Caminho para Deus 175: Brilhe vossa luz diante dos homens

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Alguma vez escutamos que nós, católicos, deveríamos ficar com nossa fé no âmbito privado, não levá-la à vida cotidiana e não mesclá-la com os trabalhos e coisas deste mundo? Ou que devemos nos manter à margem das preocupações do mundo? Quer dizer, que devemos viver uma espécie de dupla vida: para dentro poderíamos, se quisermos, viver nossa fé, mas para fora não. Isto é algo que se vê dramaticamente em dois exemplos concretos. Primeiro na luta a favor da vida que a Igreja trava em todo o mundo, aonde com falsidade, se nos diz que nós, católicos, devemos nos abster de dar opiniões neste âmbito porque se trata de convicções pessoais que devemos guardar para os que creem e não devemos misturá-las com a vida. Segundo, na evangelização, onde se nos diz inúmeras vezes que evangelizar é impor nossas ideias aos outros e que devemos respeitar e não expandir o que cremos. No fundo, o que está em jogo é fazer com que a fé seja uma opção privada, interna, sem repercussões na vida diária. Que a fé seja incoerente e silenciosa. Que a Igreja se abstenha de ter um papel na vida cotidiana das pessoas. Que não se pregue o Senhor Jesus como a resposta para toda a humanidade. Mas Isto deve ser assim?

No seio do sermão da montanha, o Senhor diz aos apóstolos e às demais pessoas ali reunidas, uma sentença capital: “Brilhe assim sua luz diante dos homens, para que vejam suas boas obras e glorifiquem a seu Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Convite que responde as questões que expusemos no início: o cristão, todo cristão, a partir de seu próprio estado de vida, está chamado a viver sua fé com coerência, em todo momento e fazer da fé sua vida. Vivendo-a no plano interior, mas também, consequentemente, no plano exterior, sem fazer de ambas as realidades uma divisão ou oposição.

Pois bem, valeria a pena perguntar-nos mais claramente: o que isto que o Senhor nos convida a viver significa? Que consequências concretas tem em nossa vida? Revisemos rapidamente o que diz o Senhor.

Em primeiro lugar nos pede que brilhe uma luz. Nossa luz. Mas o que significa brilhar? E de que luz fala? O brilhantismo fala por si mesmo de uma realidade clara: algo tem que manifestar-se forte, aberto, claro, puro, público, notório, e por consequência fazer diferença. Ser uma realidade que esclarece coisas, que as torna visíveis, que dá motivos de segurança, alegria, que revela coisas. Não é algo oculto, que passa despercebido, que é privado. Em uma escuridão, a luz atrai aos outros e alguém a busca para nela estar seguro. Uma luz, além disso, não se pode ocultar, pois está feita para ser visível e notória, tal como o Senhor expressa uns versículos antes: “Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada para a colocar debaixo de uma vasilha, mas sim para a colocar no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa.” (Mt 5, 14-15).

E quanto à luz, de que luz fala Jesus? Encontramos a resposta em outro momento da pregação do Senhor: “Jesus falou-lhes outra vez dizendo: “Eu sou a luz do mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas possuirá a luz da vida” (Jo 8, 12). Isto implica em um pressuposto, o poder fazer com que o Senhor seja nosso centro, que vivamos com Ele, por Ele e nEle e seja a Ele que transmitamos. Mas, como sabemos, ninguém dá o que não tem, e para poder viver aquilo que São Paulo nos convida, “não vivo eu, mas é Cristo quem vive em mim” (Gal 2, 20), precisamos trabalhar para ser do Senhor, tanto em nossa vida interior como em nossa vida exterior. É o que chamamos conformação com o Senhor Jesus, pois esse brilhantismo, que não é outra coisa senão o apostolado, não nasce de nós mesmos, já que por nossa conta não temos luz própria, mas sim nasce do brilhantismo do Senhor que estará em nós, pois “ninguém dá o que não tem”.

Em segundo lugar, o que o Senhor nos pede é que sejamos totalmente Dele, de maneira coerente e visível. Quem é de Cristo o é sempre, tanto no interior como no exterior. Tanto no que ninguém vê, no íntimo, como no público. Por isso Jesus quer que esta luz brilhe “diante dos homens, para que vejam suas boas obras”. O cristão, pois, ao contrário do que o mundo pretende, é um homem íntegro, coerente, que está feliz em sua vida de fé, e que não pode deixar de manifestá-la, pois sua fé e sua vida são uma só coisa. Deixar de se comportar como cristão, é trair o que se crê, trair a si mesmo e trair o Senhor. Por isso São Paulo podia dizer com respeito ao apostolado, “anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! (1Cor 9, 16).

Tudo isto nos leva a uma reflexão importante em nossa espiritualidade. A vida interior será aqui chave, pois ninguém dará o que não tem; mas por outro lado, a vida ativa, o desdobramento em meio à vida cotidiana é fundamental, pois manifesta e ao mesmo tempo enriquece nossa fé. Esta unidade é a que chamamos em nossa espiritualidade de espiritualidade da vida ativa e que tem um lema que tenta sintetizar o que se busca: “Oração para a vida e o apostolado; vida e apostolado feitos oração”. Não estamos chamados a pensar só no Senhor, a amá-lO de coração, mas a manifestar tudo isso e também enriquecê-lo com nossas obras, pois como diz São Tiago: “De que serve, meus irmãos, que alguém diga: “Tenho fé”, se não tiver obras? Acaso poderá salvar-lhe a fé?… a fé, se não tiver obras, está realmente morta… mostra-me a tua fé sem obras e eu, com as minhas obras, te mostrarei a minha fé“(Tg 2, 14.17.18).

Em terceiro e último lugar, o Senhor revela uma grandeza belíssima: as altíssimas possibilidades que o ser humano tem. Que por nossas boas obras, os homens “glorificam nosso Pai que está nos céus”. Seguindo a Gaudium et spes nº 22, sabemos que Cristo revela ao homem quem ele é e sua altíssima vocação. Pois bem, o Senhor nos mostra quão bons podemos ser, quão boas podem ser nossas obras e como com elas podemos refletir a Deus, que como dizia Santo Agostinho, “é mais íntimo que eu mesmo”. O Senhor nos mostra como somos capazes de refletir a imagem e semelhança com a qual fomos criados, como podemos ter uma relação fortíssima com Deus e, sendo seus filhos, viver autenticamente nossa humanidade.

O Senhor Jesus e a vida de fé que nos convida a viver, como dizia o Papa Bento XVI, “não tira nada e dá tudo”. Somos capazes, por ser filhos de Deus, de transmiti-lO, de refleti-lO, de levá-lO dentro, e de viver aquilo que citávamos de São Paulo: “Vivo eu, mas não eu, é Cristo quem vive em mim”. Somos capazes de nos conformar com o Senhor e mostrá-lO aos homens. E aqui, é o próprio Senhor quem nos dá uma chave: a obediência aos planos de Deus. Pois ali nós poderemos encontrar o caminho para esta conformação, para lutar contra o pecado e para estar com o Senhor, e poder assim glorificá-lO com nossa vida e obras. Assim diz o próprio Senhor: “Eu glorifiquei-Te na Terra, completei a obra que Me deste a fazer.” (Jo 17, 4). Por isso o Papa João Paulo II afirmava com força, “vale a pena ser homem, porque Tu te fizeste homem”.

Voltemos então para os questionamentos iniciais. Estamos nós, os cristãos, limitados a viver nossa fé no âmbito privado e a nos esconder, sendo incoerentes com o que cremos e amamos? A resposta é clara: de maneira nenhuma. Justamente o contrário. O autêntico cristão é o que sempre é de Cristo, sempre é coerente e não pode nem quer calar, quer ser essa luz do Senhor em todos os momentos de sua vida e em todos os âmbitos de sua existência. Entretanto Isto é só para alguns cristãos? O Senhor diz isso só para alguns? Acaso seria um mandato só para os Apóstolos? A resposta está no início do relato do sermão da montanha que começa assim: “Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-Se. Os discípulos aproximaram-se” (Mt 5, 1). Somos pois, todos os cristãos, cada um a partir de sua vocação, chamados ao apostolado, a manifestar nossa fé e vivê-la na vida pública e, sendo de Cristo, ser luz do mundo. Como nos mandou o Senhor, estamos chamados a evangelizar o mundo inteiro: “ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Por isso, nada do humano nos é alheio.

Santa Maria, Nossa Senhora da Reconciliação, é um formoso paradigma disso, em especial quando vai visitar sua prima Santa Isabel para servi-la, e sobretudo, para levar-lhe o Reconciliador: “Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-Se, à pressa, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança agitou-se no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: «Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada Aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor Lhe prometeu»” (Lc 1, 39.45). Maria é, pois, a Arca portadora da Nova Aliança, de Jesus Cristo; Ela que é toda do Senhor, é modelo de levar a luz em seu interior e proclamá-la a todo mundo, não com luz própria, mas com a luz do Senhor. E assim Ela é a Bela Lua que reflete o Sol de Justiça no meio do nosso mundo. Ela é a que leva a luz do Senhor e com suas boas obras glorifica a Deus de uma maneira belíssima. É nosso modelo de vida cristã.

PASSAGENS BÍBLICAS PARA ORAÇÃO E MEDITAÇÃO

  • Estamos chamados a ser um ponto de referência para a vida de muitos que, vendo nossas boas obras, darão glória a nosso Pai «que está nos céus»: Mt 5, 14; Mt 5,16.
  • Pelo Batismo o homem passa das trevas à luz. Daí em diante está convidado a caminhar como filho da luz: Ef 5,8; 1Tes 5,5.
  • Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Por isso, comportai-vos como filhos da luz. O fruto da luz consiste em toda a bondade, justiça e verdade: Ef 5,8-9.
  • A vida e o apostolado feitos oração: Rom 12,1; Col 3,17;
  • Dá glória ao Pai sem cessar quem permanecendo no amor do Filho se desdobra e dá fruto abundante: Jo 15,8-10.

 

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. O que significa para ti “brilhar diante dos homens”? Com que outro exemplo explicaria esta realidade: ser “sal da terra e luz do mundo”? O que significa isto que o Senhor nos convida a viver?
  2. O que você tem a dizer das várias formas de “viver bem” que o mundo oferece aos seres humanos?
  3. Por que é importante saber quem sou e o que tenho? É necessário conhecer-se bem para poder viver plenamente. Por que?
  4. Que importância tem que sejamos coerentes em nosso testemunho se soubermos que estamos chamados a ser “luz do mundo”?
  5. Como você vive sua fé em sua vida cotidiana? O Senhor nos pede que sejamos totalmente Dele, de maneira coerente e visível. Você se experimenta de Cristo?

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