o fim. Continuou amando, firmemente apoiado na Cruz da nossa salvação. Continuou confiando, pois se nas fibras de sua humanidade o deserto aridamente dominava, nas profundidades do espírito, onde Jesus sempre foi um com o Pai, nitidamente vislumbrava-se a Ressurreição. Que estas 7 palavras possam preparar-nos para pronunciar o grande Aleluia da Páscoa.

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