Caminho para Deus 251: O autodomínio na Direção de São Pedro

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Seguindo o caminho proposto pelo Apóstolo Pedro em sua escada espiritual, logo depois da areté (virtude) e da gnosis (conhecimento) ele nos convida a viver a enkráteia.  Este vocábulo grego utilizado em 2Pe 1,6 costuma ser traduzido para o português como temperança, moderação ou autodomínio.  Como sabemos, ser sóbrios e moderados em nossos pensamentos, sentimentos e ações é algo necessário no uso das coisas boas da vida e um degrau a mais para avançar pelo caminho da santidade.  «O cristão — disse o Papa Bento XVI — deve ser disciplinado para encontrar o caminho e chegar realmente ao Senhor»[1].

A etimologia desta palavra ajuda muito a compreender seu significado.  Enkráteia vem de uma palavra grega que significa ter poder ou senhorio sobre as coisas.  Com o tempo começou a ser utilizada também com frequência para referir-se à disciplina pessoal, em especial com relação aos sentidos e emoções.  Quer dizer, compreendia-se como um domínio próprio dos prazeres do corpo e dos desejos.  Na antiguidade alguns filósofos gregos e romanos diziam que o homem necessitava uma indiferença emocional frente às vicissitudes de nossa existência.  Consideravam as paixões como algo mau e irracional, e por isso propunham uma “apatia”, quer dizer, uma “ausência de paixões”.

Entretanto, como somos diferentes!  As emoções, as paixões, os sentimentos, são parte de nós e não é necessário negá-los nem eliminá-los.  São João Paulo II dizia que «dominar-se a si mesmo e dominar as paixões próprias não significa absolutamente fazer-se insensível ou indiferente; o autodomínio de que falamos é uma virtude cristã que aprendemos nos ensinamentos e nos exemplos de Jesus, e não na chamada moral “estóica”»[2].  Compreender isto é importante porque pode ser que às vezes pensemos que o domínio ao qual nos chama o Senhor Jesus seja a negação de uma parte de nós.  O horizonte da enkráteia, pelo contrário, é sempre positivo e recomenda que vivamos com retidão e domínio pessoal, pois os sentimentos, as paixões, as alegrias e as emoções fazem parte de nossa realidade como pessoas e como tal devem ser integrados no horizonte de uma vida Santa.

Na vida cristã

O autodomínio, que é moderação e controle dos pensamentos, dos afetos e do comportamento nas coisas temporais — mesmo que estas não sejam más em si mesmas —, é uma grande virtude e muito necessária na vida cristã.  É, como já dissemos, um caminho positivo de domínio sobre nós mesmos e sobre o que o mundo nos oferece.  «O homem moderado — dizia São João Paulo II— é o que é dono de si.  Aquele em quem as paixões não preponderam sobre a razão, a vontade e inclusive o “coração”.  O homem que sabe dominar-se!  Se assim é, facilmente percebemos o valor tão fundamental e radical que a virtude do autodomínio tem. É absolutamente indispensável para que o homem “seja” plenamente homem»[3].

É importante recordar que se o apóstolo Pedro nos convida a viver o autodomínio é porque sabe que essas mesmas emoções e paixões que existem em nós podem ser ocasião de nos afastarmos do caminho da santidade.  Neste sentido, não podemos deixar de considerar o efeito real que têm sobre nós as consequências do pecado, que nos debilita e inclina ao mal[4].  Em nosso tempo, no meio de uma sociedade que exacerba os sentidos e nos convida constantemente a nos deixar levar por eles como se nisso estivesse nossa liberdade, a enkráteia torna-se uma virtude particularmente necessária.  O autodomínio aparece hoje em dia como um horizonte que vai contra a corrente dos tempos atuais.  São Paulo já nos recordava isso: Devemos «viver com autodomínio, justiça e piedade no século presente» (Tt 2,12).

Procurar a coroa incorruptível

Como vemos a enkráteia não é uma virtude que se compreende exclusivamente como repressão, freio, limitação ou uma espécie de “ferrolho”.  Pois bem, não podemos esquecer que às vezes o autodomínio tem mesmo um componente, em certo sentido, restritivo.  São Paulo fazia menção a isso quando disse: «Os atletas se privam de tudo; e isso por uma coroa corruptível; nós, porém, por uma incorruptível» (1Cor 9,25).

Isso quer dizer que às vezes o autodomínio pode nos levar a renunciar a coisas que são lícitas em si mesmas.  De fato muitas coisas da vida exigem certa renúncia.  Possivelmente vemos isso bem claro no esporte.  Muitos atletas devem renunciar a várias coisas para poder dedicar-se melhor ao que fazem.  Não chama a atenção, por exemplo, se um jogador de futebol renuncia a sair uma noite quando no dia seguinte tem um compromisso esportivo, ou se priva de certas comidas ou bebidas em razão de seu desempenho físico.  Ninguém tampouco se escandaliza com uma nadadora que passa várias horas por dia treinando em uma piscina.

Qual é o sentido de renunciar a algo que em si é legítimo e até bom?  A resposta não é difícil de achar.  Fazemos isso direcionado a um fim maior.  Renuncia-se em um determinado momento a algo bom para alcançar um bem que é melhor. É similar ao que vivemos, por exemplo, na Quaresma, onde a dinâmica de purificação e preparação nos convida a renunciar a certas coisas que não são más em si mesmas com a intenção de chegar melhor preparados à celebração de Semana Santa.

Cabe ressaltar, entretanto, como às vezes as renúncias que alguém deve realizar para uma vida cristã mais amadurecida nos são mais difíceis de realizar.  Somos capazes de renunciar a tantas coisas quando realmente queremos algo que nós gostamos (e que em muitas ocasiões não necessitamos) mas nem sempre temos a mesma atitude com aquilo que se relaciona diretamente com nossa santidade.  Então sobrevêm milhares de desculpas para evitar renunciar ao que nos faria bem deixar.  Na vida cristã essas renúncias têm como fim a santidade, e em certo sentido, não são só renuncias, mas opções positivas por uma vida cada vez más plena em Cristo.

Um olhar justo

Como pudemos ressaltar, a vivência do autodomínio faz referência, em certo modo, ao que é externo a nós.  Isso nos leva a assinalar dois aspectos mais da vivência desta virtude para enfrentar corretamente tanto os desafios da vida cristã como as próprias tentações que nunca faltam no seguimento de Cristo.

Em primeiro lugar, este domínio próprio exigirá um interior cada vez mais harmonizado e reconciliado, que é precisamente o que São Pedro nos convida com a virtude (areté) no primeiro degrau de sua escada espiritual.  Em segundo lugar exigirá um olhar cada vez mais justo e equilibrado sobre a realidade para poder julgá-la e viver com coerência nosso compromisso cristão.  «Autodomínio — diz o Papa Francisco — é sentido da medida»[5].  Alcançar este «sentido da medida» só é possível quando, em abertura ao Espírito, contemplamos cada vez mais nossa vida e nossa realidade com os olhos de Deus.

Só a partir desse olhar — ao qual faz referência a gnosis como segundo degrau da escada espiritual — daremos o justo valor a tudo o que nos rodeia e poderemos ser moderados em nossa vida ou discernir melhor quando convém renunciar a algo lícito com vistas a um bem maior.  Quem vive a enkráteia não se engana nem se ilude a respeito de onde está sua verdadeira realização, e tende a manter-se como senhor de si mesmo no uso dos dons à sua disposição.

Como vemos o autodomínio somente se entende se for, em primeiro lugar, uma opção pelo Senhor Jesus.  Nessa opção pelo Senhor encontramos luz e força para valorizar e integrar segundo seu Plano tantas coisas boas que a vida tem.  O cristianismo, inclusive quando implica em renúncia a certas coisas, sempre é um caminho de opção pelo amor, por Deus que nos ama e quer sempre o melhor para nós.  Não há duplos padrões para o cristão, mas uma só e única medida: o Senhor Jesus.

Perguntas para o diálogo

  1. O que é o autodomínio?
  2. Por que é necessário o autodomínio na vida cristã?
  3. Por que, como diz João Paulo II, o autodomínio é indispensável «para que o homem “seja” plenamente homem»?
  4. Como posso viver melhor o autodomínio em minha vida cotidiana?

Passagens bíblicas para a oração

  • Na escada espiritual de São Pedro: 2Pe 1,6.
  • Domínio de nós mesmos: Eclo 18,30, 2Mc 5,34, At 24,25, 1Pe 1,14.
  • Em vista de um fim maior: 1Cor 9,25.
  • É fruto do Espírito: Gal 5,25; 2Tim 1,7.

Trabalho de interiorização

Leia com atenção as seguintes palavras do Papa São João Paulo II: «Não se pode ser homem verdadeiramente prudente, nem autenticamente justo, nem realmente forte, se não se possuir deste modo a virtude do autodomínio.  Pode-se dizer que esta virtude condiciona indiretamente todas as outras virtudes; mas deve-se dizer também que todas as outras virtudes são indispensáveis para que o homem possa ser “moderado” (ou “sóbrio”)» (Catequese, 22/11/1978).

  • Por que o Papa diz que o autodomínio “condiciona” todas as demais virtudes e ao mesmo tempo necessita delas?
  • Qual é a relação particular com a areté e a gnosis na escada espiritual de São Pedro?

Leia e medite a seguinte passagem bíblica: «Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível » (1Cor 9,24-25).

  • O que você pode fazer para crescer em domínio pessoal?
  • Do que você poderia “privar-se” para avançar para a “coroa incorruptível” à qual nos convida São Paulo?

Escreva uma oração pedindo a Deus que lhe conceda viver cada vez mais o autodomínio.

[1]Bento XVI, Homilia, 25/2/2009.

[2]João Paulo II, Catequese, 22/11/1978.

[3]João Paulo II, Catequese, 22/11/1978.

[4]Ver Catecismo da Igreja Católica, n. 405.

[5] Francisco, Discurso, 31/3/2014.

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