Caminho para Deus 162: A parrésia apostólica

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Quando olhamos a situação atual do mundo, encontramo-nos com um panorama onde a «cultura de morte» está fortemente enraizada, marcada pelo secularismo e pelo agnosticismo funcional, pela renúncia do humano e por uma crise que afeta os fundamentos da família e da sociedade, entre outras dolorosas manifestações que nos rodeiam[1].

Diante de tudo isso, não cabe a desesperança ou o medo ao fracasso, mas deve brotar em nossos corações a consciência de que «só os Santos mudarão o mundo» e, a partir disso, temos que empreender um esforço mais consciente e coerente por ser Santos apóstolos. O apostolado que realizamos, em suas muitas maneiras e expressões, segundo as capacidades e possibilidades de cada um, é um grão de areia, mas nem por isso é pouco importante, para a construção da Civilização do Amor, centrada no Senhor Jesus[2].

Junto ao testemunho de nossa vida, que deve preceder toda ação apostólica devido à coerência de fé e vida que estamos chamados a viver, é necessário também o anúncio explícito do Senhor Jesus, mediante nossa vida, obras e palavras.

O Senhor nos chama hoje a ser apóstolos audazes, tal como os primeiros discípulos e apóstolos do Senhor Jesus o foram há dois mil anos. Justamente neles é onde podemos encontrar alguns exemplos a seguir sobre a maneira de anunciar o Evangelho, abertos à ação do Espírito Santo, «o fogo do divino amor».

Nos Atos dos Apóstolos, referindo-se a Paulo e os apóstolos, narra-se que «Saulo andava com eles por Jerusalém, pregando corajosamente em nome do Senhor»[3]. Nesta passagem aparece o vocábulo “parrhsia” (parrésia, traduzido aqui como “pregando corajosamente”) que nos recorda que uma característica essencial na missão evangelizadora é falar com valentia, liberdade e sem medo.

Parrésia é uma palavra de origem grega, que se forma da soma de dois termos: pas, que significa ‘tudo’, e rhesis, que significa ‘fala’. O sentido dessa palavra designa, sobretudo, a liberdade ao falar, com valentia e sem ambiguidades.

A pessoa que tem parrésia é a pessoa audaz, que tem segurança em Deus e em si mesma, está cheia de coragem e generosidade. Por outro lado, a parrésia também se aplica à pessoa que vive com transparência e liberdade de espírito.

Liberdade ao falar

Em Jerusalém, alguns diziam sobre Jesus: «Não é esse a quem querem matar? Olhem como fala com toda liberdade e não lhe dizem nada»[4].

A liberdade de expressão é um dos direitos que a sociedade moderna reclama para si com grande força. Mas o que significa isso para o mundo de hoje? A resposta mais difundida é dada por um olhar relativista que se atribui o direito de afirmar “verdades” que realmente não o são, mas que pelo fato de serem afirmadas por um grupo da sociedade, deveriam ser aceitas como tal, desligando assim muitas vezes o conteúdo do que se proclama da própria verdade.

Não se pode separar a liberdade ao falar da verdade, já que esta é sua condição primitiva. Assim, a verdadeira liberdade ao falar é dada – fundamentalmente – pelo conteúdo do anúncio. Só anunciando a Verdade e falando de realidades verdadeiras é que se pode fazê-lo livremente, sem amarras, enganos ou inseguranças.

Anunciando o Senhor Jesus, não temos nada a temer porque sabemos que Deus é nosso fiador, já que sempre é Fiel. Assim, poderemos viver e testemunhar a «liberdade dos filhos de Deus»[5], aquela que é fruto de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar sempre com Ele. Nesse sentido, exortava-nos o Papa Bento nas Vésperas de Pentecostes: «Os Movimentos eclesiais querem e devem ser escolas de liberdade, desta liberdade genuína. (…) Nós desejamos a liberdade verdadeira e grande, a dos herdeiros, a liberdade dos filhos de Deus»[6].

Valentia no apostolado e na vida

A valentia no apostolado se contrapõe a um mal muito humano: o medo.

O medo não é outra coisa senão o indicador de que necessitamos uma segurança que perdemos ou que ao menos não vemos, porque penetramos em algo desconhecido ou que acreditamos que nos fará mal. O medo a que nos referimos aqui é como uma paralisia que aparece pela perda de vista daquilo que é importante. Quando o homem põe a própria segurança em si mesmo, facilmente se esquece qual é o fundamento real de seu ser, e sua necessidade de segurança se vê abalada.

Disso se trata, de não duvidar, de não ter uma confiança excessiva só em si mesmo, mas mesmo vivendo uma sã desconfiança, confiar plenamente nAquele que não falha nunca, no Senhor Jesus.

Encontramos um exemplo disso no episódio em que Pedro caminha sobre as águas[7]. Inicialmente ele confia e se lança ao mar seguindo Jesus, pois conhece-O e confia nEle. Mas quando vai caminhando começa a sentir a violência do vento e se detém em seu próprio medo, começa a afundar. A pergunta de Jesus é clara: «por que duvidou?». O medo é fruto da dúvida, do esquecer em quem nós confiamos. É por isso que o que se precisa é uma consciência clara e firme de Deus e uma confiança segura nele.

No apostolado também acontece que às vezes nos enchemos de medo de falar do Senhor. Às vezes por melindres humanos, pela preocupação com o que dirão ou simplesmente por não estarmos convencidos de quão valioso é nosso apostolado. Por isso é importante entender que a valentia no anúncio do Senhor, a segurança, coragem e audácia não vêm de nós mesmos mas dAquele a quem anunciamos. É Jesus mesmo quem nos envia para anunciar a Boa Nova do Evangelho, o Caminho, a Verdade e a Vida[8]. É a partir do encontro pessoal com Ele que poderemos proclamar a Verdade sem esse medo que é esquecimento de sua Palavra, esquecimento de que Deus é Deus e cumpre suas promessas. Por isso repetimos muitas vezes que é necessário aprender a crer em Jesus e acreditar nEle[9].

Falar sem ambiguidades

A parrésia implica clareza, já que não se pode falar livremente nem com valentia sem ser direto, sem ter claro aquilo que se anuncia e defende. A clareza é uma característica da simplicidade, e o essencial não é confuso nem complicado, mas simples, “único”. Jesus mesmo nos diz: «Seja o vosso ‘sim’, sim, e o vosso ‘não’, não. O que passa disso vem do Maligno»[10]. A clareza, além disso, é caridade. Como diz um ditado peruano, «a cortesia não tira a valentia». Dizer a verdade implica que alguém saiba por que a diz, quando a diz, como a diz, a quem a diz. A caridade me leva a dizer a verdade. A caridade me conduz pelo caminho melhor para expressá-la a fim de que a pessoa com quem falo possa entender-me e escutar-me. Ao mesmo tempo, a parrésia implica saber escutar, estar atento ao Evangelho que o outro necessita e espera de mim para ser anunciado.

Isto se contrapõe ao chamado «politicamente correto», que é essa corrente onde parecem respeitar-se todas as posições, não importando se forem verdadeiras ou falsas, como múltiplas ofertas de “verdades” que devem ser aceitas segundo uma convivência humana “pacífica”. Entretanto, a única posição que não se respeita é a da verdade. A “tolerância” é intolerante com a verdade e a caridade.

O que vem de Deus é claro e definido. Quando se está do Seu lado não há lugar para pactuar ou regatear. Perante Deus e nEle a verdade é una. Esta clareza, esta falta de ambiguidade, não é só lógica, mas sobretudo significa coerência. Só quem vive segundo aquilo que crê, segundo o Evangelho, é capaz de mostrar com sua vida o que quer anunciar. A palavra de Deus exige assim uma força que só o testemunho de vida pode dar.

Já que muitos fazem ouvidos surdos ao anúncio do Evangelho, enquanto que outros, ainda quando dizem escutá-lo, costumam recortar a sua mensagem, hoje somos solicitados a ser apóstolos cheios de parrésia, transmitindo o Senhor Jesus com toda a força que dEle irradia.

O «Faça-se em mim segundo a tua Palavra»[11] pronunciado por Maria, cheio de prontidão e valentia, é um modelo de fala livre e coerente, na qual Ela põe sua confiança e segurança em Deus. Sejamos como Santa Maria, respondendo sempre com um Fiat generoso a nossa vocação de apóstolos.

Passagens bíblicas para oração e meditação

Guia para a Oração

  • A liberdade em Cristo: Gal 5,1ss.
  • Cristo veio para nos dar a verdadeira liberdade: Lc 4,18-19; Jo 8,36.
  • Liberdade ao falar: Jo 7,25; Jo 18, 20.
  • Só a verdade nos faz livres: Jo 8,31-32
  • Falar sem ambiguidades: Mc 8, 32; Jo 16, 25.
  • Exemplo de audácia no Anúncio do Evangelho: At 9, 28.
  • Um verdadeiro apóstolo procura a liberdade dos outros com atitudes concretas: 2Tim 2,24-26.

Perguntas para o diálogo

  1. Você se descobre chamado a anunciar Jesus como os apóstolos? Descobre que também é sua a missão evangelizadora da Igreja?
  2. Quais são os principais obstáculos que você descobre no apostolado? Você é livre em seu anúncio?
  3. Que medos você descobre que lhe impedem ou dificultam o anúncio de Jesus? Como você pode vencê-los?
  4. Você procura em Deus mesmo a segurança que necessita? Encontra nEle a certeza necessária?

 

Notas

[1] Vide CPD 188

[2] Vide CPD 104

[3] At 9, 28

[4] Jo7, 25-26

[5] Rom 8, 21

[6] Homilia do Papa Bento XVI, Sábado, 3 de Junho de 2006

[7] Ver Mt 14, 28ss

[8] Jo 14,6

[9] Em espanhol: “Creer em Jesús y a Jesús” = Crer nEle, como pleno Deus e pleno homem, e no que Ele diz, faz e ensina.

[10] Mt 5, 37

[11] Lc 1, 38

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