Caminho para Deus 98: Anunciar Cristo em primeira pessoa

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«Se, pois, haveis encontrado Cristo, vivei Cristo, vivei com Cristo! E anunciai-O em primeira pessoa, como autênticas testemunhas: “para mim o viver é Cristo” (Fl 1, 21)»[1].

Queremos, como propôs o Santo Padre João Paulo II em sua primeira visita à América, anunciar Jesus Cristo como quem se encontrou com Ele[2]. Quem verdadeiramente se encontrou com o Senhor Jesus e permanece em comunhão com Ele, pode anunciá-lo em primeira pessoa, e seu testemunho é convincente porque leva Cristo em si mesmo, porque com sua presença e com suas palavras transmite a luz e a paz de Cristo. Em seu empenho cotidiano por responder à graça recebida, se esforça metodicamente por ser fiel a seus compromissos batismais, coerente com o Evangelho que anuncia, e por isso seu testemunho não é vazio mas consistente: com sua palavra, colaborando com a ação do Espírito, toca os corações que se encontram separados de Deus, remexe-os, desperta-os de sua letargia, chama-os à conversão, ao encontro com o Senhor, acende neles o fogo do amor divino.

O anúncio, fruto do encontro com Cristo

O anúncio é fruto do encontro com o Senhor Jesus. «Os Evangelhos relatam numerosos encontros de Jesus com homens e mulheres de seu tempo. Uma característica comum a todos estes episódios é a força transformadora que têm e manifestam os encontros com Jesus»[3], assim como o  anúncio que levam. Assim por exemplo, dois discípulos do Batista, ao seguir o Senhor Jesus, são convidados a ficar com Ele toda uma tarde. Sua intensa experiência de encontro leva-os a buscar Pedro e a comunicar-lhe sua felicidade: «encontramos o Messias!», contam-lhe entusiasmados, levando-o também ao encontro com Cristo[4].

Em outra ocasião, o Senhor Jesus sai ao encontro de uma samaritana, e depois de um longo diálogo em que finalmente Ele se revela como o Messias esperado, a mulher retorna ao seu povoado e anuncia: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não seria Ele o Cristo?»[5]. O testemunho daquela que se encontrou com Cristo aquela tarde, junto ao poço de água, levou ao encontro com Cristo muitos outros que depois diriam à mulher: «Já não é por causa do que tu falaste que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o Salvador do mundo»[6]. Quem como eles e muitos outros se encontra com Cristo, não pode conter este anúncio: «Encontrei-me com Cristo! Ele é quem responde aos anseios mais profundos do ser humano! Vem e o verás!».

«Eu me encontrei com Ele»

O Senhor tem seus caminhos, e Ele se manifesta àqueles que o buscam com sincero coração, que fazem silêncio em seu interior. Manifesta-se às vezes de maneira extraordinária, como um estrondo, e, outras vezes, quiçá na maioria delas, na suavidade da brisa[7]. Sua passagem por nossas vidas «é misteriosa e requer olhos puros para ser descoberto e ouvidos disponíveis à escuta»[8]. Deve-se fazer silêncio, deve-se estar atento, com o coração disposto!

Então, quando Ele se manifesta, acende-se no nosso coração uma chama incontida, um fogo devorador que abrasa e transforma a própria existência, lançando-a com veemência à conquista do Infinito. E porque queremos compartilhar com todos essa felicidade incontida que nos embarga, porque queremos para outros a felicidade que experimentamos no encontro com Cristo, em nossa marcha decidida convidamos quantos podemos para encontrarem-se também com Cristo, para que também eles empreendam a aventura fascinante da vida cristã.

Anunciar Jesus Cristo como quem se encontrou com Ele[9] implica dar testemunho do Senhor Jesus a partir da experiência pessoal de encontro e comunhão com Ele. Para anunciar Cristo em primeira pessoa, é necessário —como assinala o Santo Padre— “viver Cristo, viver com Cristo”. Deste modo, a própria existência do apóstolo se converte em um anúncio explícito: «para mim a vida é Cristo»[10]; e também: «Vivo eu, mas não eu, pois que é Cristo quem vive em mim»[11]. Quando isso se reflete em todo seu ser, em seus atos, gestos e palavras, irradia uma luz e uma força —a força do Evangelho— que atrai, que leva àqueles  que se encontram com Ele a querer buscar mais além, a buscar a fonte daquela paz e luminosidade da qual o apóstolo é difusor.

O apostolado é transmitir o Senhor, a quem se leva dentro. Não pode ser de outro modo: evangelizar é, sobre tudo, irradiar uma Presença, uma Pessoa, Jesus Cristo vivo e ressuscitado. Quem leva Cristo em si, possui a força sedutora de Cristo! Seu apostolado será, com a ajuda do Espírito, fecundo e eficaz, segundo o Plano de Deus.  Por isso podemos dizer que a intensidade e ardor de nosso apostolado será como um termômetro que me ajuda a ver e me mostra como é meu encontro com o Senhor Jesus, como está minha vida espiritual.

Maria nos ensina

Quem mais exemplar e modelar neste empenho de anunciar o Senhor Jesus em primeira pessoa que Maria, a Mãe de Jesus!?: «Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo»[12]. Que força radiante a da Virgem! Que eficácia a de seu apostolado! Com uma saudação apenas, transmite o Espírito de seu Filho fazendo saltar de alegria inclusive ao não nascido que Isabel levava em seu seio! É que Maria, que leva o próprio Senhor em seu seio virginal, vive em uma dinâmica única de encontro contínuo com seu Filho, de diálogo íntimo e ininterrupto: enquanto Ela nutre o Filho com seu sangue, Ela se nutre continuamente de sua Presença, de sua graça, do fogo de seu divino Amor e, por isso, como uma lâmpada preciosa, irradia Sua luz e calor a todos os homens.

Deste modo, Maria nos ensina que uma fé madura, vivida em toda a existência, deixando que essa fé desenvolva todo o seu dinamismo na própria pessoa, nos leva a um apostolado testemunhal e à proclamação da Boa Nova.  E nos ensina também que o apostolado verdadeiramente eficaz é realizado por aquele que tendo-se encontrado com o Senhor O leva em si mesmo. Este anuncia Cristo em primeira pessoa.

Passagens bíblicas para a oração e meditação

Pregar o Evangelho é um dever do qual todos somos incumbidos: 1 Co 9, 16; Mc 16, 15

O dever da evangelização é una urgência de caridade para o discípulo de Cristo: 2 Co 5, 14

O homem anseia encontrar-se com o Senhor: Jo 12,21

O encontro com o Senhor introduz em um processo de conversão: Maria Madalena (Jo 20, 11-18), a Samaritana (Jo 4, 5-42), Paulo (At 9, 3-30; 22, 6-11; 26, 12-18) Zaqueu (Lc 19, 1-10)

O apostolado nasce do encontro com o Salvador: Jo 1, 41

Perguntas para o diálogo 

  1. Para poder anunciar o Senhor Jesus em primeira pessoa, para poder transmiti-lO aos outros é necessário viver o encontro cotidiano com Ele. Com que freqüência você se encontra com o Senhor Jesus? Com que atitude você comparece ao seu encontro? Com abertura, com alegria, com disponibilidade e abertura?
  2. Os discípulos de Emaús, depois de reconhecerem o Senhor na fração do pão, comentaram que seus corações ardiam quando lhes falava. Como você acolhe suas palavras? Como  você acolhe aquilo que o Senhor lhe vai mostrando?
  3. O encontro intenso com Jesus é o motor que impulsiona o apostolado. Como você testemunha o Senhor?  Suas palavras, ações e gestos falam do Senhor, buscam transmiti-lo?
  4. Se o apostolado fosse o termômetro que mostrasse como está sua vida espiritual, quanto marcaria?

 

Notas

[1] S.S. João Paulo II, Homilia na Catedral de Santo Domingo, 26/1/79, n. 2.

[2] Ver ali mesmo.

[3] Ecclesia in America, 8. Ver ali mesmo do 8-12.

[4] Jo 1,36ss.

[5] Jo 4,29.

[6] Jo 4,42.

[7] Ver 1 Re 19,9-15.

[8]  S.S. João Paulo II, Catequeses do 26/7/00, n.1.

[9] Ver Homilía na Catedral de Santo Domingo durante a Misa para o clero, religiosos e seminaristas, 26/1/1979.

[10] Fl 1, 21.

[11] Gl 2,20.

[12] Lc 1,41.

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