A Santíssima Trindade e o relacionamento de amor

169

Uma primeira luz pode ser encontrada nos dois relatos da criação no livro do Gênesis (capítulos 1 e 2). Na série de catequeses que depois foram batizadas como “Teologia do Corpo”, São João Paulo II explica para nós que “a narrativa da criação do Homem, no capítulo primeiro afirma, desde o princípio e diretamente, que o Homem foi criado à imagem de Deus enquanto macho e fêmea. A narrativa do capítulo segundo, pelo contrário, não fala da ‘imagem de Deus’; mas revela, do modo que lhe é próprio, que a completa e definitiva criação do ‘Homem’ (submetido primeiramente à experiência da solidão original) se exprime em dar vida àquela ‘communio personarum’ que o homem e a mulher formam”*.

Foquemos neste conceito do Homem criado à “imagem de Deus”. O que no primeiro relato da Criação é colocado como uma descrição (Gn 1,26-27), no segundo relato é narrado como um processo (Gn 2,18-24). São João Paulo II destaca tal continuidade entre as duas narrativas.

Isto, que pode parecer abstrato e distante, na verdade tem muito a dizer para nós: Se acreditamos que Deus é na sua essência mais íntima comunhão de Pai, Filho e Espírito Santo, isto é, comunhão de pessoas (communio personarum); e se acreditamos que o homem e a mulher realmente foram criados à imagem de Deus, isto é, à imagem de tal comunhão; só precisamos aprofundar mais um pouco para chegar à verdade do ser humano como um ser para a comunhão.

A comunhão, o encontro, o amor, não são apenas elementos positivos e saudáveis para a vida do ser humano; constituem a essência do que ele é e está chamado a ser. A união de homem e mulher, como relatada no livro do Gênesis, destaca como um ícone.

Tal união “constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. Pois o Homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros”. E por causa disso, a criatura humana “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”**.

Para nós, hoje, o que a verdade de fé da Santíssima Trindade nos diz não é tanto um conjunto complexo de explicações sobre o ser de Deus, quanto um convite a olhar o desejo que se encontra no mais íntimo dos nossos corações: o de sermos amados e amar, encontrar e viver a comunhão de pessoas.

 


* São João Paulo II, Audiência Geral de quarta-feira, 14 de novembro de 1979.

** Gaudium et Spes (Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II), nº 12 e 24.

COMPARTILHAR
Cankin Ma Lam
Membro do Sodalício de Vida Cristã. Na formação em vistas ao sacerdócio, estuda teologia na Universidade Católica de Petrópolis.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here