A NOSSA FÉ PASCAL – por Alexandre Borges de Magalhães

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“Por ordem do Pai, mostrei-vos muitas obras boas. Por qual delas me quereis apedrejar?” (Jo 10,32).

Com esta pergunta o Senhor quer que comecemos a Semana que chamamos Santa, mas que bem podia ser chamada Semana da Salvação, pois é justamente isso o que celebramos: a nossa salvação. Os mistérios da Semana Santa centralizam as nossas vidas no amor salvador de Deus, que é capaz de tudo, até mesmo de entregar o seu próprio Filho a uma morte cruenta e injusta para que cada um de nós, pecadores, possamos ser salvos e ser feitos dignos de participar do infinito amor de Deus.

Durante os dias tão especiais desta semana, os cristãos somos convocados a atualizar os acontecimentos mais importantes e constitutivos de nossa fé: Jesus se entrega amorosamente por nós, padecendo o extremo da dor no Calvário e na morte de cruz, para reconciliar-nos com Deus Altíssimo, atando as rupturas fruto do pecado original e de nossos pecados pessoais. Durante as jornadas santas que vivemos nesta época, já durante toda a Quaresma, mas especialmente na Semana Santa, a Igreja nos pede uma profunda renovação interior que nos permita uma aproximação mais plena ao Senhor e nos leve a focar nossas existências nas coisas essenciais e verdadeiramente importantes da vida.

No Domingo de Ramos, aclamaremos jubilosos a Jesus que entra triunfante em Jerusalém, mas também seremos chamados a ler o dramático evangelho da Paixão, cinco dias antes da celebração da morte de Cristo. Isso para mostrar como as mesmas pessoas que gritam: “Hosana ao Filho de Davi”, poucos dias depois estarão bradando: “Crucificai-o!”. Ficará em evidencia a incoerência humana, o nosso sincero reconhecimento de Jesus como o Messias para as nossas vidas, mas também a nossa dificuldade de ser fiéis a Ele e constantes no seu seguimento.

Na Quinta-Feira Santa, além de celebrar a instituição do sacerdócio, pedindo a Deus pela santidade e missão de todos aqueles que exercem o ministério sacerdotal, somos convidados a focar o nosso olhar no amor de Deus que se manifesta no lavatório dos pés e na Eucaristia, infinito mistério de amor de Jesus por nós. A autoridade como serviço, a entrega como prova de amor, a amizade centrada em Deus e não doação total. Permaneceremos vigilantes junto ao Senhor no Monte das Oliveiras, tentando não sucumbir ao sono como os discípulos. A traição entrará no coração de um dos Doze, Judas, que entregará a Jesus nesta mesma madrugada, desencadeando a inenarrável dor da Paixão de Cristo. A noite de quinta marca o início do coração da Semana Santa: o Tríduo Pascal.

As forças do mal lançarão impiedosamente toda a sua força contra Jesus na Sexta-Feira Santa. A injustiça e a maldade humana chegarão ao limite, Deus se abaixará até as profundezas para resgatar o ser humano e elevá-lo à condição divina. A Via Sacra e a Celebração da Paixão comovem o nosso coração e a prática do jejum e da abstinência nos dispõe espiritualmente para acompanhar a Jesus.

Sábado Santo, dia de silencio, de esperança, de permanecer unidos a Santa Maria com uma confiança inquebrantável nas promessas de Deus. Sabemos que o Crucificado ressuscitará e que a morte não terá a última palavra, mas ainda assim a expectativa paira no ar e a tentação da desesperança se faz presente. Mas se permanecemos unidos à Mãe de Jesus, que não abandonou seu Filho nem sequer nos momentos mais terríveis da Paixão, com serenidade esperaremos a proclamação da Páscoa no Preconio da Vigília, a liturgia de todas as liturgias, que com a luz, a água, o canto de “Aleluia” e a escuta das leituras do Antigo e do Novo Testamento nos inserem no grande mistério pascal.

A celebração da Vigília já é a celebração da Páscoa do Senhor, da passagem de Jesus da morte à vida, abrindo também para nós as portas da salvação eterna na Jerusalém Celestial, da mesma forma com que Moisés liberou o povo judeu da escravidão no Egito, abrindo o Mar Vermelho e fazendo que o povo libertado passasse através dele. O Domingo é de Ressurreição, de alegria plena, de renovar a nossa aliança com o Senhor que nos salva, que nunca nos abandona, que morreu por nós e que nos chama a participar com Ele da sua ressurreição, razão máxima da nossa esperança.

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