III DOMINGO DA QUARESMA – “O zelo da tua casa me devora”

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I. A PALAVRA DE DEUS

Ex 20, 1-17:A Lei foi dada por Moisés.

Naqueles dias, 1Deus pronunciou todas estas palavras:

2‘Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão.

3Não terás outros deuses além de mim.

4Não farás para ti imagem esculpida,  nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra.

5Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento. Castigo a culpa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração dos que me odeiam, 6mas uso da misericórdia por mil gerações com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.

7Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não deixará sem castigo quem pronunciar seu nome em vão.

8Lembra-te de santificar o dia de sábado. 9Trabalharás durante seis dias e farás todos os teus trabalhos, 10mas o sétimo dia é sábado dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu gado, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades. 11Porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso o Senhor abençoou o dia do sábado e o santificou.

12Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará.

13Não matarás.

14Não cometerás adultério.

15Não furtarás.

16Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.

17Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo,  nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença’.

Sal 19(18),8.9.10.11.: “Senhor, tens palavras de vida eterna”

8A lei do Senhor Deus é perfeita,
conforto para a alma!
O testemunho do Senhor é fiel,
sabedoria dos humildes.

9Os preceitos do Senhor são precisos,
alegria ao coração.
O mandamento do Senhor é brilhante,
para os olhos é uma luz.

10É puro o temor do Senhor,
imutável para sempre.
Os julgamentos do Senhor são corretos
e justos igualmente.

11Mais desejáveis do que o ouro são eles,
do que o ouro refinado.
Suas palavras são mais doces que o mel,
que o mel que sai dos favos.

1Cor 1,22-25:Pregamos Cristo crucificado, escândalo para os homens; mas para os chamados, sabedoria de Deus.

Irmãos:

22Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; 23nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos. 24Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus.

25Pois o que é dito insensatez de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

Jo 2,13-25:Destruí, este templo e, em três dias eu o levantarei.

13Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16E disse aos que vendiam pombas:

– ‘Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!’

17Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz:

– ‘O zelo por tua casa me consumirá’.

18Então os judeus perguntaram a Jesus:

– ‘Que sinal nos mostras para agir assim?’

19Ele respondeu:

– ‘Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei.’

20Os judeus disseram:

– ‘Quarenta e seis anos foram precisos para a construção  deste santuário e tu o levantarás em três dias?’

21Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.

23Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. 24Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; 25e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro.

II. COMENTÁRIOS

São João relata em seu Evangelho que depois de realizar seu primeiro milagre em Caná o Senhor se dirige a Jerusalém, porque já se aproximava a Páscoa judia (Evangelho). O Senhor cumpre fielmente com o preceito que mandava que todo judeu varão a partir dos treze anos fosse anualmente em peregrinação ao Templo de Jerusalém em razão desta festa.

Uma vez em Jerusalém, o Senhor se dirige ao Templo. Aquele Templo tinha sido reconstruído por Herodes o Grande. Os trabalhos começaram no ano 18 de seu reinado, ou seja, em 20-19 a.C. O primeiro a ser reconstruído foi o santuário, o lugar da presença de Deus, o recinto no qual somente podiam entrar os sacerdotes levitas. Depois foram construídos os vários átrios: o átrio dos sacerdotes, o átrio de Israel, o átrio das mulheres e o átrio dos gentios. Tudo isso demandou quase dez anos, embora tenham prosseguido por décadas as obras de acabamento.

Ao transpor alguma das portas de acesso ao imenso complexo ingressava-se no átrio ou pátio chamado “dos gentios”, a esplanada mais ampla que rodeava um segundo complexo interior quadrangular formado pelo santuário e pelos sucessivos átrios dos sacerdotes, de Israel e das mulheres.

Na época do Senhor Jesus, existiam normas feitas pelos rabinos para cuidar da santidade do Templo, como por exemplo, a proibição de usar o átrio dos gentios como atalho ou de forma pouco digna. Entretanto, apesar das restrições existentes, os comerciantes com seus animais e os cambistas se instalaram na esplanada, com o evidente consentimento das autoridades do Templo, provavelmente com a desculpa de facilitar aos peregrinos a aquisição dos animais necessários para oferecer seus sacrifícios (ver Lev 5, 7; 15, 14.29; 17, 3) assim como para adquirir moedas autorizadas com as quais pudessem pagar o imposto do Templo. Todo israelita que alcançasse os vinte anos, inclusive se vivia no estrangeiro, devia pagar anualmente este imposto equivalente a dois dias de jornada de trabalho (ver Mt 17, 24), e a moeda para o pagamento não podia ter a efígie do imperador gravada. Enfim, não é difícil imaginar no que se converteu esta esplanada do templo com a presença destes personagens, especialmente em uma festa de afluência tão multitudinária como era a Páscoa judia.

Quando o Senhor Jesus chegou ao Templo e encontrou-se com este “mercado”, pôs-se a expulsar do recinto sagrado, chicote na mão, todos os vendedores, cambistas e animais. A razão de seu proceder era dada por Ele mesmo: «Não façais da Casa de meu Pai uma casa de comércio».

Ao referir-se ao Templo como “a casa de meu Pai” o Senhor dava a entender que Ele era o Messias, mas, além disso, que também era o Filho de Deus, em um sentido pessoal e único.

Naquele tempo os judeus esperavam que o Messias prometido por Deus a seu povo se manifestasse no Templo, mediante algum sinal espetacular. O profeta Malaquias tinha anunciado que o Senhor viria a seu Templo depois que seu enviado o precedesse e lhe aplainasse o caminho: «Vou mandar o meu mensageiro para preparar o meu caminho. E imediatamente virá ao seu templo o Senhor que buscais» (Mal 3,1). Sua presença seria purificadora: «ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia(1)[1] dos lavadeiros» (Mal 3,2). Depois que João Batista completou sua missão precursora, o Senhor chegava pela primeira vez ao Templo e dava cumprimento às profecias.

O evangelista comenta que os discípulos, ao ver o Senhor atuar com tal paixão, recordaram que na Escritura estava escrito: «O zelo de sua casa me devora». A expressão se encontra no Salmo 68 (V. 10), o mesmo salmo que o Senhor dirá que “se cumpre” quando o odeiam sem motivo (Jo 15,25; Sal 68,5), ou que João afirma que se cumpre quando, na Cruz, Ele pronuncia as palavras “tenho sede” (Jo 19, 28s; Sal 68, 22).

O termo hebreu kinah usado no Salmo 68 e que se traduz por zelo, em geral qualifica um ardor interior que a pessoa experimenta por causa de outra a quem ama apaixonadamente; é como um fogo ou energia que lhe impulsiona a defender, proteger ou cuidar com ações até violentas a quem é objeto de seu amor. Kinah designa no caso específico do salmo mencionado um zelo religioso, o zelo do homem por Deus e pelo lugar no qual Ele mora entre os homens, “a casa de Deus”, que também é zelo pelo cumprimento de sua Lei (ver Sal 118, 139). Kinah designa em outros momentos também o zelo de Deus por seu povo.

Deus se qualifica a Si mesmo como um «Deus ciumento» (Ex 20, 5). É ciumento pelo ser humano, a quem criou por superabundância de amor a sua imagem e semelhança. Ao escutar “ciumento” não se deve pensar na conotação negativa do ciúme, que levaria a entender as coisas com uma única interpretação. O próprio dicionário traz outras definições de ciumento, como por exemplo: “solícito, diligente, cuidadoso, esmerado, meticuloso, entusiasta, laborioso, ardoroso”. É assim que temos que entender o zelo de Deus pelo ser humano. É assim como também temos que entender o zelo do Senhor Jesus pela casa de seu Pai, um zelo que o devora. Quer dizer: seu amor ao Pai é tão intenso que o consome interiormente como um fogo incontrolável, um fogo que O leva a purificar a casa de seu Pai de tudo aquilo que a profana.

Em algum momento posterior intervieram “os judeus” para perguntar ao Senhor: «Que sinal nos mostras para agir assim?». Ao dizer “os judeus” São João normalmente se refere àqueles judeus que se apresentam como inimigos do Senhor Jesus. Neste caso concreto se refere às autoridades ou altos funcionários levíticos encarregados do Templo. A atitude do Senhor Jesus significava uma censura implícita que os questionava e desafiava, pois eram eles que tinham permitido que a casa de Deus se convertesse em um lugar de comércio.

Os que assim perguntam compreenderam a mensagem do Senhor Jesus: ao purificar o Templo e reclamar que não façam da casa de seu Pai uma feira, Ele se apresenta como o Messias e Filho de Deus, de um modo muito atrevido. Quais são suas “credenciais”? Como saber se é verdadeiramente quem diz ser? Não se devia apresentar com sinais claros, com algum sinal ou manifestação espetacular de seu poder, com uma intervenção sobrenatural ou milagre que servisse como garantia de que verdadeiramente era quem dizia ser?

O Senhor oferece esse “sinal”, embora o anuncie de uma maneira velada e enigmática, como acontece em toda profecia: «Destruí este templo, e em três dias o levantarei!»

O templo de Jerusalém, considerado indestrutível por aqueles judeus, por ser a morada que Deus mesmo escolheu para si, era, na mente do Senhor, figura e anúncio de outro Templo não construído por mãos humanas: o Templo de seu próprio Corpo. Certamente, «a vinda de nosso Salvador no tempo foi como a edificação de um templo sobremaneira glorioso; este templo, se comparado com o antigo, é tão mais excelente e eminente quanto o culto evangélico de Cristo supera o culto da lei ou quanto a realidade ultrapassa suas figuras» (São Cirilo de Alexandria). Seu Corpo é e será para sempre o verdadeiro Templo no qual o crente encontra a Deus, o Templo perpétuo que leva à plenitude a figura do antigo templo.

E o sinal que o Senhor dá não é outro senão o “sinal de Jonas” (ver Mt 12, 38-40): «em três dias eu o levantarei». Sua Ressurreição será o sinal definitivo e fundamental que propõe a todos para autenticar sua obra, sua missão e sua Pessoa. Por sua morte e Ressurreição todos têm que saber que Ele verdadeiramente é o Messias, o Filho de Deus, «poder e sabedoria de Deus» (2ª. leitura).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Cristo mostra um zelo que o consome, que o devora interiormente: é o “zelo pela casa de seu Pai”. Este zelo o impulsiona a enxotar, sem contemplações, a feira que encontra no templo de Jerusalém que, embora se tratasse de um edifício material, era “a casa de seu Pai”.

Hoje esse templo de Deus é Sua Igreja, o Corpo místico de Cristo. Este templo é formado por cada um de nós, os batizados, membros do Corpo místico de Cristo.

Por sua vez temos que entender que cada um de nós é templo vivo de Deus: «Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…) isto sois vós.» (1Cor 3,16-17).

Ao olhar para nós mesmos e nos considerarmos o que somos e estamos chamados a ser, templos vivos de Deus, a casa do Pai, com pena constatamos que, diferentes do Senhor Jesus, esse mesmo “zelo pela casa do Pai” não nos devora. Precisamente: quantas vezes consinto que a feira de um mundo que rechaça a Deus invada este templo que sou eu mesmo, este templo que Cristo purificou mediante seu Sangue derramado na Cruz? Com que facilidade, ingenuidade ou cumplicidade abro as portas de meu coração àqueles “mercadores” e hábeis “vendedores” que não nos vendem ovelhas, bois ou pombas, mas sim continuamente nos apresentam o prazer e todo tipo de sensualidades, o poder e o exercício do domínio abusivo sobre os outros, o ter abundância de dinheiro e bens materiais como aquilo que “necessitamos”, “o que mais nos convém” para sermos felizes, para chegarmos a “ser alguém” na vida, para sermos “como deuses” tirando o próprio Deus de nossa vida, de nossas famílias e sociedades! Com que negligência abro as portas a estes vendedores e “cambistas” para fazer de meu corpo uma feira! Com efeito, ao consentir e dar capacidade a estes novos vendedores e cambistas com suas próprias moedas, bois e pombas, terminamos tão sujos interiormente, desordenados, cheios de desassossego e vazios de Deus.

Faço como Cristo, que expulsou os mercadores do templo? Reajo com zelo contra todo vício ou pecado que descubro em mim, e que faz desta “casa do Pai” que sou eu mesmo uma “feira”? O que devo fazer?

Não perceber os mercadores que há em alguém, fazer vista gorda ou enganar-se a si mesmo pensando que o que eles oferecem é o que alguém “necessita”, e “necessita já, neste instante”, é um grave problema. Por isso convém que nesta semana façamos um exame de consciência mais detalhado para tomar consciência justamente de quais são os vícios dos quais tenho que purificar meu coração, pois é muito fácil que, como as autoridades do templo, consintamo-los porque acreditamos que são inevitáveis, ou até necessários. Por que tirá-los? Por que combater tal ou qual vício, se “eu sou assim”? Mas o que é “normal” para nós, não o é para o Senhor Jesus. Ele, com ira Santa, expulsa do templo o que outros consentiram sem escrúpulos. O que Ele expulsaria do templo de meu coração? Entende que seus vícios são como ervas más que afogam em ti a boa semente. São raízes amargas que você terá que extirpar para que cresça o trigo limpo. Como é importante olhar para dentro de nós mesmos com honestidade, conhecer com a luz do Senhor e dos mandamentos que nos dá (1ª. leitura) nossos vícios, desmascarar os mercadores que consentimos em nosso coração, os produtos que compramos deles! Que importante é tomar consciência daquilo que não está bem em nossas atitudes, em nossos modos de pensar e até nos sentimentos que consentimos e que nunca questionamos, deixando que esses sentimentos governem nossa vida! Há sentimentos que são muito maus conselheiros! Não podemos conduzir nossa vida apoiando esses sentimentos. Em vez disso, devemos aprender a fazê-lo apoiados no critério objetivo, no ensinamento divino!

O primeiro passo para uma maior conversão, para fazer deste templo que sou eu uma verdadeira “casa de oração”, é essa tomada de consciência. O seguinte passo é passar à ação, à purificação do próprio templo. Uma vez que identifico meus vícios, de que pé eu manco, devo começar a lutar não contra todos de uma vez, mas contra aquele que considero ser o meu vício principal. Não é fácil desarraigar um vício. É uma luta que durará toda a vida! Assim nunca se desanime se parecer que você não avança, ou se cair uma e outra vez. Ponha-se sempre de pé, com humildade e paciência, uma e outra vez, pede perdão a Deus e volta para a batalha! Proponha meios concretos para combater seu vício principal. Proponha meios para viver a virtude contrária a tal vício.

É tempo de Quaresma, tempo de nos purificarmos mais, tempo de expulsar os “mercadores” do templo que sou eu mesmo. Implorando o auxílio e a graça divina, vivendo de acordo com a sabedoria da Cruz e de acordo com os dez mandamentos, nos esforcemos por morrer para tudo o que é morte em nós para viver a Vida verdadeira, fazendo de nossa morada interior uma casa de oração, lugar de diálogo, de encontro e comunhão com Deus Pai (ver Jo 14,23).

IV. PADRES DA IGREJA

Santo Agostinho: «Aquele templo não era outra coisa além de uma figura, e o Senhor expulsou a todos os que vinham ali para vender. E o que é o que ali vendiam? O que os homens necessitavam para os sacrifícios daqueles tempos. O que teria dito se ali tivesse encontrado bêbados? Se não se deve fazer nenhuma negociação na casa do Senhor, deverá fazer-se casa de bebidas?».

São João Crisóstomo: «Mas a que fim se propôs o Salvador ao agir com tanta veemência? Ele que tinha que curar no sábado e tinha que fazer muitas coisas que pareciam contrárias à Lei, fez isto, embora com perigo, para não aparecer como inimigo de Deus, dando a entender que aquele que nos perigos se expõe pela honra que se deve à casa de Deus, não menospreza o Senhor dela, e portanto, para demonstrar sua conformidade com Deus, não disse “a casa Santa”, mas sim “a casa de meu Pai”».

São Beda: «Mas seus discípulos, vendo no Salvador zelo ardentíssimo, lembraram-se de que o Salvador tinha expulsado os ímpios do templo pelo zelo que tinha pela casa de seu Pai».

Santo Agostinho: «Também é consumido pelo zelo da casa de Deus aquele que se esforça por emendar tudo de mau que nela encontra, e se não puder emendá-lo, tolera-o, mas se aflige. Portanto, se te esforças para que em tua casa não se faça nada de mau, na casa de Deus, onde se encontra a salvação, deverás tolerar, no que de ti dependa, se encontrar algo mau? Se for um amigo, adverte-o com prudência; se for tua mulher, repreende-a com severidade; faz tudo o que possa e conforme seja a pessoa que tenha a teu cargo».

Santo Agostinho: «Os que vendem na Igreja são os que procuram o que lhes agrada e não o que agrada a Jesus Cristo, fazendo tudo vendível, porque querem ser pagos».

São Beda: «As ovelhas são também todas as obras boas e piedosas. Vendem, pois, ovelhas todos aqueles que dão suas esmolas ao templo como se fosse um empréstimo, ou fazem boas obras para ganhar o afeto humano, e estes são todos aqueles que servem à Igreja manifestamente só para serem vistos. E transformam também em casa de negociação a casa do Senhor, não só todos aqueles que exercem as sagradas ordens por dinheiro, por louvor ou por honra pessoais, mas também aqueles que, na Igreja, não cumprem os deveres espirituais do cargo que receberam pela graça do Senhor, com boa intenção, e sim com o fim de obter retribuição humana».

V. CATECISMO DA IGREJA

O templo como lugar privilegiado para o encontro com Deus

  1. Jesus subiu ao templo como quem sobe ao lugar privilegiado de encontro com Deus. O templo é para Ele a casa do seu Pai, uma casa de oração, e indigna-Se com o fato de o átrio exterior se ter tornado lugar de negócio. Se expulsa os vendilhões do templo é pelo amor zeloso a seu Pai: «Não façais da casa do meu Pai casa de comércio». «Os discípulos recordaram-se de que estava escrito: “O zelo pela tua casa devorar-me-á” (Sl 69, 10)» (Jo 2, 16-17). Depois da ressurreição, os Apóstolos guardaram para com o templo um respeito religioso.
  2. No entanto, nas vésperas da sua paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra. Há aqui o anúncio de um sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a sua própria Páscoa. Mas esta profecia pôde ser referida de modo deturpado por falsas testemunhas, quando do interrogatório a que Jesus foi sujeito em casa do sumo-sacerdote e ser-Lhe lançada em rosto, como injúria, quando agonizava, pregado na cruz .

Um novo templo

  1. Longe de ter sido contra o templo onde proclamou o essencial da sua doutrina, Jesus quis pagar o imposto do templo, associando a Si Pedro, que Ele acabara de estabelecer como pedra basilar da sua Igreja futura. Mais ainda: identificou-Se com o templo, apresentando-Se como a morada definitiva de Deus entre os homens. Por isso é que a sua entrega à morte corporal prenuncia a destruição do templo, a qual vai assinalar a entrada numa nova idade da história da salvação: «Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai» (Jo 4, 21).

A igreja, casa de oração

  1. A igreja, casa de Deus, é o lugar próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial. É também o lugar privilegiado para a adoração da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. A escolha dum lugar favorável não é indiferente para a verdade da oração.

Os Santos são templo de Deus

  1. Na comunhão dos santos desenvolveram-se, ao longo da história das Igrejas diversas espiritualidades. O carisma pessoal duma testemunha do amor de Deus pelos homens pode ter sido transmitido, como o espírito de Elias o foi a Eliseu e a João Batista, para que haja discípulos que partilhem desse espírito. Uma espiritualidade está também na confluência doutras correntes, litúrgicas e teológicas, e testemunha a inculturação da fé num determinado meio humano e na respectiva história. As espiritualidades cristãs participam na tradição viva da oração e são guias indispensáveis para os fiéis. Refletem, na sua rica diversidade, a pura e única luz do Espírito Santo.

VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

Com o início do novo século e milênio queremos nos renovar em nossa consciência da necessidade que temos acima de tudo de ser santos para poder responder aos prementes desafios evangelizadores que se abrem diante de nós. Hoje fazemos eco à exortação do Papa Paulo VI «exortamos os leigos, e com estes, as famílias cristãs, os jovens e os adultos, todos os que exercem uma profissão, os dirigentes, sem esquecer os pobres, quantas vezes ricos de fé e de esperança, enfim, todos os leigos conscientes do seu papel evangelizador ao serviço da sua Igreja ou no meio da sociedade e do mundo; e a todos nós diremos: É preciso que o nosso zelo evangelizador brote de uma verdadeira santidade de vida, alimentada pela oração e sobretudo pelo amor à eucaristia, e que, conforme o Concílio no-lo sugere, a pregação, por sua vez, leve o pregador a crescer em santidade» (Evangelii Nuntiandi, 76-e).

A santidade, finalmente, consiste em recuperar a semelhança perdida pelo pecado mediante a plena configuração com o Senhor Jesus: «para alcançar essa perfeição, os fiéis, segundo a diversidade dos dons recebidos de Cristo, deverão esforçar-se para que, seguindo suas pegadas e fazendo-se conformes a sua imagem, obedecendo à vontade do Pai, entreguem-se com toda generosidade à glória de Deus e ao serviço ao próximo». Ser santo implica, portanto, morrer ao homem velho, aderir-se à Verdade e à Beleza, revestir-se de Cristo, crescer à estatura de Cristo, transformar-se em outro Cristo, brilhar com a vida de Cristo, expressar a Verdade de Cristo.

Convêm recordar finalmente que a santidade,  em abertura à graça concretiza-se no cumprimento diário dos desígnios divinos. É o único caminho que conduz a criatura humana a sua própria plenitude e felicidade. O contrário, a rejeição a Deus e seus desígnios, implica a negação do que o homem é, a negação de sua origem, do  formoso sentido de sua existência e de seu destino. Isso conduz inevitavelmente a sua própria destruição. (Caminho para Deus N. 83)

Fomos convocados a “permanecermos firmes no Senhor” a sermos – com humildade, mas respondendo ao chamado de Deus – “testemunhas fortes do Amor de Deus” no meio das dificuldades de um mundo que optou por caminhos de morte. Justamente sobre isto ensina Santo Agostinho que a fortaleza é um “testemunho incontestável” da existência do mal.

Dentre os meios concretos para avançar por este caminho podemos lembrar daqueles que nos propõe o Papa Emérito, Bento XVI, para crescermos fortes e valentes de coração: “Procurem alimentarem-se espiritualmente com a oração e com uma intensa vida sacramental; aprofundem no conhecimento pessoal de Cristo e tendam com todas as forças à santidade, o “alto grau de uma vida cristã”, como costumava dizer o querido João Paulo II” Testemunhas exemplares deste amor são os santos, que tiraram da Eucaristia o alimento de uma caridade ativa e, muitas vezes, heróica. No amor e entrega total ao Plano de Deus encontravam a força para o apostolado. “As coisas invisíveis são, justamente, as mais profundas e importantes. Por isso, vamos ao encontro deste Senhor invisível, mas forte, que nos ajuda a viver bem”.».(Caminho para Deus N. 144)

[1] – Lixívia – solução alcalina usada para clarear roupas ou superfícies, como um detergente ou água sanitária

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