O que São Tomé nos ensina sobre a fé?

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São Tomé é conhecido popularmente como o “sem fé”. O seu nome é citado constantemente quando queremos falar para alguém não duvidar. Mas será que é assim mesmo? Será que ele não teria algo para acrescentar à nossa vida cristã, à nossa fé? Tentarei responder essas perguntas inspirado em algumas passagens do Evangelho de São João, onde aparece Tomé, e em uma catequese que o Papa emérito Bento XVI deu sobre São Tomé no dia 27 de setembro de 2006.

A primeira coisa que proponho é compreendermos melhor o sentido do seu nome. Ele deriva de uma raiz hebraica ta’am que significa “junto”, “gêmeo”. Ele também é chamado no Evangelho algumas vezes de Dídimo (cf. Jo 11,16; 20, 24; 21,2), que no grego significa precisamente “gêmeo”. Agora que compreendemos um pouco melhor o seu nome vejamos algumas de suas características que nos tem muito a ensinar.

A primeira delas é que Tomé era um homem de valor. Esse valor é mostrado quando Jesus, em um momento crítico de sua vida, decide ir a Betânia para ressuscitar o seu amigo Lázaro. Betânia fica muito próxima a Jerusalém, cidade onde as autoridades judias já haviam decidido que Jesus deveria morrer. Existia um perigo real de Jesus e os Apóstolos serem capturados e mortos. Surge então a voz corajosa de Tomé: “Vamos nós também, para morrermos com Ele” (Jo 11, 16)

Bento XVI fala que “sua determinação de seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos um precioso ensinamento: revela a disponibilidade total de aderir a Jesus, até identificar o próprio destino com o d’Ele e querer partilhar com Ele a prova suprema da morte”.

Tenho esse valor de seguir a Jesus em todos os momentos, especialmente os mais difíceis? Ou diante das dificuldades, quando me perseguem ou zombam da minha opção pelo Senhor a minha fé fraqueja e desisto? Animo outros a não desistirem?

Outra lição que aprendemos de Tomé é que ele era um homem que não tinha medo de perguntar, de buscar a verdade. Ele não podia viver com uma pergunta sem resposta. Essa característica está presente no episódio da Última Ceia.

Naquela ocasião, Jesus, predizendo a sua morte iminente, anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos para que eles estejam onde Ele estiver; e esclarece “E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho” (Jo 14,4). É então que Tomé questiona: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?” (Jo 14, 5). E aí que recebe a célebre resposta de Jesus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). “Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos colocar-nos com o pensamento ao lado de Tomé e imaginar que o Senhor fala também conosco como falou com ele.” (Bento XVI)

Portanto, essa passagem nos dá a convicção de que temos o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus, de conversar com Ele com confiança e pedir que nos ajude a compreender aquilo que não entendemos, aquilo que acontece em nossas vidas. Ele certamente nos ouve e nos ajuda a compreender, nos diz quem somos. Eu dialogo com Jesus? Rezo com confiança, procurando conhecê-Lo mais e me conhecer? Busco no Senhor o sentido para a vida, a chave para compreender as coisas que acontecem comigo?

A próxima característica veremos na cena mais conhecida sobre a sua vida: a cena do Tomé incrédulo, que acontece oito dias depois da Páscoa.

Num primeiro momento, ele não tinha acreditado que Jesus apareceu aos outros discípulos durante a sua ausência e disse: “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito” (Jo 20, 25). “No fundo, destas palavras sobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quanto pelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesus são agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisto o Apóstolo não se engana.” (Bento XVI)

 

“Tomé responde com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28).”

Sabemos que oito dias depois Jesus volta a aparecer aos discípulos e Tomé está presente. Então o Senhor fala para ele: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!” (Jo 20, 27). Tomé responde com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). Frase que até os dias de hoje respondemos com muita fé e devoção quando Jesus sacramentado é elevado pelas mãos do sacerdote durante a Santa Missa.

O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão” (cf. Jo 20, 29). Esta frase também pode ser conjugada no presente; “Bem-aventurados os que creem sem terem visto”. Jesus enuncia aqui um princípio fundamental para todos os cristãos que virão depois de Tomé.

Bento XVI, sobre essa passagem, comenta que o “caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxito luminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.”

Uma última passagem em que aparece Tomé demonstra uma última lição, que podemos dizer que é o fruto do amadurecimento de sua fé no Senhor: a aparição do Ressuscitado na pesca milagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jo 21,2). Ele é mencionado no relato imediatamente após o nome de Pedro: sinal evidente da grande importância de que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Em seu nome foram escritos depois os Atos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos, mas que são importantes para o estudo das origens cristãs.

Tomé havia mudado. Ele já não estava ausente quando Jesus se manifestou. Acompanhou o Senhor em todos os momentos. Sua fé madura permitiu que ele desse muitos frutos apostólicos. Segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim refere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1), depois foi até à Índia ocidental (cf. Atos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde enfim alcançou também a Índia meridional.

“Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando votos de que o exemplo de Tomé corrobore cada vez mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.” Bento XVI

 

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