IV DOMINGO DO ADVENTO: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre”

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I. A PALAVRA DE DEUS

Miq 1-4a: «Ele se elevará e apascentará com o poder do Senhor»

Assim diz o Senhor:

“E Tu, Belém de Éfrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias do longínquo passado. Por isso, (Deus) os deixará, até o tempo em que uma mãe der à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele se levantará para os apascentar, com o poder do Senhor, com a majestade do nome do Senhor, seu Deus. Os seus viverão em segurança, porque ele será exaltado até os confins da terra. E assim será a paz”.

Sal 80: «Oh Deus, restaure-nos; que teu rosto resplandeça e nos salve»

Pastor de Israel, escuta,
tu que te sentas sobre querubins, resplandece.
Desperta teu poder
e vem nos salvar.

Deus dos exércitos, volta-te para nós:
olha do céu, nota, vem visitar tua vinha,
foi tua mão direita que a plantou,
e tu fizeste-a vigorosa.

Que tua mão proteja teu escolhido,
o filho do homem que tu fortaleceste.
Não nos afastaremos de ti:
dá-nos vida para que invoquemos teu nome.

Heb 10, 5-10: «Aqui estou, oh Deus, para fazer tua vontade»

Irmãos:

Quando Cristo entrou no mundo disse: «Tu não quiseste sacrifícios nem oferendas, mas me preparaste um corpo; não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Então eu disse o que está escrito no livro: “Aqui estou eu para fazer tua vontade”».

Primeiro diz: “Não quer nem aceita sacrifícios, nem oferendas, nem holocaustos, nem vítimas expiatórias”, que se oferecem segundo a Lei. Depois acrescenta: “Aqui estou eu para fazer tua vontade”.

Com isto, Cristo suprime os antigos sacrifícios, para estabelecer o novo.

É graças a esta vontade que todos ficamos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas.

Lc 1, 39-45: «Quem sou eu para que me visite a mãe de meu Senhor?»

Naqueles dias, Maria se pôs a caminho e foi às pressas à montanha, a um povoado de Judá; entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.

Assim que Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança saltou em seu ventre. Isabel  encheu-se do Espírito Santo e exclamou com voz forte:

— «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre!

Quem sou eu para que me visite a mãe de meu Senhor? Assim que sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria em meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu».

II. COMENTÁRIOS

A passagem evangélica narra o episódio da visita da Santa Maria a Isabel. O que motivou Maria a realizar esta viagem imprevista? Gabriel, o arcanjo, tinha-lhe manifestado que Isabel havia concebido um filho em sua velhice, estando já no sexto mês de sua gestação «aquela que chamavam estéril, porque nada é impossível para Deus» (Lc 1, 36-37).

Inteirada da gravidez de Isabel e ela mesma esperando um bebê, Maria se põe imediatamente a caminho e percorre «apressadamente» os mais de cem quilômetros de distância que separavam Nazaré da cidade de Ain Carim, ao noroeste de Jerusalém, onde viviam Isabel e Zacarias, seu marido.

Maria não é movida pela incredulidade, quer dizer, pelo desejo de certificar-se do milagre ocorrido com Isabel, mas pela fé no anúncio do arcanjo, pela certeza de que Isabel está já no sexto mês de sua gestação. Deste modo o que a impulsiona em sua marcha acelerada é o natural desejo de querer compartilhar sua transbordante alegria com quem sabe que poderá compreendê-la. Também a impulsiona, e sobretudo, seu desejo de servi-la com um duplo serviço: o serviço solidário da atenção solícita a quem necessita de sua ajuda, e o serviço evangelizador, o desejo de anunciar-lhe e transmitir-lhe a Boa Nova da qual Ela é portadora.

Isabel é extraordinariamente sensível ao que aconteceu. Tão logo Maria chega, percebe que ela é Portadora de um Filho excepcional, percebe que é «a Mãe de meu Senhor». Nesta humilde Virgem de Nazaré cumpre-se a antiga profecia de Miqueias, recolhida na primeira leitura: chegou o tempo em que «a mãe dá à luz». É seu Filho que «não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus». Mais ainda, o profeta anuncia que «Ele mesmo será a paz», uma Paz que procede da quádrupla reconciliação que veio proceder: a reconciliação do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros irmãos humanos e com toda a criação.

«Bem-aventurada aquela que acreditou», exclama Isabel em um dos múltiplos louvores que brotam espontaneamente de seus lábios. Bem-aventurada e feliz porque verdadeiramente acredita em Deus. Maria, plena de sorte e felicidade, é modelo de uma fé amadurecida, uma fé que é assentimento da mente ao que Deus revela, uma fé que é adesão cordial a Deus mesmo, uma fé que se transforma em ação decidida, segundo os desígnios manifestados por Deus. A fé da Mãe expressa-se nas obras, em um “Sim” comprometido e sem reservas dado a Deus a serviço de seus desígnios reconciliadores.

Na segunda leitura a carta aos Hebreus fala de outro “Sim”, o “Sim” da plena disponibilidade que pronuncia o Filho, o “Sim” do Verbo divino que precede sua encarnação para cumprir o Plano salvífico e reconciliador do Pai. O Senhor Jesus, o Verbo divino encarnado em Maria Virgem por obra do Espírito Santo, o Filho de Santa Maria, veio a este mundo para levar a cabo uma missão reconciliadora. O modo como «entrou no mundo» foi encarnando-se, assumindo plenamente nossa natureza humana, fazendo-se um como nós, em tudo semelhante a nós menos no pecado. Deste modo Deus lhe “preparou um corpo” para poder oferecer a si mesmo como sacrifício expiatório no Altar da Cruz.

O “Sim” do Filho encontrou no “Sim” livre da Mãe a necessária correspondência e cooperação, tornando possível a “entrada” do Filho de Deus no mundo.

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Há diversos tipos de “pressa”. Por um lado está a pressa de Maria que logo que tem conhecimento da gravidez de sua parente Isabel põe-se em marcha pressurosa. Move-a o amor, o desejo de servir, e também o desejo de compartilhar com alguém que saberá compreender muito bem sua imensa e transbordante alegria, o contentamento exultante que experimenta pela Presença encarnada do Verbo divino em seu seio virginal. A pressa de Maria está cheia do Senhor e tem presente o essencial.

Olhemos agora ao nosso redor: vivemos em um mundo extremamente agitado, cada vez mais “estressado”. Nós mesmos participamos dessa voragem que não se detém, vivemos “às pressas”, com milhares de coisas para fazer, com muitas “pendências”, mas que diferente da pressa de Maria nos despojam do essencial e nos lançam em uma vida superficial, epidérmica. Cada um tem sua pressa, sua própria urgência. Mais ainda nestes dias, faltando já pouco para a celebração do Natal, parece que falta tempo para tudo o que teremos que preparar: os presentes que temos que comprar, a Ceia que teremos que preparar, as atividades em que teremos que participar, inclusive as campanhas de solidariedade, etc. Toda esta agitação pode nos arrebatar o espaço necessário para refletir, para meditar, para rezar, para não perder de vista o essencial. Não podemos esquecer que o essencial é acolher o Senhor que vem e levá-lo bem dentro do coração, não podemos esquecer que o NATAL É JESUS, não os presentes, a Ceia, nem sequer a reunião familiar. Pode haver Natal se Cristo não nascer em nós, se não fizermos silêncio no interior para acolhê-lo no presépio de nossas mentes e corações?

No que resta deste tempo de Advento procuremos nos aproximar mais de Maria, procuremos fazê-lo com a mesma sensibilidade de Isabel, para acompanhá-la em sua espera e para aprender com as enormes lições que Ela nos dá. Imitemos sua pressa, que está cheia do Senhor e que se expressa no desejo de servir aos outros com a mesma caridade de Cristo, assim como de anunciar o Senhor Jesus e seu Evangelho com uma vida cristã coerente, que irradia a luz de Cristo com suas boas obras. Como não viver a mesma pressa de Maria dia a dia, a pressa por anunciar a Cristo e difundir sua Luz em meio aos nossos familiares, em meio aos homens e mulheres de nossa sociedade? Façamos nossa a pressa de saber que temos Cristo e que precisamos comunicá-lo a quantos mais possamos, para que também, como João no seio de sua mãe, muitos saltem de alegria no encontro com o Filho de Santa Maria.

IV. PADRES DA IGREJA

Beda: «E não deve chamar a atenção que o Senhor — que tinha que redimir o mundo — começasse sua obra por sua própria Mãe, a fim de que aquela, pela qual se preparava a salvação de todos, recebesse de presente — a primeira — o fruto de salvação».

Santo Ambrósio: «Quando Maria tem notícia da maternidade de sua prima Isabel, já velha e estéril, põe-se a caminho. Não por falta de fé na profecia nem por duvidar do anúncio, nem por duvidar dos sinais que lhe foram dados, mas cheia de alegria para cumprir um serviço íntimo. Na prontidão da alegria, Maria se dirige para as montanhas. Cheia de Deus podia não ir depressa para as alturas? Os cálculos lentos não correspondem à graça do Espírito Santo».

Santo Ambrósio: «Mas também vós sois ditosos porque ouvistes e acreditaste, pois todo aquele que crê, como Maria, concebe e dá à luz o Verbo de Deus e proclama suas obras.

»Que resida, pois, em todos, a alma de Maria, e que esta alma proclame a grandeza do Senhor; que resida em todos o espírito de Maria, e que este espírito se alegre em Deus; porque, embora segundo a carne haja uma única mãe de Cristo, segundo a fé Cristo é fruto de todos nós, pois todo aquele que se conserva puro e vive afastado dos vícios, guardando íntegra a castidade, pode conceber em si a Palavra de Deus».

 V. CATECISMO DA IGREJA

 O primeiro “encontro” entre João e Jesus

  1. «Apareceu um homem, enviado por Deus, que tinha o nome de João»(Jo 1, 6). João é «cheio do Espírito Santo já desde o seio materno» (Lc 1, 15.41), pelo próprio Cristo que a Virgem acabava de conceber por obra e graça do Espírito Santo. A « visitação» de Maria a Isabel tornou-se, assim, «visita de Deus ao seu povo» (Lc 1, 68).

As palavras da Isabel a Maria

  1. A Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé». Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acreditando que «a Deus nada é impossível» (Lc 1, 37) (9) e dando o seu assentimento: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Isabel saudou-a: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de quanto lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc1, 45). É em virtude desta fé que todas as gerações a hão de proclamar bem-aventurada (ver Lc 1, 48).
  2. «Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus». Depois da saudação do anjo, fazemos nossa a de Isabel. «Cheia […] do Espírito Santo» (Lc 1, 41), Isabel é a primeira, na longa sequência das gerações, a declarar Maria bem-aventurada: «Feliz d’Aquela que acreditou…» (Lc 1, 45); Maria é «bendita entre as mulheres», porque acreditou no cumprimento da Palavra do Senhor. Abraão, pela sua fé, tornou-se uma bênção «para todas as nações da terra» (Gn 12, 3). Pela sua fé, Maria tornou-se a mãe dos crentes, graças a quem todas as nações da terra recebem Aquele que é a própria bênção de Deus: Jesus, «fruto bendito do vosso ventre».

2677: Com Isabel, também nós ficamos maravilhados: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lc 1, 43). Porque nos dá Jesus, seu Filho, Maria é Mãe de Deus e nossa Mãe; podemos confiar-lhe todas as nossas preocupações e pedidos: Ela ora por nós como orou por si própria: «Faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Confiando-nos à sua oração, abandonamo-nos com Ela à vontade de Deus: «Seja feita a vossa vontade».

 VI. TEXTOS DA ESPIRITUALIDADE SODÁLITE

“Maria, qual Nova Arca da Aliança, leva em seu seio o Verbo, Deus feito homem para nossa reconciliação. E a saudação que dirige a Isabel é respondida pelas palavras que a anciã, cheia do Espírito Santo, dirige a Maria: ‘Feliz a que acreditou…!’ (Lc 1,45). Maria é modelo de fé, Ela é paradigma de todos aqueles que são ditosos porque escutam a palavra de Deus e a guardam. Escutando, acolheu o que lhe pedia o Senhor, e é exemplar em sua meditação constante de tudo o que lhe ocorre, lido conforme do Plano de Deus: ‘Maria, por sua parte, guardava todas estas coisas, e as meditava em seu coração’ (Lc 2,19). Mas ao mesmo tempo é modelo de amor e de caridade incomparáveis. Diz-nos João Paulo II que ‘Maria, movida pela caridade, dirige-se à casa de sua parente…’. A maravilhosa passagem da Visitação apresenta Santa Maria, a Mãe de Jesus, como modelo incomparável de anúncio de Jesus e de serviço solidário diante das necessidades concretas. Maria leva Jesus até Isabel, fá-lo presente de maneira silenciosa, mas real, de tal modo que João o Batista, no seio de sua mãe, salta de alegria. A própria Isabel, pela palavra de saudação da Virgem, reconhece a presença do Jesus: ‘43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?’ (Lc 1,43).

Notemos como ali onde está Maria, está necessariamente Jesus, e o louvor dirigido a Maria é ao mesmo tempo reconhecimento da divindade e grandeza de Jesus. A passagem da Visitação é como uma antecipação do que se plasmará no Concílio de Éfeso, no ano 431, quando a proclamação da pessoa divina de Cristo levou como consequência à proclamação da divina maternidade de Maria.

Mas ao mesmo tempo, Maria aparece na Visitação como um magnífico modelo de serviço. O Evangelista São Lucas, na continuação do relato que meditamos, nos diz que ‘Maria permaneceu com ela uns três meses, e voltou para sua casa’ (Lc 1,56). Três meses de ajuda a sua parente idosa, ocupando-se das coisas mais singelas e cotidianas da casa, e expressando assim, no serviço, o amor que se faz concreto. Maria é paradigma de solidariedade, e mostra que a fé cristã, assim como possui uma dimensão de anúncio evangelizador indubitável, é ao mesmo tempo ajuda aos mais pobres e necessitados

O que tudo isto diz para nós? Contemplar Maria na passagem da Visitação nos leva a ver a Santíssima Virgem como Modelo privilegiado do que tem que ser nossa vida cristã. Maria certamente é paradigma de fé, de esperança e de amor, como também de obediência e de cooperação generosa e ativa com a graça de Deus. Mas aparece também como Modelo de evangelizadora, e nesta última coisa nos ensina muitíssimo. O Papa João Paulo II convidou toda a Igreja, no novo milênio que começamos, a ‘remar mar adentro’, a comprometer-se decididamente na Nova Evangelização, anunciando o Senhor Jesus de uma maneira renovada. Evangelização que tem que ser nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão. Pois bem, em Santa Maria encontramos como deve ser a evangelização a que somos convocados. Evangelização que é em primeiro lugar anúncio de Jesus, com o testemunho e com a palavra, assim como a Mãe o fez com Isabel. E em segundo lugar, é também uma evangelização que se expressa na caridade e no serviço aos mais pobres e necessitados. Os bispos latino-americanos em Puebla, seguindo as orientações do inesquecível Paulo VI em sua exortação apostólica Evangelii nuntiandi, falam da evangelização-salvação (anúncio de Cristo; celebração dos sacramentos) e da evangelização-promoção humana (compromisso social, apoiado na doutrina social da Igreja). Viver a fé em nosso tempo e em nosso meio é acreditar em Jesus e proclamá-lo ‘a tempo e fora do tempo’, mas é também viver o amor pelos pobres, comprometer-se solidariamente com as necessidades de quem carece do indispensável, que não é somente o pão material, mas o alimento espiritual, que é Deus mesmo. Em tudo isto, Maria nos ensina como atuar. Não é em vão que foi chamada ‘Estrela da Primeira e da Nova Evangelização’”.

(Mons. José Antonio Eguren Anselmi, SVC, A Virgem Maria na vida do cristão hoje, em Maria, Estrela da Nova Evangelização. Congresso Mariano. Vida e Espiritualidade, Lima 2003)

 


[1] Jz 5, 24

[2] Jt 13, 23.30

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