Caminho para Deus 222 – Por que devo confessar?

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Pedir perdão e perdoar é algo tão necessário em nossa vida cotidiana, mas por que?  Porque é a única maneira de recompor as rupturas e sanar as feridas produzidas pelas ofensas, agressões e outras situações similares contra o Senhor.  Somente o mútuo e sincero perdão pode restaurar e oferecer um novo início a uma relação que se danificou ou rompeu.

Isto que acontece tantas vezes em nossas relações humanas acontece também em nossa relação com Deus: ao pecar rechaçamos sua amizade, o amor que nos oferece e a verdade que conduz a nossa própria felicidade.  Nossos atos de rebeldia a Deus, nossa soberba e estupidez de querer definir por nós mesmos o que é bom ou mau contra os ensinamentos divinos (ver Gen 3,5), rompem nossa amizade e comunhão com Ele.

Por outro lado, «Quem peca faz mal a si mesmo» (Eclo 19,4).  A rebeldia contra Deus é para a criatura humana «um ato suicida», ao nos separar da derradeira fonte de nossa vida.  O pecado, que rompe nosso vínculo com Deus e nos quebra interiormente, quebra deste modo nossa comunhão com outros e com a natureza toda.

Mas Deus, pelo imenso amor que nos tem, quis nos dar uma nova oportunidade: «Nisto se manifestou o amor que Deus nos tem; em que Deusenviou ao mundo seu Filho único para que vivamos por meio Dele» (1Jo 4,9).  Por Ele Deus quis restaurar e recompor as rupturas geradas por nosso pecado: «em Cristo estava Deus reconciliando ao mundo consigo» (2Cor 5,19).  O perdão de nossos pecados é possível graças à reconciliação operada pelo Filho de Deus na Cruz, e graças ao poder que Ele transmitiu a sua Igreja: «A quem perdoarem os pecados, ficarão perdoados» (Jo 20,23).  Deus nos convida a acolher o dom da reconciliação.  A única coisa que devemos fazer é pedir-lhe perdão, da maneira prevista por Ele na Igreja.

Por que perante um sacerdote?

Muitos católicos deixam de buscar o sacramento da Reconciliação esgrimindo um argumento absurdo: “por que tenho que me confessar a um homem se é tão ou mais pecador do que eu?” E depois de rechaçar toda mediação humana, dizem: “eu me confesso diretamente com Deus”.

Na verdade, o único que pode perdoar os pecados é Deus[1].  O Senhor Jesus perdoava os pecadores — manifestando assim sua natureza divina[2] —, mas eis aqui a razão pela qual um homem “tão pecador como eu” tem o poder de perdoar nossos pecados: «Recebam o Espírito Santo. A quem perdoarem os pecados, ficarão perdoados; a quem os retiver, ficarão retidos» (Jo 20,22-23).  O Senhor Jesus transmitiu o poder de perdoar nossos pecados em seu nome aos que Ele escolheu e enviou.  Essa foi a vontade expressa do Senhor; se outra tivesse sido sua vontade, possivelmente teria dito: “quem quiser receber o perdão dos pecados, confesse-se diretamente com Deus”, mas  não disse isso.  Cristo quis que recebêssemos o perdão de nossos pecados por mediação da Igreja e de seus ministros.

Em resumo, «a Igreja nada pode perdoar sem Cristo, e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja» (Beato Isaac).  Na escola da fé aprendemos que «para um cristão, o sacramento da penitência é o caminho ordinário para obter o perdão e a remissão de seus pecados graves cometidos depois do Batismo.  (…) Seria, pois, insensato, além de presunçoso, querer prescindir arbitrariamente dos instrumentos de graça e de salvação que o Senhor dispôs e, neste caso específico, pretender receber o perdão prescindindo do sacramento instituído por Cristo precisamente para o perdão»[3].

Sábio invento do Senhor

Sábio é o Senhor quando deixaem sua Igrejaeste sacramento do perdão dos pecados.  Sabe que todo filho pródigo precisa escutar que alguém, em nome de Deus, lhe diga “eu te perdoo” para experimentar-se realmente perdoado por Deus.  Quem já cometeu um pecado grave sabe que por mais que peça perdão a Deus “diretamente”, nunca consegue experimentar-se perdoado.  Tampouco são capazes de perdoar-se a si mesmos.  O modo instituído pelo Senhor para o perdão dos pecados oferece ao pecador arrependido a certeza de ter sido perdoado por Deus.  É por isso que quem, vencendo sua vergonha e temor, busca humildemente o ministro do Senhor implorando o perdão de Deus experimenta como se “lhe tirassem de cima um peso imenso”, pode “respirar novamente”, a paz volta para seu coração.  Só então ele ou ela mesma estarão também em condições de perdoar-se a si mesmos e perdoar aos outros.

No sacramento da Reconciliação o Senhor, por meio de seu ministro, liberta-nos do pecado e restaura nossa comunhão com Ele e com toda a Igreja; trata e cura nossas feridas mais profundas, traz-nos a paz, abre-nos o caminho para nos perdoar a nós mesmos e nos dá a real possibilidade de começar de novo.  Mediante a confissão de nossos pecados Deus dá de presente uma página em branco para podermos escrever uma história nova.  Já não temos que continuar pensando: “se já fiz, que problema há em voltar fazer”.  Não!  Se nos equivocamos, não temos que viver atados aos enganos que cometemos no passado.  Em Cristo podemos voltar a começar de novo, podemos nos libertar dos pecados passados para viver intensamente o presente olhando o futuro com esperança.  Que “sábio invento” é este que Cristo deixouem sua Igrejano sacramento da Reconciliação!

Para que confessar-me se cometo sempre os mesmos pecados?

Acaso depois de nos sujarmos pensamos: “melhor não me banhar, porque vou voltar a me sujar”?  Nos banhamos uma e outra vez, porque o banho frequente nos ajuda a nos mantermos limpos.  Da mesma maneira, embora no meio das lutas se volte a cair do mesmo jeito uma e outra vez, a confissão frequente é boa e necessária: purifica-nos, renova-nos, ajuda-nos a retomar os bons propósitos, fortalece-nos com a graça de Deus para que possamos retomar o caminho da santidade.

Por outro lado, é experiência comum que um vício ou mau hábito não pode ser desarraigado da noite para o dia.  As recaídas — embora não as queiramos — são, muitas vezes, parte de um processo de recuperação.  Por isso, não devemos nos desalentar jamais se apesar de nossos esforços não podemos superar um vício “de uma vez para sempre”.  Se voltar a cair “outra vez”, não deixe que a tristeza ou o desalento se apoderem de seu espírito.  Ponha-se de pé imediatamente, busca arrependido o Sacramento da Reconciliação e volta para a batalha.  Recorda sempre que: “Santo não é quem nunca cai, mas quem sempre se levanta!” A chave está na perseverança, nesse “voltar a ficar de pé sempre”, com humildade, com a confiança posta em Deus mais que em nossas próprias forças.

E se meu pecado é “imperdoável”? 

Não há nenhum pecado, por mais grave que seja, que a Igreja em nome de Cristo não possa perdoar quando há um sincero arrependimento por parte do penitente[4].  O Senhor perdoou a Pedro sua traição, e estava disposto a perdoar a Judas a dele.  Perdoou inclusive a quem o estava crucificando![5] Pois Deus não quer a morte ou castigo do pecador, mas sim que mude de conduta e viva.  Na Igreja, em um simples confessionário, as portas estão sempre abertas a qualquer filho pródigo que depois de ter cansado na mais profunda miséria, entrando em si mesmo, tem a valentia e a humildade de dizer a si mesmo: «levantar-me-ei, irei a meu pai e lhe direi: “Pai, pequei contra o céu e contra ti”» (Lc. 15,18).  E assim, ao se por em marcha, descobrirá como o Pai misericordioso sai correndo ao seu encontro para abraçá-lo, para revesti-lo novamente de sua dignidade de filho, e para celebrar com grande alegria a volta deste filho que «estava morto, e voltou para a vida; estava perdido, e foi achado» (Lc. 15,32).

A Confissão frequente

O sacramento da Reconciliação tem como objeto próprio o perdão dos pecados graves.  Como tal é um sacramento “de mortos”: o perdão de Deus nos devolve a vida divina quando a perdemos pelo pecado.  Estritamente falando, só seria necessário confessar quando a gente tivesse pecado gravemente.  Entretanto embora só tenhamos cometido pecados “veniais” —aqueles que não rompem nossa comunhão com Deus e podem ser perdoados de outros modos—, também podemos buscar o sacramento da Reconciliação.

Mas que benefício nos traz a confissão frequente?  A confissão é para nós uma experiência de encontro com o Senhor Jesus e com seu imenso amor por nós, um amor que sempre é maior que nossos pecados.  O encontro contínuo com este amor, mediante este sacramento, transforma-nos e nos conforma cada vez mais com Ele.

O Exame de consciência diário e o que fazemos antes de nos confessar nos ajudarão a nos conhecermos melhor.  Este conhecimento de nós mesmos é muito importante para podermos avançar no combate espiritual.  Como o Senhor Jesus é nosso Modelo de plena humanidade, convém que na hora de nos examinarmos nos coloquemos diante dEle e nos perguntemos: o que me sobra?, quer dizer, do que devo me despojar (vícios, pecados) para me assemelhar mais a Cristo?  O que me falta?, de que virtudes devo me revestir para que me assemelhe cada dia mais a Cristo, para que possa amar cada vez mais como Ele nos amou?

Junto com este paulatino crescimento no conhecimento pessoal devemos também formar e educar continuamente nossa consciência.  Como ensina o Catecismo, «uma educação prudente [da consciência] ensina a virtude; preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos insanos sentimentos de culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas.  A educação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração»[6].

Recordemos, finalmente, que toda confissão deve procurar ser um momento forte em nossa vida espiritual, um momento intenso de encontro com Deus que nos ajuda a dar continuidade à nossa conversão assim como uma fonte de graça que nos dá forças não só para evitar cair nos mesmos pecados, como também e sobre tudo para crescer no amor de Cristo.

Citações para a oração

  • Somos pecadores: 1Jo 1,6-8;
  • Deus perdoa a quem se voltapara Ele arrependido: Eclo 17,29; Lc 15,20; Sal 32(31);
    • Cristo tem poder de perdoar os pecados: Mt 9,2-6; Lc 7,47;
    • O perdão nos vem pelo sacrifício reconciliador de Cristo: Mt 26,28; Rom 5,10; 1Jo 2,1;
    • Cristo transmite o poder de perdoar os pecados a Sua Igreja: Jo 20,23; Tg 5,14-15;
    • Cristo não veio para condenar, mas para salvar os pecadores: Lc 19,10; 1Tim 1,15; Jo 12,47;
    • Ele perdoa pecados “imperdoáveis”: Jo 8,11; Lc 7,47; Lc 23,34;
    • Pecaste?  Pede perdão e procura não voltar a pecar: Eclo 21,1; Jo 8,11;
    • O perdão de Deus nos permite um novo início: 2Cor 5,17;

Perguntas para o diálogo

  1. Que lugar tem a confissão dentro de minha vida espiritual?  Recorro imediatamente à confissão sacramental quando peco gravemente?
  2. Antes de fazer minha confissão, preparo-me devidamente?  Recordo quais são os “atos do penitente”?  (CIC 1450ss)
  3. Conheço a distinção entre pecado grave e pecado venial?  (CIC 1854-56) Quando um pecado é grave?  (CIC 1857-60) Quando é venial?  (CIC 1862) Existe uma relação entre ambos?  (CIC 1863)
  4. É necessário confessar-me cada vez que peco, ou só quando peco gravemente?  Tenho que me confessar sempre que vou comungar, ou só quando tenho um pecado grave?  (CIC 1457-58)
  5. E se involuntariamente me esqueci de confessar algum pecado?  (CIC 1456)
  6. Quais são os obstáculos mais frequentes que encontro para me confessar?  Vergonha?  Medo?  Inconsciência?  Indolência?  Dureza de coração?  Não é fácil encontrar um sacerdote?  Como posso resolver estes ou outros obstáculos quando sei que devo me confessar?

Trabalho de interiorização

1.   «Como escreve o apóstolo São João: “Se dissermos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos e a verdade não está conosco.  Se reconhecermos nossos pecados, Ele que é fiel e justo nos perdoará os pecados”.  (…) Reconhecer o próprio pecado, e mais, reconhecer-se pecador, capaz do pecado e inclinado ao pecado, é o princípio indispensável para voltar para Deus.  (…) Na realidade, reconciliar-se com Deus pressupõe e inclui abandonar com lucidez e determinação o pecado em que caí.  Pressupõe e inclui, por conseguinte, fazer penitência no sentido mais completo do termo: arrepender-se, mostrar arrependimento, tomar a atitude concreta de arrependido, que é a de quem fica no caminho do retorno ao Pai»[7].

À luz deste texto:

  • Qual é a condição básica para poder voltar para Deus?
  • Há algum pecado do qual ainda não te tenhas desprendido com lucidez e decisão?
  • O que significa “fazer penitência”?

2.   O que é o pecado?  Quais são suas consequências?  por que o Beato Papa João Paulo II qualificou o pecado como um “ato suicida”?  (Recomendamos-lhe ler (ou reler) a Carta Apostólica Reconciliatio et paenitentia, do Papa João Paulo II)

3.   «Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus, vindo como o Cordeiro que tira e carrega sobre si o pecado do mundo, aparece como aquele que tem o poder tanto de julgar como o de perdoar os pecados, e que veio não para condenar, mas para perdoar e salvar.  Pois bem, este poder de perdoar os pecados Jesus o confere, mediante o Espírito Santo, a simples homens, sujeitos eles mesmos à insídia do pecado, quer dizer a seus Apóstolos: “Recebam o Espírito Santo; a quem perdoarem os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem os retiverem, ser-lhes-ão retidos”.  Esta é uma das novidades evangélicas mais notáveis.  Jesus conferiu tal poder aos Apóstolos inclusive como transmissível — assim o entendeu a Igreja desde seus começos — a seus sucessores, investidos pelos mesmos Apóstolos da missão e responsabilidade de continuar sua obra de anunciadores do Evangelho e de ministros da obra redentora de Cristo»[8].

Segundo este texto do Beato Papa João Paulo II:

  • Como o texto ajuda a fundamentar a necessidade do Sacramento da Reconciliação?
  • Segundo o texto, o que você diria às pessoas que dizem que preferem confessar-se “diretamente” com Deus?

 


[1] Ver Mc 2, 7

[2] Ver Mt 9,6

[3] Reconciliatio et paenitentia, 31.

[4] Ver Catecismo da Igreja Católica, 1864.

[5] Ver Lc 23,34.

[6] Catecismo da Igreja Católica, 1784.

[7] S.S. João Paulo II, Reconciliatio et paenitentia, 13.

[8] S.S. João Paulo II, Reconciliatio et paenitentia, 29.

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