Caminho para Deus 206 – Verão aquele que traspassaram (Jo 19, 37)

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A Quaresma se encontra adiantada e continuamos nossa preparação para participar do Tríduo Pascal. Como em todos os anos, a Igreja celebra o acontecimento da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus, e nos convida a nos deter durante alguns minutos da nossa rotina cotidiana para participar adequadamente destes mistérios. Este ano o Papa Bento XVI nos convidou a refletir durante a Quaresma, sobre nossa condição de batizados, reflexão que se vincula também maravilhosamente com as celebrações da Semana Santa, pois como diz São Paulo, “Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele ressuscitastes” [1]. Como dizia o Papa, “desde sempre, a Igreja associa a Vigília Pascual à celebração do Batismo: neste Sacramento se realiza o grande mistério pelo qual o homem morre para o pecado, participa da vida nova em Jesus Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo espírito de Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos” [2].

O lado ferido do Senhor

Que elemento não se pode deixar de lado na Semana Santa? Certamente se celebra com grande gozo a Ressurreição do Senhor Jesus, seu triunfo sobre a morte, e nossa reconciliação. Podemos, no entanto, buscar por algo mais por trás de tudo isto? Pensemos por alguns instantes, a partir daquelas palavras de São João “olharão para aquele que traspassaram” [3]. O apóstolo João, testemunha ocular da crucifixão, nos conta que os judeus pediram a Pilatos que os corpos dos crucificados não ficassem expostos no dia de sábado, motivo pelo qual alguns soldados se aproximaram para lhes quebrarem as pernas, um procedimento comum para acelerar a morte dos condenados. “Chegando a Jesus e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados traspassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água” [4]. João, afirmando que ele mesmo viu isto ocorrer – “sabe que diz a verdade, para que também vós creiais” [5] -, nos explica que se dava assim, cumprimento à Escritura: “olharão para aquele que traspassaram”. Trata-se de uma referencia a uma profecia, contida em Zacarias, que anunciava a conversão final de Israel [6].

Foram feitas muitas e belas interpretações a respeito da lançada e da efusão de água e de sangue, assim como de seu significado. Muitos autores explicam que a lança que feriu o lado de Jesus não só produziu Nele uma ferida grande o bastante para que Tomé pudesse introduzir sua mão pela abertura [7], como também alcançava o coração do próprio Senhor Jesus. É precisamente neste fato que gostaríamos de nos deter com uma reflexão muito simples, e que leva nosso olhar àquilo que não nos deve passar despercebido durante a Semana Santa. Em nossas vidas necessitamos com freqüência de sinais que nos dirijam ao lugar onde queremos chegar. Por convenção, muitas vezes utilizamos o símbolo de uma flecha, como se vê tantas vezes em caminhos e estradas, que nos sinalizam o caminho. Por acaso a lança não é também uma flecha que nos aponta uma direção De certa maneira sim e nos aponta uma direção muito clara: o coração de Jesus.

Se pensarmos bem a respeito, nos damos conta que a lança que traspassa o lado de Jesus nos dirige ao centro do mistério daquilo que ocorreu na Paixão e Morte do Senhor Jesus. Ao nos apontar seu Coração, nos introduz de cheio no mistério do Amor de Jesus que “amou-os até o fim” [8], e nos coloca diante do Amor de Deus, que entregou seu Filho à morte e “morte sobre uma cruz” [9]. Quando meditamos na Semana Santa muitas vezes ficamos impressionados sobretudo com  a Paixão e Morte de Jesus. Certamente isto não é mau e refletir sobre os suplícios que Jesus teve que sofrer nos enche de bons pensamentos e decisões que auxiliam no nosso caminho de santidade. No entanto, não podemos deixar de perceber aquilo que está por trás de tudo: o amor de Deus por nós, seus filhos, que triunfa sobre o pecado e a morte e nos abre, com a Ressurreição, o caminho à participação plena na comunhão de Amor.

Talvez o exemplo do bom ladrão nos ilumine um pouco. Crucificado ao lado de Jesus, não pode deixar de nos surpreender como é capaz de reconhecer o Messias na figura de um homem coberto de feridas e sangue, “desprezado e abandonado pelos homens, homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento” [10], como diz o profeta Isaías. No meio da dor e da crueza do sofrimento de Jesus, não podemos perder de vista o mistério do Amor de Deus por nós, que anima e percorre  cada feito e sucesso. A lançada do soldado romano tem sentido porque nos conduz ao encontro com o Amor de Deus, e assim, deixa de ser apenas uma ferida no lado para transformar-se em manifestação de amor e um convite á verdadeira vida. Talvez tudo isto nos convide a pensar também a respeito do que nós vemos no sofrimento. Fugimos dele em nossa vida cotidiana, nos escandalizamos e o tememos, ou nos queixamos desnecessariamente? No entanto, todo sofrimento que se assume desde a perspectiva do amor recolhe um grande sentido, que finalmente nos aproxima e nos associa com o Senhor Jesus.

Luzes desde a Cruz

Portanto, com o risco de repetir uma verdade evidente, temos que tomar consciência vital do amor de Deus, e a Semana Santa é ocasião privilegiada para isto. É como falamos, evidente, mas, no entanto, tantas vezes em nossas vidas perdemos esta realidade de vista. Quantas vezes na nossa vida cotidiana nos esquecemos de Deus e de seu amor, e perdemos o centro da nossa vida. Portanto, vale a pena nos determos por alguns momentos diariamente e recordar que Deus nos ama, tomando consciência daqueles aspectos nos quais este amor se manifesta em nossa vida. Vemos seu amor, por exemplo, no dom da vida, em todo aquilo que nos é dado, no bem que temos, incluindo os males, quando Deus os permite e nos ajudam a nos purificar e a crescer em santidade. Nós o vemos, sobretudo, no dom do Batismo e no chamado à participação da vida divina.

Uma última consideração: o amor de Deus por nós é absolutamente gratuito. Não depende de nada que tenhamos feito ou dito, e por outro lado, não exige nada em troca. No entanto, se é bem verdadeiro que Deus, em sentido estrito, não necessita da nossa resposta, nós sim, é que necessitamos responder. Quer dizer, nossa felicidade, sim, necessita que correspondamos a este amor. Diante do amor de Deus, que se manifesta de tantas maneiras na nossa vida, e que se expressa de modo especial nos mistérios da Semana Santa, não podemos permanecer indiferentes. Participar das celebrações do Tríduo Pascual, refletir sobre elas, meditar e rezar acompanhando o Senhor nos diferentes momentos da sua Paixão, Morte e Ressurreição, são  ocasião para se aprofundar no grande acontecimento de nossa reconciliação, para renovados, acolher seus frutos em nossa vida com maior intensidade e coerência.

Quantas verdades iluminam nossa realidade e se manifestam hoje em dia! Da Cruz Jesus ilumina nossa existência, nos recorda a dimensão de seu amor – sem limites – e nos abre o horizonte de esperança que significa ter nos reconciliado com Deus. Se pensarmos um pouco: realmente quanto mudaria nossa vida se vivêssemos mais segundo as verdades de fé que nos são manifestadas na Cruz e na Ressurreição do Filho de Deus! Reconhecer o amor de Deus, viver segundo esta verdade, que ilumina de tantos modos a nossa vida, e responder com amor e generosidade, nos levam a uma mudança radical em nosso peregrinar diário, e a uma existência cheia de gozo e plenitude.

Ao pé da Cruz com Santa Maria

Ao refletir sobre as palavras de São João recordamos Àquela cujo coração também foi alcançado e atravessado. “E a ti uma espada traspassará tua alma” [11], disse Simeão à Santa Mariana. Uma imagem que se plasmou em tantas imagens marianas que nos mostram a mãe de Deus com o coração atravessado por uma espada. Maria acompanhou o Senhor ao pé da Cruz, e soube ver neste momento tão doloroso o mistério de Amor que se encontrava por trás do devastador sofrimento de Jesus. De seu lado, vivamos nossa condição de batizados, morrendo à morte para renascer à vida e, vivendo o grande gozo da Ressurreição, demos testemunho coerente do grande amor que nos aponta a lança que traspassou o lado de Jesus.

CITAÇÕES PARA MEDITAR

Guia para a Oração

  • Deus nos ama: Jo 13,1; Jo 15, 12-13; 1 Jo 3,1; 1Jo 4,16
  • Jesus da a vida por nós Jo 15,13; Fil 2,5-8; Rom 5,8; 8,32
  • Com Santa Maria ao pé da Cruz: Jo 19, 25-27
  • Nossa resposta ao amor de Deus: Mt 7,21; Jo 15,14; Tia 2,14-17

PREGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. Como estou vivendo a Quaresma?  Como vai minha preparação para participar da Semana Santa?
  2. Como você explicaria a outra pessoa que “Deus é Amor”?
  3. Que luzes para tua vida você encontra ao meditar sobre os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus?
  4. Que posso fazer na minha vida cotidiana para responder melhor ao amor que Deus manifesta por mim na Semana Santa?

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[1] Col 2, 12

[2] Bento XVI, Mensagem para a Quaresma 2011, 04/11/10, 1

[3] Jo 19, 37

[4] Jo 19, 33-34

[5] Jo 19, 35

[6] Ver Zac 12, 20

[7] Ver Jo 20, 27

[8] Jo 13, 1

[9] Fil 2, 8

[10] Is 53, 3

[11] Lc 2, 35

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