Integrando a tristeza

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Enquanto caminhamos nesse mundo estamos sujeitos em todo momento a todo tipo de experiências. Sejam elas alegres, importantes, tristes ou superficiais, não podemos negar que o mundo ao nosso redor influencia bastante naquilo que estamos sentindo. O sentimento de tristeza é muitas vezes visto como algo que precisa ser desterrado o mais rápido possível de nossas vidas, como uma doença que precisa ser medicada a todo custo. Mas será que essa é a melhor maneira de se aproximar a essa realidade? Será que a tristeza pode ter alguma espécie de papel em nossas vidas?

Me vem à mente o filme Divertidamente que saiu nos cinemas a algum tempo já. Nele, os personagens principais são as emoções, que possuem seu “centro de operações” no cérebro de uma garotinha. No começo, Alegria era a que liderava e tinha certo pavor da Tristeza, que viva no seu cantinho e sempre que conseguia algum protagonismo parecia fazer a vida da menina mais infeliz. Por isso Alegria fazia de tudo para que a tristeza não tocasse em nada, com medo de sua contaminação.

Podemos fazer muitas analogias com a vida real. Por exemplo quando buscamos sobrepor um sentimento triste com a busca de prazeres que supostamente retornariam a alegria a nosso coração. Também o constante medo de passar por alguma provação ou situação delicada como a morte de um ente querido e não conseguir nunca mais voltar a ser alegre. Se olhamos com cuidado, podemos ver que muitas vezes agimos de forma muito parecida com as emoções da garotinha. Quem não gostaria de ser alegre o tempo todo?

Mas é preciso amadurecer. E isso também é mostrado no filme de uma forma muito interessante. Em um momento crucial da trama, Alegria percebe que uma das memórias mais alegres é também, por outro lado uma memória triste (E isso é mostrado de maneira genial porque as memórias são esferas e, nesse caso, um lado tem a cor alegre e outro a triste). É apenas quando Alegria se dá conta dessa interdependência que as emoções se reconciliam e podem voltar ao painel de controle, agora mais complexo do que antes devido ao amadurecimento alcançado.

Será que algo assim não acontece pode acontecer também conosco, em nosso próprio processo de amadurecimento? Sabemos que não há como exilar a tristeza da nossa vida, porque ela acaba sempre encontrando um jeito de voltar. Aqui podemos dar um salto ainda mais profundo que o filme não traz. Na verdade, nós católicos sabemos que possuímos uma realidade ainda mais profunda que a das emoções e pensamentos. É a realidade espiritual, e é ela que (deveria) governar a nossa vida, não as emoções.

Nessa realidade encontramos a fé, a esperança e a caridade. Essas virtudes infundidas por Deus em nós, que são capazes de integrar todas as nossas experiências e dotá-las de sentido. Pela fé, cremos em um Deus Todo Poderoso que se fez homem por nós, pela nossa salvação e que morreu por nós, perdoando nossos pecados. Na esperança da vida eterna podemos experimentar as tribulações da vida com a certeza de que nem a morte tem a última palavra. E pela caridade vivemos o amor, essência de Deus e de nossas vidas, já aqui nessa vida, dando seu sentido a tudo o que somos e fazemos.

Em todo esse conjunto, a tristeza deixa de ser uma vilã a ser desterrada a todo custo e passa a ter seu próprio lugar, que não é, nem de longe, o mais importante em nossas vidas, mas que não é também desprezível. O Amor é o lugar mais importante, como diz são Paulo: “Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade” (1Cor 13, 13), e ele é capaz de integrar, reconciliar e dar sentido a qualquer tristeza.

Por João Antonio Johas Leão

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