Caminho para Deus 128 – «Não tenham medo»

1899

«Não tenham medo! Abram, escancarem as portas a Cristo!»[1] foram as palavras que João Paulo II dirigiu à Igreja e ao mundo na homilia que pronunciou ao começo de seu Pontificado.

Todos os seres humanos têm medos.  Considerando o medo como o receio que temos diante de um perigo ou que nos aconteça algo contrário ao que desejamos, podemos dizer que o medo é uma vivência natural na vida dos seres humanos.  Por isso não podemos pretender não ter medo de nada embora tampouco tenhamos que viver escravos do medo.

Os apóstolos também tiveram medo em alguns momentos de suas vidas.  Mas não sucumbiram, ao contrário, viveram o valor e a confiança em Deus.  Há uma passagem que nos ajudará a compreender melhor isto.  Uma noite, os apóstolos estavam pescando e de repente se encontram com o Senhor que se aproximava caminhando sobre as águas do lago.  Pedro, que é um homem ousado, pede ao Senhor que o faça caminhar para Ele sobre a água.  E começou a caminhar sem afundar «mas, sentindo o vento, ficou com medo»[2] e começou a afogar-se.

Quando São Pedro tem o olhar fixo no Senhor, enquanto confia nele, pode caminhar sobre as águas.  Mas quando dúvida de que está em companhia do Senhor e se deixa levar por suas inseguranças, começa a afundar-se.  Não se trata de uma confiança cega em Deus, mas sim da consciência viva de que o Senhor é o que o sustenta.

O mesmo acontece conosco.  Enquanto olhamos para o Senhor Jesus, caminhamos com firmeza.  Quando deixamos que nossas dúvidas, vacilações e sentimentos errados nos dominem, começamos a nos afogar.  O apóstolo duvida porque enfrenta ventos fortes.  Esses ventos são as dificuldades que podemos encontrar na vida cotidiana, como a incompreensão, o cansaço, o desalento, entre tantas outras coisas que podem atrasar o caminho que empreendemos para a santidade.

Nosso caminho passa por aprender cada dia mais a nos encomendarmos com confiança ao cuidado amoroso do Senhor, como Pedro o fez.  Pedro confiou em Cristo quando afundava, e o Senhor lhe estendeu a mão, tirando-o da água.  Assim faz o Senhor todos os dias conosco.  Confiemos nEle e peçamos-lhe sua graça para que vençamos os ventos externos e os medos internos que pretendem nos retardar em nosso caminhar.

A confiança em Deus

Consciente do que vivemos, antes de partir, o Senhor nos dirigiu umas palavras que ressonam calorosamente em nosso coração: «Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá.  Não se perturbe nem se intimide vosso coração»[3].

Somente nEle nosso coração encontra a verdadeira paz.  Não se trata somente de “viver tranqüilos” mas sim de uma permanente e verdadeira segurança que surge do viver em sintonia com Deus.  Se tivermos essa paz poderemos entrar em nós mesmos, reconciliando nossas feridas e pecados, poderemos também viver com alegria e confiança em meio das tribulações do mundo. Aquele que tem o Senhor, não teme a solidão, a fragilidade e a tristeza porque sabe que receberá um consolo enorme, sabe em última instância que pode realmente alcançar a felicidade e saciar a fome de infinito que tem.

O Senhor Jesus nos faz um chamado pessoal à confiança, a nos colocar-nos em suas mãos.  E o faz porque realmente podemos confiar nEle, porque é Deus feito homem, e Deus nunca falha, nunca nos frustra.  Os salmos dão conta de maneira formosa desta realidade: «Sê para mim um forte rochedo, uma casa fortificada que me salve; pois meu rochedo e muralha és tu»[4].

Trata-se de acreditar nas promessas do Senhor, de viver a esperança e a fortaleza quando tivermos que agüentar situações difíceis em nossas vidas.  As exigências que o Evangelho nos propõe não são impossíveis nem existem para nos fazer mal.  Ao contrário, o Senhor nos pede generosidade e entrega porque sabe que só assim poderemos ser verdadeiramente felizes.

A audácia evangélica

A confiança em Deus está muito unida a outra dimensão importante de nossa vida apostólica: a audácia evangélica.  Só pode ser verdadeiramente audaz aquele que confia naquele que é confiável, naquele que é e será sempre fiel: em Deus.

Lendo a Sagrada Escritura, vemos que o Senhor lhe diz repetidamente a seus discípulos: «Não tenham medo»[5].  Acaso isso era um convite à temeridade, a não tomar em conta nenhum perigo, a viver a vida confiando cegamente nas forças e idéias humanas?  Naturalmente que não se trata disso.

Há uma audácia evangélica que nos leva a não ter medo do sofrimento: «Mas se sofreis por causa da justiça, bem-aventurado sois!  Não tenhais medo nenhum deles, nem fiqueis conturbados»[6].  Leva-nos, também, a não deixar de anunciar o Senhor Jesus em primeira pessoa: «Uma noite disse o Senhor a Paulo, em uma visão: “Não temas. Continue a falar e não te cales. Eu estou contigo e ninguém porá a mão sobre ti para fazer-te mal”»[7].  Também nos leva a não sentir temor daqueles que não querem escutar ou perseguem o Evangelho: «Não tenhais medo deles, portanto.  Pois nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser revelado»[8].

O amor vence o temor

São João expressa de maneira muito profunda o caminho que nos conduzirá a ter valor e enfrentar o medo.  É o caminho do amor, o único caminho autêntico para vencer o temor: «Não há temor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica um castigo»[9].  Muitas vezes caímos no pecado e na ruptura.  Começamos a viver com medo, temendo a reprimenda de Deus e dos homens.

Mas a realidade é muito distinta.  A Encarnação do Senhor Jesus manifesta em plenitude quem é Deus: Deus é Amor[10].  Nós estamos chamados a participar desse amor: amando a Deus, vivendo um reto amor a si mesmo e nos impulsionando ao amor a outros homens.  Quando amamos, participamos da mesma vida de Deus.  Aproximamo-nos mais a Ele nos fazendo cada vez mais semelhantes ao Senhor.

Crescer na vivência do amor é muito importante em nossa vida.  Um meio é nos perguntarmos com freqüência por que fazemos as coisas e fazê-las cada vez com maior amor.  Outro meio é o que nos ensinou o Senhor: dar a vida pelos outros, ajudando de maneira concreta àqueles que estão perto de nós.

Citações para a oração

  • Não tenham medo: Mt 8,26; 10,26; 17,7; Mc 4,40; 1Pd 3,14.
  • Confiança em Deus: Is 26,4; Lc 1,45; Sl 37,23.
  • Viver segundo o amor para não viver no temor: Jo 3,21; Jo 4,17-24.
  • Vencer os medos: At 18,9; Mt 25,14-30.

Pergunta para o diálogo

1.  Que reflexões suscitam em você a frase do Santo Padre: «Não tenham medo! Abram, escancarem, as portas a Cristo!»?

2.  Quais são meus maiores temores na hora de anunciar a Boa Nova? Que coisas concretas posso fazer para vencer estes temores?

3.  Quão audaz sou no apostolado que realizo? O que me falta para ser mais audaz em meu apostolado?

4.  Confio verdadeiramente em Deus e em seu Plano amoroso?

5.  Como Santa Maria me ensina a não ter medo no anúncio da Boa Nova?

INTERIORIZANDO

“Não há temor no amor; mas sim o amor perfeito expulsa o temor” (1Jo 4,18)

Ao meditar nas palavras do Santo Padre no começo de seu Pontificado, « Não tenham medo! Abram, escancarem as portas a Cristo!»:

  • O que suscita em meu coração esta meditação?
  • Estou abrindo meu coração de par em par para que Cristo entre?

Considerando que todos os seres humanos experimentam uma série de medos em suas vidas:

  • Quais são meus maiores medos que dificultam o apostolado que realizo?
  • Que coisas concretas posso fazer para vencer estes medos?

“Deus é a própria Verdade, suas palavras não podem enganar. Por isso o homem se pode entregar com toda confiança à verdade e à fidelidade da palavra de Deus em todas as coisas” (Catecismo da Igreja Católica, 215).

  • Como avalio minha confiança em Deus?
  • O que posso fazer para crescer na confiança em Deus?

Leia e medite a passagem em que o Senhor Jesus caminha sobre as águas e Pedro com Ele (Mt 14,22-33) e expresse com suas próprias palavras o que o Senhor diz para você neste Evangelho.


«Os membros do MVC se descobrem chamados a comprometer-se na tarefa da evangelização. Querem dessa maneira participar da missão da Igreja colaborando em tudo o que esteja a seu alcance, segundo suas capacidades e possibilidades, para que a dinâmica da Boa Nova alcance e transforme tudo quanto está em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio de salvação» (MVC, o que é).

  • Para cooperar ativamente com esta missão apostólica, você percebe a importância de viver a audácia evangélica?
  • De que maneira concreta a audácia evangélica pode ajudar você a vencer o medo de anunciar a Boa Nova?
  • Santa Maria, nossa Mãe, ao longo de toda a sua vida confiou em Deus e se lançou generosamente no anúncio da Boa Nova aos outros.  Seu FIAT generoso ao Plano de Deus também ensina a não ter medo e a nos lançarmos no apostolado.
  • Como Santa Maria pode ajudar você a vencer seus temores no cumprimento da missão apostólica?

 Pedindo fortaleza

Santa Maria da Fortaleza,
que diante das adversidades
soubeste manter-te firme
olhando a realidade,
que parecia tão dura,
com o olhar libertador
que vê o horizonte da eternidade,
digna-te interceder por mim
nestes momentos difíceis
e consegue-me
o dom da fortaleza,
tão necessário para mim.
Que assim seja.



[1] S.S. João Paulo II, Homilia no começo de seu Pontificado, 22/10/1978, 5.

[2] Mt 14,30.

[3] Jo 14,27.

[4] Sl 31,3b-4.

[5] Mt 8,26; 10,26; 17,7; Mc 4,40; 1Pd 3,14.

[6] 1Pd 3,14.

[7] At 18,9-10.

[8] Mt 10,26.

[9] 1Jo 4,18.

[10] 1Jo 4,8.16.

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