II Domingo de Páscoa- Festa da Divina Misericórdia

324

II. A PALAVRA DE DEUS

At 4, 32-35:Um só coração e uma só alma.

32A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum.

33Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos.

34Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, 35e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído  conforme a necessidade de cada um.

Sal 117, 2-4.16-18.22-24: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; eterna é a sua misericórdia!’”

2A casa de Israel agora o diga:
‘Eterna é a sua misericórdia!’
3A casa de Aarão agora o diga:
‘Eterna é a sua misericórdia!’
4Os que temem o Senhor agora o digam:
‘Eterna é a sua misericórdia!’

16aA mão direita do Senhor fez maravilhas,
16ba mão direita do Senhor me levantou,
a mão direita do Senhor fez maravilhas!’
17Não morrerei, mas ao contrário, viverei
para cantar as grandes obras do Senhor!
18O Senhor severamente me provou,
mas não me abandonou às mãos da morte.

22‘A pedra que os pedreiros rejeitaram,
tornou-se agora a pedra angular.
23Pelo Senhor é que foi feito tudo isso:
Que maravilhas ele fez a nossos olhos!
24Este é o dia que o Senhor fez para nós,
alegremo-nos e nele exultemos!

1Jo 5, 1-6: “Todo aquele que nasceu de Deus venceu o mundo.

Caríssimos:

1Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus, e quem ama aquele que gerou alguém, amará também aquele que dele nasceu.

2Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos.

3Pois isto é amar a Deus: observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, 4pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo.

E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé. 5Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?

6Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. (Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue). E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade.

Jo 20, 19-31: Oito dias depois, Jesus entrou.

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse:

–’A paz esteja convosco’.

20Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse:

– ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio’.

22E depois de ter dito isto, soprou sobre eles e disse:

– ‘Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados  eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos’.

24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois:

– ‘Vimos o Senhor!’.

Mas Tomé disse-lhes:

– ‘Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei’.

26Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse:

– ‘A paz esteja convosco’.

27Depois disse a Tomé:

– ‘Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel’.

28Tomé respondeu:

– ‘Meu Senhor e meu Deus!’

29Jesus lhe disse:

– ‘Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!’

30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

II. COMENTÁRIOS

Notemos nas primeiras palavras que o Senhor Ressuscitado dirige a seus discípulos ao entrar no recinto fechado do Cenáculo: «A paz esteja convosco!». Esta invocação da paz sobre seus Apóstolos é recorrente. Repete-a novamente depois que eles se alegram por vê-lo ressuscitado, e ao aparecer novamente no Cenáculo, oito dias depois, estando Tomé com eles.

«A paz esteja convosco!» além de ser a tradicional saudação hebreia, é o anúncio do dom da autêntica paz que Deus dá de presente à humanidade inteira como fruto da Cruz e Ressurreição de seu Filho. Com efeito, em Cristo «Deus reconciliava ao mundo consigo» (2Cor 5, 19), «no mistério pascal se realizou, efetivamente, a reconciliação definitiva da humanidade com Deus, que é a fonte de todo progresso verdadeiro para a plena pacificação dos homens e dos povos entre si e com Deus» (S.S. João Paulo II).

Para os judeus a paz traz consigo todos os bens. Portanto, a paz é sinônimo de plena felicidade. Esta paz só pode vir de Deus, como um dom de seu amor e benevolência. Por que essa paz só pode ser alcançada por um dom divino, e não ser o fruto de uma esforçada construção humana? De que paz se trata? Esta paz não é mera ausência de conflitos exteriores, e sim a paz que procede da reconciliação das rupturas introduzidas no homem e em suas relações com Deus, consigo mesmo, com outros e com a criação toda pelo pecado.

Tal paz só pode ser efeito do perdão curativo de Deus e só pode vir ao coração humano como um dom de Sua misericórdia. Ele, por meio de seu profeta, tinha prometido a seu povo que aquela paz chegaria nos tempos messiânicos: «Concluirei com eles uma aliança de paz, um tratado eterno.» (Ez 37, 26). Esta paz, fruto daquela nova aliança, teria que ser perpétua e definitiva: «a paz será sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino.» (Is 9, 6).

Em cumprimento daquelas antigas promessas divinas, o Senhor ressuscitado traz e oferece aos homens o dom divino da paz, fruto da nova e eterna Aliança selada por Ele no Altar da Reconciliação. A paz que o Senhor Jesus traz para seus discípulos e oferece à humanidade inteira nasce de uma profunda reconciliação e renovação do coração do ser humano. Não é o resultado de esforços humanos, mas sim um dom que deve ser acolhido na própria vida e a seguir ser difundido ao mundo inteiro: «A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio.» Reconciliados, os apóstolos recebem a missão de ser ministros e servidores da reconciliação: «Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo, por Cristo, e nos confiou o ministério desta reconciliação» (2Cor 5, 18).

A paz verdadeira, a que procede da definitiva reconciliação do pecador com Deus, consigo mesmo, com os irmãos humanos e com a criação toda, foi introduzida na história pela Páscoa de Cristo. O Senhor Jesus é o único capaz de trazer a verdadeira e profunda paz ao coração humano porque Ele mesmo, Deus que se fez homem para nossa reconciliação, «é nossa paz» (Ef 2, 14): com sua Cruz derrubou os muros do ódio e da divisão, pois «ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz» (Ef 2, 15).

Sinal eloquente desta nova criação realizada é o Espírito que Ele, ressuscitado, sopra sobre seus Apóstolos. Este sopro traz à mente o momento em que Deus faz do ser humano um ser vivente (ver Gen 2, 7), assim como também a grande promessa feita por Deus a seu povo: «dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.» (Ez 36, 26). O amor de Deus derramado nos corações humanos pelo Espírito (ver Rom 5, 5), é vida, é amor que reconcilia, é amor que une em uma mesma comunhão a quem antes estava disperso ou dividido pelo pecado (ver 1ª. leitura).

A comunhão entre os crentes tem no Senhor Jesus seu centro indiscutível. Quem acredita que Ele é o enviado do Pai, «vence o mundo», a cultura de morte que se opõe a Deus e a seus desígnios (ver 2ª. leitura), e permanece em comunhão com Deus e com os irmãos. Trata-se de uma fé nutrida de amor, que se expressa em uma vida que guarda os mandamentos e ensinamentos divinos, uma vida reta que se consolida no Plano divino.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Quantos se veem afligidos dia a dia por experiências de vazio, de solidão, de tristeza e infelicidade, de dor e sofrimento – seja físico, psicológico ou espiritual –, de amarguras e ressentimentos, de impaciências, de incompreensões e pedidos? Quantos experimentam conflitos interiores que acarretam tantas ansiedades, medos e temores? Quantos, ao experimentar a desarmonia interior, desejam intensamente a paz?

Muitos, por não saber onde encontrar essa paz do coração que consigo traz a alegria e o gozo profundo, outra coisa não fazem senão percorrer desgovernadamente os caminhos da fuga. A diversão superficial, a alegria efêmera, as bebedeiras, o gozo ou o prazer momentâneo, parecem fazer esquecer a às vezes insuportável carga de angústia e dor que oprime o coração. Tais “soluções” ou saídas fáceis não trazem senão uma falsa paz, uma euforia efêmera. Quantos choram em segredo, enquanto externamente forçam o sorriso e a alegria, querendo esquecer e esconder sua própria carga de sofrimento e angústia porque não sabem o que fazer com ela? O remédio efêmero que a cultura de morte oferece termina sendo pior que a enfermidade. E aquilo que parece encher um vazio e trazer o consolo a um coração quebrado e dividido interiormente, ao passar o efeito paliativo não traz senão uma maior carga de frustração, de angústia, uma maior sensação de vazio, de solidão e falta de sentido na vida. Apanhados nessa espiral desgastante, sem saber onde ou sem querer procurar a fonte da verdadeira paz, não fazem outra coisa além de consumir “doses” cada vez mais elevadas da mesma “droga”.

Outros tantos se lançam em busca da paz e da harmonia interior seguindo chamativas e “inovadoras” doutrinas, terapias, filosofias, práticas, religiões orientais ou pseudo-religiões. Cada um é livre para tomar o caminho que queira, mas o triste e paradoxal é que muitos católicos, ao escutar os mestres e gurus da moda, explícita ou implicitamente deixaram de escutar a Cristo — fonte última da paz verdadeira — e os ensinamentos que Ele confiou a Sua Igreja. Como são atuais estas palavras, dirigidas por Deus a seu povo por meio do profeta: «Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água» (Jer 2,13)!

Para encontrar o remédio adequado é necessário um bom diagnóstico. De onde vem a falta de harmonia e de paz interior que o ser humano experimenta? Por que eu mesmo me experimento tantas vezes quebrado e dividido interiormente? A Revelação vem ao nosso encontro: a falta de harmonia e de paz interior têm sua origem no pecado, na rebeldia do homem frente a Deus e seus amorosos desígnios. Ao romper com Deus o ser humano se parte interiormente e cai em um processo de desintegração inclusive psíquica, rompe a comunhão com seus irmãos humanos e com toda a criação. O pecado, longe de levar a ser humano a sua plenitude e à glória divina — como sinuosamente tinha sugerido a antiga serpente (ver Gen 3,5) — voltou-se contra ele mesmo, afundando-o no abismo da morte. Com efeito, ao romper com a Fonte de sua própria vida e amor a criatura humana quebrou-se interiormente a si mesma, rompendo deste modo a comunhão com seus irmãos humanos e com toda a criação. Frutos amargos desta quádrupla ruptura são a perda da paz e da harmonia interior, que se expressam na experiência de vazio, solidão, tristeza, infelicidade, amargura, ansiedades, etc. Dessa falta de paz e harmonia no coração humano surgem todas as lutas, rixas, divisões e inclusive guerras entre os povos.

Qual é o remédio? Onde encontramos a verdadeira e profunda paz que desejam nossos inquietos corações? Em Cristo, recorda São Paulo, «Deus reconciliava o mundo consigo» (2Cor 5,19). Porque Deus nos ama, enviou seu próprio Filho para que nEle encontremos a paz que tanto necessitamos: «Ele é nossa paz!» (Ef 2,14). Ele, carregando sobre si nossos pecados, reconciliando-nos com o Pai na Cruz, abre-nos o caminho para uma profunda reconciliação e harmonia conosco mesmos, com todos os irmãos humanos e com toda a criação.

«A paz esteja convosco!», diz o Senhor também a nós, convidando-nos a acolher o dom da paz e da reconciliação que Ele nos obteve por sua Paixão, Morte e Ressurreição. Convidando-nos a verdadeiramente acolhê-lO em nossas vidas e nos convertermos também em agentes da reconciliação em nossa família, em nossos círculos de amizades e nos ambientes em que trabalhamos ou estudamos.

IV. PADRES DA IGREJA

São Cipriano: «O Espírito Santo nos faz esta advertência: “busca a paz e vai ao seu encalço” (Sal 33,15). O filho da paz tem que procurar e perseguir a paz. Aquele que ama e conhece o vínculo da caridade tem que guardar sua língua do mal da discórdia. Entre suas prescrições divinas e seus mandamentos de salvação, o Senhor, à véspera de sua paixão, acrescentou o seguinte: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.” (Jo 14,27). Esta é a herança que nos legou: todos os seus dons, todas as recompensas que nos prometeu tendem à conservação da paz que nos promete. Se somos os herdeiros de Cristo, permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus temos que ser pacíficos: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!” (Mt 5,9). Os filhos de Deus são pacíficos, humildes de coração, simples em suas palavras, concordam entre si pelo afeto sincero, unidos fielmente pelos laços da unanimidade».

São Cirilo: «Tenhamos vergonha de prescindir da saudação da paz que o Senhor nos deixou quando ia sair do mundo. A paz é um dom e uma coisa doce, que sabemos provir de Deus, segundo o que o Apóstolo diz aos Filipenses: “A paz de Deus” (Flp 4,7), e “Deus da Paz” (2Cor 13,11). Pois Deus mesmo é a Paz, já que “Ele é nossa paz” (Ef 2,14). A paz é um bem recomendado a todos, mas observado por poucos. Qual é a causa disso? Talvez o desejo do domínio, ou a ambição, ou a inveja, ou a intolerância ao próximo, ou o desprezo, ou alguma outra coisa que vemos a cada passo que damos naqueles que desconhecem o Senhor. A paz procede de Deus, que é quem tudo une. Deus, cujo ser é unidade de sua natureza e de seu estado pacífico. Ele a transmite aos anjos e às potestades do céu, que estão em constante paz com o Senhor e consigo mesmos. Também se estende por todas as criaturas que desejam a paz. Em nós subsiste, segundo o espírito de cada um, por meio da busca e exercício das virtudes, e segundo o corpo, no equilíbrio dos membros e dos elementos de que se forma. O primeiro se chama beleza, o segundo saúde».

São Gregório Magno: «Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Só este discípulo estava ausente e, ao voltar e escutar o que tinha acontecido, não quis acreditar no que lhe contavam. Apresenta-se de novo o Senhor e oferece ao discípulo incrédulo seu flanco para que o apalpe, mostra-lhe suas mãos e, mostrando-lhe a cicatriz de suas feridas, cura a ferida de sua incredulidade. O que é, irmãos muito amados, que revelam nestes fatos? Acaso vocês creem que esse fatos aconteceram por coincidência: que aquele discípulo eleito  primeiro estivesse ausente, que assim que veio, ouvisse, que para ouvir duvidasse, que ao duvidar apalpasse, que ao apalpar acreditasse?

»Tudo isto não aconteceu ao acaso, mas sim por disposição divina. A bondade de Deus atuou neste caso de um modo admirável, já que aquele discípulo que tinha duvidado, ao apalpar as feridas do corpo de seu mestre, curou as feridas de nossa incredulidade. Mais proveitosa foi para nossa fé a incredulidade de Tomé do que a fé dos outros discípulos, já que, ao ser ele induzido a acreditar pelo fato de ter apalpado, nossa mente, livre de toda dúvida, é confirmada na fé. Deste modo, com efeito, aquele discípulo que duvidou e que apalpou se converteu em testemunha da realidade da ressurreição.

»Apalpou e exclamou: “Meu senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!” Por isso Apóstolo Paulo diz: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). É evidente que a fé é a plena convicção daquelas realidades que não podemos ver, porque as que vemos já não são objeto de fé, mas sim de conhecimento. Por conseguinte, se Tomé viu e apalpou, como é que lhe diz o Senhor: Não acreditaste senão depois de me haver visto? É que o que acreditou superava o que viu. Com efeito, um homem mortal não pode ver a divindade. Por isso o que ele viu foi a humanidade de Jesus, mas confessou sua divindade ao dizer: meu senhor e meu Deus! Ele, pois, acreditou com tudo o que viu, já que, tendo diante de seus olhos um homem verdadeiro, proclamou-o Deus, coisa que escapava a seu olhar.

»E é para nós motivo de alegria o que vem a seguir: Felizes aqueles que creem sem ter visto! Nesta sentença o Senhor nos designa especialmente, nós que O guardamos em nossa mente sem vê-lO corporalmente. Designa-nos, com o intuito de que as obras acompanhem nossa fé, porque quem crê de verdade age segundo sua fé. Pelo contrário, com relação àqueles que acreditam só de boca, diz Paulo: “Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática o renegam, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra” (Tt 1,16). E São Tiago diz: “A fé: se não tiver obras, é morta em si mesma”. (Tg 2,17)».

V. CATECISMO DA IGREJA

As aparições do Ressuscitado

  1. Maria Madalena e as santas mulheres, que vinham para acabar de embalsamar o corpo de Jesus, sepultado à pressa por causa do início do «Sábado», no fim da tarde de Sexta-feira Santa, foram as primeiras pessoas a encontra-se com o Ressuscitado. Assim, as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo para os próprios Apóstolos. Em seguida, foi a eles que Jesus apareceu: primeiro a Pedro, depois aos Doze. Pedro, incumbido de consolidar a fé dos seus irmãos, vê, portanto, o Ressuscitado antes deles e é com base no seu testemunho que a comunidade exclama: «Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24, 34.36).
  2. Tudo quanto aconteceu nestes dias pascais empenha cada um dos Apóstolos – e muito particularmente Pedro – na construção da era nova, que começa na manhã do dia de Páscoa. Como testemunhas do Ressuscitado, eles são as pedras do alicerce da sua Igreja. A fé da primeira comunidade dos crentes está fundada no testemunho de homens concretos, conhecidos dos cristãos e, a maior parte, vivendo ainda entre eles. Estas «testemunhas da ressurreição de Cristo» (ver At 1, 22) são, em primeiro lugar, Pedro e os Doze. Mas há outros: Paulo fala claramente de mais de quinhentas pessoas às quais Jesus apareceu em conjunto, além de Tiago e de todos os Apóstolos. (ver 1 Cor 15, 4-8)
  3. Perante estes testemunhos, é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não a reconhecer como um fato histórico. Resulta, dos fatos, que a fé dos discípulos foi submetida à prova radical da paixão e morte de cruz do seu Mestre, por este de antemão anunciada. O abalo provocado pela paixão foi tão forte que os discípulos (pelo menos alguns) não acreditaram imediatamente na notícia da ressurreição. Longe de nos apresentar uma comunidade tomada de exaltação mística, os evangelhos apresentam-nos os discípulos abatidos (de «rosto sombrio»: Lc 24, 17) e apavorados. Foi por isso que não acreditaram nas santas mulheres, regressadas da sua visita ao túmulo, e «as suas narrativas pareceram-lhe um desvario» (Lc 24, 11). Quando Jesus apareceu aos onze, na tarde do dia de Páscoa, «censurou-lhes a falta de fé e a teimosia em não quererem acreditar naqueles que O tinham visto ressuscitado» (Mc 16, 14).
  4. Mesmo confrontados com a realidade de Jesus Ressuscitado, os discípulos ainda duvidam, a tal ponto que isso lhes parecia impossível: julgavam ver um fantasma. «Por causa da alegria, estavam ainda sem querer acreditar e cheios de assombro» (Lc 24, 41). Tomé experimentará a mesma provação da dúvida, e quando da última aparição na Galileia, referida por Mateus, «alguns ainda duvidavam» (Mt 28, 17).É por isso que a hipótese, segundo a qual a ressurreição teria sido um «produto» da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos, é inconsistente. Pelo contrário, a sua fé na ressurreição nasceu — sob a ação da graça divina da experiência direta da realidade de Jesus Ressuscitado.

O estado da humanidade ressuscitada de cristo

  1. Jesus Ressuscitado estabeleceu com os seus discípulos relações diretas, através do contacto físico (ver Lc 24,39; Jo 20, 27) e da participação na refeição (ver Lc 24,30.41-43; Jo 21,9.13-15). Desse modo, convida-os a reconhecer que não é um espírito (ver Lc 24,39), e sobretudo a verificar que o corpo ressuscitado, com o qual se lhes apresenta, é o mesmo que foi torturado e crucificado, pois traz ainda os vestígios da paixão (ver Lc 24,40; Jo 20,20.27). No entanto, este corpo autêntico e real possui, ao mesmo tempo, as propriedades novas dum corpo glorioso: não está situado no espaço e no tempo, mas pode, livremente, tornar-se presente onde e quando quer (ver Mt 28,9.16-17; Lc 24,15.36; Jo 20,14.19.26; 21,4), porque a sua humanidade já não pode ser retida sobre a terra e já pertence exclusivamente ao domínio divino do Pai (ver Jo 20,17). Também por este motivo, Jesus Ressuscitado é soberanamente livre de aparecer como quer: sob a aparência dum jardineiro (ver Jo 20,14-15) ou «com um aspecto diferente» (Mc 16, 12) daquele que era familiar aos discípulos; e isso, precisamente, para lhes despertar a fé (ver Jo 20,14.16; 21,4.7).

A paz vem pela reconciliação

  1. «Toda a eficácia da Penitência consiste em nos restituir à graça de Deus e em unir-nos a Ele numa amizade perfeita». O fim e o efeito deste sacramento são, pois, a reconciliação com Deus. Naqueles que recebem o sacramento da Penitência com coração contrito e disposição religiosa, seguem-se-lhe «a paz e a tranquilidade da consciência, acompanhadas de uma grande consolação espiritual». Com efeito, o sacramento da reconciliação com Deus leva a uma verdadeira «ressurreição espiritual», à restituição da dignidade e dos bens próprios da vida dos filhos de Deus, o mais precioso dos quais é a amizade do mesmo Deus.

 

VI. OUTRAS REFLEXÕES DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE[1]

Uma palavra do Santo Padre:

«Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro” (Jo 20,30). O Evangelho é o livro da misericórdia de Deus, para ler e reler, porque tudo o que Jesus disse e fez é expressão da misericórdia do Pai. Entretanto, nem tudo foi escrito; o Evangelho da misericórdia continua sendo um livro aberto, onde continuam sendo escritos os sinais dos discípulos de Cristo, gestos concretos de amor, que são o melhor testemunho da misericórdia. Todos estamos chamados a ser escritores vivos do Evangelho, portadores da Boa Notícia a todo homem e mulher de hoje.

Podemos fazer isso realizando as obras de misericórdia corporais e espirituais, que são o estilo de vida do cristão. Por meio destes gestos simples e fortes, às vezes até invisíveis, podemos visitar os necessitados, levando-lhes a ternura e o consolo de Deus. Seguimos, assim, aquilo que Jesus fez no dia da Páscoa, quando derramou nos corações dos discípulos temerosos a misericórdia do Pai, o Espírito Santo que perdoa os pecados e dá a alegria.

Entretanto, no relato que escutamos surge um contraste evidente: por um lado, está o medo dos discípulos que fecham as portas da casa; por outro lado, o mandato missionário da parte de Jesus, que os envia ao mundo para levar o anúncio do perdão. Este contraste pode manifestar-se também em nós, uma luta interior entre o coração fechado e o chamado do amor para abrir as portas fechadas e sair, sair de nós mesmos.

Cristo, que por amor entrou através das portas fechadas do pecado, da morte e do inferno, deseja entrar também em cada um para abrir de par em par as portas fechadas do coração. Ele, que com a ressurreição venceu o medo e o temor que nos aprisiona, quer abrir nossas portas fechadas e nos enviar. O caminho que o Senhor ressuscitado nos indica é de uma só via, vai em uma única direção: sair de nós mesmos, para dar testemunho da força curadora do amor que nos conquistou».

Papa Francisco. Domingo, 3 de abril de 2016.

Vivamos nosso Domingo ao longo da semana.

  1. Tomé não pôde ficar igual depois do encontro com Jesus Ressuscitado. Saiu como um apóstolo convencido, saiu do cenáculo para anunciar Cristo a seus irmãos. Cada um de nós está chamado a experimentar o mesmo amor de Cristo com tanta intensidade que não possa continuar sendo o mesmo. Quando São Maximiliano Kolbe se encontrava de pé diante dos oficiais nazistas vendo como condenavam um homem com família a morrer de fome no «bunker», seu coração não ficou parado. Experimentou que ele devia dar a vida, como Cristo a havia dado por ele. Qual é e até onde chega minha coerência cristã? O que estou fazendo para «vencer o mundo», para «ganhá-lo para Cristo», para ajudar a todos a alcançar a reconciliação?
  2. Este segundo Domingo do Páscoa foi declarado por São João Paulo II como O Domingo da Divina Misericórdia». Título e tesouro que se difundiu nas últimas décadas por impulso de Santa Maria Faustina Kowalska (1905-1938). A misericórdia divina é, sempre, a mais bela e consoladora revelação do mistério cristão: «A terra está cheia de miséria humana, mas transbordante da misericórdia de Deus» (Santo Agostinho). Esta é sempre a «boa notícia» que devemos comunicar a todos.

[1] Vide estudo completo em: http://razonesparacreer.com/senor-mio-y-dios-mio-3/

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here