Caminho para Deus 241: A presença de Deus

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Já refletimos sobre o conhecimento como parte da escada espiritual que São Pedro nos propõe para alcançar a perfeição da caridade[1].  Para poder interiorizar essa “ciência dos Santos” que nos ajuda a viver iluminados em todo momento pela fé, procurando compreender a partir dela as situações concretas de nossa vida, contamos com uma série de meios espirituais.  Nos números seguintes de Caminho para Deus iremos apresentando alguns destes meios que podem nos ajudar em nosso empenho para responder com generosidade ao chamado que Deus nos faz para ser Santos.  Começamos neste número com o exercício da presença de Deus.

Frequentemente em nossa vida cotidiana nos vemos envoltos em um ritmo acelerado de vida, balizados por muitas urgências e exigências que demandam nossa atenção.  Talvez já tenhamos passado mais de uma vez pela experiência de chegar ao final do dia e de repente tomar consciência de que, na prática, Deus esteve ausente de nossa jornada.  Como vivenciar o conhecimento de que nos fala São Pedro se nos é tão difícil até nos lembrar de Deus durante nossas atividades cotidianas?  Precisamente, exercitar-nos na presença de Deus em nossa vida cotidiana é uma maneira de enfrentar esse desafio.

O Senhor disse a Abraão: «Caminha em minha presença e sê perfeito[2]».  Frente ao divórcio entre a vida de fé e a vida cotidiana que descobrimos com frequência, o Senhor nos convida a caminhar em sua presença, reconciliando a fé que professamos e a vida cotidiana. Compreendendo que a vivência da fé é integral, quer dizer, que abrange todos os âmbitos de nossa vida.  No fundo, se pensarmos com atenção, quando tal divórcio ocorre é porque — embora não o façamos intencionalmente — nos esquecemos que Deus.  O exercício da presença de Deus constitui, pois, um excelente meio para alimentar essa relação pessoal com o Senhor durante nossas atividades, e para procurar esse “conhecimento prático” que nos ajuda a iluminar nossa existência com a luz da fé em Cristo, de modo que procuremos viver sempre de acordo com o Plano de Deus.

Deus-conosco

A consideração da presença de Deus em nossas vidas nos leva a nos renovar na consciência de que o Senhor nos acompanha sempre, já que «não se encontra longe de cada um de nós; porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser»[3].  Há, pois, um ato de fé no meio de tudo.  Não se trata de fazer como se Deus estivesse presente, ou de pretender que Ele esteja presente, mas sim de acreditar nisso, de acreditar em sua Palavra.  O salmo 138 é um belo testemunho desta realidade e pode ser de grande ajuda meditá-lo.  Em última instância, deve-se crer no próprio Senhor Jesus que prometeu estar conosco todos os dias até o fim do mundo[4].

Mas Deus não está presente como um observador situado comodamente fora deste mundo, alheio a nossa realidade concreta carregada muitas vezes de dificuldades.  Sua presença não é impessoal — como a de um simples observador —.  Seu amor por nós é tão grande que se comprometeu conosco de verdade.  Neste sentido, vale a pena meditar nestas palavras do Papa Francisco: «Deus quis compartilhar nossa condição humana até o ponto de fazer-se uma coisa só conosco na pessoa de Jesus, que é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.  Mas há algo ainda mais surpreendente.  A presença de Deus no meio da humanidade não se realiza em um mundo ideal, idílico, mas neste mundo real, marcado por muitas coisas boas e más, marcado por divisões, maldade, pobreza, prepotências e guerras.  Ele escolheu habitar nossa história assim como é, com todo o peso de seus limites e de seus dramas.  Atuando assim demonstrou de modo insuperável sua inclinação misericordiosa e cheia de amor pelas criaturas humanas.  Ele é o Deus-conosco; Jesus é Deus-conosco.  Vocês creem nisto?»[5].

Cremos que Jesus é na verdade Deus-conosco, que Ele nos acompanha e sustenta em todo momento e circunstância, e que sempre está à porta de nosso coração nos convidando à comunhão[6].  Sobre esse fundamento de nossa fé é que buscamos construir o exercício da presença de Deus.

O professor Alonso Rodríguez diz que São Bernardo ensinava que «assim como não há ponto nem momento no qual o homem não goze da bondade e misericórdia de Deus, também não deve haver ponto nem momento no qual não tenha Deus presente em sua memória»[7].  Abrir nossa mente, nosso coração e nossas ações à presença de Deus é, pois, uma maneira concreta de responder ao amor que Deus nos tem.

Um exercício espiritual

A presença de Deus é um exercício espiritual.  O que significa isto?  Significa que é uma maneira concreta, que podemos cultivar dia a dia, de responder à iniciativa de Deus que sai ao nosso encontro e nos convida a nos relacionarmos com Ele no meio de nossas diversas atividades (trabalho, estudo, vida familiar e social, mobilizações, etc.).  Não se trata, pois, de nos relacionarmos com Deus só nos momentos fortes de oração — que certamente são muito importantes — mas sim de que toda nossa vida se desenvolva na presença do Senhor.  Neste sentido, o salmista nos exorta: «Recorram ao Senhor e a sua força, procurem continuamente seu Rosto.  Recordem as maravilhas que fez, seus prodígios, as sentenças de sua boca»[8].  Desta forma, podemos viver sem perder a centralidade que o Senhor deve ter em nossa existência, nem a luz que Ele nos oferece para iluminar e discernir as diversas situações que cotidianamente temos que enfrentar.

Esta consciência de que Deus está presente em nossa vida nos impulsiona a buscá-lo constantemente, como também diz o salmista: «Seu Rosto, Senhor, é o que procuro»[9].  E isso nos leva a realizar atos — e ir forjando hábitos — concretos que, sob o suave sopro do Espírito, permitem que nossa vida inteira se desenvolva em comunhão com Deus Amor, em sua presença, segundo seu Plano.  Trata-se, pois, de nos exercitarmos em atos, simples e possivelmente pequenos, que elevem nosso coração a Deus e que nos permitam viver aquilo que ensinava São Gregório com uma sugestiva figura: «temos que nos lembrar de Deus mais do que de respirar»[10].

Alguns meios

Como concretizar este horizonte?  Por um lado, diante das diversas situações que cotidianamente nos apresentam, será de muito proveito nos perguntar: O que faria o Senhor Jesus nesta situação?  O que pensaria?  O que sentiria?  Ou no caso de um fato já ocorrido, o que teria feito o Senhor?, o que teria pensado?, o que teria sentido?  Para isso é fundamental que conheçamos cada vez mais a Jesus, o que Ele nos ensina no Evangelho, de maneira que, pouco a pouco, possamos ir conformando nossa mente a mente de Cristo[11], configurando nosso coração segundo seu Sagrado Coração e atuando segundo seus ensinamentos.

Por outro lado, exercitar-nos-emos na presença de Deus na medida em que nos habituemos a lhe oferecer as coisas que fazemos; em que o façamos participante de nossa vida.  Nas coisas mais simples e nas mais complexas, em nossas alegrias e dores, Deus quer nos acompanhar e nos convida a permanecer nEle.  Por isso, desde que acordamos até que nos deitamos, começando e terminando o dia com uma oração ao Senhor, «qualquer coisa que façamos, seja por palavra, seja por ato, tudo façamos no nome de nosso Senhor Jesus Cristo, dando por Ele graças a Deus Pai»[12].

A dinâmica de constante oração que nos propõe São Paulo certamente reclama momentos fortes de oração.  Neles se nutre a presença de Deus que, como um manto, deve cobrir toda a nossa existência.  Para isso pode nos ser de muita ajuda ter alguns “lembretes” que no meio de nossas atividades, em diversos momentos da jornada, permitam-nos elevar nossa mente a Deus e lembrar de sua presença, de modo que nossa vida esteja efetivamente iluminada pelo Evangelho.

Não devemos esquecer que para os combates que diariamente empreendemos contra o inimigo e contra nosso homem velho, temos no exercício da presença de Deus um escudo fortíssimo.  A memória de Deus afasta o pecado, diziam os padres do deserto, e ensinavam a responder ao convite do Senhor, a orar sempre e sem desfalecer[13] por meio da repetição de jaculatórias (orações breves ou citações bíblicas) durante a jornada.

O exercício da presença de Deus é fonte de paz e alegria em meio às diversas circunstâncias de nossa vida. Centrados no Senhor somos capazes de ter a abertura de coração para acolher e responder ao seu Plano, de discernir no Espírito, de aguentar as dificuldades com mortificação cristã, de rezar com o salmo: «Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós»[14].  Outra é a experiência interior do néscio e insensato que diz em seu coração “não há Deus”[15], pois como terra seca é incapaz de dar fruto.  Pois assim como temos necessidade de respirar para nos mantermos vivos, temos necessidade de ir a Deus com a oração constante para manter aceso nosso ardor pela santidade e nosso empenho por responder dia a dia seu Plano de amor.

Passagens bíblicas para a oração

  • Vivendo na presença de Deus se alcança a felicidade: Sal 15,11.
  • O pecado faz com que nos ocultemos da presença de Deus: Gen 3,8-10; 4,13-14.
  • Chamados a ser Santos na presença de Deus: Ef 1,3-6; Col 1,21-22.
  • O Senhor nos envolve com sua presença: Sal 138,1-10
  • Procurar fazer tudo na presença de Deus: 1Cor 10,31; Col 3,17.
  • Em Deus vivemos, movemo-nos e existimos: At 17,28.
  • O Senhor ressuscitado nos prometeu sua contínua Presença: Mt 28,18-20.
  • Permanecer em Deus implica viver como Ele viveu: 1Jo 2,3-6.

Perguntas para o diálogo

  1. Você é consciente de que Jesus é Deus-conosco, que está presente em todo momento e que quer ser parte de sua vida?
  2. Como o exercício da presença de Deus ajuda você a viver o conhecimento da Escada espiritual de São Pedro?
  3. Por que a presença de Deus pode ajudar você a superar a ruptura entre fé e vida cotidiana?
  4. Quais são os maiores desafios que você descobre para viver na presença do Senhor?

Trabalho de interiorização

  1. Medite nas palavras do Salmo:

Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,

sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto.

De longe penetrais meus pensamentos.

Quando ando e quando repouso, vós me vedes,

observais todos os meus passos.

A palavra ainda me não chegou à língua,

e já, Senhor, a conheceis toda.

Vós me cercais por trás e pela frente,

e estendeis sobre mim a vossa mão.

Conhecimento assim maravilhoso me ultrapassa,

ele é tão sublime que não posso atingi-lo.

Para onde irei, longe de vosso Espírito?

Para onde fugir, apartado de vosso olhar?

Se subir até os céus, ali estareis;

se descer à região dos mortos,

lá vos encontrareis também.

Se tomar as asas da aurora,

se me fixar nos confins do mar,

é ainda vossa mão que lá me levará,

e vossa destra que me sustentará. (Sal 138,1-10)

Como estas palavras iluminam sua vivência da presença de Deus?

  1. O Apóstolo Paulo nos diz: «Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus[16]». Faça uma lista de meios concretos que lhe ajudem a viver na presença do Senhor durante suas atividades cotidianas.
  1. «O lar cristão, que deve “manifestar a todos a presença viva do Salvador no mundo e a natureza autêntica da Igreja” (Gaudium et spes, 48), tem que estar impregnado da presença de Deus, pondo em suas mãos o que acontece cotidianamente e pedindo sua ajuda para cumprir adequadamente sua imprescindível missão» (Bento XVI).

De que maneira seu lar pode estar efetivamente impregnado da presença de Deus?

[1] Ver Caminho para Deus nn 239 e 240

[2] Gn 17,1

[3] At 17, 28

[4] Ver Mt 28,20;

[5] Francisco,  Audiência geral, 18/12/2013.

[6] Ver Ap 3, 20.

[7] Alonso Rodríguez, Ejercicio de perfección y virtudes cristianas, Ed. Testimonio, Madrid 1985, p. 388.;

[8] Sal 104, 4-5;

[9] Sal 26, 7-8.

[10] São Gregório Nacianceno, Cinco discursos teológicos, Cidade Nova, Madri 1995, p. 80.

[11] Ver 1 Cor 2, 16.

[12] Col 3,17.  Ver também 1Cor 10,31.

[13] Ver Lc 18, 1.

[14] Sal 15, 11.

[15] Sal 9, 25; 13,1

[16]  (1Cor 10,31)

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