Caminho para Deus 228 – Como Deus se revela?

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Neste Ano da Fé, a Igreja nos convida a fortalecer nosso assentimento da fé.  O que significa isto?  Significa professar: sim, creio em Deus e acredito em Deus; acredito nele e creio naquilo que Ele nos manifestou.  Por isso, fortalecer nossa fé significa também aprofundar no conteúdo do que cremos, quer dizer, nas verdades de nossa fé.

Muitas vezes podemos nos encontrar com pessoas — talvez nós mesmos — que se perguntam: Como posso conhecer a Deus?  Como e onde encontro o que Ele nos comunicou?

Talvez primeiramente devamos compreender que foi Deus quem se nos deu a conhecer.  Ele, desde que nos criou, optou por manifestar-se ao ser humano, por comunicar-se conosco, por revelar-se.  O desejo de infinito que a pessoa humana experimenta como algo próprio e muito profundo encontra sua resposta definitiva na comunicação que Deus faz de si mesmo.

Mas, como Deus se deu a conhecer?  De que modo Ele se aproximou de nós?  A revelação divina se deu ao longo da história da humanidade, em diversas etapas e de diversos modos.

Antes e depois de Cristo

Sabemos que no centro da história está a vinda do Filho de Deus ao mundo.  Para os cristãos, a história se divide em dois momentos: antes de Cristo e depois de Cristo.  Neste sentido, a Encarnação do Verbo marcou o fim de uma era e o começo de outra.

Antes de Cristo, encontramos uma progressiva aproximação de Deus ao homem, que o Catecismo chama “etapas” da Revelação[1].

Uma primeira etapa da Revelação é a própria criação do mundo e do ser humano.  Desde o primeiro momento, o homem tem uma relação com Deus.  Ele foi quem “insuflou em seus narizes um alento de vida, e o homem veio a ser um ser vivente”[2].  No princípio, o homem foi capaz de ver em todas as coisas criadas sinais que lhe falavam do Criador.  Chamamos a esse momento “revelação primitiva”.

Esta situação inicial de comunhão e encontro entre Deus e o homem se viu quebrada pelo pecado original.  O homem dá as costas a Deus e se afasta progressivamente Dele[3].  Entretanto, Deus não responde com a mesma moeda, e no mesmo momento da queda original anuncia ao homem que não o deixará na escravidão do pecado, mas lhe dará a salvação[4].  Inicia-se assim um caminho no qual Deus se aproxima do ser humano e o vai preparando progressivamente para sua manifestação definitiva.

Ao contemplar esse processo de séculos e séculos, vemos que tudo o que Deus faz tem como motivo o amor.  O cenário do amor é a liberdade: Deus sai ao encontro do ser humano por amor, não porque esteja obrigado a fazê-lo; e o ser humano, por sua parte, tampouco está obrigado, mas é convidado a acolher esse amor divino.

A fidelidade de Deus à sua promessa manifesta-se claramente na escolha de alguns personagens históricos: Noé, Abraão, Moisés e os profetas.  Eles marcaram novas etapas dessa progressiva aproximação de Deus.  No antes de Cristo, vemos como Deus foi preparando a re-ligação (daí a origem do termo “religião”) dos homens com seu Criador, quer dizer a Salvação.  Neste caminho, uma palavra expressa o modo como Deus se comprometeu com o homem e o homem com Deus: a Aliança.

A Antiga e a Nova Aliança

Na Antiga Aliança vemos que muitos homens e mulheres responderam aos fatos e palavras de Deus[5].  Ele tornou-se presente na história da humanidade com a escolha de um povo, o povo de Israel.  Através de pessoas, instituições, escritos e sinais, o Senhor uma e outra vez mostra a fidelidade a suas promessas de salvação.

A história do Povo de Deus nos mostra uma das principais características da Revelação: a pedagogia divina e sua adequação ao homem.  Quer dizer, Deus falou com os homens de uma maneira que pudesse ser compreendido, em linguagem humana, considerando as limitações próprias das pessoas, de sua cultura e de seu tempo.

Esta progressiva revelação de Deus na história chegou à sua etapa definitiva em Jesus Cristo: por meio Dele, Deus nos comunicou tudo de si mesmo, e nos deu a conhecer também quem somos, como pessoas, e o mistério do mundo.  Em Cristo, Deus disse tudo porque Ele é a própria Palavra; por Cristo, Deus fez tudo, selou uma “nova e eterna Aliança” com os homens no sacrifício da Cruz; com Cristo Deus continua atuando na humanidade, posto que por seu Espírito Santo participamos de sua mesma Vida, de sua vitória sobre o pecado e a morte.  De modo que podemos dizer que o Senhor Jesus é o mediador entre Deus e os homens, e que Ele é a plenitude da Revelação, da comunicação que Deus fez de si mesmo ao ser humano.

Tradição viva e Sagrada Escritura

Mas, como chegamos a conhecer Jesus Cristo, já que Ele viveu há tantos séculos?  Como conhecer alguém que, aparentemente, está tão distante de nós no tempo?  Para responder a essa pergunta ponhamos um exemplo: imaginemos uma investigação familiar a respeito de nossos tataravós.  Sabemos que eles necessariamente existiram pois do contrário, nós não existiríamos!  E embora não os conheçamos pessoalmente, podemos chegar a conhecer algo dessas pessoas por meio de uma tradição familiar.  Através dos testemunhos, diretos e indiretos de sua existência, podemos descobrir seus nomes, saber em que trabalharam, quantos filhos tiveram, conhecer as datas de seus nascimentos, matrimônio, falecimento, etc.  Possivelmente possamos ir ao lugar onde viveram, ter algo da herança que eles deixaram e os valores familiares que transmitiram.  E podemos dizer algo mais: se algum deles deixou uma obra de caráter pessoal (um livro de poemas, contos, autobiografia, composições musicais, etc.) que expresse um pouco de seu interior, podemos inclusive conhecer seus pensamentos e sentimentos, seus afetos e emoções, de modo que esses escritos são um testemunho valioso de sua pessoa, e nos servem também para conhecê-los melhor.

O exemplo da investigação familiar a respeito dos tataravós pode nos ajudar a entender um pouco a forma como conhecemos a Revelação de Deus.  As etapas da Revelação divina, e sobretudo sua expressão definitiva em Jesus Cristo, chegaram a nós através da Tradição da Igreja e da Sagrada Escritura.  A Sagrada Tradição é a transmissão viva da Revelação; a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus que foi posta por escrito.

Ao ler os Evangelhos e outros livros do Novo Testamento, remetemo-nos ao testemunho de nossos “tataravós” na fé: os primeiros cristãos, os Apóstolos que compartilharam o dia a dia ao lado de Cristo.  Por isso, é fundamental ler a Bíblia no mesmo Espírito com que foi escrita[6], e interpretá-la em comunhão com essa Tradição viva na qual foram gerados seus escritos.  Dito de outra forma: temos que ler a Sagrada Escritura em comunhão com a Igreja, que peregrina ao longo dos séculos e que, por meio de seu Magistério, custodia e transmite fielmente o conjunto de verdades de fé que estamos convidados a crer.

O exemplo que assinalamos tem uma limitação, como todo exemplo. É que a vida de nossos tataravós talvez já não nos interesse tanto, passadas já várias décadas, ou não tem muito que ver com nossa vida aqui e agora.  Mas isso não ocorre em relação ao Filho de Deus feito homem: Jesus Cristo.  Embora Ele tenha-se feito homem há aproximadamente 2000 anos, sua existência e sua ação não são somente acontecimentos do passado, mas têm plena atualidade em nossas vidas, são eficazes em nosso presente e nos fazem olhar o futuro, no qual Ele brilhará em toda sua glória.

A fé, que recebemos e vivemos na Igreja, é o caminho pelo qual acolhemos e vamos conhecendo o que Deus nos deu a conhecer.  Jesus confiou à sua Igreja a transmissão e a custódia da Revelação.  Acolher o dom de Deus, que se nos manifestou no Senhor Jesus, implica de nossa parte pôr todo o esforço para ir conhecendo mais e mais a Cristo, escutar sua Palavra, aprofundar nas verdades de nossa fé.  Conhecer e escutar a Jesus leva, de mãos dadas com nossa Mãe Maria, a deixar que o Espírito promova em nós uma verdadeira conformação com Ele, sendo assim filhos do Pai Eterno.

Como Deus se revela?  Em resumo, revela-se em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.  O Espírito Santo nos garante que essa revelação seja escutada com piedade, custodiada com exatidão, e exposta com fidelidade pela Igreja ao longo dos séculos[7].  Em comunhão com a Igreja, estamos chamados a escutar a voz do Senhor, acolher sua mensagem de reconciliação e seguir seus passos em nossa vida cristã.

Citações para a oração:

Deus faz Aliança com Noé e os patriarcas: Gen 9,8-17; Gen 17,1-14; Gen 26,1-5; Eclo 44,17-23; Heb 11,7-22.

Deus faz Aliança com Moisés e o povo de Israel: Ex 24,1ss; Eclo 45,1ss.; Heb 11,23-29.

Deus promete a vinda do Messias: Gen 3,15; Ez 36,24-27; Is 7,14; 11,1ss.; Miq 5,2-5a; Heb 11,39-40.

Deus envia seu Filho: Heb 1,1-3; Jo 1,14; Gál 4,4-7.

A tradição apostólica: 1Cor 11,2.  23-24; 1Cor 15,3-4; 2Tes 2,15.

Perguntas para o diálogo:

1.   Conheço a História da Salvação?  Tenho lido-a segundo as chaves que nos dá o Catecismo?

2.   Acolho Cristo como a Palavra de Deus viva?  Ele está presente em minha vida?

3.   Quanto conheço da Sagrada Escritura e rezo com ela?

4.   Quão forte é minha adesão de fé aos ensinamentos do Magistério da Igreja?

Trabalho de interiorização:

1.   “A história da salvação é a história de Deus com a humanidade e a história desta relação de Deus, que se revela progressivamente ao homem, que se faz conhecer a  si mesmo, seu rosto.” (S.S. Bento XVI, Audiência geral, 16/01/2013).

Você conhece a história da salvação e seus principais eventos?  Conhece os principais personagens bíblicos?  Com o auxílio do Catecismo (nn. 54-67), enumere as principais etapas da Revelação divina na história e as pessoas que participaram dela.

2.   Leia este parágrafo da catequese do Papa Bento XVI (Audiência geral, 16/01/2013):

«Em Jesus de Nazaré, Deus visita realmente seu povo, visita a humanidade de uma maneira que vai além de todas as expectativas: envia seu Filho Unigênito, Deus mesmo se faz homem.  Jesus não nos diz algo a respeito de Deus, não fala simplesmente do Pai — mas é Revelação de Deus, porque é Deus — nos revela o rosto de Deus.  No prólogo de seu Evangelho, João escreve: “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1,18).» (…).

Agora pergunte-se: Sou consciente de que o cristianismo não se fundamenta em um “livro”, mas em uma Pessoa: em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem?  Procuro o “rosto de Deus”, quer dizer: procuro conhecer quem foi Jesus de Nazaré, o que fez e ensinou aos homens?

3.   Leia e medite em At 2,42.

Agora pergunte-se: Sou consciente de que a fé da Igreja se fundamenta sobre o testemunho vivo dos Apóstolos e dos primeiros cristãos?  Quão profundamente acolho os ensinamentos dos Apóstolos, por meio da Tradição da Igreja, da Sagrada Escritura e do Magistério?  Vivo a comunhão, como a viviam os primeiros cristãos na “fração do pão” (a Eucaristia)?  Persevero na oração para que meu coração se abra à Revelação divina?


[1] Ver Catecismo da Igreja católica nºs 54-67

[2] Gen 2, 7

[3] Os capítulos 3 a 11 do livro do Gênesis nos relatam, em sua linguagem própria, essa verdade antropológica: o pecado é uma ruptura da relação do homem com seu Criador.  Tais relatos mostram-nos como, através dos tempos, essa ruptura afeta o ambiente humano e suas relações.

[4] Gen 3, 15

[5] Ver Heb 11, 1 ss.

[6] Ver Dei Verbum nº 12

[7] Ver Dei Verbum nº 10

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