Caminho para Deus 156 – Visão ao futuro

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«No mundo tereis tribulações»

Todos aqueles que, tendo acolhido o dom da Reconciliação que nos trouxe o Senhor Jesus  nos comprometemos a lutar para transformar o mundo —construindo a civilização do amor— encontramos dificuldades. O próprio Senhor Jesus nos advertiu: «No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo»[1]. O contexto histórico no qual nos toca viver certamente apresenta muitos desafios que podem minar nossa esperança.

Entretanto, perante os obstáculos e dificuldades que se nos apresentam, devemos ter sempre presente a necessária esperança e não sucumbir diante das adversidades. Um primeiro elemento que pode servir de grande ajuda é nos aproximarmos das dificuldades,  considerando-as como desafios que, se os superarmos, podem nos ajudar a crescer como pessoas.

Mas também, diante do imenso horizonte que se nos apresenta, não podemos nos restringir apenas aos aspectos difíceis e problemáticos da realidade. Isto seria cair no redutivismo e no negativismo. Há muitos elementos positivos que devem ser para nós um grande alento, de maneira que nossa esperança seja sempre forte e viva.  Embora seja certo que no mundo há tribulação, não nos esqueçamos das palavras do Senhor Jesus: «mas tende coragem: eu venci o mundo». No Senhor Jesus se fundamenta nossa esperança e também a visão ao futuro.

Elevar o olhar

Frente à tentação a que antes fazíamos referência se faz necessário, uma e outra vez, levantar o olhar para o horizonte pleno da realidade. É indispensável não cair na armadilha de reduzir a totalidade da realidade a determinados aspectos dela que são difíceis no tempo presente. O sentido dos afazeres cotidianos —com seus sofrimentos e dificuldades, assim como com seus momentos de alegria e triunfo— só se pode entender adequadamente com uma reta visão ao futuro.

Visão de eternidade

Esta visão ao futuro implica em primeiro lugar na consciência de que Cristo já venceu por nós e que portanto o mal e o sofrimento que vemos no mundo ou que experimentamos na própria vida não têm a última palavra. Trata-se de recordar seguidamente que neste mundo somos peregrinos, viadores[2], e que nosso destino é eterno. Fomos feitos para a glória na comunhão plena de amor. Essa é nossa vocação e frente a sua realização plena no céu, qualquer sofrimento torna-se suportável porque como diz São Paulo: «os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós» (Rm 8,18).

É também frente a este destino final que devem ser julgados nossos atos; é esse o horizonte que deve estar presente como pano de fundo em cada decisão que tomamos no aqui e agora de nossa vida presente: a que destino eterno me aproxima esta decisão concreta que tomo hoje?

Viver e construir a visão ao futuro

O mesmo horizonte da visão ao futuro que nos remete à eternidade nos permite olhar com objetividade a perspectiva do desenvolvimento histórico do mundo e de nossa própria vida. Nem nossa vida nem a situação do mundo se esgotam no momento presente. O mistério da Encarnação-Vida-Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão inaugurou uma nova época na história e contém um poder reconciliador que continua desdobrando-se na história da humanidade e na vida de cada homem que acolhe em sua vida a força da graça.

Não se trata simplesmente de uma expectativa passiva, mas sim da firme e esperançosa decisão de perseverar cooperando com a graça, com a confiança de que nossos esforços por sermos Santos, unidos à força de Deus, podem mudar realmente a história do mundo e de nossa própria vida.

O realismo da esperança

A visão ao futuro não é sob nenhum aspecto uma visão ingênua ou escapista que busca olhar para outro lado a fim de esquecer as dificuldades imediatas ou iminentes. Ao contrário, trata-se de uma visão profundamente realista, imersa no realismo da esperança. Trata-se de uma visão que não cai em reducionismos e parcializações de nenhum tipo, mas ao examinar a realidade compreende que ela é muito mais que o presente concreto: que há acontecimentos, fatos, que transformaram o mundo e que mantêm sua vitalidade na história e vão conduzindo a seu destino definitivo. Nesse sentido se opõe tanto a um escapismo ingênuo que leve a atitudes passivas como a um pessimismo polarizante e redutivo que conduza à desesperança.

A razão de nossa esperança[3]

O apóstolo São Paulo já ensinava aos primeiros cristãos: «a esperança não decepciona »[4]. Paulo era consciente de que, mesmo na noite mais escura, a esperança não nos falhará, pois não se afiança em nossas próprias forças, e sim na força de Deus. Pois Ele que nos outorga a esperança nos dá também sua promessa de fidelidade. Por isso, quando a claridade do dia se oculta detrás de espessas nuvens que entrevam o horizonte, não devemos esquecer que, além das nuvens, o sol continua estando aí e que voltará a brilhar amanhã. Devemos elevar o coração e olhar, com decisão, para o futuro que nos espera. Pois nossa esperança se fundamenta no Senhor e em suas promessas. Sabemos bem em quem nós confiamos[5].

O acerto desta visão confiante e esperançosa foi referendado, confirmado e testemunhado inúmeras vezes na vida dos Santos e na história da Igreja desde os seus começos. A visão ao futuro aqui descrita é adequada tanto à luz da fé como da reta razão.

O exemplo de Santa Maria

Como já dissemos, o olhar ao futuro nos assinala um horizonte concreto que aguarda nossa cooperação para ver-se realizado. Por isso constitui também uma tarefa. Devemos viver já e construir aquele horizonte luminoso que projetamos ao futuro. Não podemos deixar que a cotidianidade, a rotinização ou os obstáculos nublem nem ocultem nossos sonhos. Devemos pôr os meios para que se realize esta Nova Alvorada da civilização do amor. Mas é necessário estarmos fundamentados na fé, pois só nela a visão ao futuro adquire um verdadeiro sentido realista. Apenas com nossas forças jamais poderemos mudar o mundo, pois sem o Senhor não podemos fazer nada[6]. É necessário unir nossos talentos e nosso esforço à obra que Deus vem realizando no mundo desde a criação e que conduz a história a seu horizonte final. Somente assim, unindo nossa força à sua, verdadeiramente contribuiremos à mudança do mundo e teremos uma esperança realista em um futuro melhor. É por isso que só os Santos mudarão o mundo.

Santa Maria é o modelo que devemos seguir. A partir de sua humildade e sua contingência, a Mãe pôs todo o seu ser ao serviço do Senhor com generosidade  superabundante. E o fruto de sua cooperação foi a obra da Reconciliação que transformou para sempre o sentido da história, abrindo-nos a porta da esperança que tinha sido fechada pelo pecado. Nas exigências e dificuldades de sua vida cotidiana Maria sempre soube manter seu olhar no horizonte futuro das promessas de Deus. Na perseguição ao Menino que a levou a fugir ao Egito[7]; ao perder o Senhor adolescente no caminho de volta de Jerusalém[8]; ao contemplar a incompreensão ao seu divino Filho e a perseguição dos líderes religiosos de Israel; e especialmente ao acompanhar ativamente os mistérios reconciliadores da Paixão e Morte do Senhor, Maria manteve sua esperança posta nas promessas de Deus que conservava em seu coração[9]. Com efeito, na Anunciação-Encarnação o Anjo lhe anunciou que seu Filho «será grande,  será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e seu reinado não terá fim»[10]. A Mãe nos introduz na dinâmica de alegria-dor que nos permite superar com esperança e ânimo ardoroso as dificuldades do momento presente com a confiança posta no Senhor. Sem compreender tudo, Maria, em meio à tortura inexpressável da Paixão de seu divino Filho, pôde manter o olhar posto no futuro, naquele dia luminoso prometido por Jesus, no qual ressuscitaria de entre os mortos.

Deste modo, a Mãe nos ensina a olhar, além das nuvens, à «manhã», até chegar àquele dia que desconhece ocaso no qual o Sol de Justiça brilhará para sempre em nossas vidas.

CITAÇÕES

  • “No mundo tereis tribulações”: Jo 16,33; Mt 10,16-20; Mt 16,18; Fl 3,12-14.16.
  • Visão de eternidade: Rm 8,18; 2Tm 1,12.
  • A razão de nossa esperança: 1Pd 3,15; Rm 5,5; Hb 12,1-4.
  • O exemplo de Santa Maria: Lc 2,19.51; Jo 2,5.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Quais são os principais obstáculos e desafios que se apresentam em nosso horizonte de vida cristã? O que podemos fazer para cooperar com a graça e superá-los?
  2. O que é a visão ao futuro? Qual é a correta visão ao futuro que devemos ter?
  3. O que estou fazendo para construir a visão ao futuro? O que me falta fazer?
  4. Como o Senhor Jesus pode nos ajudar na construção da visão ao futuro?
  5. Por que nosso horizonte deve estar marcado pela esperança? Qual é a razão de nossa esperança?
  6. Por que Maria nos dá um exemplo de visão ao futuro? Que coisas concretas nos ensina nossa Mãe? O que podemos fazer a partir de seu testemunho?

[1] Jo 16,33.

[2] do Lat. viatore – aquele que viaja; passageiro.

[3] Ver 1Pd 3,15.

[4] Rm 5,5.

[5] Ver 2Tm 1,12.

[6] Jo 15,5.

[7] Ver Mt 2,13ss.

[8] Ver Lc 2,41ss.

[9] Ver Lc 2,19.51.

[10] Lc 1,32-33.

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