Caminho para Deus 134 – «Vem e segue-me!»

2033

« Prezados amigos, interrogai-vos com seriedade acerca da vossa vocação e estai prontos a responder ao Senhor que vos chama a ocupar o lugar que desde sempre preparou para vós.»[1] .

Há algumas décadas vemos com profunda preocupação como o número de vocações tanto para o sacerdócio como para a vida consagrada vem diminuindo. Não passa despercebida a escassez de sacerdotes que existe para atender às imensas multidões de fiéis cristãos. De modo similar se pode falar dos consagrados: muitos filhos e filhas da Igreja permanecem pastoralmente abandonados por falta de mãos e recursos, enquanto o secularismo predominante na cultura vai tornando cada vez mais difícil a resposta à vida cristã e cresce o influxo de seitas e “manifestações” de religiosidade. Diante desta desafiante realidade, que deve preocupar a todos os católicos profundamente, estamos acostumados a escutar que há uma falta ou crise de vocações. Mas, Deus terá deixado de chamar homens e mulheres à vida sacerdotal ou consagrada?

Crise de vocações, ou crise de resposta?

A primeira coisa que temos que afirmar é que não há falta de vocações. As vocações abundam! Deus continua chamando muitos também hoje! O problema está na ausência de resposta ao chamado do Senhor, e isto por diversas razões: surdez para escutar a voz de Deus em um mundo que nos enche de barulho; covardia quando a gente percebe que o Senhor pede “mais entrega”; oposição e pressão que desalentam e fazem com que muitos dêem para trás, seja por parte do ambiente em geral, do círculo de “amigos” ou inclusive dos próprios pais e familiares; inconsistência na vida espiritual e incoerência na vida cristã…

Também temos que nos perguntar se a falta de resposta dos chamados se deve ao pobre testemunho de vida cristã que muitas vezes nós, católicos, damos. A santidade de vida terá deixado de ser um ideal apelante e atrativo para os jovens de hoje por nossa mediocridade e incoerência entre o que dizemos acreditar e o que mostramos muitas vezes com nossas obras, com nossa conduta? Se fôssemos santos, homens e mulheres formados na fé e convencidos de que o Senhor Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, se com o testemunho de uma vida coerente soubéssemos apresentar Cristo com toda a força atrativa que emana de sua Pessoa, quantas vocações veríamos florescer na Igreja hoje!

O que é a vocação?

A palavra “vocação” vem do latim “vocare”, que significa “chamar”. Assim, ao falar de vocação, no vocabulário cristão entendemos o chamado que Deus faz ao ser humano, a cada um de nós. Já nossa própria vida é uma vocação: o “chamado” que Deus nos faz a sair do nada para passar à existência.

Fomos criados com a capacidade de entrar em diálogo e comunhão de amor com o próprio Deus.O Senhor nos chama para participar de sua própria vida e natureza divinas[2]! É um chamado «para sermos santos e irrepreensíveis, diante dele no amor»[3].

Mas junto a este chamado ou vocação universal há outro chamado particular: A cada qual Deus chama para ocupar um lugar e para cumprir uma missão específica no mundo. Diante desse chamado «é dever irrenunciável de cada um procurar e reconhecer, dia após dia, a vereda ao longo da qual o Senhor vai pessoalmente ao seu encontro»[4].

Dentro dessa vocação ou chamado particular, a maioria encontra na vida matrimonial seu próprio caminho de santidade, mas outros estão chamados a seguir o Senhor Jesus “mais de perto”, seguindo seu próprio estilo de vida enquanto viveu conosco, renunciando a tudo para entregar sua vida ao anúncio do Evangelho e ao serviço evangelizador dos irmãos humanos, seja no sacerdócio ou a vida consagrada. A estes, de uma maneira particular, vai dirigido o chamado do Senhor: «Vem e segue-me!»[5].

A vocação sacerdotal ou consagrada

Pelo que já foi dito se entende que o chamado não é nenhuma novidade. É uma realidade tão antiga como a própria existência do homem, uma realidade que também hoje acontece: Deus continua chamando hoje.

No Antigo Testamento vemos como Deus foi escolhendo alguns homens ou mulheres para tarefas concretas e específicas, para levar a cabo seu desígnio reconciliador. Descobrimos como aqueles que Deus escolhe para uma missão muito concreta, já são por Ele formados no seio materno[6]. Por isso podemos afirmar que a vocação é como um selo que está gravado no eleito dede o momento de sua concepção, um selo indelével[7]. Porque está “feito para isso”, todo o seu ser clama por isso, embora só com o tempo e os sinais que Deus lhe envia poderá interpretar corretamente esse “clamor interior de seu ser”. Deus, quando permite ao eleito perceber o chamado, sai ao encontro dessa estrutura interior, corresponde àquilo para o qual o eleito “foi feito” desde sua concepção, para o que nasceu.

No Novo Testamento é o Senhor Jesus, Deus feito homem, quem escolhe e convida a alguns com um tão direto como radical: «Vem e segue-me!»[8]. Desse modo associa a quem chama a sua própria missão reconciliadora e evangelizadora[9].

Aqueles que escutaram aquele chamado experimentaram suas exigências: deixar tudo pelo Senhor. Os que souberam responder com prontidão, generosidade e fidelidade, receberam por parte do Senhor uma promessa: «Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo…e, no mundo futuro, vida eterna»[10].

Outros, como o “jovem rico”[11] ou Judas Iscariotes, preferiram aferrar-se a suas riquezas ou a seus próprios planos, negando ou traindo com o tempo seu próprio chamado. O fruto amargo que experimentaram foi a profunda tristeza e frustração de não responder ao que o próprio coração reclama. A isso se acrescenta, no caso de Judas, iniciar um caminho de autonegação que leva finalmente à própria destruição e aniquilamento. Como vemos, embora hoje pareça ter crescido, a crise de resposta tampouco é novidade.

O chamado, fonte de bênçãos

Diferente do que alguns pensam, a vocação à vida sacerdotal ou consagrada não é uma má notícia, nem para o eleito ou eleita, nem para sua família. É justamente o contrário! O chamado que Deus faz a um filho ou filha é fonte de bênçãos para toda a família e sinal de um amor de predileção para o chamado: «Eu te amei com um amor eterno, por isso conservei para ti o amor»[12].

Da resposta fiel e valente ao chamado do Senhor depende a realização da pessoa. É importante que quem percebe ou intui o convite do Senhor entenda que Deus não é inimigo de sua felicidade porque o caminho que lhe indica “se opõe a seus planos para ser feliz”. É justamente o contrário! Porque te ama, porque te conhece melhor que você, porque é imensamente sábio, Deus te mostra o caminho que tem que seguir para alcançar sua verdadeira felicidade, respondendo àquilo para o qual foste feito. Ao mesmo tempo, tenha em conta que a felicidade de muitas pessoas –começando por teus próprios pais, embora às vezes pode parecer o contrário– depende de teu sim generoso e de tua fidelidade ao chamado do Senhor.

A responsabilidade é de todos

É importante ser consciente que este assunto diz respeito a todos os filhos da Igreja. Não queremos um mundo melhor? Como vamos contribuir para a mudança do mundo se não formos santos, e se os que são chamados por Deus não respondem a sua própria vocação e missão? Por isso ninguém pode sentir-se excluído da responsabilidade de cooperar de algum jeito, trabalhando ou apoiando direta ou indiretamente o florescimento das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada.

E como “a caridade começa em casa”, são os pais os primeiros que devem rezar pela vocação de seus filhos, assim como lhes ensinar que nesta vida não só o matrimônio é um caminho válido, mas também o são o sacerdócio ou a vida consagrada. Os pais, com muita abertura à ação divina e espírito de sacrifício em não poucos casos, são os primeiros que devem alentar e apoiar seus filhos a seguir as inspirações divinas no momento em que algum deles perceba ou manifeste alguma inquietação vocacional. Desse modo, as famílias cristãs estão chamadas a ser hoje verdadeiros focos de vocações.

CITAÇÕES PARA A ORAÇÃO

  • Vocações no Antigo Testamento: Moisés: Ex 4,10-12; Samuel: 1Sm 3,10; Isaías: Is 6,4ss; Jeremias: Jr 1,5-8.
  • A vocação é fruto de um amor de predileção de Deus: Jr 31,3; é como um fogo inextinguível: ver Jr 20,9.
  • Vocações no Novo Testamento: Maria, exemplo de uma resposta pronta e valente a sua vocação: Lc 1,38; vocação e resposta de alguns apóstolos: Mt 4,18-22; Mateus: Mt 9,9; Juan e André: Jo 1,35-42; Pedro: Lc 5,8.
  • Exigências da vocação: Lc 9,57-62; promessa do Senhor a quem responde a sua vocação: Mc 10,29-30.
  • O triste exemplo de um jovem que rechaça o chamado do Senhor: Mc 10,17-22.

INTERIORIZANDO

Não é nenhuma novidade para nós que o número de sacerdotes e consagrados na Igreja diminuiu. Tampouco nos falta a percepção de que o número de sacerdotes é insuficiente para atender aos fiéis cristãos.

  • Diante desta realidade, qual costuma ser minha atitude?
  • Sou realmente consciente da necessidade dos sacerdotes e consagrados para a vida da Igreja?
  • Como posso eu, partindo de minha realidade concreta, cooperar para reverter esta situação?

Há muitas razões pelas quais podemos entender melhor a falta de resposta ao chamado que o Senhor faz a muitas pessoas. Uma delas é o possível insuficiente testemunho de vida cristã coerente que nós, católicos, damos.

  • Será que ainda me falta dar um melhor testemunho de vida cristã aos outros?
  • O que posso fazer em minha vida cotidiana para dar um testemunho de vida cristã mais coerente?

A vocação particular é o chamado concreto que Deus faz a cada pessoa para que esta se realize, alcance a felicidade plena. A resposta fiel e coerente a este chamado tem uma especial importância posto que é nossa própria realização pessoal que está em jogo.

  • Sou consciente de que o chamado particular que Deus me faz é o único caminho de autêntica realização pessoal para minha vida?
  • Diante do chamado particular que o Senhor me faz, o que devo fazer?

Em um discurso dirigido particularmente aos jovens, na Espanha, o Papa João Pablo II dizia: “a evangelização exige hoje com urgência sacerdotes e pessoas consagradas. Eis a razão pela qual desejo dizer a cada um de vós, jovens:  se sentis o chamado de Deus que vos diz:  “Segue-me!” (Mc 2, 14; Lc 5, 27), não o sufoqueis. Sede generosos, respondei como Maria oferecendo a Deus o sim alegre das vossas pessoas e da vossa vida. Dou-vos o meu testemunho:  eu fui ordenado quando tinha 26 anos. Desde então passaram 56. Então, quantos anos tem o Papa? Quase 83! Um jovem de 83 anos. Quando olho para trás e recordo estes anos da minha vida, posso garantir-vos que vale a pena dedicar-se à causa de Cristo e, por amor dEle, consagrar-se ao serviço do homem. Vale a pena  dar  a  vida  pelo  Evangelho  e pelos  irmãos!” (João Paulo II, Discurso na vigília com os jovens em Quatro Ventos, Madri, 2003).

  • Ao ler o testemunho do Santo Padre, o que lhe suscitam suas palavras? O que você pensa? Que ensinamento lhe dá o Santo Padre para sua própria vida?

Não é difícil constatar hoje como para algumas pessoas o chamado à vida sacerdotal ou consagrada representa uma má notícia, seja para a pessoa que é chamada ou então para sua família. Estas pessoas costumam dar espaço a uma série de prejuízos em vez de abrir-se à realidade de que a vocação à vida sacerdotal e consagrada representa um grande presente de Deus, uma grande bênção tanto para o que é chamado como para sua família.

  • Qual é minha atitude diante do tema da vocação à vida sacerdotal ou consagrada: seja em relação a mim mesmo ou então a um familiar?
  • Dou-me conta de que um sacerdote ou um consagrado é uma autêntica bênção para a família?

Como cristãos batizados, todos somos responsáveis para que mais pessoas respondam com generosidade ao chamado particular que o Senhor faz a alguns para segui-lO mais de perto.

  • O que vou fazer para assumir melhor esta responsabilidade?
  • Escreva uma oração pelas vocações à vida sacerdotal e consagrada.

Com um coração agradecido pelo dom da vocação peçamos a intercessão de Nossa Mãe, Santa Maria, para que nossa resposta ao Plano de Deus Amor seja sempre generosa como a sua.

Oração de Gratidão

Obrigado, Senhora Santa Maria.
Obrigado pelas tuas muitas bondades
e pelos teus cuidados maternais.

Ajuda-me para que a minha gratidão
se converta em resposta efetiva
de solícito amor
e de cumprimento de tua palavra:
“Fazei o que Ele vos disser”.
Amém.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Expus a mim mesmo, com seriedade, a pergunta por minha vocação? Estou respondendo ao chamado que o Senhor me faz com toda a generosidade de meu coração?
  2. Diante da falta de mais respostas ao chamado do Senhor para segui-lO mais de perto e a partir de minha realidade concreta, o que vou fazer? Qual pode ser minha cooperação pessoal?
  3. Porquê há em nossos dias um problema de “ausência de resposta” ao chamado do Senhor? Como posso ajudar a solucionar esta dificuldade?
  4. O que é a vocação universal? O que é a vocação particular? Sou consciente de que a vocação particular a que Deus me chama é um dom para minha vida?
  5. Você entende a vocação à vida sacerdotal ou consagrada como uma bênção? Por quê podemos afirmar que a vocação ao sacerdócio e à vida consagrada representam um imenso dom para a família?
  6. Como Santa Maria pode ajudar você a escutar e responder com generosidade ao chamado de Deus?

 


[1] S.S. João Paulo II, Mensagem para a XIII Jornada Mundial da Juventude, n. 8.

[2] Ver 2Pe 1,4.

[3] Ef 1,4.

[4] S.S. João Paulo II, Mensagem para a XIII Mornada Mundial da Juventude, n. 8.

[5] Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22.

[6] Ver Jr 1,5.

[7] Ver Jr 20,9

[8] Mt 8,22; 9,9; 19,21; Mc 2,14; 10,21; Lc 5,27; 9,59; Jo 1,43.

[9] Ver Jo 15,16; 20,21; Mt 28,19; Mc 16,15.

[10] Mc 10,29-30.

[11] Ver Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22.

[12] Jr 31,3.

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