A Geometria da Salvação

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A verdade é que, ao encontrar o Cristo, inevitavelmente encontraremos a Cruz.

Pois, Ele está nela pregado… não Se pode separar dela. E nem nós, se estamos com Ele. Encontro portanto inusitado, mistério de aparente contradição, situação e local onde reina mais refulgente o poder misericordioso de Deus, que transforma dores em alegria, paz e salvação. Porque não buscamos a Jesus senão para encontrar a verdadeira Paz, e é justamente no centro destas duas linhas que se – cruzam, aparentemente seguindo caminhos diferentes, contraditórios, que encontraremos a paz, uma vez que “O discípulo não é maior que o mestre” (Mt 10,24); e onde está o Mestre, está a paz: “No mundo haveis de ter tribulações, mas tende coragem: Eu venci o mundo” (cf. Jo 16,33). A contradição começa a se desfazer quando lembramos que é por estar pregado à Cruz que Cristo a carrega para nós… “o meu fardo é leve” (cf. Mt 11,30). A vida do cristão inclui a Cruz: ou então, não somos de Cristo, não entramos pela “porta estreita” (cf. Lc 13,24), pequena como uma fenda de prego num madeiro…

O desenho da Cruz – que não é um esboço, mas definitivo – firma ângulos, estabelece planos, evidencia inclinações. Ora, no ser humano há duas inclinações, uma vertical, ascendente, que busca o Céu pela natureza de filhos de Deus; e outra horizontal, que não se eleva, produto do Pecado Original, a concupiscência ou fomes peccati (Catecismo da Igreja Católica, nº 1264). Contradições… mas, é justamente a este sinal que somos chamados a somar ações, pelas quais devemos traçar os planos da nossa vida, atual e futura. Estes planos, são eles determinados pelo ângulo com que os estabelecemos… serão eles retos, confluindo num ponto central, fundamental e bem determinado, a partir do qual podemos expandir-nos corretamente em todas as direções? Por qual ângulo vemos a Cruz, qual vértice de culminância produzem os ângulos que calculamos? As linhas de conduta da Cruz de Cristo são o parâmetro para o ponto onde convergem as nossas escolhas e aspirações, e ao mesmo tempo de onde partem as nossas ações: Cristo é o centro da Cruz, e somente a partir da centralidade de Jesus é que a dura realidade do madeiro, e as nossas vidas, ganham direção – e sentido.

É importante enxergar que este ponto central da nossa existência tem corpo, consistência, não é um círculo vazio: tomando de empréstimo algumas aproximações de Chesterton (cf. The Ball and the Cross, 1909), lembramos que o círculo esgota-se em si mesmo; é a volta infrutífera do egoísmo, o desespero eterno de uma busca que nunca leva a lugar nenhum, e a nada, e pior ainda, a ninguém. Não é preenchido, como nas alianças matrimoniais, pelo corpo vivo e intencional de uma entrega mútua de amor. Trata-se de dar voltas mesquinhas que fecham, circularmente, a pessoa em si mesma, na pavorosa solidão de uma mentirosa autossuficiência. Não; Cristo tem consistência, tem Corpo, Sangue, Alma e Divindade, e a Cruz tem sobre o círculo a infinita vantagem de, partindo deste Ponto de encontro, de união – fundamental –, expandir-se inesgotavelmente nas quatro direções, envolvendo todos os quadrantes da existência; abarcando-os (pela barca da Igreja), no plano do amor salvífico de Deus, e assim tornando glória e redenção os sofrimentos que, uma vez crucificados, nos deixam livres para a eternidade.

Os círculos que frequentamos – de amizade, de leituras, de ideias – ou serão preenchidos com a presença de Cristo, redondamente encarnado no pão eucarístico, ou se acumularão, concentricamente, expandindo-se de iniquidade em iniquidade. Neste vazio hedonista, falta justamente a provação, a contrariedade, o sofrimento, por onde Jesus vem caminhando a pé enxuto, o substrato que pode tornar difusivas em ondas cada vez mais amplas as boas obras que vencem as tempestades desta vida. Mais uma vez entrando pelo mistério paradoxal da Salvação, é só na retidão das linhas traçadas, que não se esquivam às tormentas, que se descobre o raio de ação intrínseco à aliança com Cristo, e não nas condutas que indefinidamente se curvam, sem objetivo, orientação ou sentido, aos vagalhões da vida.

A Cruz nos indica, como ressalta a espiritualidade sodálite, quatro direções para que, a partir da nossa condição nivelada na nulidade da perspectiva terrena, possamos alcançar a reconciliação – com Deus, conosco mesmos, com os irmãos, e com a Criação. É portanto necessário ir ascendendo em graus, até que se chegue a uma estrutura harmoniosa de 90 entre elas, 70 da perfeição máxima na simbologia numérica da Bíblia, mais 20 que ousadamente acrescentamos como o esforço dobrado do que usualmente entendemos como a nota máxima por um desempenho qualquer: afinal, não há limite para o infinito que almejamos alcançar, nem deveria haver economia na generosidade que colocamos nesta busca.

Todos nós temos estas quatro reconciliações a configurar, e esta configuração das nossas cruzes necessariamente as interligam; unidas, formam uma rede, de apoio mútuo, que sustenta o mundo. Aquela mesma que São Pedro jogou às águas, acreditando na palavra de Cristo, e com a qual pescou abundantemente, para saciar a fome de todos… “+”mais “+” forma uma trama, de um tecido – parte do manto, bordado certamente em ponto de cruz, no qual o Bom Pastor envolveu a ovelha perdida – eis aí a missão da Igreja. A nossa missão.

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A festa da Exaltação da Santa Cruz, a 14 de setembro, vem colocada entre duas outras festividades, Natividade de Nossa Senhora (8 de setembro) e Nossa Senhora das Dores (15 de setembro, oitava da Natividade). Está aí bem colocada: entre a alegria da Mãe que nos nasce, trazendo o Salvador – pela Cruz, que é, portanto, motivo de alegria – e a associação de Maria como dolorosa corredentora da humanidade, aos pés da mesma Cruz… Nossa Senhora não teve rodeios, não deu voltas, não andou em círculos para seguir Jesus: vendo o horizonte do madeiro, manteve-se de pé, vertical, alçando-se para o seu Cristo. Devemos estar em seus braços, para também estarmos à sombra da Cruz, sombra que, pela onipotência e infinito amor de Deus, tem o poder paradoxal de nos proteger, pelos sofrimentos bem aceitos, da inclemência tórrida do mal.

“A Cruz, sinal de salvação”, indica que “O amor que não se deixa crucificar pelo outro, que não é capaz de sofrer e morrer pelo outro, não é verdadeiro amor” (D. Benedito Beni dos Santos, Bispo de Lorena, SP in Revista Canção Nova, nº 139, julho 2012). Já a prefiguração da serpente de bronze elevada por Moisés, no deserto das tentações, sob as picadas venenosas e mortíferas do pecado (Nm 21,6-9), fala da necessidade dos sofrimentos do Justo, para a remissão da dívida do Pecado Original e abertura do Paraíso Celeste. O fruto da árvore primeira, a morte, por Cristo tornou-se, na árvore da Cruz, florescimento da Vida. Sem cruz, sem Cristo: sem Salvação. Por isso exaltamos a Cruz, a chave que nos abre a porta da nossa morada definitiva, o coração da Trindade divina.

“Saibais, ó cristãos, que encontrar o Cristo é encontrar a Cruz”. Esta citação, que bem poderia ser uma admoestação do primeiro século do Cristianismo – e que se a suspeita memória não trai de todo, é próxima em forma e conteúdo da sabedoria de algum grande autor católico – é, na verdade, tão atual quanto o resto destas linhas; o que apenas evidencia a atualidade perene das palavras do próprio Senhor Jesus (“Quem quiser vir após Mim… que tome a sua cruz e Me siga”, cf. Mt 16,24), repetidas de maneiras pouco ou mais variadas ao longo de toda a história da Igreja. Podemos dizê-las em tom solene, como culta referência, ou com maior simplicidade, como numa outra máxima conhecida, “amar é sofrer”; mas a questão não é se as apresentamos entre aspas, mas sim se as colocamos entre parêntese nas nossas vidas.

E, sobretudo, se de fato nos alegramos com elas.

José Duarte de Barros Filho   9/9/2014

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