Caminho para Deus 250: Humildade e Natal

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O Natal é tempo privilegiado para refletir sobre a humildade e aprofundar em sua vivência.  O Senhor nos diz «aprenda de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29) e por isso aproximar-nos de sua vida e exemplo é o caminho para aprender o essencial a respeito desta virtude fundamental na vida cristã.  «O presépio — dizia o Beato Paulo VI — nos coloca diante do mistério da Encarnação, mistério de infinita humildade; de glória para Cristo, de salvação para nós. Pensemos, pois, no Natal como ponto de partida, uma linha que quer ser trajetória para o caminho de uma autêntica vida cristã»1.

Hoje em dia a humildade muitas vezes é entendida como relacionada com a virtude da moderação frente a uma tendência ao orgulho, vício que se considera oposto à humildade.  De fato, na vida cristã experimentamos com muita frequência que precisamos dar um basta à soberba e ao orgulho, e a humildade aparece como caminho privilegiado para conseguir isso.  Entretanto, quando o Senhor se nos oferece como modelo de humildade é interessante refletir que Ele não tinha esse combate interior, e mesmo assim, assinala-nos a humildade como virtude fundamental que devemos aprender Dele.  O horizonte da humildade não pode ser só um combate “corretivo”, mas um combate positivo: ser cada vez mais como o Senhor Jesus.

PERANTE O NASCIMENTO DO SENHOR

Como sabemos, a humildade era um virtude desconhecida no mundo pagão, mas presente entre o povo judeu.  Lemos no livro de Sofonias: «Procurem o Senhor, vocês, humildes da terra, que cumprem seus mandatos; procurem a justiça, procurem a humildade» (Sof 2,3).  De fato, o povo judeu se compreendia, diferente de muitos outros povos, em uma relação especial com Deus, e neste sentido, a humildade e a pequenez punham-no na relação correta perante Deus.  Enquanto que para a mentalidade pagã qualquer sujeição era vista como algo negativo, para o mundo hebreu a sujeição a Deus era, pelo contrário, um modo correto de relacionar-se e situar-se diante dEle, de viver a completa dependência de sua misericórdia e de sua graça.

No cristianismo a humildade adquire uma dimensão mais alta, pois já não é só Deus quem convida a vivê-la, mas Ele mesmo a vive e se oferece como exemplo de humildade.  Como o Senhor Jesus vivia a humildade?  Contemplar seu nascimento dá algumas ideias importantes.  O Senhor poderia nascer em muitos lugares, mas escolheu nascer em Belém, um povoado minúsculo da Judeia.  Nasceu, além disso, rodeado de simplicidade, sem uma hospedaria adequada, em um lugar apenas digno para um ser humano.  Foram pobres pastores seus primeiros visitantes.

A humildade do Senhor, então, tem como componente uma simplicidade e um renunciar a qualquer apego a manifestações externas de sua glória, inclusive quando estas eram merecidas.  Sendo o Filho de Deus, aos olhos humanos o mais adequado teria sido recebê-lo com todas as honras possíveis, mas Ele escolheu que não seria assim.  Isto, sem dúvida, pode-nos iluminar em muitos aspectos de nossa vivência da humildade, sobretudo se descobrirmos que nos aferramos a coisas externas que são, em última instância, supérfluas.

HUMILDADE E SERVIÇO

São Paulo nos deixou umas palavras que, relacionadas com a Encarnação do Verbo, apontam a um aspecto essencial da humildade: «Não façam nada por ambição, nem por vangloria, mas com humildade, considerando os outros como superiores a nós mesmos, sem procurar o próprio interesse, mas o dos outros.  Tenham entre vocês os mesmos sentimentos que Cristo.  O qual, sendo de condição divina, não cobiçou ser igual a Deus, mas despojou-se de si mesmo tomando a condição de servo» (Flp 2,3-7).

O que São Paulo quer nos dizer com estas palavras?  Muitas coisas, mas entre elas, assinala-nos um componente essencial da humildade: considerar os outros como superiores a si.  Isto em primeira instância pode parecer chocante para nossa mentalidade, em um mundo que valoriza tanto os primeiros lugares e as manifestações exteriores de proeminência.  É claro que São Paulo não se refere a uma superioridade quanto a nossa dignidade como pessoas.  Neste sentido, todos os seres humanos têm uma mesma dignidade.  A chave está, como ele mesmo mostra, em não procurar o próprio interesse, mas o de outros.  Quer dizer, viver em chave de serviço ao próximo.  De onde aprendemos isto?  Do próprio Cristo, que tomou «condição de servo» e disse não ter «vindo para ser servido mas para servir» (Mt 20,28).  No Natal vemos de modo patente como o Senhor, vivendo a humildade, vem para nos servir não procurando seu próprio interesse, e sim sobretudo o nosso.

Através da história do Povo de Israel, e das palavras de São Paulo, podemos entrever então que é chave na humildade uma relação de dependência com Deus e, portanto, ter nossa vida centrada nele.  Desta atitude brota uma aproximação à vida que nos põe a serviço de seu Plano de Amor, em amorosa obediência a Ele.  É, precisamente, o que viveu o próprio Senhor Jesus.  Neste sentido, na Encarnação e Nascimento do Senhor Jesus, vemos o Filho de Deus inclinar-se diante do Plano do Pai, vivendo essa kenosis ou abaixamento não para renegar sua divindade ou maltratar sua humanidade, mas para ficar a serviço da missão que o Pai lhe encomendou.

Assim, no Natal vemos como Cristo mesmo se abaixa e se inclina, e nos convida a fazer o mesmo.  Mas nos inclinar diante de que?  Quando refletimos nisso, nos damos conta de que não é diante “de que”, mas de Alguém, com maiúscula, pois esse Alguém diante de quem nos inclinamos é Deus mesmo, e nisso encontramos um aspecto essencial da humildade.  Como vemos, humildade, serviço e obediência ao Plano de Deus estão profundamente vinculados na vida do Senhor Jesus e, portanto, assim devem estar também em nossas vidas.  Como é evidente, o horizonte não é só de um serviço filantrópico aos outros. Neste sentido, é fundamental na vida cristã entender-se “abaixo” de Deus, a quem adoramos e a quem servimos.  É por amor a Ele, respondendo a seu Plano de Amor, que nos colocamos em humilde e amoroso serviço aos nossos irmãos.

COMO CRIANÇAS DIANTE DE DEUS

Olhar o nascimento do Senhor Jesus do seio puríssimo de Santa Maria nos recorda também outro aspecto essencial da humildade.  Em uma ocasião os apóstolos perguntam ao Senhor: Quem é o maior no Reino dos Céus?  Provavelmente para sua surpresa o Senhor chamou uma criança e lhes disse: «Eu lhes asseguro: se não mudarem e se tornarem como as crianças, não entrarão no Reino dos Céus. Assim, quem se fizer pequeno como este menino, esse é o maior no Reino dos Céus» (Mt 18,3).

Não se percebe uma criança completamente dependente de seus pais?  A criança confia em seus pais, espera tudo deles, sente-se segura com eles, e são eles sua primeira e imediata referência.  Ao nascer, o Menino Jesus, até sendo Deus, dependia de São José e Santa Maria, como qualquer menino pequeno.

A humildade implica reconhecer uma verdade muito grande: nossa pequenez diante de Deus.  Reconhecer nossa pequenez não é o mesmo que nos denegrir ou ter uma má auto-imagem pois, em primeiro lugar, fomos criados a imagem e semelhança de Deus e somos depositários de seu amor.  Ao mesmo tempo, entretanto, a humildade nos permite reconhecer que tudo de bom recebemos dEle, e também que muitas vezes fazemos mau uso dos dons que nos deu, o qual nos ajuda a ser realistas e não nos deixar levar por uma estima imatura de nós mesmos.

Ser como crianças diante de Deus é, então, fundamental para viver a humildade. Na medida em que avançamos pela vida cristã vamos compreendendo, além disso, que não somos só como crianças diante de Deus, mas na realidade, somos seus filhos. Como vimos, a humildade brota de viver em uma correta relação com Deus.  O Senhor Jesus nos ensina que essa relação é a de ser filhos, da qual brota uma atitude que nos leva a viver, por um lado, na liberdade dos filhos de Deus, e por outro, em completa referência a Ele.

CRESCENDO EM HUMILDADE

Uma das maneiras de crescer em humildade é procurar responder ao Plano de Deus, a partir de um reconhecimento de seu amor por nós e da absoluta necessidade de nos pôr a serviço de seu Plano de Amor.  Enquanto que a soberba, presente na origem da irrupção do mal na criação, levou a desobediência, a humildade, virtude contrária ao vício da soberba, leva a ficar a serviço do Plano de Deus.

Por outro lado, em nossa condição de pecadores com frequência a humildade se manifesta como combate contra nossa tendência de nos colocarmos no centro, acima de Deus.  Sabemos que muitas vezes pomos nossa segurança e significação em coisas exteriores como o êxito, o procurar os primeiros postos, os louvores, entre muitas outras coisas, às quais a humildade nos convida a renunciar.  Trata-se, neste sentido de um caminho contrário à soberba, à vaidade, à autossuficiência.

A humildade nos ensina que o que verdadeiramente importa é viver centrados no Senhor e avançar pela vida compreendendo-nos cada vez mais absolutamente dependentes Dele e não das vaidades próprias ou do mundo.  Procurar viver o serviço, renunciar a muitas das coisas supérfluas de nossa vida, em especial às que de algum modo nos levam a nos colocarmos na frente ou acima dos outros, indicam um horizonte imenso para viver a humildade cotidianamente em nossas vidas.

 CITAÇÕES PARA A ORAÇÃO:

  • Viver a humildade: Sof 2,3; Mt 11,29; Ef 4,2; Col 3,12; 1Pe 5,5.
  • Humildade e obediência ao Plano de Deus: Lc 1,28.46-49; Flp 2,3-8
  • Serviço e humildade: Mc 9,35; 10,42-44; Lc 22,25-27
  • Ser como crianças: Mt 18,1-2; Mc 9,36-37

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO:

  1. Que ensinamentos o nascimento do Senhor Jesus nos deixa sobre a humildade?
  2. Qual é a relação entre a humildade, o serviço e a obediência ao Plano de Deus?
  3. Que meios posso pôr para crescer em humildade?

1Beato Paulo VI, Audiência geral, 28/12/1977.

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