Caminho para Deus 176: «Buscai o Reino de Deus e tudo o mais vos será dado por acréscimo»

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«O HOMEM VALE MAIS PELO QUE É DO QUE PELO QUE TEM»[1]

Embora todos os cristãos saibam e acreditem nesta afirmação do Concílio Vaticano II, que recolhe uma antiquíssima tradição bíblica e eclesial, pode acontecer que nós façamos as coisas procurando mais o ter que o ser. Não se trata aqui de olhar negativamente nossa realidade pessoal e o esforço que fazemos por possuir bens materiais. Tentemos, porém, ter um olhar sobrenatural diante destas realidades materiais e aprender a viver um são desapego dos bens materiais e sua comunicação generosa com aqueles que os necessitam.

NÃO JUNTEM TESOUROS NA TERRA… MAS CONSTRUAM TESOUROS NO CÉU

No sermão da montanha, relatado por Mateus em seu Evangelho, o Senhor Jesus nos mostra um belo horizonte de humanidade plena e de radical seguimento de Cristo. É um convite à coerência entre a fé e a vida cotidiana, a viver sempre como cristãos, fiéis a nossa mesmidade[2] e ao que Deus tem em seu Plano amoroso para cada um de nós.

Entre outros importantes ensinamentos, o Senhor dedica parte do discurso ao ensinamento de como tem que ser nossa atitude perante os bens materiais. A mensagem não está centrada na maldade das coisas materiais, da saúde, da roupa, do dinheiro. Não, Jesus nos quer mostrar um horizonte positivo da adequada e justa preocupação pelas realidades terrenas.

O Senhor começa a nos falar com clareza. Não devemos procurar tesouros na terra, mas no céu. Isto quer dizer que devemos renunciar aos bens, procurar a pobreza material? O versículo seguinte explica o sentido de juntar ou não juntar tesouros: “Onde está seu tesouro, aí está seu coração”.

Podemos ensaiar uma resposta entendendo nossa condição de peregrinos neste mundo. E podemos dizer em muitos sentidos. Vivemos desejando algo que não temos, sejam ideais espirituais, como ser Santos, viver a comunhão com Deus e os demais, ou conquistas pessoais, possivelmente ter um bom trabalho, formar uma família em que nossos seres queridos sejam cada vez melhores, ou manter nossa posição econômica. Também desejamos bens materiais importantes, seja nossa casa própria, mais dinheiro para adquirir algo novo ou que me falta ou a meus filhos, ou para uma viagem ou outras coisas.

A busca por ter e aumentar a quantidade dos bens materiais pode nos trazer a oportunidade de dar um bem-estar a nossos seres queridos, a nós mesmos, e também nos permite ser generosos com os demais, especialmente com os mais pobres assim como sustentar as necessidades materiais da Igreja. Os bens materiais são dons de Deus, presentes que recebemos para levar a cabo a missão que temos neste mundo.

Mas também podem surgir tentações, como por exemplo, a cobiça ou o egoísmo, que vão envenenando-nos, substituindo Deus por “falsos deuses”. A cobiça é a busca desordenada para acumular bens materiais, não os tendo como um meio para nosso sustento, ou para a ajuda dos demais, mas fazendo com que sejam o fim pelo qual vivemos e nos esforçamos. O egoísmo é pôr a mim mesmo adiante dos demais, procurando desmedidamente meu bem-estar, e fazendo com que tudo gire ao redor de mim.

Ambas as atitudes manifestam uma grande desconfiança em Deus, e nos levam a acreditar que o tesouro de nossas vidas está aqui na terra, e que se pode conseguir sem Deus, só por nós mesmos. É um horizonte triste e mesquinho de vida, a qual passamos tentando construir sobre areia, sempre caindo o edifício que acreditamos como muito sólido.

BUSQUEM O REINO DE DEUS

Trata-se, então, de compreender os bens, e às vezes a falta deles, como algo que o Senhor nos dá para poder cumprir seu amoroso desígnio, e neste sentido, é importante trabalhar cuidadosamente por obtê-los, para cuidá-los, e ser generosos ao pô-los a serviço dos demais. O que fica claro é que os bens na terra são tesouros passageiros, e que têm que estar sempre subordinados ao grande tesouro do céu, que é nosso encontro e amor a Deus, e nosso peregrinar para Ele. Ao mesmo tempo, sempre devemos recordar que todo bem vem de Deus, e devemos ser agradecidos ao Autor de todo bem.

Mais de uma vez o Senhor Jesus exortou-nos a não nos preocuparmos com as coisas materiais: «não fiqueis preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento? E o corpo não vale mais do que o vestuário?»[3]. O caminho a seguir é justamente o «procurar o Reino de Deus», quer dizer, nos esforçar por cumprir o Plano de Deus, vivendo em sua presença, permitindo que Deus se faça presente em nossa vida, e na vida dos demais. Implica em um belo e apaixonante chamado ao apostolado a tempo e fora de tempo, para instaurar o Evangelho no mundo, transformando as realidades humanas segundo o Plano de Deus. Embora também saibamos que a Igreja é o germe de tudo isso, somos conscientes de que não se realizará de maneira definitiva neste mundo.

E o resto das coisas? Temos que viver despreocupados com o dinheiro, com as coisas materiais? A instrução do Senhor nos convida a crescer na confiança em Deus e, também, em uma sã desconfiança de nós mesmos, já que Deus provê o necessário àqueles que se esforçam por buscá-lo. Claro está que temos de fazer nossa parte, já que Ele espera isso de nós.

A POBREZA EVANGÉLICA

A pobreza que é elogiada por Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mera carência de bens materiais. Mas tampouco é um mero desprendimento “espiritual” dos bens. Trata-se, acima de tudo, de uma atitude interior, de uma abertura, de uma espera que só pode ser preenchida pelo Senhor. A carência de bens faz do pobre alguém que pode pôr sua esperança em algo que vai além deste mundo, pois não há nada que o prenda.

Isso segue em consonância com outra afirmação do Sermão da Montanha: «Não podeis servir a Deus e a Mammon»[4]. Significativamente a palavra «Mammon», que se traduz como riqueza provém com toda probabilidade de uma raiz cujo sentido é ser firme e seguro. E aqui encontramos a razão pela qual acumular riquezas pode transformar-se em um grave empecilho para a vida plena, já que isso se torna fonte de confiança e falsa segurança, e faz-nos duvidar de Deus.

O SUSTENTO DAS OBRAS DA IGREJA E A SOLIDARIEDADE COM OS POBRES

«Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam as suas propriedades e os seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um»[5].

Nos Atos dos Apóstolos vemos vários testemunhos de unidade e generosidade dos primeiros cristãos, nos quais se nota a comunhão de vida, ideais e apostolado, o esforço por amar os demais, e a consciência de pertencer ao Corpo de Cristo.

Hoje em dia estamos chamados a viver com a mesma atitude dos primeiros discípulos. Estamos chamados a colaborar generosamente com o sustento da Igreja, seja com suas obras de caridade, suas comunidades de vida consagrada, seu apostolado. Também o Movimento necessita da colaboração de seus membros para poder levar adiante a missão apostólica que tem.

Junto a isso, é muito importante viver a caridade com os mais necessitados, sendo uma expressão concreta do mandamento que o Senhor Jesus nos deixou. Não se trata de uma mera filantropia, nem de dar uma cota para manter uma obra, trata-se da expressão de um coração generoso, agradecido a Deus, que encontra no mais pobre e na Igreja a sua própria família, o próprio Senhor Jesus. Essa deve ser a motivação que temos que ter para viver a generosidade com nossos bens materiais, pois como lemos nos Atos dos Apóstolos: “Há mais felicidade em dar do que em receber”[6].

PASSAGENS BÍBLICAS PARA ORAÇÃO E MEDITAÇÃO

Guia para a Oração

  • Todo bem é para compartilhar com generosidade: 1Tim 6, 18; Is 32, 8.
  • A generosidade é um uso inteligente dos bens: Prov 11, 24-25.
  • A corresponsabilidade: 2Cor 11, 23-30; Mt 5, 43; Lc 10, 30-37.
  • A solidariedade é uma exigência de nossa própria natureza: 1Cor 12, 26; 2Cor 5, 14-15; Gal 5, 13-15.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Os bens materiais são dons de Deus. Como é sua atitude perante os bens materiais? Você é consciente de que eles devem ser postos a serviço da missão que temos neste mundo?
  2. Você está pondo a serviço de outras pessoas os dons que recebeu? Onde e de que forma?
  3. Para que ser generoso? Que sentido isso tem para você? Como você aprende a ser verdadeiramente generoso?
  4. Que importância tem para você a seguinte frase de São Paulo: “Deus ama a quem dá com alegria”[7]?

[1] GS 35

[2] Mesmidade. Versão do neologismo espanhol “mismidad”. Termo que designa a realidade constitutiva mais profunda do ser humano. É o âmago da identidade ─ única e não repetível ─ de cada ser humano, realidade objetiva que não muda e subsiste para sempre. Constitui o centro do próprio ser e o núcleo de sua unidade pessoal subsistente, que permanece ao longo do devir histórico da pessoa, permitindo-lhe seguir sendo ela mesma e referir-se a sua identidade própria além das mudanças. Dela brotam os dinamismos fundamentais de permanecer e desdobrar-se, que orientam e impulsionam a própria existência à sua plenitude.

[3] Mt 6, 25

[4] Mt 6, 24

[5] At 2, 44-45

[6] At 20, 35

[7] 2Cor 9, 7

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