Caminho para Deus 211 – A Direção de São Pedro: Um caminho espiritual (II)

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Não podemos esquecer o chamado que Deus nos faz a todos nós a sermos santos [1], chamado que os Padres conciliares lembraram com clareza: «Todos os fiéis, de qualquer estado ou regime de vida, são chamados a plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade” [2]. Também o Catecismo da Igreja Católica nos lembra: “Todos são chamados a santidade: “Sejam perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5, 48)». A santidade não consiste num “perfeccionismo” que busca não falhar em nada nem equivocar-se jamais, se não na “perfeição da caridade”, em chegar a amar como Cristo nos amou [3], amar com o amor que Deus derramou nos nossos corações por seu Espírito [4]. 

Neste empenho por responder ao chamado de Deus a santidade, São Pedro –como vimos anteriormente- nos oferece em 2Pe 1, 5-7 um caminho espiritual que, partindo da fé, nos conduz, alentados pela força do Espírito, a alcançar a perfeição da caridade. 

As virtudes

O caminho ou escada espiritual que propõe São Pedro na sua carta [5] supõe um ponto de partida comum a todos: a fé, que é a mesma “fé preciosa” dos apóstolos [6]. A fé é um “dom de Deus”, uma “virtude sobrenatural infundida por Ele” [7]. E a fé implica uma adesão a Deus que revela, assim como a verdade revelada por Ele. Pela fé cremos em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo [8]. 

Quem recebeu a fé não deve ficar inativo, mas deve construir sobre este fundamento e percorrer um caminho concreto de santificação. Cooperar com o dom recebido nos permite fortalecer nossa fé, e edificar nossa existência sobre rocha firme. Com esses cimentos firmes, poderemos alcançar as alturas da santidade e nosso edifício espiritual resistirá os ataques das tempestades e tribulações da vida. 

Para nunca “cair” [9] e “perder nossa fé” São Pedro nos convida a colocar “o maior empenho” [10] para consolidá-la cada dia mais. Como? Em primeiro lugar, acrescentando à fé a virtude, em grego areté. Mediante a areté buscamos restaurar a harmonia das forças corporais, psíquicas e espirituais que Deus colocou em nós, desordenadas pelo pecado. Mediante a reorganização de nossas potências humanas buscamos alcançar um reto domínio de nós mesmos. A areté se exercita, por exemplo, mediante o domínio da fala, do corpo, da memória, imaginação e fantasia, dos pensamentos, das paixões, do olhar, etc. 

À areté o fiel deve acrescentar o conhecimento, em grego gnosis. A gnosis é um conhecimento aplicado, ordenado a viver aquilo que se conhece pela revelação divina, “muito na linha da sabedoria ou prudência cristã” [11]. Mediante esta gnosis o crente aprende a discernir o que vem de Deus e o que afasta dELE, para dirigir sua ação em obediência a verdade e segundo os critérios objetivos que Deus nos oferece. Neste exercício de discernimento aprendemos a buscar humildemente, em meio das situações de confusão, o conselho de pessoas prudentes e sábias, para seguir os caminhos do bem e afastarmos do mal que tantas vezes se apresenta à própria subjetividade como algo “bom para mim”. 

A esta gnosis São Pedro nos convida a acrescentar a temperança, no grego enkráteia. Mediante o exercício desta virtude se busca aprender a ser sóbrio nos pensamentos, sentimentos e ações. Porque se valoriza retamente a si mesmo e todo o criado, a pessoa pode fazer um uso reto e proporcionado dos bens, utilizando-os com moderação e liberdade. Entende que a felicidade não se encontra nos bens, mas que estes são meio para o cumprimento do Plano de Deus, que visa também o benefício comum e chama a responsabilidade social. Pela enkráteia o crente não se deixa escravizar pelos bens, mas se mantém senhor de si mesmo no seu uso e administração. 

Avançando no processo de consolidação da fé São Pedro convida a acrescentar à temperança a paciência, em grego hypomoné. Trata-se de uma vigorosa disposição de ânimo pela qual o crente resiste firmemente às diversas provas e tribulações que muitas vezes encontra na vida diária, sem sucumbir à dor e sofrimento que experimenta. A esperança fixada no Senhor e nas suas promessas o sustenta nas diversas tribulações. Em meio à dor o fiel crê, confia e espera em Deus. A hypomoné o mantém firme nos momentos mais difíceis e escuros da existência, o fortalece ante a covardia, o desmaio, o desalento, a pusilanimidade que a tantos levam ao abandono da fé e vida cristã. 

O seguinte passo é acrescentar à paciência a piedade, em grego eusébeia. A eusébeia é o amor de Deus que se manifesta em atos específicos. Implica momentos fortes de oração, assim como o fazer da vida cotidiana um ato de louvor a Deus, uma oração incessante no cumprimento dos mandamentos de Deus e do seu Plano. É fruto de um sustentado e contínuo exercício que, com o tempo, se faz bom hábito. Os atos de piedade quando não são só um ritual vazio, ajudam a permanecer na presença de Deus, alimentam nossa visão sobrenatural, nos abrem ao amor de Deus de modo que esse amor se manifesta aos outros por nossas palavras e obras. 

À eusébeia São Pedro alenta acrescentar o amor fraterno, em grego filadelfía. A filadelfía é o amor aos irmãos que partilham nossa mesma fé, um amor que brota do amor de Deus. É muito mais que um mero companheirismo. A filadelfía constitui comunidade, já se trate da família, ou das diversas comunidades de cristãos. Esta virtude une os discípulos de Cristo num amor puro, forte e generoso [12].  

Finalmente, o Apóstolo convida a acrescentar ao amor fraterno a caridade, em grego agape. O agape é o amor universal [13], o amor a todo ser humano, seja quem seja. Procede do amor a Deus e ama ao próximo por Deus e em Deus, por isso é muito mais que uma mera filantropia. Essencial ao agape é manifestar-se, expressar-se nas obras concretas em favor do próximo [14]. 

Deste modo, acrescentando virtude a virtude, cooperando com a graça do Senhor que nos alenta e impulsiona, avançamos até o objetivo e topo da vida cristã: a perfeição da caridade. 

Algumas recomendações práticas

Em todo momento o crente é convidado a viver todas as virtudes que propõe o Apóstolo Pedro. Quando me exercito numa virtude, não quer dizer que não deva exercitar-me nas demais. O método proposto é uma maneira de acentuar e trabalhar com especial dedicação alguma dessas virtudes que os cristãos devemos viver sempre. Focando numa virtude particular, poderemos vivê-la com mais consciência e afiançar alguns hábitos. 

Para ir avançando neste caminho espiritual o melhor é dedicar-lhe um tempo determinado a cada virtude. Nem muito, nem pouco, o suficiente para manter a necessária atenção e tensão no exercício da virtude que nos propomos aprofundar e exercitar. Por outro lado, ainda que não seja necessário, pode ser de grande utilidade se ajudar mutuamente no trabalho de uma virtude em particular. Assim, em nosso grupo de amigos, ou em família, pode resultar muito efetivo dedicar um tempo juntos a crescer em cada um dos “degraus” propostos por São Pedro, se propondo meios adequados e alentando-se uns aos outros. 

Não esperemos dominar plenamente uma virtude para acrescentar a seguinte. Ainda que não estejamos satisfeitos com o pouco que avançamos, ainda que não nos sintamos totalmente “preparados” para dar o seguinte passo, é necessário avançar para ir aprofundando e fortalecendo-nos no exercício de todas as virtudes aos poucos. E já que tenhamos percorrido toda a escada de modo insuficiente ou imperfeito, poderemos voltar ao início para começar a percorrê-la toda novamente, fazendo deste exercício um trabalho que podemos prolongar ao longo de toda nossa vida. Nos ajudará entender a escada de São Pedro com uma escada de caracol, na que podemos voltar a primeira virtude novamente para vivenciá-la então melhor, e percorrer assim todos os passos novamente, de modo que pelo exercício das virtudes subamos cada vez mais até chegar “ao estado de homem perfeito, a maturidade da plenitude de Cristo” [15]. 

CITAÇÕES PARA MEDITAR

  • Chamados a ser santos: Lv 11, 44s; 19,2; 1Ts 4,3; 1Pe 1, 15-16 
  • A fé, um dom, que devemos suplicar incessantemente: Lc 17,5; Mc 9,24;  e procurar afiançar: 2Pe 1,5
  • A virtude (areté): Fp 4,8
  • O conhecimento (gnosis): Ef 5,17; Sl 32 (31), 8-9 
  • A temperança (enkráteia): 1Cor 9,25; Gl 5, 22-23
  • A paciência (hypomoné): Rm 5, 3; Rm 8, 25; Rm 12,12; Tg 1, 2-3.12
  • A piedade (eusébeia): Tt 2,12;  2Tm 3,4-5
  • O amor fraterno (filadelfía): Hb 13,1; 1Pe 1,22; 3,8-9;  1Ts 4,9
  • A caridade (agape): Jo 13,34-35; Ef 5,1-2; Cl 3,14; 1Ts 3,12-13

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. O que é “a santidade” para ti? Você se foca mais em nunca falhar, esquecendo que se trata de amar mais, de amar como Cristo, de viver “a perfeição da caridade”?
  2. Por que a “escada de São Pedro” é um caminho concreto para alcançar a santidade?
  3. Como é a sua fé? Muitas vezes me queixo de que minha fé é pequena, frágil, mas faço algo concreto para fortalecê-la dia a dia? Sou consciente de que a “escada de São Pedro” é um dom da Providência para fortalecer minha fé, minha vocação e eleição? Como respondo a esse dom?
  4. Incorporei a “escada de São Pedro” no meu plano de combate espiritual? Como podemos nos ajudar em grupo a viver as virtudes propostas por São Pedro na sua escada espiritual? Que meios podemos colocar? 

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[1] Ver Lv 11,44s; 19, 2; 20,7-8; 1Ts 4, 3; 1Pe 1, 15-1

[2] Lumen gentium, 40

[3] Ver Jo 15, 12

[4] Ver Rm 5, 5

[5] Ver 2Pe 1, 5-7

[6] Ver 2Pe 1, 1

[7] Catecismo da Igreja Católica, 153

[8] Ver Catecismo da Igreja Católica, 178

[9] Ver 2Pe 1, 10

[10] 2Pe 1,5

[11] Kenneth Pierce, La escalera espiritual de San Pedro, Fondo Editorial, Lima 2010, p. 124

[12] Ver 1Pe 1,22-23

[13] Ver Catecismo da Igreja Católica, 1822

[14] Ver 1Jo 3,18; 2Cor 8,24

[15] Ef 4,13

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