DOMINGO DA RESSURREIÇÃO “ALELUIA! O Senhor ressuscitou!”

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I. A PALAVRA DE DEUS

At 10, 34. 37-43:Comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos.

Naqueles dias:

34aPedro tomou a palavra e disse:

37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele.

39E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-o numa cruz. 40Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se 41não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos.

42E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos. 43Todos os profetas dão testemunho dele: ‘Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados’.’

Sal 117, 1-2.16-17.22-23:Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!”

1Dai graças ao Senhor, porque ele é bom!
‘Eterna é a sua misericórdia!’
2A casa de Israel agora o diga:*
‘Eterna é a sua misericórdia!’

16A mão direita do Senhor fez maravilhas,
a mão direita do Senhor me levantou,
17Não morrerei, mas ao contrário, viverei
para cantar as grandes obras do Senhor!

22‘A pedra que os pedreiros rejeitaram,
tornou-se agora a pedra angular.
23Pelo Senhor é que foi feito tudo isso:
Que maravilhas ele fez a nossos olhos!

Cl 3, 1-4:Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo.

Irmãos:

1Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, 2onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres.

3Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. 4Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.

Jo 20, 1-9:Ele devia ressuscitar dos mortos.

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

2Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse:

– ‘Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram.’

3Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

6Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas,  mas enrolado num lugar à parte.

8Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

II. COMENTÁRIOS

A tumba em que tinha sido colocado o corpo inerte do Senhor, uma caverna escavada na rocha (Lc 23,53), tinha sido fechada com uma grande pedra em forma de roda (ver Mc 15,46), impossível de ser movida por um grupo de mulheres (ver Mc 16,3).

Os membros do Sinédrio tinham pedido a Pilatos uma guarda temendo que os discípulos do Senhor desaparecessem com o corpo durante a noite para depois dizer que Jesus tinha ressuscitado, conforme tinha sido anunciado pelo Senhor (ver Mt 27,64). Mas parece que os soldados não levaram muito a sério aquela ameaça, pois a madrugada do primeiro dia da semana os encontrou profundamente adormecidos. De repente um forte tremor despertou-os com sobressalto. Então ficaram paralisados e “como mortos” (Mt 28,4) ao ver removida a pedra que fechava a tumba e um ser resplandecente sentado sobre ela.

Naquele mesmo momento chegavam algumas piedosas mulheres com unguentos e aromas para embalsamar o corpo de Jesus segundo o costume judeu (ver Mc 16,1). Não tinham podido fazê-lo antes de colocá-lo no sepulcro porque “já estava em cima” do sábado quando desceram da Cruz o corpo inerte de Jesus. Segundo o costume judeu, o novo dia começava não à meia-noite, tampouco ao amanhecer, mas ao entardecer ou anoitecer daquele que para nós é ainda é o dia anterior, no momento em que já se fazia necessário acender lamparinas. Ao dizer que “já estava em cima do sábado” queremos dizer que já era a tarde da sexta-feira. Não havia tempo suficiente para embalsamar o corpo do Senhor porque uma vez acesas as tochas e lamparinas se devia guardar absoluto repouso (ver Lc 23,54-56).

Os quatro evangelistas situam o achado da tumba vazia nas primeiras horas do que para os judeus seria “o primeiro dia da semana”, dia que desde os tempos apostólicos veio a chamar-se em latim “Dies Domini” e que traduzido significa “Dia do Senhor”. É a raiz da palavra “Domingo”, o primeiro e ao mesmo tempo o “oitavo” dia da semana, porque é considerado um “novo dia”. O domingo é o Dia do Senhor porque é o Dia de seu triunfo, o Dia grandioso em que o Senhor Jesus ressuscitou rompendo as ataduras da morte, Dia no qual Ele fez tudo novo, Dia, portanto, consagrado ao Senhor.

Grande foi a surpresa de Maria Madalena, uma das mulheres que formavam a pequena comitiva, ao chegar ao túmulo do Senhor, ver a pedra rolada e o sepulcro vazio. Instintivamente pôs-se a correr para comunicar a Pedro e a João o acontecido. Ao encontrá-los diz: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram» (Jo 20,2). Pedro e João foram correndo ao sepulcro para ver por si mesmos o acontecido. João, que corria mais rápido, chegou primeiro. Ao chegar «debruçou-se, viu os panos de linho estendidos no chão, mas não entrou» (Jo 20,5). Esperou que chegasse Pedro para que ele entrasse primeiro, o que se considera um sinal de respeito e reconhecimento da primazia que Pedro tinha entre os apóstolos. Ao entrar no sepulcro, diz-se que João «viu e acreditou» (Jo 20,8). O que viu João? Que o corpo de seu Senhor não estava ali. No que acreditou? No que até então não tinham conseguido compreender, e que o Senhor havia a anunciado repetidas vezes: que depois de morrer «devia ressuscitar dos mortos» (Jo 20,9).

Este ato de fé na Ressurreição do Senhor será confirmado imediatamente depois tanto pelo anúncio do anjo às mulheres como pelas aparições do Senhor Ressuscitado a seus discípulos.

No grupo das mulheres que vão ao sepulcro bem de madrugada chama a atenção uma ausência: a Mãe de Jesus não se encontra entre elas. Por que não estava presente? Não seria natural que quem mais do que ninguém amava Jesus se fizesse presente para lhe prodigalizar este último cuidado, o de embalsamar o corpo de seu amado Filho?

A razão de sua ausência deve ser procurada na recriminação que o anjo dirige às mulheres que vão ao sepulcro: «por que procuram entre os mortos ao que está vivo?» (Lc 24,5). A Mãe não procura entre os mortos a quem sabe que está vivo. Diferente dos apóstolos e discípulos, ela sim acreditou em seu Filho, acreditou que ressuscitaria. Depois da morte do Senhor, Santa Maria é a única que mantém viva a chama da fé e se mantém em espera, preparando-se para acolher o anúncio gozoso da Ressurreição de seu Filho. Assim como o sepulcro vazio se constitui em uma forte proclamação da Ressurreição de Cristo, a ausência da Mãe de Cristo no lugar de sua ressurreição é uma magnífica proclamação de sua fé e confiança total nas palavras e promessa de seu Filho.

Por outro lado, ainda que os evangelistas não falem disto, não seria esperado que o Senhor ressuscitado aparecesse em primeiro lugar a sua Mãe? Não teria Ele querido reservar este privilégio e enorme alegria a Ela, que tanto tinha sofrido com Ele ao pé da Cruz? A ausência de Maria no grupo das mulheres que à alvorada se dirigiram ao sepulcro poderia constituir também um indício do fato de que o Senhor Ressuscitado já tinha aparecido a ela primeiro. Esta era a convicção do inesquecível Papa São João Paulo II, cujo ensinamento que recolhe uma antiquíssima tradição, ainda ressoa em nossos ouvidos e corações: «Ela, certamente, foi primeira a receber a grande noticia. Ela foi a primeira a receber o anúncio do anjo da Encarnação, e ela também foi a primeira a receber o anúncio da Ressurreição. A Sagrada Escritura não fala disto, mas se trata de uma convicção apoiada no fato de que Maria era a Mãe de Cristo, mãe fiel, mãe predileta, e que Cristo era o filho fiel a sua mãe.»

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Cristo ressuscitou! CRISTO RESSUSCITOU!

E ressuscitou por mim, para que eu encontre nele e por Ele a vida verdadeira!

Portanto, sua Ressurreição é hoje um potente chamado. Um fortíssimo convite a todos os que nele fomos batizados, a “nos revestirmos” de Cristo (ver Gal 3,27), a ressuscitar com Ele já agora, quer dizer, a participar de seu mesmo dinamismo de abaixamento e elevação (ver Flp 2,6ss), dar morte ao homem velho e a todas as suas obras para viver intensamente a vida nova que Cristo nos trouxe (ver Rom 6,3-6). Sua ressurreição é hoje um forte convite a viver desde já uma vida ressuscitada!

Mas no meio de nossas inúmeras quedas, inconsistências, tensões e lutas interiores, rebeldias, incoerências, fragilidades e inclinações ao mal, muitas vezes nos perguntamos até um pouco desalentados: é verdadeiramente possível viver uma vida nova, uma vida cristã com todas as suas radicais exigências? É possível ser santo, ser santa? Eu poderei? Verdadeiramente é possível para mim chegar ao momento em que possa afirmar como São Paulo: «Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim.» (Gal 2,20)?

Ao considerar o acontecimento da Ressurreição do Senhor Jesus, não cabe senão uma resposta firme e convencida, cheia de esperança: Sim é possível! E não porque seja possível por nossas próprias forças humanas, tão limitadas e insuficientes, mas sim porque «nada é impossível para Deus» (Lc 1,37; ver também Lc 18,27). E embora Deus nos chame a nos empenharmos ao máximo (ver 2Pe 1,5.10), a nos esforçarmos ao máximo de nossas capacidades e possibilidades, nenhum esforço humano poderia frutificar se Deus não nos desse sua força, sua Graça. A potência divina manifestada na Ressurreição do Senhor é para nós garantia de que contamos com essa força divina. De que se nos abrimos a ela e a partir de nossa pequenez colaboramos humildemente com ela, produzirá em nossa vida uma mudança real, promoverá nossa santificação e conformação com Cristo, esse “revestimento” de que fala São Paulo e que é acima de tudo um revestimento interior.

Assim, pois, já que Cristo ressuscitou, «desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará … Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo» (Ef 5,14-16). Deixa que Cristo te ressuscite hoje e cada dia! Ressuscita você com Ele! Que Sua vida ressuscitada se manifeste com toda potência e esplendor em tua própria vida, em uma vida nova, através de todos os teus atos nutridos de fé, esperança e caridade! Abra tua mente e teu coração ao Senhor que sai vitorioso do sepulcro! Brilha tu com a luz e o esplendor do Ressuscitado! É hora de lutar! É hora de morrer a tudo o que é morte para triunfar com Cristo! Deixa atrás teus medos, tuas covardias, tuas mesquinharias, tuas vaidades e soberbas, tuas sensualidades, teus ódios e rancores, tuas amarguras e ressentimentos, tuas hipocrisias e trevas, tuas invejas e indiferenças, tuas preguiças e avarezas! Peça ao Senhor que com Sua força te ajude a te libertar desses pecados que te prendem, que com pesadas embora invisíveis cadeias te mantêm escravizado à morte!

Assim, quem se abre à força e potência do Ressuscitado, quem se deixa tocar por Ele, quem não abandona a luta, pode — contando inclusive com a própria fragilidade e inclinação ao mal — dizer perfeitamente: «Tudo posso fazer com a ajuda de Cristo, que me dá a força que necessito» (cf. Flp 4,13).

IV. PADRES DA IGREJA

São Gregório Magno: «Recordemos o que diziam os judeus quando insultavam o Filho de Deus cravado na Cruz: “Se for o rei de Israel, que desça da Cruz e acreditaremos nele”. Se Jesus Cristo então tivesse descido da Cruz, cedendo aos insultos dos judeus, não teria dado provas de paciência; mas esperou um pouco, tolerou os opróbrios e as zombarias, conservou a paciência e adiou a ocasião de lhe admirarem; e O que não quis descer da Cruz, ressuscitou do sepulcro. Ressuscitar do sepulcro foi mais do que descer da Cruz; foi mais destruir a morte ressuscitando que conservar sua vida desobedecendo; mas como os judeus vissem que não descia da Cruz, cedendo aos seus insultos, creram, ao vê-lo morrer, que tinham-nO vencido, e se rejubilaram de que tinham extinguido seu nome; mas eis que seu Nome cresceu no mundo pela morte, com a qual a turba infiel acreditava que lhe tinha apagado; e o mundo sente prazer ao contemplar morto Aquele a quem os judeus se rejubilavam de ter matado, porque conhece que pela pena chegou ao esplendor de sua glória».

Santo Agostinho: «Consideremos, amadíssimos irmãos, a ressurreição de Cristo. Com efeito, como sua paixão significava nossa vida velha, assim sua ressurreição é sacramento de vida nova. (…) acreditaste, foste batizado: a vida velha morreu na Cruz e foi sepultada no Batismo. Foi sepultada a vida velha, em que viveste; agora tens uma vida nova. Vive bem; vive de forma que, quando morreres, não morra».

São Gregório Magno: «E [o Senhor] apareceu vestido de branco, porque anunciou as alegrias de nossa festividade. A brancura da veste significa o esplendor de nossa solenidade. Da nossa ou da Sua? Falando verdadeiramente, podemos dizer da Sua e da nossa. A ressurreição de nosso Redentor foi e é nossa festa, porque nos concedeu a graça de voltar para a imortalidade». 

Santo Agostinho: «Agora que é tempo, sigamos o Senhor; desfaçamo-nos das amarras que nos impedem de segui-lO. Mas ninguém é capaz de soltar estas amarras sem a ajuda daquele de quem diz o salmo: Rompeu minhas cadeias. E como diz também outro salmo: O Senhor liberta os cativos, o Senhor endireita os que já se dobram. E nós, uma vez libertados e endireitados, podemos seguir aquela luz da qual afirma: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida. Porque o Senhor abre os olhos ao cego. Nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé».

V. CATECISMO DA IGREJA

Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos

  1. «Nós vos anunciamos a Boa-Nova de que a promessa feita aos nossos pais, Deus a cumpriu para nós, seus filhos, ao ressuscitar Jesus» (At 13, 32-33). A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal, ao mesmo tempo que a cruz: 

O sepulcro vazio: “viu e acreditou”

640: «Por que motivo procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou» (Lc 24, 5-6). No quadro dos acontecimentos da Páscoa, o primeiro elemento que se nos oferece é o sepulcro vazio. Isso não é, em si, uma prova direta. A ausência do corpo de Cristo do sepulcro poderia explicar-se de outro modo. Apesar disso, o sepulcro vazio constitui, para todos, um sinal essencial. A descoberta do fato pelos discípulos foi o primeiro passo para o reconhecimento do fato da ressurreição. Foi, primeiro, o caso das santas mulheres, depois o de Pedro. «O discípulo que Jesus amava» (Jo 20, 2) afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e ao descobrir «os lençóis no chão» (Jo 20, 6), «viu e acreditou»; o que supõe que ele terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, “que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana e que Jesus não tinha simplesmente regressado a uma vida terrena, como fora o caso de Lázaro”.

A Ressurreição de Cristo, “sinal” de que é quem diz ser

  1. «Se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é vã e também é vã a vossa fé» (1 Cor 15, 14). A ressurreição constitui, antes de mais, a confirmação de tudo quanto Cristo em pessoa fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram a sua justificação se, ressuscitando, Cristo deu a prova definitiva, que tinha prometido, da sua autoridade divina.
  2. A ressurreição de Cristo é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e do próprio Jesus, durante a sua vida terrena. A expressão «segundo as Escrituras» indica que a ressurreição de Cristo cumpriu essas predições.
  3. A verdade da divindade de Jesus é confirmada pela ressurreição. Ele tinha dito: «Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou”» (Jo 8, 28). A ressurreição do Crucificado demonstrou que Ele era verdadeiramente «Eu Sou», o Filho de Deus e Ele próprio Deus. São Paulo pôde declarar aos judeus: «E nós vos anunciamos a Boa-Nova de que a promessa feita aos nossos pais, Deus a cumpriu para os filhos deles ao ressuscitar Jesus, como justamente está escrito no Salmo segundo: “Tu és meu Filho, Eu gerei-Te hoje”» (At 13, 32-33). O mistério da ressurreição de Cristo está estreitamente ligado ao mistério da Encarnação do Filho de Deus. É dele o cumprimento, segundo o desígnio eterno de Deus.

Sentido e alcance salvífico da Ressurreição

  1. Existe um duplo aspecto no mistério pascal: pela sua morte, Cristo liberta-nos do pecado; pela sua ressurreição, abre-nos o acesso a uma nova vida. Esta é, antes de mais, a justificação, que nos repõe na graça de Deus, «para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos […], também nós vivamos uma vida nova» (Rm 6, 4). Esta consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça; realiza a adoção filial, porque os homens tornam-se irmãos de Cristo, como o próprio Jesus chama aos discípulos depois da ressurreição: «Ide anunciar aos meus irmãos» (Mt 28, 10). Irmãos, não por natureza, mas por dom da graça, porque esta filiação adotiva proporciona uma participação real na vida do Filho, plenamente revelada na sua ressurreição.
  2. Finalmente, a ressurreição de Cristo – e o próprio Cristo Ressuscitado – é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram […]. Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida» (1 Cor 15, 20-22). Na expectativa de que isto se realize, Cristo Ressuscitado vive no coração dos seus fiéis. N’Ele, os cristãos «saboreiam as maravilhas do mundo vindouro» (Heb 6, 5) e a sua vida é atraída por Cristo para o seio da vida divina (585), «para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor 5, 15). 

O domingo, dia do Senhor

  1. «Por tradição apostólica, que remonta ao próprio dia da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou Domingo». O dia da ressurreição de Cristo é, ao mesmo tempo, o «primeiro dia da semana», memorial do primeiro dia da criação, e o «oitavo dia» em que Cristo, após o seu «repouso» do grande sábado, inaugura o «dia que o Senhor fez», o «dia que não conhece ocaso». A «Ceia do Senhor» é o seu centro, porque é nela que toda a comunidade dos fiéis encontra o Senhor ressuscitado, que os convida para o seu banquete:

«O dia do Senhor, o dia da ressurreição, o dia dos cristãos é o nosso dia. Chama-se dia do Senhor por isso mesmo: porque foi nesse dia que o Senhor subiu vitorioso para junto do Pai. Se os pagãos lhe chamam dia do Sol, também nós, de bom grado o confessamos: porque hoje se ergueu a luz do mundo, hoje apareceu o sol da justiça, cujos raios nos trazem a salvação». (S. Jerônimo)

  1. O Domingo é o dia por excelência da assembleia litúrgica, no qual os fiéis se reúnem «para, ouvindo a Palavra de Deus e participando na Eucaristia, fazerem memória da paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus, e darem graças a Deus, que os “regenerou para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos”»:

«Quando meditamos, ó Cristo, nas maravilhas que tiveram lugar neste dia de domingo da tua santa ressurreição, dizemos: Bendito o dia de Domingo, porque nele teve início a criação […] a salvação do mundo […] a renovação do gênero humano […]. Foi nesse dia que o céu e a terra se congratularam e que todo o universo se encheu de luz. Bendito o dia de Domingo, porque nele foram abertas as portas do paraíso, para que Adão e todos os deportados nele entrassem sem temor» (Fanqîth, Ofício siríaco de Antioquia, vol 6, 1.ª parte do verão, p. 193 b).

 

VI. OUTRAS REFLEXÕES DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE[1]

«Hoje a Igreja repete, canta, clama: «Jesus ressuscitou!». Mas como? Pedro, João, as mulheres foram ao Sepulcro e viram-no vazio, Ele já não estava lá. Voltaram com o coração apertado pela tristeza, a tristeza de uma derrota: o Mestre, o seu Mestre, que amavam muito, tinha sido executado, morreu. E da morte não se volta. Esta é a derrota, este é o caminho da derrota, a via para o sepulcro. Mas o Anjo disse-lhes: «Não está aqui, ressuscitou».

Foi o primeiro anúncio: «Ressuscitou». E depois a confusão, o coração apertado, as aparições. Mas os discípulos permanecem fechados o dia inteiro no Cenáculo, porque tinham medo que acontecesse a eles o mesmo que aconteceu com Jesus. E a Igreja não cessa de dizer às nossas derrotas, aos nossos corações fechados e temerosos: «Parem, o Senhor ressuscitou». Mas se o Senhor ressuscitou, como existem essas situações? Tantas desgraças, doenças, tráfico de pessoas, guerras, destruições, mutilações, vinganças, ódio? Mas onde está o Senhor?

Ontem telefonei para um jovem que sofre de uma doença grave, um rapaz culto, engenheiro, e falando, para dar um sinal de fé, disse-lhe: «Não há explicações para o que te acontece. Olha para Jesus na Cruz, Deus fez isto com o seu Filho, e não há outra explicação». E ele respondeu-me: «Sim, mas Ele perguntou ao Filho, o qual disse sim. A mim não perguntou se eu queria». Isto comove-nos. [Deus] não pergunta a nenhum de nós: «Mas estás contente com o que acontece no mundo? Estás disposto a carregar esta cruz?». E a cruz vai em frente, e a fé em Jesus diminui.

Hoje a Igreja continua a dizer: «Para! Jesus ressuscitou!» Isto não é imaginação, a Ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores. É bonito, mas não é só isto, é mais: é o mistério da pedra rejeitada que acaba por ser o fundamento da nossa existência. Cristo ressuscitou, eis o que significa.

Nesta cultura do descartável na qual o que não serve é usado e jogado fora, o que não serve é descartado, aquela pedra — Jesus — foi descartada e é fonte de vida. E também nós, pedrinhas pelo chão, nesta terra de dor, de tragédias, com a fé em Cristo Ressuscitado ganhamos um sentido no meio de tanta calamidade. O sentido de olhar para além, o sentido de dizer: «Olha não há muros, mas horizontes, há vida, alegria, a cruz com esta ambivalência. Olha para frente, não te feches. Tu, pedrinha, tens um sentido na vida, porque és uma pedrinha junto daquela pedra, a pedra que a malvadez do pecado descartou». Que nos diz a Igreja hoje diante de tantas tragédias? Isto, simplesmente. A pedra descartada não está de fato descartada. As pedrinhas que acreditam e se apegam àquela pedra não são descartadas, ganham um sentido e com este sentimento a Igreja repete do fundo do coração: «Cristo ressuscitou».

Pensemos um pouco, cada um pense, nos problemas diários, nas doenças que vivemos ou que um dos nossos parentes sofre; pensemos nas guerras, nas tragédias humanas e, simplesmente, com voz humilde, sem flores, sozinhos, diante de Deus, diante de nós, digamos: «Não sei como vai isto, mas estou certo de que Cristo ressuscitou e aposto nisto».

Irmãos e irmãs, era o que desejava dizer-vos. Voltai para casa hoje, repetindo no coração: «Cristo ressuscitou».

Papa Francisco. Homilia do Domingo de Ressurreição. 16 de abril de 2017.

 Vivamos nosso Domingo ao longo da semana.

  1. Estamos chamados a ser criaturas novas no Senhor Ressuscitado e a «procurar as coisas do alto»: o antigo já passou. Façamos nossas resoluções concretas para viver uma «vida nova» em Jesus Ressuscitado.
  2. Vivamos com Maria a verdadeira alegria que nasce de um coração que se sabe amado por Jesus Ressuscitado. Rezemos em família o santo rosário.

[1] Vide estudo completo em: http://razonesparacreer.com/vio-y-creyo-pues-hasta-entonces-no-habian-comprendido-que-segun-la-escritura-jesus-debia-resucitar-de-entre-los-muertos/

 

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