253. O encontro pessoal de Maria com Jesus

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O encontro pessoal com Jesus é um desejo que está no coração de todo cristão. Este encontro plenificador viveu Maria durante toda a sua vida. Neste Caminho para Deus queremos apresentar seu trajeto para que ao vê-lo possa também compreender melhor como Deus sai ao teu encontro e espera a tua resposta para relacionar-se contigo pessoalmente.

 

1. Encontro de Maria com a Palavra de Deus

O Papa Bento XVI, refletindo sobre o encontro de Santa Maria com a Palavra de Deus, nos diz, “Contemplando na Mãe de Deus uma vida modelada totalmente pela Palavra, descobrimo-nos também chamados a entrar no mistério da fé, pela qual Cristo vem habitar na nossa vida.”[1]
Maria, nossa mãe, “«que, com o seu sim à Palavra da Aliança e à sua missão, realiza perfeitamente a vocação divina da humanidade»”[2] nos mostra que ser verdadeiramente pessoas, para ser verdadeiramente cristãs devemos moldar nossas vidas no encontro com a Palavra de Deus, e esta Palavra não é outra se não que o Senhor Jesus: o Verbo de Deus que se fez carne e habitou entre nós.[3]

Por isso, vamos peregrinar brevemente pela vida de Santa Maria testemunha na tradição e nos Evangelhos para introduzirmos no mistério do encontro pessoal da Mãe com o Filho. Ao contemplar este encontro nós nos fazemos participantes do mesmo, e somos educados na escola de Maria para poder encontrarmos de maneira mais íntima com o Senhor Jesus.

2. A Imaculada Conceição: encontro de Maria com a Graça

Existe um primeiro encontro tácito entre Jesus e Maria. Maria é reconciliada, preservada de toda mancha e ruga[4] graças aos méritos do Reconciliador, graças à salvação obtida por Cristo na Cruz. A graça salvífica de Cristo alcança a Maria, a encontra e a prepara para poder ser sua Mãe. Existe uma primazia absoluta da graça de Deus na vida de Maria. A Mãe antes de conceber em seu seio ao Filho se encontrou com sua Graça.

«Alegra-te, cheia de graça» Lc 1,28.

Na saudação do anjo a Maria na Anunciação-Encarnação nos é indicado o privilégio excepcional porque Maria foi eleita e destinada a ser a Mãe de Cristo. Este privilégio excepcional concedido a Maria “põe claramente manifestado que a ação redentora de Cristo não só libera, mas também preserva do pecado. Esta dimensão de preservação, que é total em Maria, se encontra presente na intervenção redentora através da qual Cristo, liberado do pecado, dá ao homem também a graça e a força para vencer seu influxo na sua existência”.[5]

A Maria, primeira reconciliada, olhamos todos os cristãos como modelo perfeito e imagem de santidade que estamos chamados a alcançar, com a ajuda da graça do Senhor.[6] Olhando a Maria, reconhecemos que, para salvar-nos, Deus mesmo sai ao nosso encontro, não pelos nossos méritos senão pela sua Misericórdia que espera paciente nossa resposta.

3. A Encarnação: encontro no anúncio e resposta de Maria

«Faça-se em mim segundo a tua palavra» Lc 1,38.

Esta é a resposta de Maria diante das palavras do Anjo em que a comunica quais eram os desígnios divinos. Santo Agostinho, comentando a passagem da Anunciação nos diz que o “Anjo anuncia, a Virgem escuta, crê e concebe”[7]; “crê a Virgem no Cristo que se lhe anuncia, e a Fé o traz ao seu seio; descende a fé ao seu coração virginal antes que as suas entranhas virginais a fecundidade maternal”[8]. Para os Pais da Igreja a dignidade altíssima da Virgem Maria é maior pela sua Fé, ou seja por gerar a Cristo no seu coração antes que no seu ventre pois “obedecendo, se converteu em causa de salvação para si e para todo o gênero humano”.[9] Depois da Anunciação, Jesus se encarna no seio puríssimo de Maria, ou seja Ela se converte em sua Mãe. Daí inicia um encontro particular. O Filho de Pai tem agora uma mãe humana e como tal entre eles existe uma relação de maternidade e de filiação. Os cuidados, os afetos de Maria para com Jesus serão como os de qualquer mãe que ama a seus filhos, que quer o melhor para eles, que educa e que vai guiando seus passos.

O encontro entre o anúncio e a resposta se vive de maneira plena na nova relação mãe-filho. Dirá sobre isso São João Paulo II: “A expressão “Mãe de Deus” nos direciona ao Verbo de Deus, que na Encarnação assumiu a humildade da condição humana para elevar ao homem à filiação divina. Mas este título, à luz da sublime dignidade concedida à Virgem de Nazaré, proclama também a nobreza da mulher e sua altíssima vocação. Em efeito, Deus trata a Maria como pessoa livre e responsável e não realiza a encarnação de seu Filho senão depois de ter obtido o seu consentimento.”[10]

Da mesma maneira, Deus nos trata como pessoas livres, e Seu Plano somente se realiza nesse diálogo cotidiano que é graça-anúncio e liberdade-resposta.

4. A visitação: encontro de Maria com Jesus, que se torna doação

«Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo» Lc 1,39-41.

A Mãe de Deus não guarda para si mesma a benção que recebeu: O menino que leva no seu ventre é o Salvador do mundo, Ela mesma foi alcançada por essa salvação e quer comunicá-la aos demais. Nos diz o Papa Bento XVI: “Jesus tinha iniciado a formar-se no seio de Maria, mas o seu Espírito já tinha enchido o coração dela, de forma que a Mãe já começa a seguir o Filho divino: pelo caminho que da Galileia leva à Judeia é o próprio Jesus quem “dá força” a Maria, infundindo-lhe o desejo generoso de ir ao encontro do próximo necessitado, a coragem de não dar prioridade às próprias legítimas exigências, as dificuldades, as preocupações, os perigos para a sua própria vida. É Jesus que a ajuda a superar tudo deixando-se guiar pela fé que age através da caridade”[11].

O encontro amoroso com o Senhor Jesus move a viver a caridade com os demais, a desacomodar-se, a sair de nós mesmos em busca dos nossos irmãos, especialmente dos mais necessitados, dos mais frágeis e pobres. Maria nos mostra que o encontro com o seu Filho não é puro intimismo, mas é abertura a Deus em primeiro lugar e aos demais. O encontro com o Senhor Jesus a conduz a entrar na dinâmica de doação que é própria do FIlho e por tanto de todo cristão.

5. No Templo: Maria compreende realmente quem será seu Filho

«Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma.» Lc 2,33-35.

As palavras do ancião Simeão devem ter penetrado profundamente o coração de Maria que estava no templo entregando sua oferenda pelo menino recém nascido, pelo Filho de Deus feito homem. Maria leva nos braços o menino ao templo, “O introduz ao povo, O leva para encontrar o seu povo. Os braços da Mãe são como que a «escada» pela qual o Filho de Deus desce até nós, a escada da condescendência de Deus”[12]. Maria escuta que os louvores pelo Salvador se misturam com as profecias de dor que virão sobre o seu coração. A oferenda que Maria faz de seu próprio filho a Deus será plena na Cruz onde seu próprio coração ficará revelado. Com tudo isto Maria vai crescendo na compreensão da identidade de seu Filho.

«Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?» Lc 2,49.

No relato da perda e encontro de Jesus, no Templo, em meios dos doutores da lei, Maria nos mostra o seu coração de Mãe: está preocupada por ter perdido o seu Filho, Àquele que
revelará os corações. Ela O encontra entre os doutores da lei e escuta. Na escola do silêncio, Maria vai compreendendo melhor quem é o Seu Filho.

A Mãe vai conhecendo melhor quem é o fruto do seu ventre. Vai conservando e meditando no seu coração que sua existência, estreitamente ligada ao mistério de seu Filho, está repleta de alegria e dor, e esta toda ordenada à vontade do Pai. É um caminho de acolhida e renúncia, de realização e doação. Este é o caminho de quem se encontrou com Jesus.

6. Boda de Caná: Maria une seu sim ao de Jesus

«Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser.» João 2,4-5

Depois do relato do menino no Templo vemos agora à Mãe e o Filho que são convidados a um casamento. Quando Jesus ante o pedido de sua Mãe de ajudar ao casal das bodas de Caná responde com uma primeira negativa que dá entender a Maria que Ele já não depende dela, senão que deve tomar a iniciativa para realizar a obra do Pai. Maria, então, reverente deixa de insistir e, ao invés, se dirige aos serventes para convidá-los a obedecer confiadamente.

Assim Maria, mulher obediente, a nova Eva, anuncia o que ela vive, desta maneira, assim como a mulher contribuiu à morte, também a mulher contribui à vida [13]. Para isso, a Igreja vê em Maria “a máxima expressão do « gênio feminino » e encontra n’Ela uma fonte incessante de inspiração. Pondo-Se ao serviço de Deus, Ela colocou-Se também ao serviço dos homens: um serviço de amor” [14]. Nas bodas de Caná podemos observar um passo de maior profundidade na relação entre Jesus e Maria. Nos diz o Papa Bento XVI que “O “sim” do Filho —”Aqui que venho para fazer a Tua vontade”— e o “sim” de Maria —”Faça-se em mim segundo Tua palavra”— se convertem em um único “sim”. Jesus jamais age exclusivamente sozinho; nunca para agradar os outros. Ele age sempre a partir do Pai, e é precisamente isto que O une a Maria, porque foi ali, nesta unidade de vontade com o Pai, que Ela quis inserir também o seu pedido” [15].

A exortação de Maria: “Fazei o que Ele vos disser”, são as últimas palavras que encontramos dela nos Evangelhos. Este “testamento” conserva um valor sempre atual para os cristãos de todos os tempos, e está destinada a renovar seu efeito maravilhoso na vida de cada um. Convida a uma confiada obediência, a unir nosso próprio sim com o de Cristo.

7. A Cruz: plenitude do encontro entre a Mãe e o Filho.

«Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe.» João 19,26-27

Maria está firme junto à Cruz de seu Filho. Em particular, no ato de estar “de pé” junto a Cruz, nos lembra sua paciência e obediência, sua confiança para enfrentar o momento cume onde uma espada atravessa a sua alma. No drama do Calvário, a Maria sustenta a fé, que se robusteceu com os mistérios da vida de Jesus. O encontro entre Mãe e Filho chega a sua plenitude, à fecundidade máxima da caridade, à doação que é a plenitude de todo encontro.

Na figura de Maria ao pé da Cruz podemos ver “ o compasso de Deus, representada num ser humano que se deixou implicar plenamente no mistério de Deus. Só nela chega a seu término a imagem da cruz, porque ela é a cruz assumida, que se compartilha no amor, a que nos permite agora experimentar na sua compaixão a com-paixão de Deus. Assim, a dor da Mãe é dor pascoal que já manifesta a transformação da morte na solidariedade redentora do amor”[16].

Esta dor pascoal se abre aos demais. As palavras: “Eis aí a tua mãe” expressam a intenção de Jesus “de suscitar nos discípulos uma atitude de amor e confiança para com Maria, conduzindo-os a reconhecer n’Ela a própria mãe, a mãe de todos os crentes. Na escola da Virgem os discípulos aprendem, como João, a conhecer profundamente o Senhor e a realizar uma íntima e perseverante relação de amor com Ele. Descobrem, além disso, a alegria de se confiarem ao amor materno da Mãe, vivendo como filhos afetuosos e dóceis” [17].

8. Pentecostes: O Espírito do Filho é recebido pela Mãe e os apóstolos

«Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele» Atos 1,14

A relação entre Jesus e Maria não acaba com a morte e ressurreição do Filho. Continua na eternidade e aqui na terra na relação que tem Maria com os discípulos de seu Filho, com a Igreja, corpo de Cristo. O Senhor Jesus não abandona aos seus discípulos, não nos deixa órfãos: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”[18] Para que seus discípulos possam seguir vivendo da paternidade do Pai, Jesus envia seu mesmo Espírito no dia de Pentecostes e a Mãe estava no meio deles. À Mãe de Cristo e aos discípulos “são concedidos nova força e novo dinamismo apostólico para o crescimento da Igreja. Em particular, a efusão do Espírito conduz Maria a exercer a sua maternidade espiritual de modo singular, através da sua presença cheia de caridade e do seu testemunho de fé ”[19].

A missão de Cristo continua na Igreja. Santa Maria que esteve sempre presente na vida de seu Filho quer encontrar-lhe também em cada um dos cristãos. Quer reconhecer em nós o rosto de Jesus. Estamos chamados como Igreja a viver sempre um renovado Pentecostes, uma efusão do Espírito que permeia nossa vida e apostolado, sempre da mão da Virgem pois: “não há Pentecostes sem a Virgem Maria… onde quer que os cristãos se reúnam em oração com Maria, o Senhor doa o seu Espírito.” [20]


[1] Verbum Domini, 28.

[2] Verbum Domini, 27.

[3] Ver Jo 1,14.

[4] Ver Ef 5,27.

[5] João Paulo II, Catequese, 5 de junho de 1986.

[6] Ver Lumen gentium, 65.

[7] Sermão 13 in Nat. Dom.

[8] Sermão 293

[9]São Irineu, Ad. haer. III, 22, 4.

[10] João Paulo II, Catequese, 27 de novembro de 1996.

[11] Bento XVI, Discurso, 31 de maio de 2007.

[12] Francisco, Homilia, 2 de fevereiro de 2015.

[13] Ver Lumen Gentium, 55.

[14] João Paulo II, Carta às mulheres, 29 de junho de 1995.

[15] Bento XVI, Homilia, 11 de setembro de 2006.

[16] Hans Urs von Balthasar-Joseph Ratzinger, Maria Igreja Nascente, p. 60.

[17] João Paulo II, Catequese, 7 de maio de 1997.

[18] Mt 28,20.

[19] João Paulo II, Catequese, 28 de maio de 1997.

[20] Bento XVI, Regina Caeli, 23 de maio de 2010.

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