Caminho para Deus 218 – Como posso celebrar a Páscoa?

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Durante o tempo de Quaresma fomos preparando-nos para a celebração das festas pascais.  As práticas quaresmais foram dispondo nossa mente e coração para acolher com renovado espírito o dom da Reconciliação.  Como dizia o Papa Bento em sua mensagem de Quaresma, este tempo nos convida a refletir sobre o coração da vida cristã: a caridade.[1]  A oração, o jejum, a esmola, o espírito de conversão que caracterizam os 40 dias prévios à Páscoa, renovam nossa consciência de que o Senhor Jesus é o centro de nossa vida e nos dispõem a acolher o dom de seu amor.

Prontos para celebrar os dias Santos da Páscoa cabe perguntar-se: como posso celebrar com maior proveito espiritual este tempo de graça que a Igreja nos oferece a cada ano?

Participar da Liturgia

Talvez a primeira coisa a fazer seja evidenciar que a celebração da Páscoa do Senhor não equivale à lembrança ou à memória que possamos fazer de um fato do passado, como pode ser, por exemplo, os 500 anos do descobrimento da América ou a morte de algum personagem famoso.  A Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus são certamente fatos históricos, ocorreram em um certo momento, mas são plenamente atuais.  Percorremos o caminho do Senhor Jesus, os acontecimentos que nos trouxeram a salvação, «mas não como uma simples comemoração, uma lembrança de acontecimentos passados. Nos gestos litúrgicos, Cristo torna-se presente através da obra do Espírito Santo, aqueles eventos salvíficos tornam-se atuais.»[2]

Onde se fazem atuais esses acontecimentos de nossa fé?  Na celebração litúrgica.  Em cada liturgia se atualiza o mistério de Cristo e é Ele mesmo quem «continua na sua Igreja, com ela e por ela, a obra da nossa redenção.»[3] A liturgia é, pois, lugar privilegiado de encontro com o Senhor.  «Participar na Liturgia significa imergir a própria vida no mistério de Cristo, na sua presença permanente, percorrer um caminho em que entramos na sua morte e ressurreição para receber a vida.»[4]

Esta reflexão nos deixa um primeiro ensinamento.  Devemos nos preparar adequadamente para participar das celebrações litúrgicas da Páscoa.  Primeiramente devemos dispor o coração percorrendo o caminho da reconciliação.  Isto significa acolher o convite que nos é feito nestes dias para buscar o Sacramento da Reconciliação.  Reconhecer nossa fragilidade, acolher o perdão de Deus e a força que nos dá, é fundamental para poder celebrar com fruto espiritual os mistérios centrais de nossa fé.

Por outro lado, para melhor participação, é muito recomendável nos familiarizarmos com a liturgia.  Em primeiro lugar, com a Palavra de Deus que será proclamada nesse espaço sagrado.  É Cristo mesmo quem nos fala novamenteem sua Palavra.  Isso exige a disposição adequada para escutar e acolher sua mensagem.  Não é pedir demais, pois, que se revise com antecipação as leituras que serão proclamadas, meditando-as, para assim poder acolher melhor a Palavra de Vida.  Em segundo lugar, as liturgias da Semana Santa são muito ricas em símbolos e sinais próprios destes dias Santos.  Conhecê-los, descobrir seu sentido profundo, será também de grande ajuda para uma participação ativa e proveitosa.  E, finalmente, está a participação concreta em cada celebração.  É muito importante o clima de recolhimento interior que possamos gerar nestes dias.  Isso nos disporá melhor para que ao nos congregarmos na igreja para celebrar a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor estejamos bem dispostos e a graça divina encontre em nossa mente e coração terra fértil onde dar fruto.

«Não está aqui, ressuscitou!»

A celebração do mistério pascal tem um duplo aspecto.  A Morte do Senhor Jesus na Cruz que nos libera das cadeias do pecado; e sua Ressurreição gloriosa que nos abre o acesso a uma vida nova como filhos de Deus.[5] O cume, pois, das celebrações da Semana Santa é a Ressurreição do Senhor Jesus.  «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé»[6] chega a dizer o Apóstolo Paulo.  A Ressurreição «é a verdade culminante da nossa fé em Cristo»[7] e é «a confirmação de tudo quanto Cristo em pessoa fez e ensinou.»[8].

Celebrar a festa da Páscoa, “festa das festas” e “solenidade das solenidades”, é talvez a ocasião do ano privilegiada para renovar nossa féem Cristo Ressuscitado, acolher em nossa vida de fé o que isso significa e nos dispormos a melhor colaborar com o Espírito para que a força do Ressuscitado nos transforme e nos converta cada dia mais.

Para entender melhor o que significa a ressurreição do Senhor Jesus talvez seja necessário repassar os conteúdos do que nossa fé ensina.  Os nn. 631 a655 do Catecismo da Igreja Católica são uma excelente escola para isso.  Também serão de grande benefício as catequeses do Beato João Paulo II sobre este artigo de nossa fé[9], assim como as formosas homilias que pronunciaram João Paulo II e Bento XVI na celebração da Vigília Pascal ao longo de seus anos de pontificado.

«Estejam sempre alegres no Senhor»

O tempo pascal que se inicia com a Vigília Pascal é ocasião privilegiada para viver e anunciar a alegria do Ressuscitado.  Experimentamos com especial intensidade neste tempo o júbilo transbordante que embargou o coração de nossa Mãe Maria, o dos apóstolos e discípulos de Jesus, ao escutar a boa notícia: ressuscitou!

Esta experiência de fé deve alentar nosso combate espiritual, convidando-nos a pôr sempre os olhos naquele que venceu o pecado e a morte, fortalecendo nossa confiança em suas promessas.  Do mesmo modo, a fé nos move ao anúncio contente, ao testemunho em primeira pessoa de que o Senhor nos deu uma vida nova.  Quantas pessoas que frequentamos ou nos são próximas talvez não conheçam o ressuscitado?  Quantos viram intumescer sua fé e vivem como se não a tivessem?  A Páscoa é tempo de anúncio, de compromisso apostólico.  Cada um, a partir de sua situação e possibilidades, está chamado a dar testemunho de nossa fé no Senhor Jesus, morto e ressuscitado para nossa reconciliação.

Contagiemo-nos, pois, da experiência de fé que invade a liturgia da Semana Santa: “Cristo nossa Páscoa, imolou-se na cruz por nossos pecados e ressuscitou glorioso: façamos festa no Senhor!”.  Acolhamos os frutos da reconciliação e demos testemunho com toda nossa vida de que o Senhor Jesus é verdadeiramente a ressurreição e a vida.[10]

Celebrar a Páscoa em família

O grande acontecimento da Ressurreição do Senhor que a liturgia nos permite reviver, levar-nos-á naturalmente a continuar celebrando-o em casa e a transmiti-lo a muitas pessoas.  A alegria não pode ser escondida, não deve ficar afogada quando termina a Missa da Ressurreição, justamente o contrário, saímos cheios de entusiasmo para compartilhá-la com todos aqueles que vamos topando pelo caminho.

Essa alegria interior que experimentamos por saber que o Senhor está vivo entre nós e que o estará todos os dias até o fim do mundo, deve refletir-se também exteriormente. Por isso é tão importante que a expressemos com muita naturalidade em tudo que façamos durante os cinquenta dias de Páscoa.  Por exemplo, podemos compartilhar um bom jantar em família depois da Vigília Pascal, ou um almoço especial no domingo da Ressurreição; em muitos lugares se compartilham ovos de páscoa com os amigos; podemos ter uma imagem do Senhor ressuscitado e adornar a casa com flores que expressem alegria; também deveríamos nos esforçar por manter viva a alegria nesses dias, sorrir mais, procurar os amigos dos quais tenhamos nos descuidado um pouco, passear, enfim, fazer desses dias os dias mais especiais de todo o ano.

Citações para a oração

  • A Paixão e Morte do Senhor Jesus: Is 52,13-15; 53,1-12; Mt 26-27; Mc 14-15; Lc 22-23; Jo 13-19; 1Cor 11,17-34; 1Pe 2,20-25; Flp 2,5-10.
  • A Ressurreição de Jesus: Mt 28,1ss; Mc 16,1ss; Lc 24,1ss; Jo 20,1ss; 1Cor 15,1ss.
  • A fé dos Apóstolos em Cristo morto e ressuscitado: At 2,14-41; 3,11-26; 4,8-12.

Perguntas para o diálogo

1.  Como posso me preparar adequadamente para as celebrações litúrgicas da Semana Santa?  Planejei com antecipação a que celebrações vou assistir?

2.  Como posso preparar o ambiente em meu lar para que toda a minha família participe e viva melhor estes Santos mistérios?

3.  Como posso gerar um clima adequado de recolhimento e silêncio nos dias da Semana Santa?

4. A celebração da Páscoa do Senhor, a que me compromete em minha vida cristã e meu apostolado? Como posso anunciar nos tempos atuais que Cristo ressuscitou?

Trabalho de interiorização

1.         Lê o seguinte texto do Papa Bento XVI:

«Há uma palavra-chave que é citada com frequência na Liturgia para indicar isto: a palavra «hoje»; e ela deve ser entendida em sentido originário e concreto, não metafórico. Hoje Deus revela a sua lei e hoje é-nos dado escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte (cf. Dt 30, 19); hoje «o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15); hoje Cristo morreu no Calvário e ressuscitou dos mortos; subiu ao céu e está sentado à direita do Pai; hoje é-nos conferido o Espírito Santo; hoje é um tempo favorável. Então, participar na Liturgia significa imergir a própria vida no mistério de Cristo, na sua presença permanente, percorrer um caminho em que entramos na sua morte e ressurreição para receber a vida.» (S.S. Bento XVI, Audiência geral, 9/3/11).

  • Como é minha participação na liturgia?  Sou consciente do que ali ocorre?  O que significa para mim que “hoje é tempo favorável”?

2.         Medita o texto de 1Cor 15,3-11.

  • Sou consciente que também eu, como batizado, recebi a tradição viva da Ressurreição?
  • O Apóstolo transmite o que por sua vez recebeu: que Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia.  O que posso fazer para interiorizar cada vez mais este núcleo da nossa fé?  Como eu também posso transmitir esta Boa Nova aos outros?

3.         «Toda a vida do cristão deve ser Páscoa!  Levem-na a suas famílias, ao seu trabalho, aos seus interesses, levem-na ao mundo da escola, profissional e do tempo livre, assim como ao sofrimento. Levem a serenidade e a paz, a alegria e a confiança que nascem da certeza da ressurreição de Cristo!  Que Maria Santíssima vos acompanhe e vos conforte neste vosso “testemunho pascal”!» (S.S.  João Paulo II, Audiência geral, 29/3/1989, 4).

  • Faze uma lista de resoluções que te ajudem nesta Páscoa a ser melhor “testemunho pascal”, segundo tuas circunstâncias e possibilidades.

[1] Ver S.S. Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2012.

[2] S.S.  Bento XVI, Audiência geral, 9/3/11.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 1069.

[4] S.S.  Bento XVI, Audiência geral, 9/3/11

[5] Ver Catecismo da Igreja Católica, n. 654.

[6] 1Cor 15,14.

[7] Catecismo da Igreja Católica, n. 638.

[8] Ali mesmo, n. 651.

[9] Catequeses pronunciadas entre 25 de janeiro e 15 de março de 1989.  Estão disponíveis em espanhol na página do Vaticano (www.vatican.va), e foram publicadas por Vida y Espiritulidad (S.S.  João Paulo II, O Credo.  Tomo II, VE, Lima 1998, pp.  500ss).

[10]  Ver Jo 11,25.

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