IV DOMINGO DA QUARESMA: “Celebremos um banquete, porque este meu filho estava morto e voltou para a vida”

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I. A PALAVRA DE DEUS

Jos 5, 9-12:Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”

Naqueles dias, 9a o Senhor disse a Josué:

– ‘Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito’.

10 Os israelitas ficaram acampados em Guilgal e celebraram a Páscoa no dia catorze do mês,
à tarde, na planície de Jericó.

11 No dia seguinte à Páscoa comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia.

12 O maná cessou de cair no dia seguinte, quando comeram dos produtos da terra. Os israelitas não mais tiveram o maná. Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã.

Sal 33, 2-7:Provai e vede quão suave é o Senhor!

2 Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,
seu louvor estará sempre em minha boca.
3 Minha alma se gloria no Senhor;
que ouçam os humildes e se alegrem!

4 Comigo engrandecei ao Senhor Deus,
exaltemos todos juntos o seu nome!
5 Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu,
e de todos os temores me livrou.

6 Contemplai a sua face e alegrai-vos,
e vosso rosto não se cubra de vergonha!
7 Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido,
e o Senhor o libertou de toda angústia.

2 Cor 5, 17-21: Por Cristo, Deus nos reconciliou com ele mesmo.

Irmãos:

7 Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo.

18 E tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação.

19 Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação.

20 Somos, pois, embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós.

Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus.

21 Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.

Lc 15, 1-3. 11-32:Este teu irmão estava morto e tornou a viver.”

Naquele tempo, 1 os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para O escutar. 2 Os fariseus, porém, e os  mestres da Lei criticavam Jesus.

– ‘Este homem acolhe os pecadores  e faz refeição com eles.’

3 Então Jesus contou-lhes esta parábola:

11 ‘Um homem tinha dois filhos. 12 O filho mais novo disse ao pai:

‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles.

13 Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada.

14 Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15 Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16 O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.

17 Então caiu em si e disse:

‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. 18 Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: `Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19 já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’.

20 Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos.

21 O filho, então, lhe disse:

‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’.

22 Mas o pai disse aos empregados:

`Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23 Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24 Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’.

E começaram a festa.

25 O filho mais velho estava no campo.

Ao voltar, já perto de casa,  ouviu música e barulho de dança. 26 Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27 O criado respondeu:

`É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.

28 Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29 Ele, porém, respondeu ao pai:

`Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30 Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’.

31 Então o pai lhe disse:

`Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’.

II. COMENTÁRIOS

Neste Domingo escutamos a parábola do filho pródigo, que bem poderia chamar-se mais apropriadamente de a parábola do Pai misericordioso já que sua finalidade é revelar as profundezas da misericórdia de Deus.

As primeiras linhas do Evangelho nos dão o contexto: «os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para O escutar. Os fariseus, porém, e os  mestres da Lei criticavam Jesus. ‘Este homem acolhe os pecadores  e faz refeição com eles.’  (Lc 15, 1).

Podemos dizer que os fariseus formavam um corpo, que procuravam observar a pureza legal e manter-se separados dos “impuros”, como eram os publicanos e pecadores que se aproximavam de Jesus. Um fariseu, termo que significa justamente “separado”, considerava como “malditos” os que não conheciam a Lei e portanto não a punham em prática (ver Jo 7, 49). G. Ricciotti comenta em sua erudita obra “Vida de Jesus Cristo” que «todos os judeus que não pertenciam à “coalizão” farisaica eram chamados pelos fariseus “o povo da terra” (am háʼá ret). O termo era depreciativo, mas ainda mais depreciativo era o comportamento que observavam os fariseus para com esses seus conterrâneos». Prossegue dizendo que «um verdadeiro fariseu não devia ter contato com o “povo da terra”, mas mostrar-se fariseu, isto é, “separado” a respeito daquela gente. Por isso sentenciava um rabino: participar de uma assembleia do povo da terra produz a morte». Ao fariseu era proibido, entre outras coisas, dar hospitalidade ou recebê-la de alguém que pertencesse ao “povo da terra”. Entende-se então o critério que provocava a falação contra Jesus: segundo os princípios fariseus, nenhum “rabbí” ou mestre que conhecia e praticava a Lei, podia acolher os publicanos e pecadores, e menos ainda participar com eles em seus banquetes.

Os evangelhos englobam frequentemente os escribas e os fariseus em uma só definição, mesmo quando nem todos os escribas eram fariseus. Os escribas eram, por antonomásia, os homens estudiosos e conhecedores da Lei, peritos nela, independentemente de seus princípios saduceos ou fariseus. Mas dado que na época de Jesus a grande maioria de escribas eram homens de princípios fariseus, é comum que nos evangelhos escribas e fariseus apareçam formando uma unidade.

Consciente das críticas e falações dos fariseus e escribas, o Senhor Jesus propõe três parábolas ou comparações a seus ouvintes: a história da ovelha perdida (ver Lc 15, 4-7), a história da moeda perdida (ver Lc 15, 8-10) e a história do “filho pródigo” e do pai misericordioso. Todas expressam a alegria enorme que Deus experimenta quando um pecador se converte e “é achado” novamente.

Na parábola do filho pródigo o filho mais velho representa os fariseus e escribas, enquanto que o filho rebelde representa os publicanos e pecadores. O pai é Deus.

O filho mais novo exige a parte da herança que lhe cabe para depois partir para um país longínquo. Quer emancipar-se, ser “livre”, viver sua vida a sua maneira, sem que ninguém lhe diga como tem que vivê-la. Ao reclamar sua independência renega sua condição de filho. O pai respeita sua opção e obedece a suas demandas, dando-lhe ainda em vida a parte da herança que lhe corresponde e deixando-o partir.

Este filho, em terra estranha, esbanja toda a sua fortuna vivendo como um libertino. Vai “bem” enquanto duram seus bens, mas quando acaba sua herança, todos o abandonam e o deixam sozinho. À experiência de abandono e solidão acrescenta-se a da fome, que o leva não só a assumir um trabalho que para os judeus era o mais degradante de todos, como até a querer alimentar-se da mesma comida que dava aos porcos. Não podia cair em uma situação mais baixa nem desumanizante.

Tenhamos em conta que o porco na época de Jesus era — e ainda é hoje em dia para os judeus ortodoxos — o animal “impuro” por antonomásia. Por isso os fariseus e escribas ensinavam que não se devia tocá-los e menos ainda comer sua carne. E era considerado tão impuro que para eles um tratador de porcos valia menos que um porco. Não há dúvida que o Senhor escolhe esta comparação de propósito pelo choque que causaria nos fariseus e escribas que o escutavam. Para um judeu não havia trabalho mais degradante que esse, e não havia miséria pior que a de querer até se alimentar da mesma comida dos porcos. É como se o Senhor dissesse: olhem a que ponto se desumaniza todo aquele que arrebatado por um ideal ilusório de liberdade renega sua condição de filho de Deus, renega sua identidade mais profunda de ser criatura de Deus, renega a si mesmo.

Até este ponto a história que o Senhor Jesus expõe propõe figurativamente as terríveis e tremendas consequências que o pecado traz para o próprio ser humano, a rejeição de Deus e de seus amorosos desígnios. É o que o Papa João Paulo II descrevia sinteticamente deste modo: «Dado que com o pecado o homem se recusa a submeter-se a Deus, também se transtorna o seu equilíbrio interior; e, precisamente no seu íntimo, irrompem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o homem produz, quase inevitavelmente, uma laceração no tecido das suas relações com os outros homens e com o mundo criado. É uma lei e um fato objetivo, que têm confirmação em muitos momentos da psicologia humana e da vida espiritual, como aliás na realidade da vida social, onde é fácil observar as repercussões e os sinais da desordem interior.» (Reconciliatio et paenitentia, 15)

O caminho de retorno começa com um ato de humildade, de reconhecimento de sua situação miserável bem como pela tomada de consciência de sua própria identidade de filho. “Entrando em si mesmo”, repensando e voltando a si depois de estar tanto tempo alienado, desgarrado, afastado de sua própria identidade, decide procurar seu pai para lhe pedir perdão e ser admitido como um mais um empregado. Sabia que nada mais merecia.

A reação do pai ao ver o filho vindo é muito diferente à da justiça humana. Fica evidente que Deus não trata o pecador como merecem suas culpas e rebeldias. O pai nunca deixou de amar o filho. Por isso ao vê-lo ao longe sai correndo ao seu encontro, abraça-o, beija-o, manda que o vistam novamente com trajes que estão de acordo com sua dignidade de filho e o admite novamente na comunhão mandando fazer festa, matando o bezerro gordo para celebrar um banquete.

O Senhor Jesus proclama que nele a misericórdia do Pai sai ao encontro da miséria humana, proclamando-se assim o triunfo do Amor sobre o pecado e a morte. Deus, que é Pai «rico em misericórdia» (ver Ef 2, 4), não quer a morte do pecador, mas que abandone sua má conduta e que viva (ver Ez 33, 11) uma vida digna de sua condição de filho de Deus. Esta é a razão pela qual o Senhor Jesus não rechaça os publicanos e pecadores, esta é a verdade de Deus que aqueles fariseus e escribas resistem a ver e aceitar: Para Deus esses homens “impuros” também são seus filhos e o que mais deseja é recuperá-los, ganhá-los para a vida, não castigá-los nem rebaixá-los, como reclama o filho mais velho.

Em Cristo, Deus Pai saiu para procurar uns e outros: «Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para nos dar a vida por meio d’Ele» (1 Jo 4, 9).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Muitas pessoas têm uma imagem deformada de Deus. Talvez nós mesmos não terminamos de compreender que Deus não é um deus vingador, justiceiro, castigador, ou um deus que “me rejeita porque sou indigno ou indigna, porque O neguei e traí tantas vezes com meus pecados”. Muitas vezes nos deparamos com comentários de pessoas que pensam que “o que estou sofrendo é um castigo divino pelo mal que fiz”. Quantas pessoas, envergonhadas por graves pecados, acreditam que Deus já não pode ou não quer perdoá-las, acreditam que não merecem o perdão divino e terminam dizendo ao Senhor em seu coração: «afasta-Te de mim, porque sou um pecador!» (Lc 5, 8) Pensando assim, terminam por afundar-se na mais absoluta solidão, tristeza e até degradação: porque acreditam que já não há saída para eles, sem esperança alguma de achar misericórdia, não fazem senão afundar-se mais e mais em sua miséria, procurando saciar cada dia sua fome de Deus com a lavagem para porcos, quer dizer, com mais pecado.

Até os fariseus e escribas a que se refere o Evangelho, os especialistas da Escritura, tinham uma visão equivocada de Deus, uma “teologia errada”: estavam convencidos de que Deus rechaçava os pecadores. Segundo esta concepção, só os justos, os puros, os que conquistavam méritos cumprindo estritamente a Lei e todas as normas impostas pelos fariseus, podiam ser admitidos por Deus como membros de seu povo. Por isso com desprezo murmuravam contra Jesus dizendo: «Este homem acolhe os pecadores  e faz refeição com eles» (Lc 15, 1), pois — assim pensavam eles — se Ele era o enviado de Deus, como podia juntar-se com os pecadores? Assim, pois, não cabia na mente dos escribas e fariseus que Deus pudesse ser um Deus de misericórdia, que não queria a morte do pecador mas sim «que o malvado se converta de sua conduta e viva» (Ez 33, 11).

O Senhor Jesus, dirigindo sua parábola tanto aos fariseus como aos pecadores, busca corrigir toda imagem distorcida de Deus para revelar seu verdadeiro rosto: Ele é Pai de verdade, um Pai cheio de misericórdia e ternura, que se preocupa com a vida e o destino de cada um de seus filhos, mas respeita imensamente sua liberdade quando opta pelo mal, por separar-se de sua casa. Deus é um Pai clemente que está sempre disposto ao perdão, que sai correndo ao encontro do filho quando volta arrependido, um Pai que acolhe e abraça com emoção e ternura o filho que retorna, que perdoa ao mais pecador dos pecadores, porque seu amor é maior que o maior de seus pecados e que todos os seus pecados juntos, porque sua misericórdia ultrapassa e cobre a miséria do filho. Deus não rechaça a ninguém, ao contrário, procura com mais veemência a vida do filho que por seus pecados se acha morto.

Sim, Deus me ama tanto que tem feito todo o possível, inclusive me entregar seu próprio Filho, e entregá-lo na Cruz carregado com meus pecados, para me reconciliar com Ele, para me dar a Vida: uma vida nova, a vida eterna (ver 2 Cor 5, 17-19)! Cabe a mim compreender o amor que Deus me tem, abrir-me a esse amor dia a dia, acolhê-lo em minha vida, vivê-lo de acordo com minha condição e dignidade de filho ou filha de Deus e, finalmente, refleti-lo para os outros com minhas palavras e atitudes. Quem verdadeiramente se encontrou com o amor e a misericórdia do Pai, converte-se ele mesmo ou ela mesma em um ícone vivo do amor misericordioso do Pai, em um apóstolo da reconciliação.

Quem se encontrou verdadeiramente com Deus, Pai rico em misericórdia, e quem experimentou sua misericórdia em sua própria vida, não pode atuar como o irmão mais velho da parábola, como aqueles fariseus que fecham seu coração à compaixão, que sem dar lugar à misericórdia querem o castigo sem olhar para aqueles a quem eles julgam como pecadores dignos de desprezo. Quantas vezes nos falta essa misericórdia e compaixão com o pecador, sem recordar que tampouco nós estamos livres de pecados?

Ou quantas vezes nos falta a misericórdia com nós mesmos e nos julgamos tão indignos de Deus que castigamos a nós mesmos e nos separamos Dele? Pecamos, e voltamos a pecar logo depois de ser perdoado… Certamente temos que evitar o pecado e o que o ocasiona! Mas se no meio da luta voltamos a cair, o que o Pai quer é que com muita humildade voltemos para Ele para pedir-Lhe perdão, mil vezes se for necessário, e que jamais cedamos ao desalento ou à desesperança. Ele quer que compreendamos que seu amor é maior que nossos pecados, quer que experimentemos sua ternura, sua imensa misericórdia, porque somente esse encontro com o amor do Pai, a experiência desse abraço de perdão, é capaz de transformar nossa vida. O Senhor não disse que ‘muito amor mostra aquele ou aquela a quem muito lhe foi perdoado?’ Sim, só a experiência do Amor de Deus transforma verdadeiramente nossas vidas. E essa é a pedagogia de Deus para conosco: mostrar-nos incansavelmente o imenso amor que nos tem, um amor verdadeiro, real, que brota de suas profundezas misericordiosas, de seu coração de Pai, para que cedo ou tarde nos deixemos inundar e transformar por esse amor, vivendo-o para sempre com Ele.

IV. PADRES DA IGREJA

Santo Ambrósio: «São Lucas expõe sucessivamente três parábolas: a da ovelha que se perdeu e se encontrou; a da dracma que também se perdeu e se achou e a do filho que tinha morrido e ressuscitou, para que estimulados por estes três remédios curemos as feridas de nossa alma. Jesus Cristo, como pastor, leva-te sobre seu corpo. Busca-te a Igreja, como a mulher. Recebe-te Deus, que é teu pai. A primeira é a misericórdia, a segunda os sufrágios e a terceira a reconciliação».

São João Crisóstomo: «Depois que sofreu em uma terra estranha o castigo digno de suas faltas, obrigado pela necessidade de seus males, isto é, da fome e da indigência, conhece que prejudicou a si mesmo, pois por sua vontade deixou seu pai pelos estrangeiros; sua casa pelo desterro; as riquezas pela miséria; a abundância pela fome, o que expressa dizendo: “e eu aqui, morrendo de fome”. Como se dissesse: eu, que não sou um estranho, mas filho de um bom pai e irmão de um filho obediente; eu, livre e generoso, vejo-me agora mais miserável que os mercenários, tendo caído da mais elevada altura da primeira nobreza, ao mais baixo da humilhação».

Beato Isaac de Stella: «Há duas coisas que correspondem exclusivamente a Deus: a honra de receber a confissão e o poder de perdoar os pecados. Por isso nós devemos manifestar a Deus nossa confissão e esperar seu perdão. Só a Deus corresponde o perdoar os pecados; por isso, só a Ele devemos confessar nossas culpas. Mas, assim como o Senhor todo-poderoso e excelso se uniu a uma esposa insignificante e fraca… assim, de maneira parecida, o esposo comunicou todos seus bens àquela esposa que uniu consigo e também com o Pai… A Igreja, pois, nada pode perdoar sem Cristo, e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja. A Igreja somente pode perdoar quem se arrepende, quer dizer, àquele a quem Cristo já tocou com sua graça. E Cristo não quer perdoar nenhuma classe de pecados a quem despreza a Igreja. Portanto, não deve o homem separar ao que Deus uniu».

V. CATECISMO DA IGREJA

Tempo de conversão

  1. A penitência interior do cristão pode ter expressões muito variadas. A Escritura e os Padres insistem sobretudo em três formas:o jejum, a oração e a esmola que exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros. A par da purificação radical operada pelo Batismo ou pelo martírio, citam, como meios de obter o perdão dos pecados, os esforços realizados para se reconciliar com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação com a salvação do próximo, a intercessão dos santos e a prática da caridade «que cobre uma multidão de pecados» (1 Pe 4, 8).
  2. A conversão realiza-se na vida quotidiana por gestos de reconciliação, pelo cuidado dos pobres, o exercício e a defesa da justiça e do direito, pela confissão das próprias faltas aos irmãos, pela correção fraterna, a revisão de vida, o exame de consciência, a direção espiritual, a aceitação dos sofrimentos, a coragem de suportar a perseguição por amor da justiça. Tomar a sua cruz todos os dias e seguir Jesus é o caminho mais seguro da penitência.
  3. Eucaristia e Penitência. Aconversão e a penitência quotidianas têm a sua fonte e alimento na Eucaristia: porque na Eucaristia torna-se presente o sacrifício de Cristo, que nos reconciliou com Deus: pela Eucaristia nutrem-se e fortificam-se os que vivem a vida de Cristo: «ela é o antídoto que nos livra das faltas quotidianas e nos preserva dos pecados mortais».
  4. A leitura da Sagrada Escritura, a oração da Liturgia das Horas e do Pai Nosso, todo o ato sincero de culto ou de piedade reavivam em nós o espírito de conversão e de penitência e contribuem para o perdão dos nossos pecados.
  5. Os tempos e os dias de penitênciano decorrer do Ano Litúrgico (tempo da Quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola, a partilha fraterna (obras caritativas e missionárias).

1439 O dinamismo da conversão e da penitência foi maravilhosamente descrito por Jesus na parábola do «filho pródigo», cujo centro é «o pai misericordioso» (Lc 15, 11-24): o deslumbramento de uma liberdade ilusória e o abandono da casa paterna: a miséria extrema em que o filho se encontra depois de dilapidada a fortuna: a humilhação profunda de se ver obrigado a guardar porcos e, pior ainda, de desejar alimentar-se das bolotas que os porcos comiam: a reflexão sobre os bens perdidos: o arrependimento e a decisão de se declarar culpado diante do pai: o caminho do regresso: o acolhimento generoso por parte do pai: a alegria do pai: eis alguns dos aspectos próprios do processo de conversão. A roupa nova, o anel e o banquete festivo são símbolos desta vida nova, pura, digna, cheia de alegria, que é a vida do homem que volta para Deus e para o seio da família que é a Igreja. Só o coração de Cristo, que conhece a profundidade do amor do seu Pai, pôde revelar-nos o abismo da sua misericórdia, de um modo tão cheio de simplicidade e beleza.

 O sacramento da reconciliação

  1. Cristo quis que a sua Igreja fosse, toda ela, na sua oração, na sua vida e na sua atividade, sinal e instrumento do perdão e da reconciliação que Ele nos adquiriu pelo preço do seu sangue. Entretanto, confiou o exercício do poder de absolvição ao ministério apostólico. É este que está encarregado do «ministério da reconciliação»(2 Cor 5, 18). O apóstolo é enviado «em nome de Cristo» e «é o próprio Deus» que, através dele, exorta e suplica: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20).
  2. Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os membros pecadores da sua Igreja, antes de tudo para aqueles que, depois do Batismo, caíram em pecado grave e assim perderam a graça batismal e feriram a comunhão eclesial. É a eles que o sacramento da Penitência oferece uma nova possibilidade de se converterem e de reencontrarem a graça da justificação. Os Padres da Igreja apresentam este sacramento como «a segunda tábua (de salvação), depois do naufrágio que é a perda da graça».
  3. Não há nenhuma falta, por mais grave que seja, que a santa Igreja não possa perdoar. «Nem há pessoa, por muito má e culpável que seja, a quem não deva ser proposta a esperança certa do perdão, desde que se arrependa verdadeiramente dos seus erros». Cristo, que morreu por todos os homens, quer que na sua Igreja as portas do perdão estejam sempre abertas a todo aquele que se afastar do pecado.

V. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

O Pai, além do que experimentemos subjetivamente, não permanece nem longínquo nem indiferente diante do drama humano, mas se comove diante de toda necessidade de misericórdia. Esta comoção interior que é fruto do amor que nos tem leva-O a atuar imediatamente respeitando sempre, claro está, o raio de ação de nossa liberdade, dom do próprio Deus. É assim que Ele, inúmeras vezes, desde a queda inicial, inclinou-se para sua criatura humana, chegando a ser “A Cruz (de seu Filho) o modo mais profundo de a divindade se debruçar sobre a humanidade e sobre tudo aquilo que o homem – especialmente nos momentos difíceis e dolorosos – considera seu infeliz destino. A cruz é como que um toque do amor eterno nas feridas mais dolorosas da existência terrena do homem (Dives in misericórdia, 8).

Diante do pecado dos homens, diante de nossos pecados, o Pai não guardou para si sua inesgotável riqueza de amor, mas a derrama sobre nós e nos comunica isso em abundância graças a seu Filho. Nele, pedra angular de seu projeto reconciliador e salvífico, o Pai nos revelou plenamente seu amor, que “É sempre maior que tudo o que foi criado, o amor que é Ele mesmo, porque Deus é amor. E sobretudo o amor é maior que o pecado, que a fraqueza, que a vaidade da criação, mais forte que a morte; é amor sempre disposto a aliviar e a perdoar, sempre disposto a ir ao encontro com o filho pródigo” (Redemptor hominis, 25).

Diante de tanta misericórdia mostrada pelo Pai, que não reservou para si seu próprio Filho, mas “entregou-O por todos nós” (Rom 8, 32), podemos nos perguntar: Que mais o Pai poderia ter feito por nós? Que mais? E o que eu farei para corresponder a tanta bondade e a tanto amor?

O tempo é propício para empreender com renovado ardor nossa peregrinação para a casa do Pai, que com os braços abertos nos espera para satisfazer nossos desejos mais profundos de amor e plenitude.

(Movimento de Vida Cristã, Caminho para Deus # 59: “Deus Pai, rico em misericórdia”. Disponível na internet: http://www.vidacrista.org.br/caminho-para-deus).

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