7 Lições do Caminho de Santiago de Compostela

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Dos dias 1º ao 8 de abril deste ano, tive uma das experiências mais marcantes da minha vida: fiz o Caminho de Santiago de Compostela.

Escolhi o Caminho Português, partindo do Porto (cerca de 220 Km a pé), porque tinha pouco tempo e queria fazer uma peregrinação a outros lugares espirituais, alguns santuários marianos. Prometo contar sobre isso um outro dia.

Por que as pessoas fazem o Caminho? Diversos são os motivos. Alguns dos que encontrei falaram que era pelo desafio, pela aventura, pelas lindas paisagens durante o Caminho (é realmente lindo!), porque precisavam de um tempo para pensar sobre a vida, pela peregrinação espiritual… Um trecho de um poema muito tradicional entre os peregrinos, expressa de certa forma esta diversidade de experiências:

Caminante no hay camino, se hace el camino al andar.

Apesar desta riqueza de experiências e expectativas, todos tínhamos algo em comum: todos estávamos buscando. Graças a Deus, as respostas que estava buscando as encontrei durante a minha peregrinação.

Durante o Caminho aprendi algumas lições que guardarei com muito carinho por toda a minha vida.  Tentarei resumir para vocês em sete símbolos que encontrei durante o Caminho. Você pode ler um a cada dia ou ler tudo de uma vez. Vamos lá!

1A mochila

Alguns itens da minha mochila

Antes de começar o Caminho eu me preparei durante meses. E uma das coisas importantes da preparação era definir a lista do que levar na mochila. Apesar de variarem um pouco sobre os itens necessários, todos coincidiam numa coisa: quanto mais leve, melhor. Recomendam no máximo 10% do seu peso.

Que bom que ouvi o conselho deles! Tentei levar o menos possível (mas ainda assim ficou com quase 7 Kg kkk). Nos primeiros dias até me acostumar, senti bastante o peso. Algumas vezes era mais difícil avançar, ia mais devagar. Sem falar nas dores…

Nestas horas, desejei ter deixado para trás algumas coisas. Comecei a revisar o que era realmente essencial. Fiquei pensando em como muitas vezes somos apegados às coisas. Neste dia meditei uma passagem bíblica que caiu como luva sobre o que estava passando comigo:

Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.  Mt 5, 3

Eu pensei bastante nisso e proponho para vocês também pensarem: o que ainda estou tão apegado que me impede avançar mais? Que peso posso eliminar para que a minha vida seja mais leve? 

  • Algumas dicas práticas para revisar: minhas relações (algumas de repente são até “tóxicas”), o uso do meu tempo, o meu guarda roupa, a quantidade de gadgets que tenho…

2Seguir as setas

A primeira seta que encontrei 🙂

Comecei o meu Caminho de um ponto diferente do tradicional. Do Porto fui à Vila do Conde de trem. Ao chegar na estação, não encontrei nenhuma indicação sobre a rota a seguir e fiquei um pouco perdido.

Então tentei me guiar pelo Google Maps e algumas pessoas que me ajudaram a me localizar (falarei delas mais adiante). Após uma boa caminhada, eis que encontro a primeira seta (foto)! Não sabem a alegria que senti!

Por que a alegria? Porque todos que fazem o Caminho sabem que essas setas amarelas estão em todo o percurso para nos indicar por onde devemos seguir para chegarmos ao nosso objetivo do dia, até chegar ao destino final: a Catedral de Santiago de Compostela.

Este símbolo me fez pensar: não é assim que Deus faz com a gente? Ele, em seu Plano amoroso, não nos indica por onde devemos seguir para chegarmos ao nosso destino final, à felicidade para sempre? Nós que algumas vezes não seguimos os sinais …

Eu me revisei e proponho a vocês também: Estou na direção correta? Estou atento às “setas” que Deus constantemente tem colocado na minha vida para me indicar por onde ir? (passe neste momento um “filme” da sua vida e tente perceber esses sinais na sua história)

Se não estou na direção correta, mudar pode custar, mas podem acreditar que é o melhor a se fazer. Eu cheguei à conclusão de que apesar de difícil, estou na direção certa…

3As pedras, as dificuldades, os imprevistos

Um dos trechos mais difíceis que peguei

O Caminho tem paisagens de tirar o fôlego! Mas não vou enganar vocês… tem muitos trechos de pedras e obstáculos como essa foto que tirei. Essa era uma subida bem íngreme e difícil com muitas pedras.

Nos 8 dias de Caminho passei por milhares de pedras, subidas, descidas, lama, tive sede, fome, cansaço, muitas bolhas nos pés…

A sensação de superar cada dificuldade era muito boa! Olhava para trás e pensava: olha o que já percorri e superei! E cada superação me dava ânimo para o que vinha por adiante. No dia desta foto, eu caminhei 42 Km em cerca de 11 horas. Como consegui? Dando um passo por vez…

E a cada passo que dava sentia uma força que me ajudava em cada desafio: a graça. Posso afirmar que senti Jesus me acompanhando em cada dificuldade, me animando. Ele não me tira a cruz, mas me ajuda a carregar.

Portanto, em sua vida, supere cada obstáculo contando com a ajuda de Deus. Não desanime! Cristo caminha contigo!

4O bastão

Pausa para descansar no caminho a Barcelos, primeira cidade portuguesa da rota.

Outro companheiro inseparável do peregrino é o bastão. Pode ser o tradicional (um pedaço de galho de árvore) ou os mais modernos, ajustáveis à altura, como os da foto. Eu ganhei estes de presente de um amigo e não fazia ideia de como eram importantes, principalmente nos trechos mais difíceis.

No início eu nem estava usando porque pensava: “não precisa, posso caminhar tranquilo sem eles”. Mas na primeira vez em que usei porque estava muito cansado e ainda faltava uns 5 quilômetros para chegar na hospedagem, aí eu senti a diferença.

O bastão foi fundamental para aquela subida da foto anterior e tantos outros trechos exigentes do Caminho. Ele te dá sustento e ajuda muito a não forçar tanto o joelho. Em algumas situações você pode avançar bem mais rápido com eles.

Sobre eles, pensei em algo bem simples: precisamos muito de apoio em nossas vidas. Não há vergonha nenhuma em reconhecer isso e pedir ajuda. Somos frágeis e pecadores!

Além de Deus, precisamos buscar apoio na família, nos amigos e em tantas pessoas boas que Deus coloca em nossas vidas para nos ajudar. Vençamos o nosso orgulho e peçamos ajuda quando precisarmos!

5“Buen camino”

Grupo de peregrinos que conheci. Começaram na Catedral de Tui, na Espanha

Este cumprimento é algo muito tradicional entre os peregrinos e também a forma como muitos moradores das cidadezinhas por onde passei me cumprimentavam.

Essas bondosas pessoas me salvaram de algumas! Conto rapidamente uma história. Assim que comecei o Caminho, como comentei antes, estava um pouco perdido. Então o Google Maps me indicava ir por uma estrada, para chegar à cidade que precisava estar neste dia.

Eis que escuto uma senhora me gritando. Ela parou o seu carro, veio ao meu encontro e me explicou que aquela estrada era de alta velocidade e que era muito perigoso eu seguir por ali. Ela me indicou com muito carinho e paciência uma rota mais segura e disse que só não me levava porque não tinha espaço no carro (ela estava com outra senhora no carro de dois lugares). Cheguei de um jeito muito mais seguro e fácil até aquela “seta” que falei antes…

Este espírito bondoso e de colaboração experimentei durante todo o Caminho. Uma forma simples de viver a caridade que nos propõe Jesus. Um ajudar, sem querer algo em troca.

Eu me arriscaria a dizer que, para quem peregrina, a bondade e o encontro com a riqueza de tantas pessoas é uma das experiências mais marcantes do Caminho. Por que não vivermos essa bondade onde estivermos, indo contra a corrente do individualismo, do egoísmo e da indiferença?

6Os lugares de descanso

Igrejinha em Barcelos, cidade portuguesa.

Durante o dia de caminhada, algo muito necessário era fazer algumas pausas para descansar, beber água, encher a sua garrafa e comer algo leve. Como o caminho está muito bem planejado, existem vários pontos de parada durante a rota do dia.

Para mim um símbolo bem eloquente era que vários destes lugares eram igrejas. Como na foto, tinham sombra, grama, água potável, bancos para o peregrino descansar e seguir adiante.

Além de recuperar as forças, aproveitei bastante para rezar e pedir por várias das intenções que levava no coração, de vários que me pediram.

Jesus quer que a Igreja seja esse lugar de descanso para a humanidade, ferida e cansada de tanto pecado, de tanto mal. Quer que você vá até lá para buscar esse descanso e renovação.

Um dos motivos pelo qual fiz o Caminho era porque precisava descansar. Encontrei nas dezenas de igrejas que passei o descanso que precisava:

Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e vos darei descanso. Mt 11, 28

7Ultreia et suseia

Apesar da saudação “Buen Camino” ser a mais comum hoje em dia, descobri a “Ultreia et suseia” em alguns lugares, com alguns peregrinos.

Essa foi uma saudação utilizada muito na idade média pelos peregrinos. Seu significado é algo como “vamos adiante, para frente”, fazia referência a seguir rumo à Santiago sem desistir. Uma saudação para os peregrinos se animarem entre si.

Quando dois ou mais peregrinos se encontravam, o primeiro falava “Ultreia!” e o outro teria que responder “et Suseia!”, algo como “e para cima”, uma alusão ao destino final, a Catedral de Santiago, que fica numa subida.

Penso que essa saudação resume muito bem como deve ser a nossa vida cristã: vamos para a frente, sem desanimar, para cima, rumo ao céu, conscientes de que o Senhor caminha conosco e nos dá a sua graça em cada passo percorrido.

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Leigo consagrado no Sodalício de Vida Cristã. Formado em Filosofia e Análise de Sistemas. Estudante de Teologia.

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia! Me chamo Ana Cristina e farei o Caminho daqui a pouco mais de dois meses. Desde o momento em que decidi fazer até aqui muita coisa em minha vida mudou, e às vezes me pergunto por que realmente não desisto dessa ideia. As suas palavras trouxeram a resposta que precisava! Porque estou buscando!!! Estou buscando a melhor versão de mim! A melhor filha, a melhor irmã, a melhor amiga e a melhor cristã que eu puder ser! Obrigada por compartilhar!

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