A Santíssima Trindade e o relacionamento de amor

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Uma primeira luz pode ser encontrada nos dois relatos da criação no livro do Gênesis (capítulos 1 e 2). Na série de catequeses que depois foram batizadas como “Teologia do Corpo”, São João Paulo II explica para nós que “a narrativa da criação do Homem, no capítulo primeiro afirma, desde o princípio e diretamente, que o Homem foi criado à imagem de Deus enquanto macho e fêmea. A narrativa do capítulo segundo, pelo contrário, não fala da ‘imagem de Deus’; mas revela, do modo que lhe é próprio, que a completa e definitiva criação do ‘Homem’ (submetido primeiramente à experiência da solidão original) se exprime em dar vida àquela ‘communio personarum’ que o homem e a mulher formam”*.

Foquemos neste conceito do Homem criado à “imagem de Deus”. O que no primeiro relato da Criação é colocado como uma descrição (Gn 1,26-27), no segundo relato é narrado como um processo (Gn 2,18-24). São João Paulo II destaca tal continuidade entre as duas narrativas.

Isto, que pode parecer abstrato e distante, na verdade tem muito a dizer para nós: Se acreditamos que Deus é na sua essência mais íntima comunhão de Pai, Filho e Espírito Santo, isto é, comunhão de pessoas (communio personarum); e se acreditamos que o homem e a mulher realmente foram criados à imagem de Deus, isto é, à imagem de tal comunhão; só precisamos aprofundar mais um pouco para chegar à verdade do ser humano como um ser para a comunhão.

A comunhão, o encontro, o amor, não são apenas elementos positivos e saudáveis para a vida do ser humano; constituem a essência do que ele é e está chamado a ser. A união de homem e mulher, como relatada no livro do Gênesis, destaca como um ícone.

Tal união “constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. Pois o Homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros”. E por causa disso, a criatura humana “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”**.

Para nós, hoje, o que a verdade de fé da Santíssima Trindade nos diz não é tanto um conjunto complexo de explicações sobre o ser de Deus, quanto um convite a olhar o desejo que se encontra no mais íntimo dos nossos corações: o de sermos amados e amar, encontrar e viver a comunhão de pessoas.

 


* São João Paulo II, Audiência Geral de quarta-feira, 14 de novembro de 1979.

** Gaudium et Spes (Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II), nº 12 e 24.

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