A Igreja precisa ser reformada?

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Esta pergunta não é uma novidade para a Igreja Católica. Ela poderia ser entendida de diversas maneiras e em relação a diversos aspectos da realidade da Igreja, desde a sua realidade física expressa nos templos ou nos seus rituais, que foram e são reformados constantemente, como também nos seus membros – que poderíamos entender como uma reforma espiritual pessoal, algo que se segue após a conversão inicial. Pedido este, que já encontramos no Apocalipse.

Em todo caso, na História da Igreja constantemente podemos achar o interesse por reformas. Uma expressão conhecida na época medieval é aquela que diz que a reforma deveria ser na “cabeça e nos seus membros”, referindo-se ao papado e aos bispos de sua época. Podemos dizer que o Concílio Vaticano II foi uma grande reforma. E, ultimamente, ainda estamos nos reformando como Igreja. Basta ver sua nova atitude quanto ao assunto dos abusos sexuais ou às mudanças no Código Canônico sobre a nulidade matrimonial e suas novas diretrizes, ou até mesmo a última mudança no Catecismo sobre a pena de morte. Digo isto para ressaltar que estão acontecendo reformas. Logo, se a Igreja está mudando diversas coisas, deve ser porque, sim, é necessário que algumas coisas mudem.

No Concílio Vaticano II, o termo em italiano “aggiornamento” ficou famoso, pois expressava que tipo de exercício de reforma era necessário. Em geral, este termo foi traduzido como “colocar em dia”, atualizar.

Mas, uma preocupação dos nossos dias é: Como reformar sem trair a mensagem de Jesus? Como mudar sem ir contra a verdade da Revelação?

Na encíclica Ecclesiam Suam, do Papa São Paulo VI, no número 22 temos uma exortação muito interessante sobre em que sentido devemos buscar uma reforma: “para infundir novo vigor espiritual ao Corpo Místico de Cristo, como organização visível, purificando-o dos defeitos de muitos dos seus membros e estimulando-o a novas virtudes”. Este deveria ser o sentido das reformas nas leis que seriam feitas pelo Concílio Vaticano II. No número 23 encontramos explicação mais detalhada: “Não pode abarcar nem o conceito essencial nem as estruturas fundamentais da Igreja Católica.

.A palavra ‘reforma’ seria mal usada se a empregássemos nesta acepção. Na verdade a fidelidade e a sua continuidade com aquela Igreja que Cristo fundou é a nossa garantia de veracidade. No número 24, “não devemos tomá-la como mudança, mas sim como confirmação no esforço para mantermos na Igreja a fisionomia que lhe imprimiu Cristo, mais ainda, no esforço para a reconduzir sempre à sua forma perfeita, correspondente por um lado ao desígnio primitivo do Fundador, e por outro reconhecida como consequente e legítima no progresso necessário”. Poderíamos dizer que as iniciativas e mudanças que respondem às novas realidades, e que respeitam este intuito estão num bom caminho.

Outra literatura interessante neste sentido é o livro do Cardeal Yves Congar, intitulado Vraie et Fausse Réforme dans l’Église (“Verdadeira e Falsa Reforma na Igreja”). Uma simples descrição dos seus índices já poderia nos dar muitas luzes. O seu segundo capítulo preocupa-se por uma reforma que não gere o chamado “cisma”, pois, afinal de contas, Cristo está buscando que todos sejam um n’Ele. O Cardeal enumera quatro condições para que se faça uma sã reforma: 1ª – Primazia da Caridade e do Sentido pastoral; 2ª – Permanecer em comunhão com o todo; 3ª – A paciência, o respeito aos atrasos; 4ª – Renovar mediante o retorno ao princípio da Tradição. Critérios que poderiam ser os nossos para avaliar nossas “reformas” nos dias de hoje.


Diante destas reflexões, surgirão várias perguntas: O que fazer? O que mudar? Com qual critério se pode avaliar uma boa reforma? E, para ajudar neste caminho, eu sugiro as palavras de Bento XVI na sua encíclica Spes Salvi, sobre a Esperança, nos números 25 e 26: “O homem não poderá jamais ser redimido simplesmente a partir de fora”, frase que é dita sobre a falsa pretensão de que o progresso salvaria o homem de sua condição falha, uma confiança de que caberia à ciência salvar o homem. No nosso caso, não é a estrutura que faz a Redenção do homem, mas a relação do cristão com seu Deus. “O homem é redimido pelo amor”. Quero dizer com isto que “o importante nas reformas é avançar na vivência do amor para com Cristo para elaborar uma nova expressão aprovada pelos responsáveis legítimos da Sua Igreja”. Não há reforma sem unidade, não há unidade sem fidelidade a Jesus, e esta fidelidade é expressa no Magistério da Igreja.

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Fábio Santos Araújo
Membro do Sodalício de Vida Cristã, do Rio de Janeiro. Formado em Filosofia, e cursando o curso de Teologia na Universidade Católica de Petrópolis.

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